Qui se ressemble – 4

José Horta Manzano

Doutor Weintraub, atual titular do Ministério da Educação, tem mostrado que, além de ser o mais mal-educado dos ministros, é também o que mais comete erros de grafia. Pra um homem pago justamente pra vigiar a educação dos brasileiros e pra cuidar dela, pega mal pra caramba.

Não faz quinze dias, atirou-se feito um rottweiler contra Monsieur Macron. Num piado lançado nas redes sociais, tratou o presidente da França de calhorda. Nada menos que isso. Não é espantoso, vindo de um ministro? Ministro da Educação, frise-se!

Passou. Na sexta-feira dia 30, nosso herói voltou suas baterias contra a ortografia. Espezinhou-a. Não satisfeito com ter escrito no tuíter, algum tempo atrás, incitar com s (insitar), reincidiu. Pra mostrar que sua falta de familiaridade com a língua é ampla e abrangente, mandou novas palavras para o cadafalso.

Desta feita, o megaescorregão foi perpetrado num texto de apenas 8 páginas. A primeira vítima foi paralisação, escrita duas vezes com z (paralização). Destemido, o ministro se esbaldou. Mais adiante, no mesmo documento, escreveu suspensão com ç (suspenção).

Este último erro é mais grave que os outros. Dado que suspensão é palavra corriqueira, dessas que se encontram a cada esquina, a grafia deveria estar fixada na cabeça de todos os alfabetizados. Escorregar aqui significa absoluta falta de intimidade com a escrita. Errar assim já é embaraçoso para o cidadão comum; para o ministro da Educação, é imperdoável. É verdadeiro crime de responsabilidade, a ser punido não com “suspenção”, mas com destituição do cargo.

Diferentemente do tuíter, onde Sua Excelência pia e comete deslizes com os próprios dedinhos, o documento de oito páginas há de ter sido datilografado(*) por um assessor. Das duas, uma: ou o ministro assina sem ler, ou é conivente com a fragilidade ortográfica do datilógrafo(*).

A meu ver, nem ele nem o assessor estão em condições de continuar no cargo. Ambos são caso de pessoa errada no lugar errado.

«Qui se ressemble s’assemble – os semelhantes se atraem».

(*) Datilografar é verbo arcaico, hoje desaparecido e substituído por digitar.

Vale a pena ler de novo ‒ 1

Post publicado originalmente em jan° 2013

Interligne 28a

Trinta e uma dicas de Português

José Horta Manzano

Enluminure A 11. Vc. deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. O escritor deve prescindir de recorrer ao uso de estilo de escrita em demasia rebuscado. Tal prática costuma advir do excessivo esmero com que exibicionistas ― nem sempre ínclitos ―, cuja autoincensação decorre justamente do parco conhecimento linguístico de que dispõem, chegam a raiar o paroxismo narcisístico, sem contar, para tanto, com supedâneo sólido no que tange à formação escolástica no campo da língua pátria.

3. Anule aliterações antipáticas altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.

Ortografia 45. Fuja de lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando parecer relevante) é geralmente desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem vernácula são o top.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou?… Então, valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é erro fatal em todas as circunstâncias.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai-se tornar palavra repetitiva. A repetição da palavra pode até fazer que a palavra repetida desqualifique o texto onde tal palavra for constantemente repetida.

Enluminure B 112. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: “― Quem cita os outros não tem idéias próprias”.

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, isto é, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, ou seja, basta mencionar cada argumento uma só vez. Por outras palavras: evite repetir a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que usar a moderação.

Ortografia 322. Evite mesóclises. Repita comigo: “Mesóclises: evitá-las-ei!”

23. De regra importante esquecer não nunca: crucial a das palavras é ordem!

24. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

25. Não abuse das exclamações!!! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!! Acaba parecendo uma tuitada!!!

26. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia por elas abarcada e, por compreenderem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna seu conteúdo accessível, forçam, destarte, o infeliz leitor a dissecá-las nos seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

27. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língoa portu-guêza.

