A casa da minha avó

Ruth Manus (*)

A casa da minha avó tem um manacá. Tenho a estranha sensação de que ele fica florido o ano todo e não apenas nos três meses da primavera. Talvez seja só impressão minha. Ou talvez seja a presença da minha avó que encha tudo de flores roxas e brancas, 365 dias por ano.

A casa da minha avó é em Santo Amaro e é a casa mais bonita do mundo. Já estive na Toscana e na Provence e não vi nenhuma casa melhor do que a da minha avó. Vi maiores, vi mais caras, vi de tudo um pouco e nunca vi nenhuma casa que tivesse esse improvável aspecto de ser o melhor lugar do mundo. Mas a dela tem.

Na casa da minha avó, sempre que a gente chega, tem cabelos prateados à nossa espera. Não sei se há outro lugar no mundo onde eu me sinta tão bem-vinda. Meu marido sempre me espera, meus pais sempre me esperam, meus amigos sempre me esperam. Mas a minha avó me espera na porta. E nunca se importa que eu me atrase.

A casa da minha avó tem uma garagem pequena e vazia. Sempre que olho para ela me lembro do Gol preto do meu avô, no qual entramos depois dos pênaltis da Copa de 94, para buscar meu tio no aeroporto, enquanto buzinávamos e balançávamos as bandeiras. Em 95, já não havia mais meu avô, nem Gol preto. Deram-no como parte do pagamento ao empreiteiro que fez obras na casa para tentar alegrar a minha avó. Já aviso: não funciona. Novas paredes não substituem velhos amores.

A casa da minha avó tem a sala impecável, arrumada, perfumada e sem pó, mesmo que a faxineira só a visite duas vezes por mês. As flores nunca ficam com sede, os vidros nunca ficam embaçados, os quadros nunca ficam tortos. Espero aprender a ser assim até os meus 88 anos. Por enquanto, me contento em lembrar de guardar o leite de volta na geladeira.

Na casa da minha avó, a família inteira está presente, ainda que seja só nos porta-retratos. Ela coleciona amores. Os três filhos, os sete netos e as duas bisnetas estampam a sala com seus sorrisos largos e suas presenças raras. Em 2004, foi colocada a foto do casamento do meu irmão. Em 2013, do casamento da minha irmã. A ordem cronológica pedia que a próxima fosse eu, mas minha prima queimou a largada e passou na minha frente. Quem é que se casa aos 22, Júlia de Deus?

Na casa da minha avó, há um relógio verde na parede da cozinha. Embaixo dele, a mesa de madeira onde me sento e espero. Não posso fazer nada que não seja esperar, ela não deixa. E então começa: experimenta um pedacinho desse bolo. E esse pão fresco. Com geleia. Tem de damasco e de morango. Coloca requeijão também. Um suco de caju. Um Toddy quente. Manteiga Aviação. Queijo e presunto. Não importa se são 9h15, 14h30 ou 19 em ponto. Não importa.

Na casa da minha avó não se toma Coca-Cola, mas, misteriosamente, duas garrafas vazias surgiram por lá. Foi na época em que a Coca-Cola estampou as embalagens com os nomes das pessoas. Ela encontrou Rita e encontrou José. Juntou-as em cima da geladeira, como uma das únicas formas de ainda estar ao lado do meu avô, depois de 22 anos de viuvez. Acho que isso foi a coisa mais bonita que já aconteceu com a Coca-Cola.

A casa da minha avó é cheia de tricô. Mas ela só gosta de tricotar para os bebês. Para adultos, só cachecóis. E não para qualquer adulto. Só para aqueles que mereçam o suficiente para retardar a entrega do casaco de algum bebê. Eu mereço. O último foi o cinza. Antes o roxo. E antes o branco. E antes um todo colorido. São os melhores que tenho.

A casa da minha avó tem talco. Tem os perfumes do meu avô até hoje na prateleira. Tem um colar com um teletubbie vermelho que eu dei para ela há uns 20 anos, não sei bem o porquê. Tem azulejos decorados na cozinha. Novelos de lã. Goiabada. E braços abertos. Os melhores braços abertos deste mundo. Nem os do Cristo Redentor ganham deles.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

Distraído e desligada

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Ele muito distraído, ela extremamente desligada, Dorival e Helena formavam um par perfeito. Quando acontecia a um deles de se esquecer de alguma coisa, o outro não tinha moral para cobrar nada. De qualquer maneira, eram tão distraídos que se esqueciam de cobrar um do outro. Eram iguais. Formavam, enfim, um casal no mínimo interessante.

‒ Você se lembrou de passar na farbácia e comprar o beu rebédio para gripe?

‒ Ai meu Deus, Dori! (Pode não parecer, mas ela o chamava de “Dori” para ser carinhosa e não para irritá-lo). Sabia que estava esquecendo de alguma coisa! Sua gripe… Quer dizer, seu remédio! A gripe você já tem, não precisava comprar. Era só o remédio.

‒ Tudo bem, se até abanhã eu não tiver borrido de pdeubodia, eu besbo vou comprar o beu rebédio.

doente-4À história de estacionar o carro em algum ponto da cidade e depois ter de fazer longas caminhadas até encontrar o ponto de novo, os dois já estavam muito acostumados. Involuntariamente, disputavam para ver quem fazia isso mais vezes.

Ela só ganhava dele porque uma vez tinha ido trabalhar de carro e voltado a pé para casa, esquecendo-se do carro na garagem do escritório. Era a diferença entre ambos: ela já era pós-graduada em esquecimento e distração.

