Estatísticas de 1912

José Horta Manzano

O Brasil de cem anos atrás era bem diferente do que conhecemos. Naturalmente, faltava toda a família de objetos e de hábitos que se alimentam da informática: celular, computador, internet & companhia. Além disso, faltava uma infinidade de artigos que simplesmente não existiam.

Em pleno boom do café, o Estado de São Paulo já começava mostrar que tinha potencial para desenvolver-se rapidamente. Sua indústria, no entanto, ainda era primitiva e resumia-se a artigos básicos. O resto vinha de fora ‒ do Rio de Janeiro ou do exterior. As estatísticas da produção industrial paulista para o ano de 1912 comportavam uma dúzia de itens, nada mais. Produzia-se o necessário pra suprir necessidades primárias.

O item campeão, com mais de 58 mil contos de réis de valor produzido, eram os tecidos, categoria que tem hoje o sofisticado nome de indústria têxtil. Logo abaixo, como é lógico, apareciam os calçados, cuja produção atingia um total de 50 mil contos de réis.

Fabricação de alimentícios era coisa pouca, que tudo se fazia em casa. Ninguém imaginava que um dia se pudesse comprar goiabada ou palmito em lata. Para gente antiga, os velhos hábitos persistiram. Mesmo nos anos 1950 e 1960, a avó deste blogueiro nunca se acostumou a comprar alimento industrializado. Nem panetone escapava à regra. Semanas antes do Natal, a velhinha preparava dúzias deles ‒ em casa ‒ pra distribuir para a família.

Nas estatísticas de 1912, eram as bebidas que apareciam em terceiro lugar, com 40 mil contos de produção. É compreensível. Nem todos têm alambique em casa.

Produção industrial paulista – anos 1912/1913

Um surpreendente artigo aparecia no quarto lugar: chapéus «de cabeça». Faziam contraponto aos chapéus «de sol e de chuva». Se entendo o que seja um ‘chapéu de sol’, confesso não imaginar o que possa ser um ‘chapéu de chuva’ oposto a um ‘chapéu de cabeça’. Quem tiver a resposta já sabe: cartas para a redação, por favor. Um século atrás, numa época em que ninguém saía à rua de cabeça descoberta, dá pra entender que a indústria de chapéus vicejasse. Vender chapéu era como vender celular hoje.

Depois desses quatro campeões, vinham, lá atrás, o tabaco e derivados, as perfumarias, os phosphoros e as especialidades pharmaceuticas. Fechando a lista dos produtos industriais paulistas, apareciam três últimos artigos: as conservas, os vinagres e, surpreendente para os dias de hoje, as bengalas. Mais nada. Deduz-se que artigos feitos a partir de papel, vidro, metal tinham de vir do Rio ou do estrangeiro.

Era um mundo mais ecológico que o atual. Plástico, não havia. Aparelhos elétricos tampouco. Objetos de vidro e de metal eram usados até gastar. Assento de cadeira era empalhado com palha de verdade. Leite era vendido em garrafa de vidro, devolvida no dia seguinte. Roupa puída ia pra cerzideira, profissão eminentemente feminina, hoje desaparecida. As especialistas faziam, à mão, um trabalho de paciência. A roupa esburacada voltava como nova.

Será que os viventes de 1912 eram mais felizes que os de 2019? No meu entender, não eram mais nem menos felizes. Era igual. Não passavam privação. O sentimento de que falta algo decorre do conhecimento que se tem de que esse algo existe. Ninguém pode sentir falta daquilo que nem sabe que existe.

Baby governor

José Horta Manzano

Você sabia?

Em novembro deste ano, os americanos vão às urnas para o que chamam “midterm elections”, as eleições que ocorrem no meio do mandato presidencial. Como grande parte dos Estados americanos, Vermont escolherá novo governador. Com meia dúzia de postulantes já declarados, a campanha começa a ferver.