28. Seja incisivo e coerente. Ou não.

Alfabeto 329. Não vá estar escrevendo (nem vá estar falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e vai estar causando ambiguidade. Com certeza, você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda vão estar acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza de que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em abandonar esta maneira irritante de estar falando.

30. Venha cá, meu rei! Outra barbaridade que deves evitar, tchê, é usar expressões que denunciem a região de onde vens, ô meu! Uai…esquece esse trem! Vixi… entendeu, bichinho?

31. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém vai aguentar, já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

Engraçado

José Horta Manzano

Você sabia?

A expressão «sem graça» não admite hífen. Escreva sempre assim, ao natural, fazendo cara de paisagem: sem graça. É tão simples, que a gente se pergunta como é que tem gente que acha difícil.

Eu disse simples? Quanta ilusão!
Se um lado sobe, o outro desce
Na primavera, tudo floresce
Sem primavera, não há verão
Na ortografia, não há perdão.

Já vem a vingança: «sem-gracice» exige o sinalzinho. Quem se esquecer do hífen leva zero. Conheceu?

Não ficou claro? Pouco interessa.
É oficial. Não se discute!
Espernear? Se aborrecer?
Você vai ter de obedecer.

PT ou BR

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 jun 2015

Ortografia 2Dia 13 de maio, comemoramos a Lei Áurea, que pôs fim à escravidão oficial e entrou para a hagiologia nacional. Em Portugal, o 13 de maio celebra a Virgem de Fátima. Este ano, porém, um clamor quase empanou o fervor. É que, justamente nesse dia, entrou oficialmente em vigor, em terras lusas, a grafia determinada pelo Acordo Ortográfico alinhavado em 1990 pelos integrantes do clube lusófono.

No Brasil, a resistência ao AO90 foi pouca, não passou de protestos frouxos. O adiamento da entrada em vigor, programada agora para o fim deste ano, nem tinha razão de ser. Na prática, Inês é morta: a nova grafia já mandou a antiga às favas.

by Fábio Nienow, desenhista gaúcho

by Fábio Nienow, desenhista gaúcho

Mais do que pelo sol tropical, o brasileiro tem o couro curtido pelas lambadas que levou ao longo dos séculos. Revoluções, golpes de Estado, implantação e supressão súbita de leis, reviravoltas políticas repentinas e constantes, insegurança jurídica causam aflição crônica. Com paciência beneditina e resignação bovina, aprendemos a engolir pronunciamientos e a lidar com eles. Dançar conforme a música não é, entre nós, mera figura de estilo.

Calejados por sucessivas reformas ortográficas, não opusemos grande resistência a essa enésima modificação. O que mais nos incomoda é o pouco tempo que tem decorrido entre remodelações. Pessoas que, em 1990, tinham 55 anos ou mais viram-se obrigadas a aprender a escrever pela quarta vez! Alfabetizadas pela antiga grafia pseudoetimológica, já tinham sido forçadas a se adaptar à reforma de 1943 e à de 1971. A de 1990 amolava, sim, ainda que o desconforto não se tenha convertido em rebelião.

Orthographia 1Já em Portugal, a perspectiva de alterar hábitos de escrita encontrou oposição vigorosa. A resistência não se prendia aos mesmos motivos que provocavam mau humor no Brasil. O problema estava mais para orgulho ferido que para simples aborrecimento.

De um século para cá, houve numerosas tentativas de harmonização da escrita entre Brasil e Portugal. Nenhuma vingou. Em 1907, a Academia Brasileira de Letras propôs novas regras, que não foram seguidas nem mesmo no Brasil. Em 1911, Lisboa alterou profundamente a escrita – mas a novidade só valeu para Portugal. Em 1931, nova tentativa de aproximação gorou. O Brasil fez grande reforma em 1943, ignorada por Portugal. Em 1945, foi a vez de Portugal remodelar sua escrita, sem que o Brasil acompanhasse.

