Coincidência de eleições

José Horta Manzano

by Felipe Parucci, desenhista catarinense

by Felipe Parucci, desenhista catarinense

Como de costume, as grandes decisões – aquelas que realmente pesam e modelam o futuro do País – vêm a varejo, pingando, aos pedacinhos. Tradicionalmente, a atitude de nossos legisladores e dirigentes é reativa, raramente proativa. Estamos sempre correndo atrás do bonde da história. Parece que somos incapazes de produzir uma peça acabada, coerente, abrangente, com começo, meio e fim.

Temos agora parlamentares discutindo reforma política como se se tratasse de reforma de casa de campo. Não é. Reforma política tem de ser analisada de cabo a rabo e tratada como um conjunto. Exige tempo e muita reflexão. Tem de começar pelo começo: parlamentarismo ou presidencialismo?

Voto 1Já estamos tratando de coincidência de mandatos sem ao menos ter definido qual será o formato do regime. Puseram a carroça à frente dos bois. Enfim, já que o assunto do momento é frequência de eleições, vamos lá.

Democracia não é uma evidência. O natural de todo grupo humano – vale também para grupo de animais – é ter um chefe imposto pela força bruta. Quem pode mais, manda. Artificial, a democracia é conceito relativamente recente. Como toda novidade, tem de ser aprendida. E aprendizado, como sabem meus distintos leitores, se faz pela repetição. Quanto mais treino, melhor.

Voto 2O exercício do voto é como cartilha de alfabetização: quanto mais repetida, repassada e repisada for, mais resultados produzirá. A coincidência de mandatos é a negação desse aprendizado. O intervalo entre eleições tem de ser o menor possível. No mínimo, um voto por ano tem de ser organizado.

Urna 7Como fazê-lo? Cabe ao legislador decidir. Voto frequente, além de habituar o eleitor a participar do processo de escolha, tem a vantagem de servir como “recall”, como mecanismo de correção de rota. Partidos caídos em desgraça serão menos votados. Representantes que tiverem decepcionado a população serão despachados de volta pra casa e substituídos.

Dizem alguns que custa caro realizar eleição. Discordo. A longo prazo, sai bem mais caro suportar as consequências da não participação da população no processo de escolha de dirigentes. Afasta os liderados de seus líderes. Aliena, entorpece e embota.

De gatos e pássaros

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 dez° 2014

«Quando non c‘è il gatto, i topi ballano» – quando o gato não está, os ratos fazem a festa. Aprendi esse provérbio, faz muitos anos, com um velho comandante da Marinha italiana. Havia lutado nas duas Grandes Guerras e, naquela altura, já estava reformado. Dono de aguçado senso de humor, quando lhe perguntavam sobre a guerra, costumava retrucar com um meio sorriso: «Qual delas? A que ganhamos ou a que perdemos?» É que tinha combatido tanto no primeiro conflito mundial – que seu país havia vencido – quanto no segundo, que terminou no desastre que conhecemos.

Fiat ElbaAdaptando o ditado à atualidade brasileira, é forçoso admitir que os gatos andam meio distraídos. Também, pudera: com a avalanche de notícias assombrosas que o saqueio à Petrobrás tem provocado, a realidade fica distorcida e a mente, atordoada. Diz-se que, quando uma pessoa morre de acidente, é um drama; quando meia dúzia perecem, é uma tragédia; quando dez mil perdem a vida, é estatística. A espoliação da estatal está nesse patamar.

Como se sabe, cada novo escândalo relega o anterior ao esquecimento. O assalto à petroleira é de tal magnitude que chega a ofuscar fatos que, em tempos normais, teriam subido à ribalta. Vão longe os tempos em que o velho Adhemar de Barros amargou processo criminal por ter-se apoderado de uma urna marajoara, pote de barro pertencente ao patrimônio coletivo. E aquele antigo presidente, então, atropelado por um Fiat Elba? Bons tempos…

Bruja 4A comilança anda inflacionada. Hoje, figurão que se contentar com propina abaixo de dez milhões faz papel de bocó. Nem o «sub do sub» – parodiando o linguajar peculiar de antigo presidente – se vende por menos. Enquanto isso…

… enquanto isso, os ratos estão fazendo a festa. Sorrateira, a obra de desconstrução nacional continua. Vai-se comendo pelas bordas, que é para não dar na vista. A grande mídia, fascinada pela inacreditável feira de indecência que povoa o andar de cima, não tem tempo (nem ânimo) de se ater a miudezas.

