Non è mai troppo tardi

José Horta Manzano

Quando conheci a Itália, faz quase meio século, a elevada proporção de analfabetos ainda destoava de vizinhos culturalmente comparáveis, como a França ou a Alemanha. A escolaridade já então era gratuita e obrigatória, naturalmente. No entanto, as duas guerras mundiais e as privações causadas por elas tinham contribuído para a persistência de bolsões de pobreza e de analfabetismo.

Se, dez anos depois do fim da Segunda Guerra, as crianças já estavam todas sendo alfabetizadas, ainda sobravam muitos adultos que não tinham tido a sorte de frequentar carteiras escolares. Pelo final dos anos sessenta, o governo da península decidiu resolver o problema. Implantou um programa de alfabetização de adultos chamado Non è mai troppo tardi, nunca é tarde demais.

Dado que a imensa maioria dos lares já possuía um televisor, o programa foi concebido sob forma de ensino à distância, com uma emissão televisiva diária, de segunda a sexta. Fez muito sucesso. Em 1968, considerou-se que o objetivo tinha sido atingido e o sistema foi descontinuado.

Estes dias, li a notícia de que a prefeitura de São Paulo decidiu conceder incentivos — isenção de alguns impostos e alívio de outros encargos fiscais — às firmas geradoras de empregos que vierem a se estabelecer numa determinada região da cidade. Lembrei-me daquelas velhinhas enrugadinhas que eu via na Itália tantos anos atrás, todas vestidas de preto, segurando um lápis entre os dedos calejados e hesitantes, num esforço para aprender a ler. Non è mai troppo tardi.

Velhinhos aprendendo by Salvatore Malorgio

Velhinhos aprendendo
by Salvatore Malorgio

Ao abrir mão de certas entradas fiscais, o que a prefeitura de São Paulo está fazendo é o que executivos municipais, estaduais e, sobretudo, federais tradicionalmente negligenciam: planejamento.

Não conheço o programa em seus detalhes, mas não é difícil entender que a perda momentânea de receita será compensada por alguma vantagem futura. No caso em pauta, o ganho pode-se ligar à mobilidade urbana, dado que grande contingente populacional já reside na região visada pela prefeitura.

Governante que se preza é aquele que cuida do planejamento em vez de dedicar seu tempo a preparar a própria reeleição e a tentar perenizar-se no poder. Os tempos em que, ignorante, o grosso da população servia de massa de manobra e se contentava com migalhas está acabando. Os anos que passam vão-se encarregando de desembaçar a vista do brasileiro. Lentamente, ele vai aprendendo a distinguir quem é e quem não é digno de ocupar algum cargo executivo.

A parte mais sensível do corpo humano, como sabemos todos, é o bolso. Prêmios e castigos monetários, incentivos e agravantes fiscais, enfim, tudo o que mexe com a carteira costuma surtir efeito.

Pouco mais de um ano atrás, o Correio Braziliense publicou um artigo meu sobre a importação de médicos — parece incrível, já faz mais de ano que se fala nisso! Para mitigar o problema da má distribuição dos esculápios no território brasileiro, eu propunha que se passasse pelo bolso, isto é, que se concedessem incentivos fiscais aos recém-formados. O artigo não está online no CB, mas, caso alguém se interesse, vai encontrá-lo no site da Rede Nacional de Advogados e também no site Direito Médico, Odontológico e da Saúde.

Oxalá o exemplo paulistano possa ser entendido e, o que é mais importante, imitado por prefeitos, governadores e — principalmente — pelo governo federal.

Nunca é tarde demais para planejar. O futuro, como diria sabiamente o Conselheiro Acácio, ainda está por chegar.

Passo tímido, pacote flácido

José Horta Manzano

Dia 13 de agosto — que não era sexta-feira —, a OAB passou às mãos da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal seu projeto de reforma política. É um projeto tímido, que está mais para gambiarra que para reforma. Assim mesmo, poucos acreditam que venha a ser debatido e sacramentado por suas excelências a tempo de valer para as eleições de 2014.

Palhaço

Palhaço

A reforma aventada tem, pelo menos, o mérito de existir. É mais uma prova de que a sociedade pensante brasileira não está acomodada, muito menos satisfeita, com o funcionamento da política no País.

A OAB garante que, uma vez introduzida essa modificação, desaparecerá o chamado «efeito Tiririca». Essa incongruência, que faz que meia dúzia de candidatos totalmente desconhecidos sejam eleitos a reboque dos votos excedentários recebidos por um candidato estrela, não é novidade no País. Antes do nobre palhaço, Clodovil, Enéas e outros personagens em voga já exerceram o mesmíssimo papel. Essas figurinhas carimbadas são, aliás, ultracobiçadas. E não só por partidos nanicos.

É uma distorção flagrante do sistema de representação popular, mas não é a única nem a pior. Como já tive ocasião de comentar neste espaço algumas semanas atrás (post Época de mudanças), algumas disposições da Constituição outorgada em 1988 traem o princípio basilar de que todos os brasileiros são iguais perante a lei. A limitação do número máximo (70) e do número minimo (8) de deputados que cada Estado tem direito de mandar a Brasília desvirtua a isonomia entre os eleitores. Na hora de escolher seus representantes, os brasileiros não são todos iguais. O voto de um roraimense vale pelo de dez paulistas. É disfunção tão flagrante, que fica difícil captar por que a Assembleia Constituinte de 1988 terá introduzido esse dispositivo.

Palhaço

Palhaço

Uma outra mudança que, mais dia, menos dia, terá de ser feita é a introdução do voto distrital. O Brasil tem Estados enormes e pouco populosos. Tem também Estados menores, mas densamente povoados. No sistema atual, cada Estado representa um distrito. Não é a melhor maneira de proceder. No final, não sendo ligado a nenhum distrito, a nenhuma região particular de seu Estado, o deputado não se sente na obrigação de representar ninguém em especial. Como corolário, o eleitor não se sente representado por nenhum deputado em particular. Aliás, poucos são os eleitores que se lembram em quem votaram. No voto distrital, o País é dividido em distritos, cada um com população equivalente. E cada distrito elege o seu deputado, em votação majoritária de dois turnos.

Para corrigir de verdade, uma nova Constituição teria de ser escrita. Mas isso, além de ser demorado e trabalhoso, incomoda muita gente. Não vai ser fácil chegar lá. Vamos ter de nos contentar com puxadinhos, como esse que a OAB está propondo. Que remédio?