Para confirmar que o primeiro lugar era dela, houve aquela história do salto. Certa feita, saíra de casa e dançara a noite toda sem se dar conta de que o pé esquerdo do sapato alto estava sem salto. Um desnível de 7 centímetros entre os dois pés! É verdade que havia sentido uma certa dificuldade para se locomover, mas não pensou em verificar o salto.

Era comum um deles chegar na hora do jantar com muita fome e só então se aperceber de que havia se esquecido de almoçar: “Bem que eu senti que faltava alguma coisa!”

Numa noite de sexta-feira, após um dia duro de muito trabalho, ele voltou para casa muito cansado. Carregava a nítida impressão de estar se esquecendo de alguma coisa mas não sabia de que era. Sempre acontecia assim.

Como já era meio tarde, não quis incomodar a Helena, que já dormia no quarto. Preparou-se para dormir. Tomou banho, vestiu pijama e foi para o quarto, sempre com aquela impressão de estar se esquecendo de alguma coisa. Mas como não havia grande novidade em estar se sentindo daquela maneira, foi em frente, fazendo tudo igual.

Apesar do cansaço, quando a Helena procurou por seus braços dando-lhe também abraços, parecendo esperar por ele já deitada no quarto escuro onde aparentemente dormia, o Dorival não resistiu e, esquecendo-se do cansativo dia de trabalho, entregou-se à esposa como poucas vezes o fizera.

cama-2Foi uma noite interminável, como poucas, só se comparando à já longínqua lua de mel. Por fim, adormeceram e só foram acordar com os raios do sol já invadindo o quarto na manhã do sábado.

Sábado! Era isso! Mas que coisa mais estranha! Ele deveria ter ido encontrar-se com a Helena na casa da praia, onde deveriam passar o fim de semana! Mas ele havia se esquecido da viagem e tinha voltado para casa!

Mas então… Quem era?!… Só então, quando olhou para o lado, viu a Márcia deitada, ainda dormindo. A melhor amiga do casal, solteira, que sempre se insinuava para ele. Claro! Sempre que viajavam nos finais de semana era ela quem dormia lá pra tomar conta da casa!

Bom, de qualquer forma, a costumeira falta de memória ajudaria a esposa a acreditar na história. Afinal, era mesmo verdade todo o acontecido.

Ele apenas omitiria que ainda acordou a Márcia para lhe dar um bom-dia todo especial. Ele tinha certeza de que logo se esqueceria daquela história toda. E, já que estava ali…

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Personalidades caninas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

É estranho como um pet, principalmente se for um cachorro, é capaz de denunciar com seu comportamento a maneira de seu dono encarar a vida. Explico melhor: se o dono é uma pessoa esportiva, o cachorro será elétrico, propenso à ação. Se o dono é um intelectual, amante dos livros, o cão será capaz de permanecer horas a fio deitado aos pés da cadeira onde o dono está sentado em absoluto silêncio, dormitando (ou, quem sabe, até “filosofando”).

Já contei aqui que sou uma pessoa repleta de manias e hábitos arraigados. No entanto, percebo que meu espírito burocrático foi transferido de formas distintas para minhas duas cachorras. No caso da mais velha, ele parece ter sido absorvido integralmente, sem tirar nem pôr. Sempre me surpreendo ao vê-la circulando livremente, sem guia. Ela faz sempre o mesmo percurso, dia após dia, cheira os mesmos lugares e caminha sempre no mesmo ritmo, não importa se está chovendo, fazendo frio ou se é um esplendoroso dia de sol primaveril. Rói cada grãozinho de sua ração com a paciência de um chinês ou como se conhecesse os benefícios da mastigação saudável. Se está com um petisco na boca, é pura perda de tempo tentar atraí-la com outro ou chamá-la para outra atividade qualquer. Enquanto não terminar o que está fazendo, ela nem mesmo se digna a levantar os olhos. Sua humildade se revela nas coisas mais simples: ela não aceita nada que considere grande demais, seja alimento, petisco ou brinquedo.

Cachorro 7Já no caso da mais nova, é mais difícil perceber como a rotina se entranhou nela. Festeira e carente por natureza, ela sempre se mostra disposta a incorporar uma novidade, seja de que tipo for. Se está mordiscando um petisco e é apresentada a outro, ela rapidamente cospe fora o anterior e abre o bocão. Se for possível, come os dois ao mesmo tempo. Se está pacatamente entretida com uma bolinha e alguém mostrar outra, ela corre de um lado para outro tentando decidir qual das duas prefere abocanhar. Se está sonolenta, basta chamá-la para passear que ela se levanta e dispara, sem nem mesmo olhar para trás. Precisa de movimento, agitação e atenção em tempo integral.

Outra coisa que me intriga desde sempre é como a mais nova parece observar e copiar o comportamento da mais velha, especialmente se ele provoca uma reação positiva em mim. Se elogio a capacidade da Molly de conter impulsos, a Aisha imediatamente tenta refrear os dela. Se a Molly tem um lugar favorito para dormir, na primeira oportunidade a Aisha a expulsará sem nenhuma delicadeza (já chegou a se deitar por cima da pobre coitada). Se a Molly escolhe um lugar para fazer xixi, a Aisha a segue e faz o seu exatamente por sobre o dela.