Placa 15O AO90 propunha-se a acertar o passo desse fado do linguista doido. Mas a medida – ressentida em Portugal como insuportável intromissão estrangeira na língua, um crime de lesa-pátria, um terremoto – mexeu com os brios da nação e levantou protesto maciço. Nem a finalidade explícita da reforma, a unificação da língua escrita, aplacou os ânimos.

Conceda-se que, em Portugal, a reforma desfigura uma batelada de palavras de uso frequente, o que explica a grita, os libelos inflamados e a objeção indignada. Gente de peso, figuras públicas, escritores, políticos, linguistas opuseram-se ostensivamente às novas regras. Blogues de resistência cívica continuam na luta ainda agora.

Peço ao distinto leitor a amabilidade de lançar uma vista a estes dois fragmentos.

Interligne vertical 12«Minha mulher a dias, que labuta asinha mas esbanja lixívia em sanitas e autoclismos, queixou-se do novo lanço com portagem que lhe cabe enfrentar, com a carrinha, na hora de ponta. Posto que o trecho tenha ficado giro, sabe a desperdício. Deixa a molesta sensação de cobres terem sido deitados fora.»

«O abaixo assignado promette aos seus freguezes que todas as encommendas effectuar-se-hão com a maior promptidão e exactidão. Tambem encarrega-se de n’ellas ageitar quaesquer eventuaes concertos.»

O primeiro parágrafo, que segue escrupulosamente as normas do AO90, foi escrito em português europeu. Qualquer cidadão luso o lerá sem perder uma palavra. O segundo trecho, calcado em anúncio publicado num jornal brasileiro faz 150 anos, foi grafado no estilo antediluviano da época – mas em português do Brasil.

by Alexandre Affonso, desenhista

by Alexandre Affonso, desenhista

Essas duas passagens mostram que, para a mútua compreensão, pouco conta a grafia. Ainda que se alcançasse a harmonização, o efeito seria o de emplastro em perna de pau. Por mais que se reforme a escrita, a variante europeia e a brasileira seguirão, impávidas, inexorável rota de afastamento.

Pragmáticos e despidos de exaltações nacionalistas, softwares continuam a oferecer ambas as variantes: português-pt e português-br, à escolha do freguês. O AO90 ilustra a desabusada tirada de Horácio: «Parturient montes, nascetur ridiculus mus» – a montanha pariu um ridículo camundongo.

Vai acento aí?

José Horta Manzano

Nossa terra tem acentos
Que outras terras não têm.

Petrobras 3Pois é, conheço poucas línguas com tantos sinaizinhos gráficos como a nossa. Agudo, grave, circunflexo, til – são tantos! E olhe que nos proibiram de usar o trema, o mais charmoso de todos. O cê cedilha contribui para acrescentar exotismo a nossa escrita. Não é qualquer um que tem letra com rabinho.

No contexto lusofalante, a falta de um acento costuma surpreender. Um «mensalao» ou, pior, uma «corrupcao» deixa embatucado o leitor. O contrário é verdadeiro. Para quem não está habituado ao português escrito, nossos acentos parecem extravagantes. Deixam o leitor sem saber como pronunciar.

Por essa razão, futebolistas brasileiros radicados no exterior optaram por eliminar sinais gráficos de seu nome. Gazetas esportivas estrangeiras costumam grafar Brandao, Kaka, Cesar, Nene, Xandao, Leo, Fabio. Dá pra entender por quê.

Anos atrás, quando começou a se agigantar e a se internacionalizar, a Petrobrás enfrentou o mesmo problema. No estrangeiro, a maioria dos que viam aquele á, assim, com um risquinho em cima, titubeavam na hora de pronunciar. A companhia tomou a decisão de abandonar o risquinho. Virou Petrobras.

Enluminure A 1Nossa ortografia, periodicamente chacoalhada por pequenos sismos e pesados terremotos, ainda não cassou o acento agudo das oxítonas terminadas em a seguido ou não de s. Portanto, dentro das fronteiras tupiniquins, o nome daquela que já foi a maior companhia nacional deve-se escrever Petrobrás, assim, com acento.

