PT ou BR

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 jun 2015

Ortografia 2Dia 13 de maio, comemoramos a Lei Áurea, que pôs fim à escravidão oficial e entrou para a hagiologia nacional. Em Portugal, o 13 de maio celebra a Virgem de Fátima. Este ano, porém, um clamor quase empanou o fervor. É que, justamente nesse dia, entrou oficialmente em vigor, em terras lusas, a grafia determinada pelo Acordo Ortográfico alinhavado em 1990 pelos integrantes do clube lusófono.

No Brasil, a resistência ao AO90 foi pouca, não passou de protestos frouxos. O adiamento da entrada em vigor, programada agora para o fim deste ano, nem tinha razão de ser. Na prática, Inês é morta: a nova grafia já mandou a antiga às favas.

by Fábio Nienow, desenhista gaúcho

by Fábio Nienow, desenhista gaúcho

Mais do que pelo sol tropical, o brasileiro tem o couro curtido pelas lambadas que levou ao longo dos séculos. Revoluções, golpes de Estado, implantação e supressão súbita de leis, reviravoltas políticas repentinas e constantes, insegurança jurídica causam aflição crônica. Com paciência beneditina e resignação bovina, aprendemos a engolir pronunciamientos e a lidar com eles. Dançar conforme a música não é, entre nós, mera figura de estilo.

Calejados por sucessivas reformas ortográficas, não opusemos grande resistência a essa enésima modificação. O que mais nos incomoda é o pouco tempo que tem decorrido entre remodelações. Pessoas que, em 1990, tinham 55 anos ou mais viram-se obrigadas a aprender a escrever pela quarta vez! Alfabetizadas pela antiga grafia pseudoetimológica, já tinham sido forçadas a se adaptar à reforma de 1943 e à de 1971. A de 1990 amolava, sim, ainda que o desconforto não se tenha convertido em rebelião.

Orthographia 1Já em Portugal, a perspectiva de alterar hábitos de escrita encontrou oposição vigorosa. A resistência não se prendia aos mesmos motivos que provocavam mau humor no Brasil. O problema estava mais para orgulho ferido que para simples aborrecimento.

De um século para cá, houve numerosas tentativas de harmonização da escrita entre Brasil e Portugal. Nenhuma vingou. Em 1907, a Academia Brasileira de Letras propôs novas regras, que não foram seguidas nem mesmo no Brasil. Em 1911, Lisboa alterou profundamente a escrita – mas a novidade só valeu para Portugal. Em 1931, nova tentativa de aproximação gorou. O Brasil fez grande reforma em 1943, ignorada por Portugal. Em 1945, foi a vez de Portugal remodelar sua escrita, sem que o Brasil acompanhasse.

Placa 15O AO90 propunha-se a acertar o passo desse fado do linguista doido. Mas a medida – ressentida em Portugal como insuportável intromissão estrangeira na língua, um crime de lesa-pátria, um terremoto – mexeu com os brios da nação e levantou protesto maciço. Nem a finalidade explícita da reforma, a unificação da língua escrita, aplacou os ânimos.

Conceda-se que, em Portugal, a reforma desfigura uma batelada de palavras de uso frequente, o que explica a grita, os libelos inflamados e a objeção indignada. Gente de peso, figuras públicas, escritores, políticos, linguistas opuseram-se ostensivamente às novas regras. Blogues de resistência cívica continuam na luta ainda agora.

Peço ao distinto leitor a amabilidade de lançar uma vista a estes dois fragmentos.

Interligne vertical 12«Minha mulher a dias, que labuta asinha mas esbanja lixívia em sanitas e autoclismos, queixou-se do novo lanço com portagem que lhe cabe enfrentar, com a carrinha, na hora de ponta. Posto que o trecho tenha ficado giro, sabe a desperdício. Deixa a molesta sensação de cobres terem sido deitados fora.»

«O abaixo assignado promette aos seus freguezes que todas as encommendas effectuar-se-hão com a maior promptidão e exactidão. Tambem encarrega-se de n’ellas ageitar quaesquer eventuaes concertos.»

O primeiro parágrafo, que segue escrupulosamente as normas do AO90, foi escrito em português europeu. Qualquer cidadão luso o lerá sem perder uma palavra. O segundo trecho, calcado em anúncio publicado num jornal brasileiro faz 150 anos, foi grafado no estilo antediluviano da época – mas em português do Brasil.

by Alexandre Affonso, desenhista

by Alexandre Affonso, desenhista

Essas duas passagens mostram que, para a mútua compreensão, pouco conta a grafia. Ainda que se alcançasse a harmonização, o efeito seria o de emplastro em perna de pau. Por mais que se reforme a escrita, a variante europeia e a brasileira seguirão, impávidas, inexorável rota de afastamento.