Cá entre nós: no duro mesmo, o «efeito Tiririca» é produto da ignorância de imensos contingentes de nossa maltratada população. É pela instrução pública que as reformas deviam começar.

Miscelânea 07

José Horta Manzano

Briga de bandido

Certas coisas são tão notórias e evidentes, que não precisam mais ser mencionadas. Pelo contrário: mais vale fingir que não existem e mudar de capítulo.

A Folha de São Paulo nos relata a continuação da encrenca ligada a falcatruas em licitações para o metrô de São Paulo. Conforme já comentamos neste blogue três semanas atrás, a Siemens andou botando a boca no trombone para denunciar que foi passada pra trás em alguma dessas concorrências viciadas.

Note-se que o gigantesco complexo industrial, maior empregador privado da Alemanha, está implantado no Brasil há mais de um século, desde 1905. De repente, em 2013, se dão conta de que falta lisura às licitações para serviços públicos.

Caminhão Siemens

Caminhão Siemens

Isso parece mais briga de bandido, despeito de concorrente passado pra trás.

Aqui entre nós, que ninguém nos ouça: a Siemens, como outras grandes empresas alemãs, é acusada de ter colaborado com o regime nazista. Pior que isso, afirmam alguns que se serviu de mão de obra escrava durante a Segunda Guerra.

Se assim for ― e é bem provável que tenha sido ― temos aí um excelente exemplo do roto falando do rasgado.

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O roto pelo rasgado

Reportagem do Estadão, assinada por Fernando Gallo, informa que o governador de São Paulo efetuou uma substituição na chefia do Arquivo Público do Estado. Dispensou o antigo titular, afiliado ao PT. Em seu lugar, empoleirou um afiliado ao PSDB.

Desconheço a qualificação tanto do recém-demitido quanto do recém-admitido. O que me parece lamentável é que a direção do órgão técnico encarregado de zelar por nossa parca memória histórica seja tratado com tal leviandade.

Arquivo público não é sinecura de que se valham os governantes de turno para mimosear amigos e correligionários.

Só falta o governador de São Paulo se sair com a mesma justificativa usada por nosso inefável ex-presidente: se todos fazem assim, por que não eu?

Quando se pretende dar lições de moral aos outros, mais vale andar na linha. O governador está cobrindo sua casa com telhas de vidro.

Interligne 37e

Rasgou a fantasia

Encantaram-se todos com a notícia de que o prefeito de um município do interior paulista havia renunciado ao mandato por «descobrir» que o salário era insuficiente. Todos aplaudiram, acharam maravilhoso que um cidadão recusasse a se vergar à corrupção para aumentar seus ganhos.

Quanto a mim, fico aqui meio cismado. Por que, diabos, esse senhor esperou tanto tempo para rasgar a fantasia? É médico de formação, portanto, supõe-se que conheça as operações básicas e que esteja capacitado a agir dentro de um mínimo de coerência.

Ajuda financeira

Prefeito honesto

Com que então, o digníssimo senhor prefeito não se preocupou com o salário da função antes de se candidatar? E por que terá esperado quase um ano para renunciar? Esperava conseguir, uma vez eleito, algum «favor especial» que, no final, não lhe foi concedido? Será que não passou pela cabeça do digníssimo prefeito que sua renúncia está causando transtorno aos quase 20 mil habitantes do município, cidadãos estes que não são obrigados a aturar seus saltos de humor?

De gente assim prefiro manter distância. Quando se assume uma responsabilidade, vai-se até o fim. O ato cometido por esse senhor é por demais leviano para meu gosto.

Interligne 37e

To be, or not to be

José Horta Manzano

«There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy.»

William Shakespeare
Hamlet, Ato I, Cena 5

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A fala de Hamlet costuma ser traduzida livremente como «há mais mistérios entre céu e terra do que sonha nossa vã filosofia». Não corresponde exatamente ao texto original, mas transmite a mesma ideia.

A parafernália eletrônica atual tem acelerado a circulação da informação e dado suores frios a todos os encarregados de manter secretos certos fatos.

No entanto, apesar de todos os Snowdens da vida, das câmeras de vigilância, do esquadrinhamento de mensagens eletrônicas, algum mistério ainda perdura. E sempre há de perdurar.

Dia 25 de julho, duas jornalistas assinaram artigo na Folha de São Paulo revelando que um jovem cubano ― por coincidência chamado Fidel Castro ― havia sido internado no Hospital das Clínicas de São Paulo para tratar-se de um problema urológico.

Até aí, não há nada de espantoso. Ter nome semelhante ao do Líder Máximo não é um pecado. Ser cubano, tampouco. E a dignidade manda tratar os males do próximo e aliviar-lhe o sofrimento.

É a partir daí que começa o jogo de empurra. A internação do estrangeiro no HC foi sigilosa. Para garantir discrição, foi registrado na ala infantil. Um não identificado «integrante do governo brasileiro» foi o facilitador da admissão do paciente no hospital. Apresentou-o como parente do Comandante.

O Itamaraty alegou total ignorância dos fatos. José Dirceu, contactado por sua notória proximidade com os dirigentes da ilha, desmentiu que o doente seja parente dos Castros. Feitos os exames necessários, foi marcada cirurgia para o dia seguinte, no próprio Hospital das Clínicas.

Hamlet William Shakespeare

Hamlet
William Shakespeare

Embora pareça evidente, não está confirmado que a reportagem da Folha tenha tido alguma influência na evolução dos acontecimentos. O fato é que, apesar de a operação estar marcada para o dia seguinte, foi dada alta ao paciente às oito e meia da noite, no mesmo dia em que saiu a reportagem.

O Itamaraty continua sem saber o que aconteceu. Os dirigentes do hospital não foram encontrados. Médicos e enfermeiros, escudados atrás do segredo profissional, não podem dar maiores explicações. Tudo indica que não interessa a ninguém que se continue discutindo sobre este caso. Assunto encerrado.

O paciente foi-se. Escapou como um ladrão. Nada mais se publicou sobre o fato. Sobrou um saco de perguntas.

Quem era o doente? Estará ainda no Brasil? Terá sido operado? Estará no Sírio-Libanês, o hospital que costuma tratar os que vivem no andar de cima? Terá voltado a Cuba num avião medicalizado da FAB? Por que o primeiro artigo da Folha foi assinado, mas não o segundo (e último)? Quem era o «integrante do governo» que encaminhou o enfermo ao hospital? Como é possível que o Itamaraty não esteja a par de nada?

Muitas outras questões estão sem resposta e certamente assim continuarão in æternum.