Sabe Deus por que, a imprensa decidiu dobrar-se às exigências do marketing. É sintomático. Desvela a que ponto, em nosso País, maria vai com as outras. Propaganda e marketing fazem a lei.

Petrobras 3Consultei O Globo, Folha de São Paulo, Correio Braziliense, Estado de Minas, Zero Hora, Gazeta do Povo, Veja, Diário do Poder, Jornal do Brasil. Todos eles grafam Petrobras sem acento.

Mas nem tudo está perdido, minha gente. Sobrou o último dos moicanos. O respeitado Estado de São Paulo é o derradeiro baluarte. Bota acento no nome da petroleira. Eu também.

Frase do dia — 183

«Com todo o respeito que tenho por Antônio Houaiss, sua iniciativa para padronizar a escrita dos países lusófonos foi um desastre. Passados 24 anos da assinatura do acordo, as ortografias adotadas no Brasil e em Portugal continuam diferentes e nós, do lado de cá do Atlântico, passamos pelo levemente traumático, relativamente custoso e absolutamente inútil processo de reaprender a escrever.»

Hélio Schwartsman, filósofo, colunista da Folha de São Paulo, 20 set° 2014.

A Páscoa e os ovos

O chefe presenteou os subordinados com ovos de Páscoa. Feita a compra, pediu à secretária que pagasse a despesa. Eis o diálogo:

Ovo de Pascoa 1— Faça um cheque de 600 reais.

— Como se escreve seiscentos?

— Faça dois cheques de 300.

— Trezentos se escreve com s ou z?

— Não sabe escrever 300? Faça quatro cheques de 150.

— Chefe, o trema foi abolido?

— Pelo amor de Deus, mande pagar em dinheiro.

Surrupiado do blogue da Dad Squarisi.

Os dotô também erra

José Horta Manzano

Concurso de ortografia

Concurso de ortografia

A França deve ser um dos raros países em que se organizam periodicamente concursos de ortografia. Para nós, não faz muito sentido, mas para eles faz.

O português escrito é quase inteiramente fonético. Ao longo dos séculos, foram sendo abandonadas letras supérfluas. Assim, não escrevemos mais phtisica, mas tísica. Nichteroy virou Niterói. Assumpto, afflicto, prompto, appellido, deshonesto são hoje grafados assunto, aflito, pronto, apelido e desonesto.

Para reafirmar a tendência fonética de nossa norma, acrescentam-se letras a certos compostos para manter a relação entre a escrita e a pronúncia. Assim, escreveremos contrassenso, autossuficiente, contrarregra.

Pequenas reminiscências etimológicas subsistem em nossa grafia. Concentram-se nas palavras que comportam as sequências xc (excelente), sc (piscina) e, sobretudo, naquelas que tradicionalmente são grafadas com agá inicial (hora, hospital, herança, haver).

Em resumo, as armadilhas de nossa ortografia são poucas. A exceção a essa facilidade fica por conta da valsa dos hífens, que nos azeda a existência. Não é fácil entender a lógica que recheia maria-sem-vergonha de hífens e priva deles maria vai com as outras. No entanto, ficou combinado que assim é.

A língua espanhola, cuja pronúncia distingue um c de um s ― e ambos de um x ― é ainda mais fonética que a nossa. No topo do pódio, estão línguas como alemão, italiano e turco. Nelas, a cada som corresponde uma letra (ou um conjunto de letras) e a cada letra (ou conjunto de letras) corresponde um som. Na hora de escrever, fica fácil. Só erra quem estiver muito desatento.

Torneio de ortografia

Torneio de ortografia

Já o francês… ah, o francês! Embora a língua, de estrutura muito próxima à de suas primas-irmãs, deva ser classificada como latina, suas palavras sofreram erosão muito forte. Com o escorrer dos anos, sílabas se perderam, finais deixaram de ser pronunciados, sons se transformaram. O resultado é que o idioma francês está hoje recheado de homônimos, palavras que se pronunciam exatamente da mesma maneira, embora signifiquem coisas completamente diversas. E como diferenciá-las? A solução foi manter a escrita fiel à etimologia ― verdadeira ou suposta ― de cada palavra. Por exemplo, maire (o prefeito), mère (a mãe) e mer (o mar) se pronunciam do mesmo exato modo. Na fala, o contexto cuida de fazer a distinção. Na escrita, cada uma guarda algum traço de suas feições originais. A língua guarda profusão de consoantes duplas não pronunciadas, consoantes finais mudas, pê-agás que convivem com efes. Há quarenta maneiras de escrever o singelo som o.