Entre os candidatos, está um sorridente cidadão chamado Ethan Sonneborn, que concorre pelo Partido Democrata. Demonstrando visão abrangente da sociedade, o moço tem mente aberta. Declara-se «forte aliado» da comunidade LGBT. Dá mostra de especial sensibilidade para tudo o que tange à ecologia e ao desenvolvimento sustentável. Aprova também a cobertura universal de saúde, questão crucial e ainda não resolvida naquele país.

Consultei o programa do candidato. Sem descer a minúcias, o documento fixa os pontos cardeais da linha de ação que pretende seguir. Se eleito, naturalmente. Sem ser especialista em previsão eleitoral, sinto que Mr. Sonneborn não tem grande chance de vencer a eleição. Não tanto pelo programa, que, embora bastante progressista para os padrões americanos, não chega a ser chocante. O buraco é mais embaixo.

De fato, Ethan tem apenas… 14 anos de idade. Por uma curiosa brecha na legislação, um cidadão de 14 anos ainda não pode votar em Vermont, mas pode ser eleito. O legislador se esqueceu de fixar idade mínima para candidatos. Não se tem notícia de caso anterior, mas era tempo de aparecer o primeiro.

Fosse no Brasil ‒ que já elegeu Tiririca, Enéas, Clodovil & companhia pitoresca ‒, o garoto teria boas chances de chegar lá. Tem gente que acha engraçado brincar com coisa séria. Felizmente, nossa legislação estabeleceu idade mínima. Dessa, escapamos. Já temos bizarria suficiente no panorama político nacional.

Vai um pentaciclorofenol aí?

José Horta Manzano

Você sabia?

Este blogueiro não é ecologista de carteirinha. Acho perfeitamente legítima toda preocupação em manter o frágil equilíbrio entre os componentes da natureza. Do jeito que a coisa vai, a continuarmos a satisfazer necessidades presentes como se não houvesse amanhã, corremos à desgraça.

No entanto, não enxergo viabilidade de a ecologia ser transmutada em força política suficiente para constituir partido próprio. Por sinal, em países onde é forte a preocupação com o meio ambiente, o Partido Verde (ou Ecológico), ao escorar-se nalguma corrente política mais poderosa, enriquece-a. Embora não seja o único caminho, é comum que ecologistas se associem a socialistas.

Com informações da Abrasco

Com informações da Abrasco

Por minha parte, acho imprescindível que a ecologia constitua capítulo importante no programa de todo partido. Exceção será concedida aos ditos «partidos de aluguel», aqueles que não têm programa e que só contribuem para reforçar nossa etiqueta de república de opereta.

A Abrasco ‒ Associação Brasileira de Saúde Coletiva lançou seu dossiê 2015, verdadeiro alarme sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde. No Brasil, país de economia eminentemente agrícola, é assunto relevante. O aprofundado estudo é apresentado didaticamente e descarregável aqui. Os interessados não se decepcionarão.

Alguns números são assustadores. Cerca de 70% dos alimentos consumidos no Brasil estão contaminados por agrotóxicos. Um terço deles são produtos proibidos no país, mas utilizados assim mesmo. Uma saideira: cada brasileiro consome 7½ litros de pesticida por ano. Não é uma barbaridade?

Meio mistério resolvido

Cadeira 2José Horta Manzano

Ah, essa gente que dá notícia pela metade… Dias atrás, tomei um susto ‒ que compartilhei com meus distintos leitores ‒ quando fiquei sabendo que a empresa de um dos filhos de nosso guia contava com uma cadeira «de alto couro ecológico», avaliada em 15 mil reais. Um patrimônio, coronel!

Na ocasião, pra evitar que alguém pensasse que eu estava delirando, cheguei a reproduzir a imagem do Estadão online. Aproveitei para deixar no ar a pergunta sobre o que viria a ser uma cadeira «de alto couro ecológico».