Por estes dias me dei conta de que, todo dia de manhã, a mais nova me espera fazer o café e depois me segue, trazendo consigo sua indefectível bolinha. Tão logo eu me sente, ela senta à minha frente e encosta a cabeça no meu joelho, o rabo abanando feliz, à espera de um carinho ou de que eu aceite brincar com ela. Se a ignoro, ela se afasta e vai deitar em algum canto distante, com uma cara de amuada de fazer dó.

Se eu tivesse de fazer uma analogia da postura característica de cada uma com a de atrizes tradicionais do cinema, diria que a Aisha é certamente uma mistura de Mae West e Greta Garbo. Só quem já a viu deitada no sofá, com a cabeça recostada numa almofada, olhar lânguido e o rabo pendendo em suave curva para fora do sofá, pode testemunhar a favor dessa tese. Às vezes, chego a pensar que um dia ela vai me olhar e dizer com cara de enfado: “I’m no angel” ou “Leave me alone”.

Crédito: WaveMusicStudio

Crédito: WaveMusicStudio

Por outro lado, qualquer um pode perceber à distância que a Molly exala um ar de seriedade, tem a elegância de uma “lady” recatada como Audrey Hepburn, misturado a uma aura dramática de mistério, como Bette Davis. Muitas vezes, quando está deitada, cruza as patas da frente e me encara altiva, como se imperatriz ou esfinge fosse. Por vezes, tenho a impressão de ouvi-la dizer “Decifra-me ou te devoro”.

Não sei dizer se a raça ou a coloração do pelo interferem nessa avaliação. Aisha, uma Golden Retriever, tem a personalidade estereotipada das loiras fogosas: é extrovertida, exibicionista, explosiva e quer sempre ser o centro das atenções. Molly, uma Bernese Mountain Dog, traduz em tudo o padrão comportamental das morenas aspirantes ao esplendor espiritual: é tímida, assustadiça e desconfiada das pessoas que fazem muito estardalhaço. Ao mesmo tempo, quando se aproxima espontaneamente de alguém (o que acontece raríssimas vezes), pode-se apostar que ela encontrou uma alma gêmea.

santos-dumont-1De qualquer maneira, vejo-me forçada a admitir: tenho um lado defendido, de quem luta com unhas e dentes para preservar a própria intimidade, mas adoro também ser alvo de admiração. Pensando bem, talvez seja eu mesma uma combinação das tradições francesas e da malemolência insolente brasileira. Unindo os dois lados, só o meu desejo de fazer a Europa curvar-se ante o Brasil, como dizia a modinha que minha avó cantarolava.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Interligne 18cNota deste blogueiro
A modinha à qual a autora se refere é a cançoneta em homenagem a Santos-Dumont composta por Eduardo das Neves e gravada pelo cantor Bahiano no longínquo ano de 1902. Quem quiser ouvir um trechinho dessa preciosidade pode clicar aqui.

Crônica sem fadas

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Fada 1Era uma vez… Pronto, já está com jeitão de conto de fadas. Porém, isto não é um conto de fadas, nem ao menos um conto, mas sim uma crônica. E nunca se viu crônica de fadas. Mas… e a vontade que eu sempre tive de escrever alguma coisa que começasse com um “era uma vez”? É a minha oportunidade, desculpem. Pois bem, se você não tiver nada melhor para fazer nos próximos 3 ou 4 minutos, vamos lá então.

Era uma vez, em um lugar muito bonito e distante (as histórias desse tipo sempre acontecem em lugar bem longe de onde a gente as lê e todo lugar distante é sempre mais bonito do que aquele onde se está), uma moça que tinha uma grande amiga. E, por feliz coincidência, a outra moça também a tinha como grande amiga!

Esta história aconteceu no tempo em que ainda se tinha o salutar hábito de cultivar boas e grandes amizades. Logo depois, foi que pararam de escrever histórias de “era uma vez”. Foi justamente quando se acabaram as grandes amizades. Talvez as grandes amizades não passassem de conto de fadas, vai saber.

Às vésperas do aniversário de uma das duas amigas, já tarde, lá pelas 10 da noite, toca o telefone:

Sandalia 1– Alô (com voz de sono).

– Oi Cidinha! Tudo bem com você?

– Hermê! (Ninguém tinha coragem de pronunciar Hermengarda). Tudo bem. E com você?

– Pois é, amiga, eu estou ligando por causa de seu aniversário.

– Sério mesmo? Que legal! E daí?

Telefone 2– Sabe o que é? É que eu vi, numa loja, uma sandalinha que é a tua cara! Logo me lembrei de você e do aniversário, Cidinha.

– Ora, que bobagem, não se preocupe com isso, Hermê.

– Não é preocupação nenhuma. Eu só liguei pra saber qual é o seu número.

– Por favor, não se incomode não! Eu nem estou pensando em fazer nada no meu aniversário.

– Não tem importância. Não tô nem aí com festa nenhuma, amiga. Eu faço questão de dar um presentinho pra você. Coisa pouca, mas é de coração.

– Ah! Deixa disso! Não precisa se preocupar com nada, tá?

– Mas eu faço questão! É como eu falei, é coisinha à toa mas é muito sincera, viu, Cidinha? Me diz o número, vai.

– Você sabe que eu nunca vou poder retribuir.

– Mas quem está pensando em retribuição? Deixa disso, fala o número pra mim, vai.

– É, eu sei bem porque você faz questão de ficar me dando presentes, sua metida.

– Eu dou presentes porque gosto muito de você e quero demonstrar isso, Cidinha. Por favor, não pense nada errado.