Está aí a razão da existência de eletrizantes campeonatos de ortografia, de repercussão nacional, transmitidos em várias etapas pela tevê. Com provas eliminatórias, semifinais, a grande final, a premiação e a consagração do vencedor. Participam todos: adolescentes, adultos e velhos. Grafar corretamente as palavras é marca de distinção e de cultura. Todos aspiram a chegar lá, embora poucos consigam.

Esplanade François "Mitterand" Reims, França

Esplanade François “Mitterand”
Reims, França

Estes dias aconteceu um escândalo nacional. Para homenagear um antigo presidente da República, a cidade de Reims (no coração da região produtora de champanhe) deu a uma praça o nome do figurão. Só que, desastradamente, a placa contém um erro de grafia. Mitterrand foi escrito com um erre só. Horror e vergonha!

Nestas alturas, a sinalização já há de ter sido substituída às pressas. Mas, hoje em dia, o imediatismo da circulação das imagens não perdoa. O país inteiro ficou sabendo da gafe.

No Brasil, ninguém se impressionaria, mas, na França, é daqueles acontecimentos que causam comoção nacional.

Trinta dicas de Português

José Horta Manzano

1. Vc. deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. O escritor deve prescindir de recorrer ao uso de um estilo de escrita em demasia rebuscado. Tal prática costuma advir do excessivo esmero com que exibicionistas ― nem sempre ínclitos ―, cuja auto-incensação decorre justamente dos parcos conhecimentos linguísticos de que dispõem, chegam a raiar o paroxismo narcisístico, sem contar, para tanto, com supedâneo sólido no que tange à formação escolástica no campo da língua pátria.

3. Anule aliterações altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.Alfabeto

5. Fuja de lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando parecer relevante) é geralmente desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem vernácula são o top.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou?… Então, valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é um erro fatal em todas as circunstâncias.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai tornar-se uma palavra repetitiva. A repetição da palavra pode até fazer com que a palavra repetida desqualifique qualquer texto onde tal palavra se encontrar assim repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: “― Quem cita os outros não tem idéias próprias”.

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, isto é, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, ou seja, basta mencionar cada argumento uma só vez. Por outras palavras: evite repetir a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que usar a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: “mesóclises: evitá-las-ei!”

23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

24. Não abuse das exclamações!!! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!

25. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia por elas abarcada e, por compreenderem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo accessível, forçam, destarte, o infeliz leitor a dissecá-las nos seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língoa portu-guêza.

Alfabeto 227. Seja incisivo e coerente. Ou não.

28. Não vá estar escrevendo (nem vá estar falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e vai estar causando ambiguidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda vão estar acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza de que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando desta maneira irritante.

29. Outra barbaridade que tu deves evitar, tchê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região de onde vens, ô meu! Uai…nada de mandar esse trem… vixi… entendeu, bichinho?

30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém vai aguentar, já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

O remendo

O remendo 1José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 janeiro 2013

A língua portuguesa escrita não está longe de completar um milênio. Nos primeiros séculos, escrever não estava ao alcance de qualquer um. Só os eclesiásticos e os bem-nascidos eram letrados. Naquele contexto, a grafia das palavras dependia do gosto do freguês. Cada escriba manejava sua pluma da forma que melhor lhe aprouvesse.

Hoje e oj eram equivalentes; ver e veer também; coraçon e corazon eram aceitos indistintamente. A escrita não estava codificada, nem muito menos normatizada. Era o paraíso dos escritores, que, livres e soltos, não precisavam consultar dicionários, nem gramáticas. O distinto público leitor era, de qualquer modo, minguado. E dicionários e gramáticas ainda não haviam surgido.