Alguns distintos leitores fizeram a fineza de dar opinião. Conversa vai, conversa vem, ficou a impressão de que andávamos em círculo sem matar a charada. Não foi possível chegar a um acordo.

do Estadão, 30 abr 2016

do Estadão, 30 abr 2016

Pois neste sábado, 30 abril, o Estadão volta ao assunto com mais detalhes. Até certo ponto, esclarece parte de nossa dúvida. Como se podia já ter desconfiado, o estagiário que deu a primeira notícia havia interpretado mal o despacho da agência de notícias. Agora, a publicação do balanço patrimonial da firma de Lula Júnior desvenda parte do mistério.

Uma leitura atenta da relação de bens ensina que o significado do ítem ‘cadeira enc alto couro ecológ.’ não foi captado pelo estagiário. Na verdade, não é o couro que é alto, mas o encosto. Ah, agora ficou claro! O fato de o objeto valer 17 salários mínimos continua a ser mero detalhe. O que fica claro é que o espaldar é alto e o couro é ecológico.

Meia dúvida foi aclarada, pronto! Não tem mais essa de ‘alto couro’. Sobra, no entanto, o segundo termo da incógnita: que vem a ser ‘couro ecológico’? Até agora, a melhor interpretação supõe ser couro vindo de vacas alimentadas com capim desnatado. SMJ.

Cadeira 1Adendo ecológico
Nossa cadeira não está desacompanhada, largada num canto do escritório. O balanço patrimonial da firma de senhor Lula Júnior informa que, além da indigitada cadeira, há ainda uma poltrona de espaldar médio e uma poltrona cromada. Ambas de ‘couro ecológico’. Naturalmente. Fica evidente a preocupação do clã com a preservação da saúde do planeta.

Adendo etimológico
O vocabulário restrito de quem deu a notícia não lhe permitiu identificar o que se escondia detrás da abreviatura «esp». Especial? Qual nada! Em assuntos de cadeira, «esp» indica o espaldar, a espalda.

E que vem a ser? É o que chamamos, em linguagem caseira, as costas da cadeira. A raiz *spatula, que se desenvolveu no latim medieval, dava nome à parte do corpo situada no alto das costas, na altura da clavícula e da extremidade superior do úmero. Em miúdos, é o que chamamos espádua ou ombro.

ViolinoO espaldar da cadeira é justamente onde encostamos o ombro. Na mesma família há um parente mais utilizado. É o verbo respaldar e seu irmão, o substantivo respaldo, ambos transmitindo a ideia de dar apoio.

Menos comum mas também parente é o termo spalla, palavra italiana para designar o primeiro violino de uma orquestra. É o músico que respalda os demais, que lhes dá apoio.

Paraciclos

José Horta Manzano

Muitas das mazelas do Brasil vêm da confusão entre o que é público e o que é privado. Essa mistura não é nova nem é exclusividade brasileira. A discussão é antiga e vem de longe.

Na Idade Média europeia, o senhor feudal tinha direitos absolutos sobre seu domínio. Tudo lhe pertencia: terras, águas, construções e… gentes. O bem público simplesmente não existia.

Bicicleta 4No século 18, o conceito perdurava. Embora a propriedade privada já começasse a ser reconhecida, o rei ainda era visto como virtual proprietário do país. Na França, a mudança foi brutal. Aconteceu durante a Revolução Francesa, com a abolição dos privilégios. Em outros países, a evolução foi mais suave.

No Brasil, a separação entre o que é de cada um e o que é de todos tem-se feito com lentidão e ainda está longe de ter sido assimilada por todos. Até hoje, boa parte dos cidadãos não se deu conta dos limites.

Bicicleta 5Um exemplo recente está no assalto a empresas públicas – falo do petrolão. Os assaltantes têm vaga noção de haver cometido um “erro”, mas não se compenetram de que meteram a mão no dinheiro do povo. Podem até, numa hipótese extrema, admitir que levaram a grana de uma empresa, sem se dar conta de que embolsaram, na verdade, dinheiro suado do contribuinte. O pior é que o contribuinte assaltado continua acreditando que os facínoras levaram dinheiro «da Petrobrás», sem perceber que o lesado foi ele mesmo.