– Que nada! Eu estou pensando o certo. Você quer é mostrar que pode mais que eu. O Olavo é humilde, não tem o suficiente pra me presentear, mas eu estou feliz assim mesmo, viu?

Telefone 1– Mas quem falou no Olavo, meu Deus!? Eu gosto muito do seu marido!

– E eu sei que gosta, eu sei muito bem o quanto gosta! Pensa que eu não percebi quando você começou a dar em cima dele? Pois saiba, minha amiga, ele é pobre mas ainda é meu, só meu, viu? Só meu.

– Acho que você está nervosa à toa. Eu nunca quis nada com o Olavo e agora eu só quero te agradar no aniversário, que coisa!

– Tá vendo só? Agora é “que coisa”, né? Olha só o seu jeito de falar.

– Foi só uma maneira de falar… Me desculpa, vai.

– Uma ova! Primeiro fica de olho no marido dos outros. O Olavo, pobre Olavo…

– Mas eu nunca quis nada com seu marido, Cidinha! Por favor…

– E além do mais, fica tentando me humilhar comprando sandalinhas que sabe que eu não posso ter.

– Eu não quero te ofender nem te humilhar! Que é isso, amiga?!

– E olha, não quero mais saber de conversa. E se quer me fazer um favor, não fale mais comigo, tá? Nunca mais!

O telefone é desligado.

– Alô? Alô? Cidinha?…

Castelo medieval 2Assim como a história começou com era uma vez, assim termina também: era uma vez uma grande amizade. Após o fim da conversa, o Olavo (marido da Cidinha, lembra dele?), que por coincidência estava ao lado da Hermê, no apartamento dela, pergunta:

– Hermê, o que foi que a Cidinha achou da idéia da sandalinha?

Interligne 18h

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Aplicação

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Bebida 3O Walmir sempre fora um sujeito boa-praça, simples e simpático. Era um brasileiro típico da chamada classe média, que tem esse nome justamente porque precisa fazer média com todo mundo pra poder se manter em equilíbrio. Principalmente com os credores.

Um dia foi até o banco onde mantinha uma conta. Lá chegando, foi direto procurar pelo gerente. Gerente era o que não faltava por ali. Ele procurava um para fazer aplicações. Pediram que aguardasse. Pacientemente aguardou.

O ponteiro grande do relógio ia quase completando sua volta quando lhe pediram que se sentasse em frente a um funcionário que já o aguardava do outro lado da mesa cheia de papéis. Ficava no saguão, junto a um monte de outras mesas, todas iguais, tipo vala comum, daquelas que servem para atender aos que têm cara de ter, no máximo, 3 ou – se muito – 4 dígitos na conta.

– Pois bem, seu…

– Walmir.

– Então, seu Walmir. De que o senhor está precisando?

A pergunta fazia sentido. O Walmir tinha cara de empréstimo.

– Bom, eu gostaria de fazer uma aplicação.

– Muito bem, uma aplicação. Escolheu o banco certo. Aplicação em quê? Poupança talvez?

– Na verdade, eu não sei dizer em quê. É justamente por isso que eu vim aqui. Para me aconselhar sobre o assunto.

– Bom, bom… Para aplicações pequenas, para quantias populares, aconselhamos mesmo a poupança. Rende bem e é fácil de lidar. O senhor vai ganhar sempre. Nosso banco certamente vai ajudar o senhor a lucrar sempre.

Banco 5O Walmir ajeitou-se melhor em sua cadeira. Prosseguiu:

– É que eu estou pensando em fazer uma aplicaçãozinha um pouco maior, sabe?

– Rã-rãnnn… Maior? Maior quanto?

– Bom, ainda não sei ao certo, mas é coisa por volta de uns 20 milhões talvez.

Reverência 2Nesta altura do campeonato, o gerente agitou-se todo em sua giroflex e imediatamente convidou o Walmir para acompanhá-lo até sua sala, no andar superior, onde poderiam conversar mais sossegadamente. Conforme subiam as escadas, o Walmir também ia sendo promovido. Chegou lá em cima e já era o doutor Walmir. O fato de ele nunca ter cursado faculdade e muito menos ter defendido tese era irrelevante. Uma pessoa que faz uma aplicação com um número tão robusto tem de ser tratada por doutor.

O gerente foi logo oferecendo água, café, ou, se preferisse, um uísque. Era só pedir. O Walmir preferiu o uísque, apesar de ainda ser de manhã. Foi logo servido.

– Bom, doutor Walmir, eu aconselharia aplicar esse dinheiro em CDBs ou em RDBs, mas não é bom colocar tudo num só tipo de aplicação, sabe como é. Não é seguro, sabe?

O Walmir deu um gole no uísque, enquanto pensava. O gerente prosseguiu:

– Aliás, quero que o senhor me desculpe pela sugestão da aplicação em poupança. Com essa correria do banco, num primeiro momento não percebi que falava com uma pessoa de tão alta estirpe. Espero que não esteja ofendido.

– Sei, sei… Se eu aplicar em CDBs, por exemplo, quanto me renderia?

O gerente tocou a fazer contas e mais contas, calculou e recalculou, passando o resultado ao doutor Walmir.

O Walmir pensou um pouco e aventou a hipótese de aplicar na bolsa. Queria saber, em tese, quanto lhe renderia.