Há mais mistérios entre céu e terra do que sonha nossa vã filosofia.

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Memória histórica

José Horta Manzano

Reportagem da Folha de São Paulo nos revela que, após a demolição de um casarão dois dias atrás, restam quatro palacetes na avenida Paulista, em São Paulo.

Desses quatro, dois estão tombados pelo órgão que cuida do patrimônio histórico, o que faz que, em princípio, nenhuma alteração do exterior desses imóveis seja permitida.

Estranhamente, dos dois outros sobreviventes, um só está parcialmente resguardado e o último, livre e desimpedido, continua sob risco de desaparecer a qualquer momento para dar lugar a um estacionamento ou a um prédio.

Casa das Rosas, projeto Ramos de Azevedo Avenida Paulista, São Paulo

Casa das Rosas, projeto Ramos de Azevedo
Avenida Paulista, São Paulo

Pelo que o artigo explica, o órgão protetor do patrimônio histórico segue uma estranha lógica para chegar a suas decisões. Não considera a região, o bairro, nem mesmo a avenida como um todo. Singelamente, baseia-se na idade de cada imóvel: os que datam do começo do século XX terão de ser preservados, ao passo que os que datam dos anos 60 podem ser destruídos.

Raciocínio peculiar. Não lhes passa pela cabeça que, daqui a mais 50 anos, as construções dos anos 60 também serão centenárias? Não se dão conta de que podem vir a ser cobrados por seus bisnetos pelas tolices de agora?

Em terras mais civilizadas, quando se deseja alterar o aspecto exterior de um imóvel, nem que seja minimamente, uma autorização da prefeitura se faz necessária. Ainda que seja unicamente para mudar a cor da pintura da fachada ou para substituir uma veneziana de madeira por uma de alumínio.

Nesses casos, considera-se que o interesse coletivo prima sobre conveniências particulares. Da porta para dentro, o proprietário é livre de dispor de seu bem como lhe apraz ― ressalvadas as obras que possam afetar a estrutura do imóvel, casos em que uma autorização é necessária. Já da porta para fora, considera-se que a casa não está sozinha no mundo. Faz parte de um conjunto arquitetônico sujeto a regras comuns de urbanização.

Se beber, não case

José Horta Manzano

Estar em desacordo ao mesmo tempo ― no mesmo dia e sobre o mesmo assunto ― com o editorial do Estadão e com o Secretário de Redação da Folha de São Paulo não é coisa que me aconteça com frequência.

No entanto, calhou. O assunto é uma polêmica em torno de um projeto de lei recém-aprovado pela Assembleia Legislativa de São Paulo que impõe a publicação no Diário Oficial do nome dos motoristas que tiverem tido sua autorização de dirigir cassada.

O Estadão qualifica o projeto de «infeliz», enquanto a Folha o considera um «retrocesso moralista». Quanto a mim, sinto-me um tanto preocupado. Será pelos anos que passam, será pela distância que me separa da terra de origem, não sei. O fato é que sinto dificuldade em entender a persistente suavidade das medidas de repressão ao crime e à irresponsabilidade.

Aquele que se põe ao volante de um automóvel depois de ingerir bebida alcoólica está assumindo um risco. Em primeiro lugar, contra si próprio ― pode abraçar uma árvore pelo caminho. Em segundo lugar, o que é muito pior, contra quem, por infelicidade, possa cruzar seu caminho.

Acidente de automóvel

Acidente de automóvel

O dolo, ou seja, a intenção de cometer um crime ou um delito é exatamente isso. O automóvel é uma arma. Aquele que se puser a manejá-la ciente de que suas faculdades de coordenação e de cognição podem estar alteradas assume o risco de matar. Incorre em dolo.

Em terras mais civilizadas, atitudes como essa levam automaticamente a um processo penal. Além da perda ― temporária ou definitiva ― da autorização de dirigir, naturalmente.

No Brasil, deploram-se 45 mil mortos a cada ano em acidentes da circulação. Numa comparação internacional em que se confronta o número de mortos com a frota em circulação, o Brasil ocupa um honroso 4° lugar. Os países em que se morre ainda mais facilmente são ― será coincidência? ― exatamente os outros Bric: Rússia (3°), Índia (2°), e China, a campeã.

Ter seu nome publicado no jornal me parece um tapa com luva de pelica, punição leve demais para dissuadir potenciais assassinos motorizados.

Numa terra em que até aquele que arrancou o braço de um ciclista e o atirou num córrego escapou rapidinho das grades, que importância terá ver o nome publicado no D.O.?

Um dos articulistas evoca eventuais problemas decorrentes de homonimia. É aborrecimento comum no Brasil, que afeta multidões de joões e josés. O número da CNH está lá para dirimir dúvidas.

Enfim, o melhor conselho é: se beber, não case. Nem dirija.

Miscelânea 03

José Horta Manzano

Descaso
Em seu blogue, Diego Zanchetta alerta os distraídos dirigentes da cidade de São Paulo para o fato de a bandeira brasileira desfraldada justamente na ultrasimbólica Praça da Bandeira estar degradada, com um rasgo velho de três meses.

Bandeira Brasil rasgada

Bandeira Brasil rasgada

Para quem não conhece, explico que a praça e sua bandeira monumental podem ser avistadas tanto do prédio da Prefeitura quanto da Câmara Municipal. Os ocupantes atuais desses dois mui oficiais imóveis não podem alegar ignorância.

Com certeza estarão todos por demais absortos por seus negócios pessoais, sem tempo a perder com essas picuinhas.

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De mal a pior
Para quem esteve estes últimos dias passeando na Groenlândia, informo que, na sexta-feira 24 de maio, a presidência de nossa República foi exercida pelo senhor Renan Calheiros.

Os que votaram no coronel devem estar felizes. De qualquer maneira, ninguém pode reclamar. O presidente do Senado foi escolhido por seus pares. Afora os suplentes, todos os senadores foram eleitos por nós. Ou não?

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Arrombada a porta, põe-se a tranca
Quinta-feira passada um incêndio pavoroso irrompeu numa distribuidora de petróleo estabelecida num bairro residencial(!) de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Uma jornada inteira de trabalho não foi suficiente para que os bombeiros dessem cabo das chamas. O sinistro alastrou-se por residências próximas. Uma pessoa perdeu a vida.

Depois da catástrofe, o Secretário Estadual do Meio Ambiente do RJ declarou que a empresa não tinha licença para funcionar.