Li, estes dias, que a prefeitura paulistana publicou manual destinado a instruir os cidadãos que desejarem instalar um paraciclos – neologismo saboroso que nomeia dispositivo onde se pode estacionar uma bicicleta. Que ninguém reclame: escapamos de um «stopbike». Uff.

A intenção ecológica seria louvável, não fosse o reforço que traz à confusão entre o que é de cada um e o que é de todos. Proprietários de imóvel ficam autorizados, desde que sigam algumas regras, a plantar o dispositivo na calçada, no passeio público.

Bicicleta 7Para quem vive em terras onde é nítido e rigoroso o limite entre o público e o privado, a prática paulistana é desnorteante. Com que então, todo cidadão fica autorizado a instalar no espaço público – chumbado em caráter permanente – um bem móvel que lhe pertence? A mim, deixa-me perplexo.

Bicicleta 6A nova regra alimenta e reforça um dos grandes vícios nacionais. O que é de cada um tem de ser cuidado por cada um. O que é de todos só pode ser cuidado pela autoridade pública. Cabe à prefeitura montar paraciclos, assim como lhe cabe instalar postes, pontos de ônibus, placas de sinalização, bancos de jardim, estátuas e todo o mobiliário público urbano.

Muitos reclamam – com razão – da atitude de cidadãos que se apoderam de ruas sem saída e as fecham, impedindo a entrada a concidadãos e privatizando, assim, o bem público. Pois a permissão dada a particulares para instalar paraciclos é passo na direção errada. Borra a nitidez da linha divisória entre o público e o privado.

De gatos e pássaros

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 dez° 2014

«Quando non c‘è il gatto, i topi ballano» – quando o gato não está, os ratos fazem a festa. Aprendi esse provérbio, faz muitos anos, com um velho comandante da Marinha italiana. Havia lutado nas duas Grandes Guerras e, naquela altura, já estava reformado. Dono de aguçado senso de humor, quando lhe perguntavam sobre a guerra, costumava retrucar com um meio sorriso: «Qual delas? A que ganhamos ou a que perdemos?» É que tinha combatido tanto no primeiro conflito mundial – que seu país havia vencido – quanto no segundo, que terminou no desastre que conhecemos.

Fiat ElbaAdaptando o ditado à atualidade brasileira, é forçoso admitir que os gatos andam meio distraídos. Também, pudera: com a avalanche de notícias assombrosas que o saqueio à Petrobrás tem provocado, a realidade fica distorcida e a mente, atordoada. Diz-se que, quando uma pessoa morre de acidente, é um drama; quando meia dúzia perecem, é uma tragédia; quando dez mil perdem a vida, é estatística. A espoliação da estatal está nesse patamar.

Como se sabe, cada novo escândalo relega o anterior ao esquecimento. O assalto à petroleira é de tal magnitude que chega a ofuscar fatos que, em tempos normais, teriam subido à ribalta. Vão longe os tempos em que o velho Adhemar de Barros amargou processo criminal por ter-se apoderado de uma urna marajoara, pote de barro pertencente ao patrimônio coletivo. E aquele antigo presidente, então, atropelado por um Fiat Elba? Bons tempos…

Bruja 4A comilança anda inflacionada. Hoje, figurão que se contentar com propina abaixo de dez milhões faz papel de bocó. Nem o «sub do sub» – parodiando o linguajar peculiar de antigo presidente – se vende por menos. Enquanto isso…

… enquanto isso, os ratos estão fazendo a festa. Sorrateira, a obra de desconstrução nacional continua. Vai-se comendo pelas bordas, que é para não dar na vista. A grande mídia, fascinada pela inacreditável feira de indecência que povoa o andar de cima, não tem tempo (nem ânimo) de se ater a miudezas.