Pragmáticos e despidos de exaltações nacionalistas, softwares continuam a oferecer ambas as variantes: português-pt e português-br, à escolha do freguês. O AO90 ilustra a desabusada tirada de Horácio: «Parturient montes, nascetur ridiculus mus» – a montanha pariu um ridículo camundongo.

7 pensamentos sobre “PT ou BR

  1. Impecável essa análise. É certo que do lado brasileiro já se sabe que (em outras ousadias não linguísticas) fazem-se coisas “para inglês ver”. A ligação dessa minha lembrança com o assunto desse sacrilégio cultural cometido, contra Portugal e Brasil, é que os eruditos que pariram a ideia acabaram fazendo coisa que não prestou sequer “para anglo-saxônico ver” porque é coisa para latinos na origem da fala. Aproveitando aqui a boa evocação da palavra que eu somente conhecia como nome de um ritmo ou dança, posso dizer que sofremos mais outra lambada (pancada de chibata) pelo fato de que a entrada em vigor desse “novo AO” é coisa já lambida (de língua passada).

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    • Jaciel,

      Nos tempos de antigamente, brincávamos ao som de uma cantiga de roda que ia assim:

      Samba-lê-lê tá doente
      Tá co’a cabeça quebrada
      Samba-lê-lê precisava
      É de uma boa lambada

      Pisa, pisa, pisa, ó [afrodescendente de pele clara]
      Pisa na barra da saia ó [afrodescendente de pele clara]

      Foi lá que ouvi a palavra pela primeira vez, bem antes de se tornar nome de dança de sucesso efêmero.

      Abraço.

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  2. Obrigada por colocar em palavras majestosas o absurdo de mais uma regra imposta de cima para baixo. Já tive ocasião de lhe dizer que meia dúzia de linguistas eruditos não podem se sobrepor à alma nacional. Em tempo, sobrepor tem acento circunflexo ou não?

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    • Obrigado pelo elogio. Sabe de uma coisa? A meu ver, uma reforma aceitável, definitiva e salvadora seria a seguinte:

      1. Ficam banidos todos os acentos
      2. Fica banido o hifen

      Se línguas civilizadas como inglês, alemão e tantas outras podem sobreviver sem acento, por que não poderíamos nós?

      Se o espanhol – língua irmã – dispensa o hifen, por que precisamos nós dele?

      Imagino que algumas exceções tivessem de ser abertas. Penso em acento diferencial em palavras de uso muito frequente tais como: o/ó, e/é, da/dá, por/pôr e por aí vai. Mas não são muitas.

      Nós, os que fomos alfabetizados antes de 1971, aprendemos a escrever «êle» para diferenciar da letra L, lembra-se? Pois faz 45 anos que o acento caiu e ninguém se confundiu. É questão de costume. Temos centenas de outros exemplos, como acerto (ê) e acerto (é), e ninguém costuma se atrapalhar.

      Ah! Sobrepor não leva acento. Por enquanto. Sabe-se lá o que é que nossos doutos acadêmicos nos estão preparando para a próxima reforma…

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  3. Pingback: «PT ou BR» [José Horta Manzano, “Correio Braziliense”, 06.06.15] - ILC contra o Acordo Ortográfico

  4. O chamdo acordo não entrou em vigor, porque não foi ratificado por todos os estados, como está previsto, e o Direito Internacional não patrocina golpadas.
    A ortografia que chama antedeluviana, é a ortografia única do português da altura, onde quer que alguém o escrevesse. Apenas no século XX e por inciativa legislativa e totalmente artificial surgiram modifiações. Se reparar é muito semelhante à ortografia do francês, que não muda de ortografia desde 1750. Também o inglês não conhece alterações desde os inícios do séc. XVIII.
    Mais do que mudanças de ortografia feitas por decreto, prejudiciais e fúteis, seria importante que os países que usam o idioma português lutassem contra o analfabetismo de forma eficaz. O Brasil tem uma elevadíssima taxa de analfabetos e Portugal, para país europeu também tem números vergonhosos.
    Infelizmente, para haver uam tendência para descurar o essencial.

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    • Seu comentário é pertinente. Agradeço-lhe pela atenção. Regras de ortografia impostas de cima para baixo são especificidade de línguas, digamos assim, menos prestigiosas. É o caso do turco, do indonésio. O português não merecia esse destino.

      Franceses, ingleses, alemães e outros povos menos empacados desconhecem o conceito de «ortografia oficial». Não precisam disso. Todos sabem escrever dado que aprenderam. Grafia não é imposta por lei nem por decreto.

      Como disse muito acertadamente o prezado comentador, mais teria valido investir no ensino da língua. Povo alfabetizado e instruído costuma saber escrever. E quando persiste alguma dúvida, há dicionários às pencas. Estão aí justamente pra sanar esse tipo de problema.

      Abraço.

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