É compreensível que um camelô, que carrega sua empresa numa sacola, monte sua banquinha sem autorização, numa esquina qualquer, enquanto o rapa não aparece. Mas… uma distribuidora de petróleo?

Fica no ar a pergunta: se uma distribuidora de petróleo pode operar sem a devida autorização, para que serve uma instituição com o pomposo nome de Secretaria Estadual do Meio Ambiente? Não é mais que um cabide de empregos?

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Argentinização
Esta semana a imprensa deu uma notícia inquietante sobre a inflação. A Folha de São Paulo intitulou a matéria «Prévia da inflação oficial desacelera em maio para 0,46%, diz IBGE».

Previsão de inflação

Previsão de inflação

De que estou reclamando? Se a inflação dá sinais de baixar, por que o descontentamento?

Está nas entrelinhas, meu amigo. O que me perturba é a palavra oficial, presente no título e no corpo do texto. Quando se fala em «inflação oficial», subentende-se que exista uma outra, não oficial.

Estaremos voltando ao inferno dos anos 1980 e 1990? Dizem alguns que a Argentina é o Brasil amanhã.

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Sem gritar água vai

José Horta Manzano

A cidade do Rio de Janeiro já ia para seus 300 anos de idade. Londres e Paris não estavam longe de completar o segundo milênio. No entanto, nenhuma delas contava com sistema de canalização de águas usadas. E como faziam as gentes?

Ora, é simples. No Rio de Janeiro, os dejetos eram acumulados em casa, em barricas de madeira chamadas cubos. Chegada a hora de esvaziar o tonel, um escravo levava a mercadoria para despejá-la na praia mais próxima ou nalgum córrego. Esse labor se desempenhava de preferência à noite, talvez para evitar que o cheiro nauseante assustasse eventuais passantes.Rua medieval 2

Já londrinos, parisienses e mesmo cariocas pertencentes à casta dos sem-escravo tinham de se virar sozinhos. Lavavam seus pertences em bacias e faziam suas necessidades em penicos. De manhã, abriam a janela e simplesmente atiravam a imundície na rua. Como sinal de cortesia para com eventuais passantes, gritavam antes: «Água vai!»(*). Não esqueçamos que o Rio de Janeiro contava já com alguns sobrados, o que não facilitava a vida de quem se encontrasse no momento errado no lugar errado.

As ruas, já desde a antiguidade, costumavam ter uma valeta central ou lateral ― um afundamento do calçamento de pedra. A finalidade era justamente escoar, bem ou mal, as águas servidas. O espaço público era tratado como lixeira. Sob climas tropicais, em especial, ruas e praças haviam de exalar uma abominável fedentina.

A ideia de canalizar o esgotamento doméstico foi um passo admirável. Começou, naturalmente, em Londres, centro urbano mais importante do planeta em meados do séc. XIX. De lá, espalhou-se pelo mundo.Paraty

Até cem anos atrás, o volume de lixo era relativamente baixo. Além daquilo que o esgoto canalizado podia levar, sobrava o lixo doméstico, em maior parte orgânico. Firmas e escritórios deixavam papel e papelão.

Com o inchaço das aglomerações, o volume de lixo, naturalmente, cresceu. Até os anos 1950-1960, os dejetos continuaram sendo basicamente constituídos de restos de comida e de papel. Isso favoreceu o aparecimento da figura do catador de papel, ofício exercido ainda hoje. Dos anos 60 para cá, a composição dos detritos foi-se diversificando. Com a irrupção dos diferentes materiais plásticos, já não se encontra mais lixo como antigamente.Rua medieval 3

Hoje em dia, o plástico ocupa lugar preponderante. O metal, praticamente inexistente no lixo antigo, aparece agora aos montes, usado que é para acondicionar bebidas várias.

Países mais adiantados se deram conta de que os hábitos da população tinham de ser modificados. Sete bilhões de humanos produzem milhares de toneladas diárias de lixo, em boa parte reaproveitável. Reciclável, sim, mas desde que se respeitem normas básicas. Lixo orgânico não pode estar misturado com material plástico nem com metais. Papel é um mundo à parte. Vidro, então, não combina com nada. Como fazer?

Alemanha e nações escandinavas, entre outras, já tomaram sua decisão há pelo menos 20 anos: a triagem tem de começar em casa. É muito mais fácil separar na origem do que esperar que esteja tudo misturado, melado e emporcalhado.

Hoje em dia, cidadãos de vários países ― entre os quais os suíços ― já aprenderam: selecionam os detritos antes de descartá-los. Chega-se a ter 7 ou 8 recipientes em casa, cada um para um tipo de lixo. Em seguida, os recipientes são esvaziados em caçambas específicas. O lixo orgânico será transformado em adubo. Os metais, o plástico, o vidro, o papel retornarão ao ciclo de fabricação de onde saíram. É questão de bom-senso.

Anuncia-se estes dias que o senhor Haddad, prefeito da mais populosa aglomeração brasileira, anda implementando o aperfeiçoamento das megacentrais de triagem de material reciclável. Pretende dar cursos profissionais a catadores de papel. Até empréstimo do BNDES está sendo pleiteado para essa finalidade. Veja o Estadão e O Globo.Rua medieval 1

Por mais que a sorte dos catadores de papel possa condoer nossos corações, somos obrigados a admitir que é ofício em via de extinção. Desapareceram os acendedores de lampião a gás, os amoladores de faca, os motorneiros de bonde, os funileiros que consertavam panelas, os escreventes de feira livre. Os catadores de papel desaparecerão também, que tenham ou não seguido cursos de capacitação.

Ao persistir na opção atual, que deixa a triagem do lixo a cargo do poder público, o prefeito de São Paulo não está prestando um favor à população. Como é habitual nos políticos brasileiros que o têm apadrinhado, o senhor Haddad demonstra não dispor da visão que se espera de um estadista. Afaga os catadores de papel e vai empurrando o resto com a barriga. As gerações futuras que se virem.

É, o fruto nunca cai muito longe da árvore.Interligne 05

(*) A expressão sem dizer água vai (ou sem gritar água vai) permanece até hoje na língua. É usada quando alguém comete um ato bruscamente, sem pré-aviso. Corresponde exatamente à expressão francesa sans crier gare e à espanhola sin decir agua va.