Bruja 3Em pleno período eleitoral, um deputado fez arrepiante revelação ao plenário da Assembleia Legislativa de Goiás. Denunciou a perniciosidade de um «kit folclórico» distribuído a aluninhos de 6 anos da rede escolar pública de Goiânia. Segundo o deputado, o material ostenta a (outrora) prestigiosa chancela do MEC. Um mês e meio depois, a acusação foi repercutida na Câmara Federal – sinal evidente de que a queixa não havia surtido efeito.

Segundo a Agência Câmara de Notícias, que divulga a denúncia do parlamentar federal, a cartilha dá receitas de magia negra, notadamente um desconcertante «feitiço para transformar criança em passarinho». O «kit» insta os pequeninos a reunir penas de pássaro preto, água benta e alpiste. Prescreve que as penas sejam arrancadas do pássaro vivo enquanto estiver cantando. Em seguida, penas, água benta e alpiste devem ser misturados num caldeirão. Enquanto mexe, a criança deve repetir a fórmula mágica «passarinho quer pousar, não deu, quebrou a coluna».

Brujo 1Chocado, distinto leitor? Eu também. É estarrecedor, como diria nossa presidente, um verdadeiro atentado. Não atino qual possa ser o objetivo dos preclaros autores dessa insídia. Permita-me duvidar que a «receita» tenha sido inserida na cartilha unicamente para divertir os pequeninos.

Num primeiro escorregão, o livrinho incita à crueldade contra animais, prática abjecta, condenada no mundo civilizado. Na contramão do decoro ecológico, patrocina a extinção de toda uma família de aves, como se a diversidade biológica fosse assunto de somenos. Pior: abre caminho para que um pequerrucho imaginoso, julgando-se transformado em ave, se atire pela janela. (O alvo são crianças de seis aninhos!) Para coroar, ao associar água benta a práticas de feitiçaria, o «kit» lança dardo envenenado a um símbolo da religião mais praticada no País. Em outros tempos, tal sacrilégio levaria os autores à fogueira.

Rato 2Não tenho a ingenuidade de imaginar que a água benta tenha entrado na receita por descuido. Estará aí a ponta do fio que, emaranhado, deu esse novelo bizarro? De alguns anos para cá, os fatos têm mostrado que o inimaginável se tornou corriqueiro no Brasil. Donde se pode inferir que o intuito tenha sido assestar mais um preciso golpe de picareta na desconstrução do que nos resta de princípios decentes. A marcha em direção à Idade Média segue galharda.

A grande mídia não se alvoroçou. A Igreja não se manifestou. Sociedades protetoras de animais não se agitaram. Devo estar eu fazendo papel de bocó. Quer saber? Que os ratos façam a festa.

 

Último ATTO

José Horta Manzano

Há quem ainda garanta que é iminente o perigo de «uzamericânu» invadirem a Amazônia a fim de se tornarem os maiores produtores de açaí e de cupuaçu.

Mas tudo tem seu lado bom. Se isso acontecer, o guaraná ― bebida nacional por excelência ― passará a ser importado. Exatamente como uísque escocês puro malte. Quer coisa mais chique?

Já no final dos anos 1980, diante do risco de perder o controle de um naco do território nacional, os governantes militares da época decidiram desenvolver o Projeto Sivam. O nome, que soa bem, é feliz abreviação de SIstema de Vigilância da AMazônia.

A intenção era instalar uma teia de radares para monitorar a região. Um problema barrava a estrada, entretanto: a tecnologia necessária não estava disponível no Brasil.

O Planalto foi obrigado a seguir o rumo inevitável: para se prevenir contra futuras invasões, solicitaram ajuda… ao pretenso futuro invasor. Encomenda foi passada a uma empresa dos EUA. Depois de os militares terem sido mandados de volta à caserna, os sucessivos governos federais cuidaram de levar adiante o programa.

Assim mesmo, ainda há quem garanta que a ameaça persiste. Asseguram que «uzgríngu» estão à beira de nos arrancar um naco do território, justamente aquela região que antigamente ninguém queria. Era até descrita, com certo desdém, como o «inferno verde». Estamos numa democracia ― a cada um é permitido cultivar suas fobias como bem entender.