O tempo passou, Gutenberg redefiniu a arte de imprimir, a escrita pôde enfim se popularizar. A estagnação medieval foi perdendo sua característica de imutabilidade das gentes e das coisas. Copérnico e Galileu movimentaram planetas, e o universo deixou de ser estático.

O uso de nossa língua também se acelerou. Num movimento espontâneo, a grafia foi-se fixando. Na ausência de normas, a escrita se propagou por imitação. Oj, veer e corazon foram rareando, suplantados pelos modernos hoje, ver e coração.

O 7 de setembro nos separou da metrópole, mas não influenciou a língua. Durante os 50 anos seguintes, famílias abastadas continuavam a mandar seus rebentos a Coimbra. Mesmo assim, a distância linguística entre Portugal e o Brasil foi aos poucos se alargando.

No limiar do século 20, tanto lá quanto cá, muita coisa havia mudado. A produção literária se avolumava. A instrução pública havia dado alguns passos tímidos na difusão da alfabetização. A população brasileira crescia a taxas elevadas e já havia superado a de Portugal. Nossa imprensa, refletindo o falar nacional, já tomava certas liberdades com relação ao rigor da escrita lusa.

Parecia importante que a escrita dos dois países seguisse o mesmo diapasão. No entanto, entre reformas e acordos, o que se viu foi uma inacreditável sequência de contrarreformas e desacordos. De 1907 para cá, a história registra desencontros tais como: reformas impostas aos brasileiros mas não aos portugueses (1971), reformas impostas aos portugueses mas não aos brasileiros (1973), acordos cumpridos pelo Brasil mas não por Portugal (1943), acordos cumpridos por Portugal mas não pelo Brasil (1945), acordos ignorados por ambos (1931). Uma verdadeira casa de mãe joana.

Em 1990, foi costurado um enésimo «acordo», surpreendentemente tímido, confuso e ambíguo. As aberrações se exacerbam quando se chega ao capítulo dos hífens. Sabia o caro leitor que maria-sem-vergonha deve ser escrita assim, com hífen, enquanto maria vai com as outras não admite o tracinho? Sabia que para-choque se escreve separado, enquanto paraquedas se escreve de uma tacada só?

O governo brasileiro, no apagar das luzes de 2012, adiou por 3 anos a obrigatoriedade da nova escrita. A meu ver, fez muito bem. Poderia fazer melhor ainda: deixar o dito pelo não dito e simplesmente revogar esse famigerado «acordo».O remendo 2

Já tivemos reformas suficientes estes últimos 70 anos : 1943, 1971, 1990. Um cidadão de 80 anos está enfrentando seu quarto aprendizado de escrita. Quem tem mais de 50 anos está aprendendo a escrever pela terceira vez. É muita coisa.

O inglês da Inglaterra difere consideravelmente do inglês americano. Há diferenças lexicais, sintáticas, prosódicas e, last but not least, gráficas. Isso não impede que o inglês seja, de facto, a língua universal.

A argumentação dos que alinhavaram nossa nova reforma era de unificar a escrita dos dois lados do Atlântico. No entanto, o volume de exceções é tão grande que a justificativa inicial perde a força. Com ou sem acordo, a escrita de lá será sempre diferente da de cá.

Outra alegação era de que a unificação nos facilitaria a obtenção de cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU. Balela. Nem que a escrita fosse idêntica ― o que não está previsto no acordo ― nosso País estaria em condições de ser aceito naquela confraria. Há outras condições que, infelizmente, não preenchemos.

Quando o remédio parece pior que o mal, como é o caso do AO90, é melhor deixar como está para ver como fica. Se nunca nos pusemos de acordo antes, por que nos poríamos agora? Com acordo ou sem ele, teremos sempre diferenças gráficas entre as duas variantes de nossa língua.

Deixemos que o tempo faça seu trabalho. O que não tem remédio remediado está. No próximo século, voltamos ao assunto.