Bismarck tinha razão

José Horta Manzano

Leis & salsichas
Atribui-se ao homem político alemão Otto von Bismarck (1815-1898) uma citação que, traduzida em tupiniquim, fica mais ou menos assim: «Se a humanidade soubesse como são feitas as salsichas e as leis, teria pesadelos à noite».Salsicha

Cento e cinquenta anos depois do prussiano, Geraldo Alckmin (1952-), governador de São Paulo, acaba de dizer a mesma coisa. Usou palavras mais duras, mas a constatação é a mesma. Foi bem mais contundente que Bismarck.

Segundo reportagem da Folha de São Paulo, o governador disse: «O povo não sabe de um décimo do que se passa contra ele próprio, se não, ia faltar guilhotina para a Bastilha, para cortar a cabeça de tanta gente que explora esse (sic) sofrido povo brasileiro».

Por aí se vê que, lá como cá, ontem como hoje, pouca coisa mudou nas práticas políticas.

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Não é nem deixa de ser
A França foi o 14° país a instituir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. «Foi longe demais!», dizem uns. «Já estava passando da hora!», reclamam outros. Os dois campos têm razão.

Como já comentei neste mesmo espaço algum tempo atrás, não é a formalização do casamento, em si, que atrapalha tanto assim. É a autorização da adoção, que entrou embutida de contrabando no novo texto legal francês.

Por isso ― na minha opinião pessoal ― têm razão os que consideram que a lei extrapolou ao incluir a adoção plena. Têm também razão os que acham que o reconhecimento da união homoafetiva já não veio sem tempo.

Enquanto isso… enquanto isso, numa certa República que conhecemos bem, tergiversa-se. Na falta de um texto completo, abrangente, definitivo, claro, o brasileiro tem de recorrer a jeitinhos. Um remendo aqui, uma resolução ali, um decretozinho acolá. O CFM se mete, a OAB dá seus palpites, até o STF entra na dança. Já os congressistas, que foram justamente eleitos para fabricar leis, não estão fazendo seu trabalho.Justiça

Situações esdrúxulas se criam. Inseminação artificial pode. Adoção pode. Barriga de aluguel pode. Quanto a casamento, depende. Tem de encontrar um cartório de boa vontade. E um bom advogado em caso de contestação. Na falta de lei clara, conquistam-se direitos no grito, na marra, na valentona, na Justiça. Ora, o poder judiciário foi concebido para julgar na base da legislação existente, não para criar leis.

Fica difícil entender por que o parlamento brasileiro, tão rápido no gatilho quando se trata de reconhecer direitos de outras minorias, não legiferou até hoje com relação a essa realidade social.

Talvez seja influência das salsichas de Bismarck. Em outras palavras, os deputados devem ter avaliado que, se votarem uma lei autorizando claramente a união homossexual, perigam perder votos de adeptos de seitas neopentecostais.

Entre o bem de uma categoria de cidadãos e os votos de outra, ficam com os votos.

Le der des ders

José Horta Manzano

Vanzolini, 5 nov 2011
com minha irmã

Le dernier des derniers, abreviada em le der des ders é a expressão que os franceses usam para se referir ao derradeiro, ao último dos moicanos, a um acontecimento que assinala o fim de uma era.

Foi o que senti ao tomar conhecimento do desaparecimento de Paulo Vanzolini, aos 89 anos. Não sei que repercussão estará tendo a notícia no Brasil nestes tempos de rap e de funk. Quanto a mim, tenho realmente o sentimento de uma perda derradeira. Foi-se o último dos últimos.

Vanzolini, 24 set 2011
Roda de samba

Com sua partida, fechou-se um ciclo. Isso não quer dizer que não haja gente boa entre os modernos, mas os tempos são outros, o gosto musical mudou, a técnica se alterou, a MPB seguiu novos rumos. Dos sambistas tradicionais, não sobrou nenhum.

Não tenho a pretensão de fazer aqui um necrológio. Disso já cuidaram os jornais. Gostaria de frisar uma característica rara no panorama musical brasileiro: Paulo era um compositor que não dependia de suas músicas para ganhar a vida. Era, no mais puro sentido da palavra, um amador. Compunha por prazer, como queria e quando lhe dava vontade.

Vanzolini, 20 out 2012
De chapéu, como se deve!

«Duro de ouvido», sem formação musical, autor de compassos de pé quebrado, Vanzolini não era um músico que se interessava por lagartos. Cientista de formação, era um renomado zoólogo ― mais precisamente um herpetólogo, especialista em répteis ― que fazia uma musiquinha aqui, outra ali. Mas que musiquinhas!

Não foram centenas, mas as poucas que chegaram a ser gravadas são verdadeiros monumentos. Além das ultraconhecidas Ronda e Volta por cima, há preciosidades. Amor de trapo e farrapo, Cravo branco, Samba erudito, Praça Clóvis, Mulher que não dá samba são grandes composições.

Vanzolini, 15 set 2012
Roda de samba

Maior ainda que a musicalidade inata, o talento do Vanzolini letrista era excepcional. «Inveja é a raiva do pó contra quem o pisa», fragmento do samba Inveja está, a meu ver, no mesmo patamar do célebre «Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima».

Vanzolini, 5 mai 2011
com minha irmã e o neto dela

Ultimamente, embora debilitado pelo passar dos anos, Paulo Vanzolini conservava absoluta lucidez. Costumava frequentar um boteco na avenida Lins de Vasconcelos, em São Paulo, perto de seu Cambuci natal. Tinha lá sua mesa reservada. Vinha sempre acompanhado de dois ou três amigos para uma roda de samba improvisada.

Em algumas dessas ocasiões, familiares meus tiveram a sorte de passar momentos amigos com ele. Algumas fotos acompanham este post .

Oxalá outras mentes inspiradas e privilegiadas como a de Vanzolini possam surgir. Que descanse em paz.

Paulo Vanzolini
Citação

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Entre as dezenas de artigos que li estes últimos dias sobre Paulo Vanzolini, sobressai o escrito Cobras e lagartos, publicado por Cláudio Ângelo em seu blogue Curupira.

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Clique nas imagens para ampliar.

O Ipiranga 2

José Horta Manzano

Aos amigos que leram meu artigo de ontem ― O Ipiranga ―, explico que o de hoje é continuação do anterior. Aos que pularam o capítulo, peço que comecem por ler o de 12 de março. É a melhor maneira de se inteirarem do assunto.

.:oOo:.

O caso do ciclista mutilado provocou comoção nacional. É justo e compreensível. Mas cuidado! Não vamos deixar que o estupor nos leve a clamar por um governo autoritário.