Atto 1Um outro tipo de monitoramento se tem feito necessário estes últimos anos. As alterações climáticas que se anunciam não são ameaças regionais, mas planetárias. Apesar de continuar encolhendo à vista d’olhos, a região amazônica ainda tem peso considerável no meio ambiente global.

Faz alguns anos, formou-se um consórcio entre agências brasileiras e ― quem adivinha? ― americanas para monitorar o ecossistema amazônico. São várias instituições, algumas entrando com o financiamento e outras, com a tecnologia. A USP e até o Instituto Max Planck, uma espécie de MIT alemão, integram o grupo.

Atto 2Na prática, está em construção uma altíssima torre ― alguns metros mais alta que a Torre Eiffel ― em plena Amazônia brasileira. Deve ficar pronta até o fim do ano. Seu objetivo é coletar dados científicos que, reunidos e analisados, levarão a um entendimento mais amplo da evolução do meio ambiente da floresta tropical.

Só nos resta aplaudir. Com um reparo, porém. O projeto de trinta anos atrás foi nomeado seguindo o acróstico formado pelas palavras em nossa língua (SIstema de Vigilância da AMazônia). O novo empreendimento tomou caminho mais moderno.

A Torre Alta de Observação da Amazônia deveria ser conhecida por TAOA. Ou Taoam, que soa até melhor. Não foi o que decidiram. O projeto tem o nome oficial de ATTO, por Amazonian Tall Tower Observatory.

Fica no ar a sensação de que «uzamericânu» já tomaram conta da região. E ninguém nos avisou.

Campeã da poluição

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz décadas que a corrente ecologista alemã é influente. Uma de suas bandeiras tem sido a erradicação da energia nuclear. O desastre de Fukushima acelerou dramaticamente o movimento.

Central atômica 1Para fugir da insegurança nuclear, os alemães têm aumentado a produção de eletricidade a partir de matéria fóssil: petróleo, gás, carvão. Mas nada sai de graça. Afastam-se os riscos ligados a um acidente nuclear, é verdade, mas surgem os inconvenientes da queima de combustível fóssil.

Despacho da AFP repercutido pelo jornal francês Les Echos nos dá conta de que a Alemanha, com 760 milhões de toneladas emitidas em 2013, é o maior produtor de CO2 da Europa. Pior que isso, é um dos cinco países da União Europeia onde a produção de gases com efeito de estufa está aumentando em vez de diminuir. Em 2013, foram 2% a mais que no ano anterior.

O abandono da produção de energia atômica afasta o perigo imediato de um acidente grave. Sua substituição pela queima de matéria fóssil, no entanto, aumenta o risco de mudanças climáticas de consequências catastróficas.

Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come.

Medida interessante

José Horta Manzano

Apesar de se enquadrar perfeitamente no Zeitgeist — nos ventos que sopram atualmente sobre a humanidade — a consciência ecológica não traz no seu bojo todo o lastro necessário para assumir o comando de um país.

Atmosfera

Atmosfera

É importante estar consciente dos riscos que corremos. Perturbações climáticas, secas, enchentes, poluição das águas, desertificação, uso abusivo de pesticidas, alimentação animal inapropriada, o rosário de perigos é extenso. É função dos ecologistas alertar governos, autoridades e povo.

De fato, a cada ano que passa, pipocam novos partidos preocupados com a preservação da saúde do planeta e de seus habitantes. É preciso tomar consciência de que os recursos naturais são finitos, a contaminação da atmosfera está ocorrendo em ritmo acelerado, a desertificação ganha terreno em muitos cantos do globo.

Essas ideias, conquanto sejam essenciais para a conservação da vida, não constituem uma ideologia em si, uma linha de governo. Eis a razão pela qual as agrupações ecologistas — ou verdes, como são chamadas em certos lugares — são obrigadas a aliar-se a partidos politicamente fortes e bem implantados.