O gerente imediatamente fez cálculos hipotéticos, levando em consideração o tipo de ações, o prazo da transação, a direção do vento, a pressão do ar, se iria chover ou não. Juntou um pouco de sal, passou tudo numa peneira fina e respondeu que ainda seria mais negócio investir nos CDBs ou nos RDBs mesmo. Mostrou todos os cálculos feitos no papel.

Jogo 2Indeciso, o Walmir indagou sobre a hipótese de aplicar metade num tipo de negócio e a outra metade noutro tipo.

– O senhor diz, assim, uns 10 milhões para cada uma?

O Walmir fez que sim com a cabeça. E lá foi o gerente refazer os cálculos enquanto o doutor Walmir bebericava o uísque.

O gerente tornou a mostrar todos os exaustivos planos traçados no papel. O doutor Walmir olhou atentamente cada um dos resultados, estudando qual o negócio mais vantajoso.

– Doutor Walmir, desculpe-me a pergunta, mas o senhor tem idéia de quando pretende efetivar o depósito para podermos fazer esse seu patrimônio crescer e crescer sem que o senhor tenha qualquer trabalho?

– Ainda não sei direito, mas provavelmente na semana que vem. Eu acabei de fazer o jogo da MegaSena acumulada ainda há pouco. Se eu ganhar, e com certeza desta vez eu vou ganhar, volto aqui e a gente vai fazer tudo do jeitinho que o senhor me explicou.

Jogo 1Dito isso, o copo de uísque foi discretamente retirado da frente do doutor Walmir, que agora voltou a ser tratado por seu Walmir mesmo e convidado a voltar ao banco quando – e se – tivesse o dinheiro.

“E me dá licença, que eu tenho outros negócios a tratar agora. Bom dia” – disse o gerente, apontando-lhe a porta, por onde o Walmir saiu desacompanhado.

Naquele mês constou em seu extrato um débito referente a “serviços extras”. Após investigação, revelou tratar-se do uísque servido.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Corte moderno

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Lá pelos idos anos 70, eu não poderia ser considerado exatamente um fã de visitas ao barbeiro, a quem hoje chamam cabeleireiro. Nos dias de hoje, moderninhos toda a vida, ainda existem os salões de barbearia, que só atendem a homens e os salões de beleza, que dão atendimento a mulheres. Há ainda os chamados unisex, que eu não imagino a quem atendam. Coisas dos tempos.

Naquela época, eu ia a um salão de barbeiro lá muito de vez em quando, geralmente quando minha mãe ameaçava me deserdar, ameaça que só fui descobrir muito tempo mais tarde não ser verdadeira, pois nunca houve herança nenhuma. Mas, na época, funcionava sempre.

Enfim, era até interessante quando eu ia cortar o cabelo. As más línguas diziam que eu ia, na verdade, podar os cabelos. Intriga apenas. Eu ia cortá-los mesmo. Mas era, de fato, interessante. Meus sobrinhos, pequenos àquela época, ficavam ansiosos esperando por minha volta, na esperança de ter sido encontrado algum dos carrinhos de brinquedo deles em meio a minha longa e farta cabeleira enfim cortada (ou podada, se preferirem).

Barbeiro 3Mas os tempos mudaram. Hoje eu vou frequentemente ao barbeiro e desconfio que ele só trocou de carro este ano graças a minhas repetidas visitas. Agora ando torcendo para que ele troque a tesoura, que já não corta mais nem água. O pente ainda é um daqueles Carioca, banguela de alguns dentes. Calculo que deve datar de quando ele (o barbeiro) ainda era mocinho. Agora ambos são velhinhos, o barbeiro e o pente.

Ainda na semana passada, fiz minha mais recente visita ao salão. É um salão antigo, tradicional. O barbeiro é velhinho, já sofreu derrame e treme muito, justamente com a mão direita, o que, para quem não o conhece, pode assustar um pouco, uma vez que ele é destro. Mas, por hábito, após frequentar o mesmo lugar por anos e anos, confesso que me afeiçoei ao profissional e talvez até sentisse falta dele se um outro mexesse em meus cabelos sem que a mão tremesse. Acharia muito estranho.

O salão é uma festa permanente com todo aquele pessoal que vai apenas para conversar, contar piadas, contar mentiras, fazer hora. Uma opção inclusive para aqueles que querem chegar um pouco mais tarde em casa, fugindo da sogra. E eu lá, ajudando o seu Antenor a trocar de carro. Assim é o salão O Pente de Ouro. Luxuoso, não se pode dizer que seja, mas pelo menos nome pomposo, isso com certeza ele tem.

Barbeiro 2Em minha mais recente aventura (é literalmente uma aventura) n’O Pente de Ouro, cheguei, cumprimentei todos os presentes, um a um, e levei certo tempo até descobrir quem realmente esperava para ser atendido e quem apenas se escondia da sogra.

Depois de algum tempo, consegui finalmente sentar-me na cadeira para ser atendido. Tirei meus óculos e meu aparelho de surdez. As pernas não tirei porque, por enquanto, ainda são minhas mesmo. (E procuro aproveitar bem enquanto elas ainda o são!) Estava pronto para ser atendido. Eu disse que queria que ele desse apenas uma aparadinha. Ele perguntou se eu não gostaria de um corte mais moderninho, uma coisa assim mais ou menos entre Ronaldinho e Chico César quem sabe. Eu agradeci pelo oferecimento, mas insisti que queria apenas uma aparadinha.

Já sem meus óculos, portanto, sem ter como enxergar a mim mesmo no espelho, ainda tive a cadeira virada de tal forma que fiquei de costas para o dito. Cá entre nós, comecei a sentir um certo temor naquela hora.