Este não é um blogue que propague o cerceamento das liberdades garantidas. As leis maiores já estão aí, não faz muita falta criar mais. Meu sonho é que um dia ― talvez ainda longínquo, admito ― nossas leis sejam de fato cumpridas. Que o Brasil se torne um país civilizado.

Os brasileiros, nascidos e criados em território de povoamento relativamente recente, carecem dolorosamente do sentimento de pertencimento a uma comunidade. Mas não exageremos: nada é inteiramente negativo, nem nada é totalmente positivo.Bicicleta

O fato de nosso País ter sido formado por diferentes correntes de população tem seu lado bom. Levas de gente trazida à força da África, coletividades indígenas que já aqui estavam, bandos de aventureiros e de idealistas, torrentes de vítimas de perseguição, multidões de fugitivos da fome, grupos de imigrantes miseráveis, enfim, gentes de todos os quadrantes estão tentando construir a nação brasileira.

Nação? Chegaremos lá um dia, mas falta um pedaço de caminho. Tudo ainda está muito heterogêneo, há que dar tempo ao tempo e deixar que o caldo engrosse. O feijão ainda está meio cru, muito ralo. Falta cozinhar. Vamos precisar de muito tempo para amenizar as marcas inauguradas pela partilha do território entre os amigos do rei e aprofundadas pelo regime escravagista que vigorou durante 300 anos.

A doação de imensos territórios feita pelo monarca de Portugal a seus mais chegados é hoje objeto de breve menção na escola elementar. Quanto à segmentação da população entre escravos e cidadãos livres, essa terminou num 13 de maio, faz 125 anos. Essa é a História oficial mas, como diria o outro, na prática, a teoria é outra. Não há «discriminação positiva» nem sistema de quotas capaz de mudar mentalidades da noite para o dia.

Os brasileiros ― que isso nos agrade ou não ― dividem-se em duas categorias nítidas: os que mandam e os que são mandados. Se preferirem uma metáfora, há os que habitam no andar de cima e o resto, os do andar de baixo. Repito: constitucionalmente, somos todos iguais, mas o dia a dia se encarrega de escancarar a realidade. Alguns são mais iguais que outros.

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Os jornais de terça-feira 12 de março trouxeram a continuação do caso do ciclista atropelado, uma das ocorrências mais repugnantes de que tenho ouvido falar.

Que se instalem «ciclovias» e «ciclofaixas» somente em ruas menores! Essa foi a solução encontrada pelo prefeito do município mais populoso e mais rico do País. Poxa, que perspicácia, gente! Como é que ninguém pensou nisso antes? Se os ciclistas circularem somente por «ruas menores», não encontrarão mais motoristas bêbados e, por conseguinte, não terão seus membros decepados e atirados ao esgoto. Ah, como seria bela a vida se todas as ruas fossem «menores». Se simploriedade desse cadeia…

Pensam que estou brincando? Pois comprovem aqui.

Riacho Ipiranga, São Paulo

Riacho Ipiranga, São Paulo

O Estadão traz a declaração de «um dos advogados» do acusado ― sinal de que são vários ― segundo o qual a família do jovem criminoso estaria sendo ameaçada. Se for verdade, está aí outro sinal de que ainda é longo o caminho até chegarmos a um grau aceitável de civilização. O Direito Romano, dois milênios atrás, já consagrava o princípio da individualidade da culpa. Por pior que possa ter sido a influência da família, o culpado é o autor do delito. Alguns brasileiros ainda não captaram o ensinamento.

Por acaso, um outro causídico casual já se apresentou à mãe do atropelado e se propôs a assegurar a defesa de seus interesses. A senhora, atordoada pelo que aconteceu ao filho, ainda não sabe o que fazer.

Tudo indica que o acusado pertence ao andar de cima. Sua equipe de advogados saberá valer-se de todas as chicanas que nossa legislação oferece para tirá-lo rapidinho da cadeia e para protelar o julgamento. Daqui a alguns anos, quando e se o processo tiver lugar, não me espantaria que o jovem fosse apenas condenado a pagar algumas cestas-básicas. Seu verdadeiro castigo será o peso desse braço. Será obrigado a arrastá-lo até seu último suspiro.

Já o ciclista é morador do andar de baixo. É pobre e, como convém dizer hoje, euro-afrodescendente. Uma campanha foi lançada no facebook para arrecadar fundos para a compra de um braço mecânico para o infeliz.

Uma pergunta me atormenta: a quantos braços mecânicos equivalem os honorários de um advogado criminalista?

Tsunami urbano 2

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, pouco mais de duas semanas atrás, escrevi um artigo sobre um monstruoso erro de urbanização que foi ― e continua sendo ― cometido na cidade de São Paulo.2013-0308 Enchente

Dizia eu que, quando os jesuítas subiram a serra, quase quinhentos anos atrás, já chovia, e muito, nessa terra. Os drenos que a natureza havia pacientemente sulcado durante milênios foram ignorados. Acabaram sendo canalizados, ou seja, enfiados dentro de canos, literalmente. Os tubos foram calculados para um fluxo médio. Vê-se hoje que os períodos de subida das águas foram soberbamente menosprezados.

Deu no que deu. Reparem bem: as enchentes acontecem sempre nos mesmos lugares, exatamente nas regiões em que a natureza foi violentada. Como dizia um chefe que tive muito anos atrás, com seu carregado sotaque estrangeiro: «ninguém tapeia a natureza».

Hoje, pelo que li nos jornais, foi vez da Avenida Prof. Ascendino Reis, lá pelos lados do Ibirapuera. Por que justamente lá, bairro de classe média alta, lugar de gente fina? Ora, minha gente, porque por ali passava um dreno natural, um córrego chamado Uberaba. O fio d’água, margeado por vegetação, seguia pela atual Avenida José Maria Whitaker, passava por detrás da colina onde hoje está instalado o Aeroporto de Congonhas, dava uma guinada para oeste e desembocava no córrego Pinheirinho. Este, por sua vez, seguia até desaguar no Rio Pinheiros.Ascendino Reis 1952

Ascendino Reis 2013Taparam os córregos e acharam que o problema estava resolvido. Bairros foram arruados e terrenos foram vendidos. Só esqueceram de combinar com a natureza. Impassível, ela continua a verter suas águas pelos mesmos caminhos. Tanto se lhe dá que o escoadouro esteja asfaltado. Casas, automóveis, caminhões não são capazes de deter força maior que eles. Não há brucutu que segure uma enchente.