Na França e também no resto da Europa, os verdes tendem a aliar-se aos socialistas. Em princípio, poderiam optar por aproximar-se da direita. Nada impede que ainda venham a fazê-lo no futuro.

O peso do eleitorado verde ainda não conferiu aos movimentos ecologistas massa crítica suficiente para vencerem eleições majoritárias — a presidência da República, por exemplo. No entanto, os eleitores sensíveis a temas de proteção da natureza não deixam de formar uma minoria cada vez mais importante. Todos os governos fazem o possível para agradar esse grupo de cidadãos. Ou, pelo menos, para não os desgostar.

A medida foi decidida já faz alguns anos, mas só entra em vigor agora. A partir deste primeiro de outubro, as empresas de transporte francesas estão obrigadas a informar ao viajante a «empreinte carbone» correspondente ao percurso.

Meios de transporte

Meios de transporte

Francês inventa palavra para tudo. Às vezes fica difícil traduzir. Eu sugeriria «rastro de carbono», ou seja, a quantidade teórica de carbono que o viajante «despejará» na atmosfera em razão daquele percurso. Conto-lhes o exemplo dado hoje pela Rádio France-info, aquela que dá notícias 24h por dia, uma espécie de CBN francesa. Antes mesmo de comprar sua passagem, o viajante poderá tomar conhecimento da quantidade de CO2 que será lançada na atmosfera. Para uma viagem de trem de Paris a Berlim, uma pessoa despeja 12kg de carbono na atmosfera. Se percorrer o mesmo trecho de avião, rejeitará 121kg. Se preferir ir de automóvel, serão 145kg.

Essa informação constará obrigatoriamente no site da empresa transportadora e também no bilhete de passagem. Parece-me uma excelente iniciativa. Não faz mal a ninguém e vai incitando as novas gerações a entender que a natureza é frágil.

Quem cuida, tem. Se não cuidarmos, vamos legar a nossos descendentes um mundo em estado calamitoso.

A infraestrutura

José Horta Manzano

«Carregado com 37 toneladas de soja, o sete eixos de placas HKE 0878, dirigido por Sonildo Alves de Souza, de 40 anos, saiu da Fazenda São Luis, em Ipiranga do Norte, no Mato Grosso, na sexta-feira, dia 8. O motorista atravessou quase 2 mil quilômetros, numa viagem de quatro dias, até chegar ao Porto de Santos, litoral de São Paulo, no começo da noite de segunda-feira. Mas chegar é uma coisa; entregar a encomenda, é outra. Sonildo teve de esperar 31 horas na fila de caminhões para descarregar no terminal de granéis da T-Grão, na Avenida Silo do Porto de Santos.

No final da tarde de terça-feira, 20 horas depois da chegada à Baixada Santista, o cargueiro servia de sombra para a rede do motorista, estacionado perto da Praça Guilherme Aralhe, onde fica a empresa T-Grão Cargo – Terminal de Granéis, endereço final da soja do cerrado. “Antes da meia-noite não descarrega”, previa Sonildo, atirado na rede, já conformado com a longa espera na fila dos caminhões.»

Esses são os dois primeiros parágrafos do artigo de autoria de Pablo Pereira, publicado pelo Estadão online de 17 de março. Para quem se interessar em continuar a leitura, fica aqui o endereço.

Caminhão 2

.:oOo:.

Faz alguns anos que se fala nas vantagens que traria a implantação de um trem-bala no trecho Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro. Pode até ser. Por meu lado, acredito que os trinta ou quarenta bilhões que teremos de desembolsar para essa obra faraônica seriam bem mais úteis se empregados para ressuscitar nossas antigas ferrovias.

Se a Europa pode dar-se ao luxo de calcar sua logística majoritariamente em transporte ferroviário, por que não poderíamos nós? Trem é poderoso, forte, seguro, não poluente, confiável. Uma só composição pode transportar carga equivalente à de dezenas de caminhões. Dos grandes. Trem não tem medo de chuva, barro, tempestade, vento.