Ele me perguntou alguma coisa sobre como deveria cortar na parte de trás da cabeça, mas eu, já sem aparelho para surdez, não entendi direito e, antes que eu pedisse para repetir a pergunta, ele empurrou minha cabeça para a frente, forçando o pescoço para baixo, de forma que eu não consegui mais falar. Mesmo que falasse, não seria ouvido daquele jeito.

Barbeiro 1E ele continuava a cortar, fazendo pequena pausa a cada duas ou três tesouradas para olhar para o lado, segurando o pente e a tesoura no ar, enquanto fazia algum comentário em voz muito alta e animada com o pessoal que estava por lá. Ele conversava, a prestação, sobre futebol, mulher, sogra, política. E fofocava, coisa que a gente acha que só ocorre em salão de mulheres. Assim continuou até que eu percebi que ele se afastou um pouco de mim, foi até perto do colega, barbeiro da cadeira ao lado, e cochichou alguma coisa enquanto os dois olhavam para mim. Percebi um movimento negativo da cabeça de um dos dois, não soube definir qual deles – os dois eram apenas vultos para mim, sem óculos naquela hora. Aquilo me causou um mau pressentimento. Mesmo assim, continuei firme em meu lugar.

Quando ele voltou para continuar o corte moderninho, percebi que não falava mais com o pessoal do salão. Agora se concentrava no trabalho como deveria ter feito desde o início. Apenas dava algumas tesouradas, assim meio no ar, como se tentasse aparar um pouco mais aqui e ali, parecendo não saber mais onde deveria cortar.

Não demorou muito até que ele fez minha cadeira voltar à posição inicial, de frente para o espelho. Quando finalmente consegui pôr meus óculos, dei-me conta de que minha cabeça estava com uma aparência muito semelhante a, eu diria, uma pizza calabresa com orelhas…

Pizza 1Só após reposicionar meu aparelho de surdez consegui ouvir a voz dele, agora baixinha, meio sem jeito, me dizendo que, com aquele sol todo de verão, seria aconselhável eu usar um chapéu bem grande para me proteger. Considerando o corte que ele havia feito, ficou patente que a sugestão do chapéu era para me proteger, sim, não do sol mas do ridículo. Com certeza.

Era uma daquelas situações em que você percebe logo que o melhor que tem a fazer é resignar-se e ficar quieto, pois não vai adiantar nada dizer ou fazer o que seja. Definitivus est.

Despedi-me e ainda agradeci. Tive dificuldade em fazê-lo aceitar o pagamento. Ele deve ter achado injusto deixar-me pagar por aquilo. Para minha tristeza, eu estava a pé e assim voltei para casa. Agradeci a Deus por não ter encontrado nenhum conhecido pelo caminho.

Agora, caso precisem de mim, continuo em casa tentando descobrir onde foi que guardei o chapéu que usei no último baile do cafona a que compareci, muitos anos atrás, mas que agora vai ficar até bonitinho em meu cocuruto. Pelo menos até eu conseguir consumir um pouco da cobertura da pizza. Aceita uma linguicinha?

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

O vaso e o cachepô

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Flor 1Uma crônica com um título desses fica até com cara de fábula. Mas não é. Trata-se de caso que realmente aconteceu.

Contaram-me essa história como verdadeira e não tenho por que duvidar, pois a relatar-me foi o próprio dr. Venâncio Prates, homem de meia-idade (que já teve, com certeza, 1/4 de idade e um dia ainda há de ter idade inteira), sujeito boa-praça, que leva muito a sério seus cabelos grisalhos – os que ainda lhe restam e que agora observam, lá do alto, a barriga um tanto volumosa a comprometer um bocado a estética do conjunto.

Disse-me que a esposa, dona Ilda, à semelhança de tantas outras, adorava plantas. Frequentava exposições, admirava e elogiava o capricho da natureza na feitura das flores, umas mais belas que as outras, o que sempre a deixava sem saber definir qual a sua predileta, tantas as cores e as formas. Tamanha beleza e tanta variedade enchiam-lhe os olhos.

Foi num Dia dos Namorados que o dr. Prates teve a infeliz idéia de comprar um pequeno vaso com florezinhas muito delicadas, até bonitinhas mesmo. Tinha bom gosto para escolher, e não havia de existir melhor presente para a esposa.

Pois bem, deu-lhe o tal vaso. A mulher ficou radiante e passou uns 5 ou 6 dias agradecendo de tanto que gostou. Mas (e quase sempre há um “mas” para fazer a coisa desandar)… e o cachepô? Um recipiente desses melhoraria e muito o vaso, faria com que as flores ficassem ainda mais bonitas – achava dona Ilda. Um vaso sem cachepô está fadado ao insucesso, ao abandono, ao esquecimento.

Como de costume, dr. Prates atendeu logo ao desejo de sua amada. Um ou dois dias depois, apareceu em casa com um cachepô que, de fato, valorizou mais ainda o presente.

Um “mas” bastava? Claro que sim, se se tratasse de pessoa, digamos, normal. Já dona Ilda, com tanto tempo disponível para conjecturar, conseguia elaborar idéias mais profundas a partir de um simples vaso, agora reforçado pelo cachepô.

by Ewa Helzen, artista de Malta

by Ewa Helzen, artista de Malta

Achou que talvez fosse a cor da sala que não estivesse lá combinando muito bem com as flores, que, aliás, continuavam muito bonitas, embora parecessem já não ornar tão bem com o ambiente.