Para os curiosos, duas imagens seguem anexadas. A primeira, de 1952, mostra o Córrego Uberaba, ainda não canalizado. Note-se que passa por debaixo da Avenida Ascendino Reis. Não procurem a Avenida Rubem Berta, porque ainda não existia.

A segunda imagem, mais ou menos na mesma escala, foi tirada do google e mostra a mesma região nos dias de hoje. Os córregos sumiram do mapa. Mas a topografia continua igual. As águas seguem o mesmo caminho milenar.

Ninguém tapeia a natureza.

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Clique nos mapas para ampliar.

Tsunami urbano

José Horta Manzano

Tsunami é uma imensa vaga oceânica provocada por um tremor de terra, geralmente submarino. Chega a atingir altura de 30m ou 40m. Nada lhe pode resistir, nem central atômica.

Rua Frederico Steidel - fev° 2013Crédito: Danilo Verpa/Folhapress

Rua Frederico Steidel – fev° 2013
Crédito: Danilo Verpa/Folhapress

Queda de meteorito é outro fenômeno natural contra o qual pouco ou nada se pode fazer. O rochedo vaga pelo universo até que resolve cair em algum lugar. O risco de despencar em terra habitada é pouco, embora às vezes aconteça, como na Rússia, semana passada.

Diferentemente de fenômenos dos quais não podemos escapar, há aqueles que, se não podem ser banidos, podem, sim, ser controlados ou contornados. Enchentes e alagamentos fazem parte dessa categoria.

O clima do Sudeste do Brasil é subtropical chuvoso. Do sul da Bahia a Santa Catarina, chove. E cai muita água, geralmente concentrada em certos períodos do ano. Esse regime não começou na semana passada, já vigora faz alguns milhões de anos.

A natureza é sábia. Para muita chuva, muitos drenos. À diferença de outras partes do planeta, onde o clima é mais árido, nosso território é densamente provido de drenos naturais. São fios d’água, tanques, ribeirões, riachos, rios.

Os primeiros habitantes destas terras, aqueles que, por um engano histórico-geográfico, chamamos até hoje de «índios», bobos não eram. Jamais se estabeleceriam em zonas periodicamente inundáveis.

Região da Frederico Steidel - 1895

Região da Frederico Steidel – 1895

Região da Frederico Steidel - 2013

Região da Frederico Steidel – 2013

Durante os primeiros quatro séculos de ocupação das novas terras, o homem branco respeitou a sabedoria dos indígenas. Na cidade de São Paulo, até fins do século XIX, não viria à cabeça de ninguém urbanizar charcos ou zonas alagadiças. Sabiam que, se o fizessem, estariam garantindo problemas para o futuro.

De repente, sabe-se lá se terá sido por ignorância ou por cupidez ― provavelmente pela conjunção dos dois fatores ―, o homem decidiu que era chegada a hora de domar a natureza. Ingenua mas arrogantemente, sentiu-se capacitado para a empreitada.

Alagadiços foram drenados, cursos d’água foram escondidos debaixo de ruas novas, riachos tiveram seus cursos alterados, tanques naturais foram desativados. Mas esqueceram de combinar com as chuvas. Estas, como de hábito, continuaram a cair, impassíveis e abundantes. Deu no que deu.

A maior metrópole do País, vitrina e orgulho do povo, traz na alma a intrepidez dos bandeirantes, mas… tem medo de chuva. Uma pancada mais forte, e o caos se instala.

Neste 19 de fevereiro foi a vez da Rua Frederico Steidel, no centro da cidade, a um passo do Minhocão, a dois do Largo do Arouche, a três da Praça da República. E olhe que não foi aguinha de molhar a sola do sapato, não. Enchente de submergir motor de automóvel!

De onde vem esse problema recorrente? Pouco mais de um século atrás, como registra a planta da cidade publicada por Hugo Bonvicini em 1895, o arruamento da região ainda não estava terminado. Um riacho natural de escoamento das águas da Praça da República e de Higienópolis estava no meio do caminho. Estorvava. A municipalidade autorizou que se enterrasse o fio d’água. Por cima, abriu-se a Rua Frederico Steidel. A comparação da planta de 1895 com as imagens de 2013 mostra que a rua inundada ainda não existia 120 anos atrás.

Nos primeiros anos, o tubo dentro do qual o riacho foi aprisionado deu conta do recado. O crescimento selvagem da cidade, no entanto, provocou crescente impermeabilização do solo. As chuvas continuam caindo. Sem ter por onde se infiltrar, as águas respeitam a lei da gravidade: escorrem sempre pelos mesmos caminhos, estejam eles arruados ou não.

Buraco do Adhemar - 1967

Buraco do Adhemar – 1967

Pode-se encontrar paliativo para a situação. Se o problema das enchentes do Vale do Anhangabaú foi resolvido, não há por que deixar outras regiões ao deus-dará. É verdade que dá menos visibilidade política, mas melhorar a qualidade de vida de seus governados faz parte da tarefa de prefeitos e de governadores. Moradores das regiões descuradas também são eleitores.

Ninguém faz milagres, nem São Pedro.

O cantor das multidões

José Horta Manzano

Os mais jovens hão de me perdoar. Que é que se há de fazer? Cada um tem sua história, cada um se lembra daquilo que conheceu, cada um tem seus ídolos.

Se um dia eu lhes falar de Noel Rosa ou de Chiquinha Gonzaga, estarei relatando o que li ou o que ouvi dizer. Não fomos contemporâneos neste vale de lágrimas. Assim como meu sobrinho nascido em 2012 ― tenho um, não é figura de expressão ― aprenderá pelas coletâneas de músicas antigas quem foi Roberto Carlos ou o que cantava Beyoncé. Assim é a vida.

Eliete Negreiros escreveu um belo artigo publicado no dia 15 de fevereiro na Revista Piauí. Traz algumas pinceladas de Orlando Silva (1915-1978). Aquele que um dia foi o cantor das multidões teve uma existência de altos e baixos. Quem quiser conferir, que faça uma visita por aqui.

Não se pode dizer que Orlando fosse um deus de beleza, não era nenhum Apolo. Sua estrela começou a brilhar, como a de tantos outros, no rastro de um encontro fortuito, obra do acaso. Não tivesse havido aquele vis-à-vis com Chico Alves ― o inconteste rei da voz ―, jamais o jovem teria sido projetado no cenário musical brasileiro. Ele trazia um único predicado: sua voz. Melodiosa, afinadíssima, potente, um tiquinho anasalada, inimitável.