Se nem os Estados Unidos, sempre na ponta do progresso tecnológico, abandonaram suas ferrovias, por que devemos nós banir as nossas?Caminhão 1

Segundo a canadense Michelle Lalande-Dery, autora do livro La suite des idées (Les Editions Lucange, Québec, Canadá), a via férrea apresenta vantagens consideráveis. Algumas estão elencadas abaixo:

A ferrovia é o meio de transporte ecológico do futuro, movido a energia limpa.

O transporte de frete por trem consome 1/3 da energia necessária para transportar o mesmo peso por estrada.

Um trem pode transportar uma tonelada de mercadoria por uma distância de 169km com um litro de combustível.

No caso de locomotivas movidas a diesel, o reservatório tem capacidade para 15’000 litros. A maior parte dos trens pode percorrer mais de 1600km sem precisar reabastecer.Caminhão 3

Numa distância de 1 km, um caminhão consome 13 vezes mais energia que um trem para transportar uma tonelada de frete.

Uma via férrea de um único par de trilhos equivale a uma via expressa de 14 pistas paralelas.

Um comboio de 200 vagões transporta tanto quanto 400 carretas rodoviárias.

Acrescentar um único trem de frete à rede equivale a retirar da circulação até 280 caminhões.

.

Precisa mais?

O homem do saco

Você sabia?

José Horta Manzano

Homem do saco

Homem do saco

Quando éramos crianças, ouvíamos palavras estranhas sem entender direito o que significavam.

Dorme, Nenem
Se não a cuca vem
Papai foi na roça
Mamãe saiu também

Quem é essa tal de cuca? Até hoje não descobri.

Tem um outro que nos assustava mais ainda. Quando alguma das crianças era impertinente, como se dizia, a mãe vinha logo com a chantagem: «Menino, sossega, se não o homem do saco vem e te pega!».

As crianças não sabiam direito quem era esse homem do saco, mas a perspectiva de ser atirado dentro de um embornal e carregado no escuro para lugar desconhecido, longe de casa, costumava ser eficaz. A criança birrenta se acalmava. Pelo menos, por algum tempo.

A imagem do saco já não assusta como antes. O que atrapalha os adultos que agora somos não é mais o medo do saco ― é o preço dele. Explico.

Estes dias, todos os habitantes do município suíço em que vivo receberam um aviso da prefeitura. Estamos avisados que, a partir de 1° de janeiro de 2013, um esforço financeiro será exigido de todos, com vistas a financiar a incineração ou a reciclagem do lixo doméstico.

Taxa do lixo

Taxa do lixo

Por um lado, uma taxa anual de 70 francos (85 dólares) será cobrada de cada habitante maior de 18 anos. E não adianta espernear. Não escaparão nem os que, porventura, tiverem apenas uma casa de campo no município. Todos terão de contribuir, é de lei.

Por outro lado ― e essa é mais doída ― uma segunda taxa será cobrada. Essa outra mordida será já incluída no preço dos sacos plásticos que já faz anos que somos obrigados a usar para o lixo doméstico. O valor irá às alturas: o saco mais utilizado, de 35 litros, passa a custar 2 francos cada (2.50 dólares), preço salgado.

Para uma família de dois adultos que utilize, digamos, 3 sacos por semana, a conta final vai sair por uns 450 francos/ano (550 dólares). É muito.

É muito? Pode ser. Mas foi a maneira encontrada para forçar a população a fazer a triagem do lixo doméstico. Andaram estudando a composição do lixo do município e se deram conta de que, em média, apenas 28% do que é coletado nos sacos é realmente lixo alimentar (cascas de legumes, restos de comida). O resto é reciclável, principalmente embalagens de papel e papelão, plásticos, vidro.

Os antigos diziam que, quando não vai por bem, vai por mal. Para aqueles em cuja cabecinha a consciência ecológica não havia ainda despertado, a nova fórmula será radical. Vão aprender rapidinho.

Como sabemos todos, a parte mais sensível do ser humano é… o bolso.