O dr. Prates não demorou a tomar a decisão de pintar a sala de estar. Claro que, logo em seguida, descobriu que a sala de jantar não podia ficar com a pintura velha e logo deu-lhe nova pintura também. Acatando sugestão da amada esposa, os quartos também foram pintados, o que obrigou, por conseqüência, a aplicar pintura nova ao resto da casa, sem esquecer, naturalmente, o lado de fora.

Feito tudo isso, dona Ilda, que continuava a cuidar muito bem das flores (que bem poderiam ser chamadas de Eva, pois foi por onde tudo começou), a sra. Prates – dizia eu – que tinha tempo de sobra para observar as coisas, após longa, acurada e minuciosa observação dos tons, do tamanho e do formato das flores do vasinho predileto, chegou à conclusão que, na verdade, era a casa que não combinava com a elegância e distinção das flores. Flores tão únicas, como jamais vira em sua vida. E depois, não era só isso, havia também que considerar o valor sentimental que elas representavam.

Não demorou muito e o dr. Prates, apesar das frustradas tentativas de demover a esposa da nova idéia (sem sucesso apesar de alentada argumentação), procurou nova casa, mais ampla, espaçosa (e mais cara também, claro) mas que, enfim, estaria perfeitamente apta a acolher, numa das salas, aquele vaso de flores dentro do cachepô.

Agora era hora de sossegar, mas (olha o “mas” aí de novo…) alguma coisa ainda inquietava o pobre dr. Prates (a esta altura, literalmente mais pobre mesmo, depois dos gastos consentidos). Conhecendo a esposa de longo relacionamento, ou seja, de muitos outros carnavais, pressentia ele que algo mais ainda estava por vir.

Flor 2O dr. Venâncio Prates me confiou, depois de longo e profundo suspiro, que, preocupado com o conforto da esposa, comprou na semana passada uma almofadinha nova, para ela se sentar no banco do automóvel quando for dirigir.

A almofadinha até que ficou muito legalzinha, mas… (quem diria, hein, outro “mas”!), ele me disse que esta semana estão procurando um modelo novo de carro para comprar. Zero, é claro. E a almofadinha vai ter que ficar uma graça no carro novo.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

O padeiro

Rubem Braga (*)

Campainha 2Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento – mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um ‘lockout’, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

– Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?

“Então você não é ninguém?”

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…

Padeiro 1Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina – e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

Campainha 1Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”

E assobiava pelas escadas.

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(*) Rubem Braga (1913-1990) é por muitos considerado o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis.

Cadê o bloco Chave de Ouro?

Monica Pinheiro (*)

Carnaval 10É quarta-feira de cinzas e a pergunta não sai da minha cabeça: o que foi que aconteceu com o Chave de Ouro? Procuro alguma nota nos jornais, mas não vejo sequer menção do nome daquele famoso bloco do Rio de Janeiro, que durante décadas forneceu assunto para a notícia mais aguardada e divertida no finalzinho do carnaval.

Criado em 1943 no subúrbio carioca, entre o Méier e o Engenho de Dentro, o Chave de Ouro só saía às ruas quando a festa já tinha acabado. O bloco era formado em grande parte por foliões inconformados com o rígido horário de encerramento do carnaval de rua, inapelavelmente marcado para o meio-dia da quarta-feira. Depois das doze badaladas do relógio, era hora da folia terminar e todo o mundo voltar ao batente.

Numa demonstração de total descaso pelas determinações do poder público, a turma do Chave de Ouro continuava pulando animadamente pelo centro do Rio, cantarolando marchinhas cheias de malícia, como se não houvesse amanhã. Eram em geral carnavalescos que se haviam excedido na bebida ou haviam sido surpreendidos em atos reprováveis para os padrões da época e, por isso, eram devidamente encarcerados no xilindró durante o reinado de Momo.

Chave 2Longe de acalmá-los, os dias de prisão pareciam incendiar ainda mais aquela paixão pelo carnaval. Na quarta-feira de cinzas, os foliões da fuzarca eram soltos e imediatamente retornavam às ruas, cambaleantes mas cheios de energia reprimida, na ânsia de recuperar o tempo perdido. E assim o desfile do Chave de Ouro se repetia todos os anos, bem nas barbas dos defensores da lei.

Carnaval 9Não é difícil prever o resultado do confronto. A força policial – na época também chamada de “radiopatrulha” – corria atrás dos integrantes do Chave de Ouro, que por sua vez se esgueiravam por entre os carros ou se escondiam pelos bares do centro da cidade, para voltar às mesmíssimas ruas assim que a polícia desaparecia da vista.

A cada ano que passava, o bloco só aumentava de tamanho. Um número cada vez maior de pessoas se agregava ao Chave de Ouro, muitas delas só para assistir de perto ao corre-corre e à pancadaria geral. Além dos foliões, policiais e curiosos, havia também outro grupo infalível – o dos repórteres fotográficos, que ziguezagueavam por todos os lados, em busca da imagem gloriosa que seria manchete no dia seguinte.

