6 x 1

José Horta Manzano

Nestes tempos de pré-Copa, o título poderia indicar algum resultado esperado. Não é. Por enquanto, fica na esperança mesmo. A realidade começa a pingar daqui a alguns dias.

Falando em realidade, li em algum lugar que um “guru”, alemão se não me engano, vem acertando resultado das últimas três Copas. Acertou o campeão antes de cada campeonato começar. Para esta edição, diz que é a Holanda que vai ganhar. Quanto ao Brasil, diz vai sair em primeiro lugar no grupo, mas em seguida naufraga diante do Japão, é eliminado e volta pra casa.

Se fosse possível saber dos resultados antes de jogar, até que era interessante. Saia mais barato, evitava concentração, gastos com avião, hotel, transportes. Mas também perdia a graça. Melhor que fique como está.

É curioso como a expressão “taça do mundo”, que se usou nos primeiros campeonatos mundiais, cedeu lugar a “copa do mundo”. Imagino que a razão seja a seguinte. Taça, todos nós entendemos como um recipiente em que se bebe, como em “taça de vinho”. Já Copa não faz necessariamente pensar em vasilhame para bebida.

Pois bem, o troféu dos primeiros campeonatos de futebol tinha realmente o formato de uma taça, com asinhas dos dois lados, escavada no interior, apta a receber líquido. Já o troféu atual não tem nada de taça. Provavelmente vem daí a mudança de nome de “taça” para “copa”.

Ao dar título a este escrito, me referi ao horário de trabalho (hoje chamado “escala”). Faz meses que se debate a proibição do sistema 6 x 1 (um dia de descanso a cada seis de trabalho). Em primeiro lugar, acho esquisito que seja o Parlamento a proibir ou liberar escalas de trabalho. Achava que essa discussão se restringisse ao nível de contrato de categoria, negociado por sindicatos.

Na juventude, muitas décadas atrás, trabalhei na hotelaria aqui na Suíça. Naqueles anos, trabalhava-se duro. A escala era essa que acabam de proscrever no Brasil: 6 dias de trabalho x 1 dia de repouso. E olhe que o dia de descanso nunca era num sábado ou num domingo, que isso era privilégio do chefe. O repouso caía sempre num dia útil e podia variar de uma semana a outra. O mais das vezes, eu trabalhava 54 horas por semana. Num emprego, cheguei a trabalhar 78 horas por semana, um despropósito.

Hoje, na Suíça, nenhum empregado de hotel e restaurante trabalha mais nessa escala 6 x 1. No entanto, a lei estipula um total semanal máximo de 45 horas para funcionários de escritório (técnicos, vendas, etc), e um total máximo de 50 horas para os demais (construção, artesanato, agricultura, micro e pequenas empresas).

No Brasil, entendi que o total máximo está limitado a 40 horas por semana. Vê-se que os brasileiros já vivem num país rico e adiantado, que não exige mais nenhum sacrifício de seus filhos.

Apocalipse

José Horta Manzano

«Apocalisse! ‒ Apocalipse!», «Vergogna! ‒ Vergonha!», «Fuori tutti! ‒ Fora, todos!», «Delusione! ‒ Desilusão!», «Fine! ‒ É o fim!». Essas são algumas das manchetes da imprensa italiana desta manhã de terça-feira. Sem conseguir vencer uma inexpressiva Suécia, os italianos estão privados de Copa do Mundo. Na península, a eliminação da seleção nacional de futebol fez o efeito de um terremoto. Desde que conquistou a Copa do Mundo por duas vezes seguidas, nos anos 1930, a Itália nunca tinha deixado de participar da fase final do torneio. A única exceção foi em 1958, um acidente de percurso já quase esquecido.

by Guillermo Mordillo Menéndez (1932-), desenhista argentino

A perspectiva de não poder estar na Rússia em 2018 é um drama nacional. Para ter uma ideia, basta o distinto leitor imaginar que o Brasil estivesse na mesma situação. Do Oiapoque ao Chuí, a catástrofe chocaria mais que mensalão e petrolão somados. Ou não? Pois é o que estão sentindo os italianos neste momento.

Com todo o respeito que se deve ao esforçado time da Suécia, que superou ‒ sem grande talento, é verdade ‒ a «Squadra Azzurra», a ausência dos italianos na Rússia tira parte do brilho da competição. Copa do Mundo que se preze tem de contar com Brasil, Argentina, Alemanha e Itália. O resto é o resto. A ausência de um desses quatro transforma o torneio em cão de três patas.