Bruja 3Em pleno período eleitoral, um deputado fez arrepiante revelação ao plenário da Assembleia Legislativa de Goiás. Denunciou a perniciosidade de um «kit folclórico» distribuído a aluninhos de 6 anos da rede escolar pública de Goiânia. Segundo o deputado, o material ostenta a (outrora) prestigiosa chancela do MEC. Um mês e meio depois, a acusação foi repercutida na Câmara Federal – sinal evidente de que a queixa não havia surtido efeito.

Segundo a Agência Câmara de Notícias, que divulga a denúncia do parlamentar federal, a cartilha dá receitas de magia negra, notadamente um desconcertante «feitiço para transformar criança em passarinho». O «kit» insta os pequeninos a reunir penas de pássaro preto, água benta e alpiste. Prescreve que as penas sejam arrancadas do pássaro vivo enquanto estiver cantando. Em seguida, penas, água benta e alpiste devem ser misturados num caldeirão. Enquanto mexe, a criança deve repetir a fórmula mágica «passarinho quer pousar, não deu, quebrou a coluna».

Brujo 1Chocado, distinto leitor? Eu também. É estarrecedor, como diria nossa presidente, um verdadeiro atentado. Não atino qual possa ser o objetivo dos preclaros autores dessa insídia. Permita-me duvidar que a «receita» tenha sido inserida na cartilha unicamente para divertir os pequeninos.

Num primeiro escorregão, o livrinho incita à crueldade contra animais, prática abjecta, condenada no mundo civilizado. Na contramão do decoro ecológico, patrocina a extinção de toda uma família de aves, como se a diversidade biológica fosse assunto de somenos. Pior: abre caminho para que um pequerrucho imaginoso, julgando-se transformado em ave, se atire pela janela. (O alvo são crianças de seis aninhos!) Para coroar, ao associar água benta a práticas de feitiçaria, o «kit» lança dardo envenenado a um símbolo da religião mais praticada no País. Em outros tempos, tal sacrilégio levaria os autores à fogueira.

Rato 2Não tenho a ingenuidade de imaginar que a água benta tenha entrado na receita por descuido. Estará aí a ponta do fio que, emaranhado, deu esse novelo bizarro? De alguns anos para cá, os fatos têm mostrado que o inimaginável se tornou corriqueiro no Brasil. Donde se pode inferir que o intuito tenha sido assestar mais um preciso golpe de picareta na desconstrução do que nos resta de princípios decentes. A marcha em direção à Idade Média segue galharda.

A grande mídia não se alvoroçou. A Igreja não se manifestou. Sociedades protetoras de animais não se agitaram. Devo estar eu fazendo papel de bocó. Quer saber? Que os ratos façam a festa.

 

Lição de feitiçaria

José Horta Manzano

Você sabia?

Interligne vertical 10Feitiço para transformar criança em passarinho

Ingredientes:
Penas de pássaro preto, água benta e uma colher de alpiste.

Antídoto:
O feitiço dura apenas uma hora e não há antídoto para ele. Melhor esperar passar o tempo.

Modo de fazer:
Arranque as penas do pássaro preto enquanto ele estiver cantando. Use um pequeno caldeirão para misturar a pena, um pouco de água benta e uma colher de alpiste. Enquanto mexe, repita: “passarinho quer pousar, não deu, quebrou a coluna”.

Passarinho 4Estarrecido, distinto leitor? Também eu fiquei.

Acha que essa lição de crueldade é delírio de minha imaginação satânica? Está enganado.

Acredita que seja tradução mambembe de secular lenda mongol? Continua enganado.

Pois saiba que essa receita – abominável excrescência de imaginação primitiva e doentia – é parte integrante de um kit chancelado pelo Ministério da Educação. O material está sendo distribuído a crianças de seis, sete anos.

A denúncia, feita em plena campanha eleitoral, não recebeu atenção da grande mídia. Quem a lançou foi um deputado goiano, ao saber que a cartilha estava sendo distribuída aos aluninhos da rede municipal de Goiânia. O parlamentar pronunciou-se no dia 26 de agosto em sessão plenária da Assembleia de Goiás.

É inconcebível. O MEC – órgão da administração federal encarregado da política nacional de educação de nossos pequerruchos – que ensina as crianças a fazer e a se livrar de feitiçaria! Foge ao entendimento o fato de, num país onde se salvam pinguins e araras, outros pássaros estarem sendo condenados a ser depenados vivos, “enquanto cantam”. Sugestão emanada do MEC, dependência direta da presidência da República!