Esse “ritual” carioca começou a ganhar fama no início da década de 50 e se repetiu até o final dos anos 70. Virou tradição do carnaval carioca. Aos poucos, sem alarde, os jornais deixaram de falar no bloco. Vieram outras atrações carnavalescas, construíram o sambódromo na Marquês de Sapucaí, sofisticaram os sistemas de som dos blocos de rua. Mas, sem o Chave de Ouro, o Carnaval de rua do Rio nunca mais foi o mesmo.

by Moisés de Macedo Coutinho, desenhista paulista

by Moisés de Macedo Coutinho, desenhista paulista

A curiosidade me leva a navegar pela internet em busca de alguma explicação para o sumiço das notícias do bloco. Encontro uma reportagem da TV Globo de fevereiro de 1981, que noticia o retorno do Chave de Ouro depois de anos sem desfilar. As imagens do bloco são melancólicas. Falta brilho e sobra apreensão nas ruas de Engenho de Dentro por onde passa o bloco, em que comerciantes correm a fechar as portas de suas lojas para não serem saqueadas pelos foliões. A reportagem termina com a informação de que, como agora o Chave de Ouro tinha permissão oficial para desfilar na quarta-feira, no ano seguinte eles iriam sair na quinta-feira.

Carnaval 11Se o bloco saiu na quarta ou na quinta-feira daquele ano, ninguém sabe, ninguém viu.

Em 2013, diversos jornais anunciaram a volta do Chave de Ouro às ruas do Rio, mas, no final, o bloco acabou desistindo de desfilar porque “não teve a logística necessária”. O fato é que o bloco mais transgressor da história do carnaval carioca simplesmente perdeu a graça com o fim da repressão. Mudaram os tempos. Agora, dentro e fora do reinado de Momo, tem-se a impressão de que tudo o que é estritamente proibido é ligeiramente permitido.

Leio no noticiário que hoje existe um bloco com um nome aparentemente definitivo: Sepulta Carnaval. Engana-se quem pensa que ele vai enterrar a folia na quarta-feira de cinzas. O bloco só vai sair no sábado depois dos feriados. Para quem, como eu, ainda não tinha reparado, esclareço que o carnaval carioca de 2015 só termina oficialmente no final de fevereiro.

Carnaval 8E à turma do Sepulta cumpro o doloroso dever de informar que outros foliões lhe passaram a perna. A gloria de sepultar o Carnaval carioca este ano não caberá a eles, como sugere o lúgubre nome. É que, consultando o calendário oficial da cidade, vejo que vários outros blocos já garantiram seu direito de jogar a pá de cal na folia no último domingo de fevereiro, ainda que com nomes menos sepulcrais.

Renascerão das cinzas os blocos Broxadão a Hora é Essa (praia de Copacabana), Boka de Espuma (Botafogo), Caldo Beleza (Flamengo) e Galinha do Meio-Dia (praia de Ipanema).

Evoé, carnavalescos indomáveis do Rio de Janeiro! A festa vai continuar.

(*) Monica Cotrim Pinheiro é jornalista. Edita e anima o Blog da Monipin.

Vou pra Diamantina

Monica Melo (*)

Carnaval 7Se tem uma coisa que eu tenho dó é dos repórteres nessas épocas de feriados e comemorações.

Porque entra ano e sai ano e os pobres coitados repetem a mesma ladainha, entrevista com o chefe da Polícia Rodoviária Federal sobre como viajar com segurança, como evitar a ressaca, imagens ‘exclusivas’ dos foliões pulando e berrando freneticamente enquanto dão adeusinho para as câmeras, tentativas de conversar pelo menos um minutinho com alguma celebridade (subcelebridades ninguém precisa procurar, elas aparecem do nada na frente do microfone), a tradicional reportagem sobre o fim da farra na quarta-feira, yadda yadda yadda.

E também o movimento nas rodoviárias. Aí me lembrei de uma repórter de um telejornal local valentemente tentando encontrar alguma informação remotamente interessante na rodoviária de Belo Horizonte para colocar no ar.

Como nada muito relevante parecia estar acontecendo, lá vai a moça entrevistar os foliões, né, fazer o quê?

Onibus 3E pergunta pro primeiro: Vai pra onde neste Carnaval? Vou pra Diamantina.

E então pro casalzinho logo atrás: E vocês, pra onde vão no feriado? Pra Diamantina.

Dois ou três viajantes indo pra Diamantina depois, a câmera dá aquele zoom out básico e a gente percebe (mas aparentemente a repórter não) que aquilo ali é uma fila. Pra comprar passagem. Pra Diamantina.

A matéria deve ter ido ao ar por absoluta falta de opção… ou pra sacanear com a jornalista.

(*) Monica Melo é jornalista. Edita e anima o blogue Crônicas Urbanas.

Foi-se

José Horta Manzano

Foi-se o João Ubaldo, grande entre os grandes. Assim como quem não quer dar incômodo a ninguém, foi-se de mansinho, logo de manhã cedinho, sem prevenir.

Foi-se aquele que escrevia com sotaque. Aquele que fazia brotar sorrisos a cada parágrafo. Inteligência aguda e ironia fina eram os ingredientes maiores de seu receituário.

E culto também, o homem! Chegou a traduzir ― ele mesmo ― um de seus romances para o inglês. Falava alemão, coisa rara para quem não é descendente.

Sua escrita era como uma conversa ao pé do fogo, informal, amiga, imperdível.

Enfim, que fazer? A vida é assim mesmo. Como diz o outro, pra morrer, basta estar vivo. Mas, cá entre nós, tem gente que merecia viver uns 150 anos.

O baiano João Ubaldo leva consigo um pedaço da inteligência nacional. E como vai fazer falta!

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Para ler sua última crônica, publicada post-mortem pelo Estadão, clique aqui.