A par do baque emocional, a perda financeira é considerável. Estatísticas mostram que ganhar o Campeonato do Mundo é favorável aos dinheiros da nação. Senão, vejamos. Em 1982, o PIB italiano tinha crescido 0,7%. Na sequência da vitória na Copa, o ano seguinte registrou aumento de 1,4%. O fenômeno se repetiu anos mais tarde. Em 2006, o PIB do país tinha crescido 2,2%. Em seguida à vitória na Copa, o ano seguinte registrou aumento de 4,1%.

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by Guillermo Mordillo Menéndez (1932-), desenhista argentino

A perda vai mais longe. A Fifa paga a todas as seleções participantes da Copa a quantia de 9,5 milhões de euros, independentemente de resultados. O campeão do torneio leva 38,5 milhões. Os patrocinadores da «squadra» certamente hesitarão na hora de renovar contrato, o que privará a federação italiana de dezenas de milhões.

Os direitos de retransmissão dos jogos diminuirão drasticamente, visto o desinteresse do público. Apostas esportivas também vão se ressentir, resultando em menor recolhimento de impostos. Por baixo, estima-se que a não participação da Itália na Copa ocasione perda direta de 100 milhões de euros, quantia considerável. Sem contar o abatimento dos torcedores, que tende a provocar diminuição da produtividade.

Dessa, o Brasil escapou. Estaremos na Rússia em 2018. Resta torcer para que a corrupção de proporções bíblicas que nos castiga e o comportamento errático e inepto de nossos dirigentes não continuem estragando a festa.

Passou dos limites

José Horta Manzano

Joseph Blatter, presidente da Fifa

Joseph Blatter, presidente da Fifa

Ainda ontem, eu falava sobre excessos. Hoje, logo de manhãzinha, estourou uma notícia que deve ter feito muita gente engasgar com o croissant: a polícia de Zurique prendeu sete medalhões da Fifa.

Foi raio em céu sereno. Como assim? Dirigentes da Fifa? Mandarins da mais rica e poderosa das máfias? É inacreditável. E como é que foi acontecer?

Foram os excessos, distinto leitor, os excessos. Suborno e corrupção sempre houve, sempre haverá, lá e cá, ontem, hoje e amanhã. «Se você me der isso, eu lhe dou aquilo» é conversa velha como o mundo. Todavia, enquanto o troca-troca se mantém dentro de limites discretos e razoáveis, passa batido. Acontece que a Fifa, há décadas especializada no toma lá dá cá, exagerou. Riu na cara do mundo.

Fifa 1Basta lembrar os países aos quais foi atribuída a organização da mais recente e das duas próximas edições da Copa do Mundo: Brasil 2014, Rússia 2018 e Catar 2022. Nenhum dos três aparece em bom lugar na classificação mundial da lisura. À boca pequena, alastrou-se a desconfiança de que muitos milhões – não necessariamente declarados – estejam por detrás da designação desses países.

Os EUA não detêm o monopólio da seriedade e da firmeza. Dezenas de países são tão respeitáveis quanto o grande irmão do Norte. O que marca a diferença é o peso conferido aos EUA por sua descomunal força econômica. É como aquele parente rico que ninguém, na família, ousa contradizer.

De olho no promissor mercado norte-americano, a Fifa fez o que pôde para organizar seu campeonato mundial naquelas terras. Conseguiu o intento em 1994. De lá pra cá, não há dúvida de que o horizonte comercial ligado ao futebol se alargou. No entanto, toda moeda tem duas faces.

Suite do Hotel Baur au Lac, Zurique

Suite do Hotel Baur au Lac, Zurique. Alguns hóspedes dormirão hoje no xadrez.

A ampliação da influência mundial do futebol aos EUA converteu-se em faca de dois gumes. O esporte mais popular no mundo, até então ignorado, passou a angariar número crescente de admiradores americanos. Por consequência, o futebol entrou na mira dos funcionários encarregados do planejamento a longo prazo do país. O «soccer», antes tão considerado por lá quanto nós consideramos o críquete, deixou de ser atividade exótica.

Os excessos da Fifa são evidentes para todos. Tá na cara, como diz o outro, que muita propina anda correndo por debaixo do pano. Mas cadê coragem de enfrentar a máfia maior?

Dilma BlatterAutoridades dos EUA resolveram encarar. Lançaram, contra dirigentes da Fifa, mandado internacional de busca e captura. Sete medalhões – entre os quais um brasileiro – foram colhidos num cinco estrelas e convidados a passar uma temporada nas agradáveis masmorras de Zurique. Devem permanecer sob custódia das autoridades suíças até que o pedido de extradição seja julgado.

Como vemos, dinheiro pode até ajudar, mas não blinda. Neste momento, o mais engasgado de todos há de ser Sepp Blatter, o presidente da Fifa e candidato a um quinto mandato. O escrutínio – de cartas marcadas, dizem as más línguas – está programado para sexta-feira 29 de maio. Estava. Vamos ver como evolui a situação.