Passarinho 3Sabemos todos que o Brasil vem descendo a ladeira, mas, sinceramente, não imaginava que a regressão tivesse chegado a tal ponto. Se bem que há coerência: o MEC ensina hoje aos pequeninos o caminho da feitiçaria para que, amanhã, estejam preparados para conviver com a magia de nossa inefável ‘contabilidade criativa’.

Segundo Fábio Sousa, o deputado que revelou a prática, esse kit não é o primeiro nem o único. «Existe uma cartilha que conta a história de um bebê que mata a família com uma faca» – informa o parlamentar. E acrescenta que material de ensino do MEC inclui «diadema com chifres, chapéu de bruxa, peruca, unhas de mentira, cálice de caveira».

Em outras terras, uma revelação desse calibre derrubaria imediatamente o ministro da Educação. Mas Brasil é Brasil. E vamos em frente, que “nóis é mais nóis”.

O apocalipse ensombreia a civilização brasileira.

Interligne 18bFontes:
Revolta Brasil
Portal do Meio Ambiente
Portal Ucho
Lorotas políticas & verdades efêmeras

Cartilha da Fifa

José Horta Manzano

Na mais recente edição de sua revista semanal, a Fifa tirou do forno, fresquinho e crocante, um manual à atenção de estrangeiros desavisados que porventura se arrisquem a visitar o Brasil por ocasião da «Copa das copas».

O Estadão não gostou. Chamou de «cartilha» o que não passa de um punhado de obviedades abordadas num tom jocoso. O jornal paulista chega a tratar a «cartilha» de polêmica. Só falta desafiar a Fifa para um duelo de cavalheiros, como derradeiro recurso para lavar a honra. Qual… O Estadão está a cometer um rematado exagero.

O artigo ― assinado por Flávia Lopes Sant Anna e pelo editor da revista, Thomas Renggli ―, não faz mais que repisar clichês sobre comportamentos habituais dos brasileiros. Alguns desses chavões, aliás, fazem parte do arsenal de qualidades das quais nosso povo se orgulha.

«Manual» da Fifa ― texto

«Manual» da Fifa ― texto

Falta de pontualidade, lei do mais forte, dificuldade em dizer não, propensão ao contacto físico com o interlocutor ― beijos e abraços. Restaurantes que oferecem quantidades industriais de comida. Tendência a deixar problemas de molho para resolvê-los de afogadilho na última hora. São ou não são características nossas?

Já algumas semanas atrás, o Planalto se tinha indignado com camisetas de forte apelo erótico patrocinadas pela Fifa. A mais alta instância do futebol global reincide: os conselhos aos turistas vêm paramentados com foto de meia página mostrando beldades vestidas de sol.

Que fazer? É assim que somos vistos pelos estrangeiros. Mas, acredite, não há que se indignar. O forasteiro, olho fixo na promessa de prazeres tropicais, passa por cima dos inconvenientes.

Não há inverdades no manual da Fifa. Ele apenas reflete a imagem que, faz séculos, temos mostrado aos que vêm de fora. Os pintores Johann Rugendas e Jean-Baptiste Debret ― que certamente se cumprimentaram nas ruelas do acanhado Rio de Janeiro dos primeiros anos da Independência ― trataram de fazer chegar aos europeus uma imagem paradisíaca destas terras.

«Manual» da Fifa ― ilustração

«Manual» da Fifa ― ilustração

Um século mais tarde, Carmen Miranda, de chapéu de frutas e olhar malicioso, reforçou o padrão. Em nossos dias, nove entre dez estampas brasileiras de propaganda turística mostram sol, praias, pouca roupa, um agradável perfume de vida mansa e de dolce far niente.

Que resultado esperamos? Que turistas nos visitem imaginando encontrar uma Alemanha ou uma Noruega tropical? Que esperança! Eles vêm exatamente em busca das delícias dos trópicos.

Em vez de nos irritar, mais vale seguir o conselho final do manual da Fifa: «Relaxa e aproveita», em português no texto. É versão expurgada do pronunciamento vulgar feito anos atrás por uma senhora de fino trato ― hoje ministra da República.

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Obs:
Horas depois de ter suscitado reação indignada, o artigo desapareceu do site da Fifa.