Para Chico, o indiscutível rei da época, 17 anos mais velho, o modesto novato despontava como uma promessa de continuidade. Não lhe pareceu ― como nunca foi ― um concorrente ou uma ameaça. Dizem que Francisco Alves, inteligente e arguto, era pessoa muito generosa.

Orlando teve uma fase de ouro fértil e festejada, mas, infelizmente, demasiado curta para alguém de tamanho talento. Não durou mais que uns dois ou três anos, nos idos de 1937, 1938. Minha mãe contava que chegou a presenciar alguma de suas apresentações. Na época, o espetáculo ocorria ao vivo, no superlotado auditório da Rádio Record, rua Quintino Bocaiúva esquina com rua Direita, em São Paulo ― o prédio ainda está lá. Ao final, as mocinhas sacavam tesouras de suas bolsas e se acotovelavam para cortar um pedaço da gravata do artista. Queriam levar para casa uma relíquia, um troféu.

O desastre de que o cantor foi vítima, relatado no artigo de Eliete, obrigou-o a longo tempo de hospitalização, quando recebeu doses de morfina para alívio das dores. O medicamento cavalar amenizou-lhe os sofrimentos, mas desgraçou-lhe a existência.

Orlando Silva - 1960    Crédito: jhm

Orlando Silva – 1960
Crédito: jhm

Como todos os opiáceos, a potente morfina induz à adição. Nosso desventurado Orlando Silva desceu aos abismos da dependência. O entorpecente, alidado ao consumo de bebidas alcoólicas, afastou o cantor de seu público. O ostracismo durou mais de uma dúzia de anos.

Quando Orlando tentou uma volta à ribalta, muito tempo havia passado, já estávamos nos anos 50. A valsa tinha saído de moda e o samba-canção começava a ocupar lugar na preferência dos ouvintes, já prenunciando a bossa-nova.

A voz do cantor também já não era a mesma. Não que tivesse envelhecido, não tinha ainda 40 anos de idade, mas o lampejo cristalino da juventude havia desaparecido.

Por teimosia, ou mais provavelmente por necessidade, Orlando persistiu. Gravou ainda alguns discos, mas as mocinhas já não disputavam retalhos de sua gravata.

Por mero acaso, tive ocasião de vê-lo pessoalmente, numa viagem que fizemos juntos num ônibus da Cometa, de Águas da Prata a São Paulo. Foi de relance, em janeiro de 1960. Munido de minha máquina fotográfica caixotinho, como se usava na época, tirei uma foto do cantor através do vidro. Estávamos esperando pela partida do coletivo. Foi de novo minha mãe quem exclamou: «Olha, aquele é o Orlando Silva!».

Na época, eu estava mais interessado em Ray Charles e Chubby Checker, mas assim mesmo bati a chapa. Saiu meio desajeitada, meio desfocada, mas fiz questão de inseri-la aqui no artigo.

Orlando Silva não estava mais portando gravata, que a moda tinha passado. Ainda que estivesse, já fazia tempo que as gentes haviam esquecido o cantor das multidões. Não foi senão muitos anos mais tarde que aprendi a conhecer e a apreciar sua arte.

Como costumava dizer minha avó:

Tudo passa
O tempo corre
Passa o tempo
E tudo morre.

Alvíssaras!

José Horta Manzano

Séculos de presença árabe na Península Ibérica deixaram marcas. Visitas tão demoradas não se esquecem assim tão facilmente. O tempo se encarregou de apagar muita coisa, mas a língua tratou de guardar o que lhe pareceu apropriado. Entre milhares de termos, expressões, palavras, uma cai especialmente bem hoje. Alvíssaras!Visages

Os dicionaristas não são uníssonos quanto à origem da expressão. Para o Houaiss, o Aulete e o Priberam, virá do árabe al-bixra ou al-buxra. Para o Aurélio, o termo é descendente de al-basara. Pouco importa. Todos concordam que se trata de uma boa nova. Uma excelente nova!

A notícia, publicada pelo Estadão de 28 de janeiro e repercutida por Exame e pela Veja, é um começo de uma suspeita de uma esperança de um início de um primórdio do advento de uma solução para o gravíssimo problema da concentração urbana que marca o Brasil atual.

A falta de visão ― sempre ela! ― que caracteriza nossos governantes desde Tomé de Souza gerou um filhote bastardo: a falta de planejamento. Bastardo ou legítimo, o fruto não costuma cair muito longe da árvore. Temos aí mais uma prova. Governantes que exercem sua função com a ideia única de enricar e de preservar seu poder não se preocupam em preparar um futuro melhor para seus governados.

O vácuo total de planificação do crescimento populacional de nosso País engendrou uma desorganização na implantação da infraestrutura. Enquanto algumas poucas regiões concentram uma oferta regular de serviços básicos, outras carecem do estrito necessário. O Brasil, potência econômica de que mutos se orgulham, tem ainda municípios sem esgoto, sem água tratada e até sem estrada de acesso. Um desequilíbrio incompreensível. Visível e perigoso.Multidão

A atração que os centros dotados de alguma oferta de serviços tem exercido, ao longo das décadas, é irresistível. O resultado é o inchaço desmedido de algumas concentrações humanas e o despovoamento de territórios inteiros, largados ao deus-dará.

Não é fenômeno exclusivamente brasileiro, longe disso. É característica dos países do Terceiro Mundo, hoje pudicamente chamado de «países em desenvolvimento» ou até, com certo exagero, de «nações emergentes».

A concentração de multidões em espaço exíguo acaba por provocar efeito perverso. Ao invés de se elevar, o nível dos serviços decai. Ao final, o que se vê é um amontoado humano em que uns poucos bem-nascidos ou bem-sucedidos se locomovem em helicóptero, enquanto aos demais resta apinhar-se em sacolejantes e improváveis transportes coletivos. Lentos, ruidosos, desconfortáveis e sobretudo perigosos.

A melhor notícia do dia ― e das últimas semanas ― é a intenção do governo paulista de implantar 400km de linhas férreas radiais regionais, a partir da capital do Estado. Entendamo-nos bem: estamos, por enquanto, na fase das boas intenções. Nada nos garante que o desafogo da região central venha a ser realidade tão já.Multidão 2

Assim mesmo, intenção por intenção, essa é das boas. Caso ― digo bem: caso ― se concretize, servirá de exemplo para outras concentrações populacionais por esses brasis afora.

Resta-nos esperar que não esteja longe o dia em que nossas «metrópoles», de que tantos parecem se orgulhar, perderão suas características africanas e se aproximarão de padrões aceitáveis.

Alvíssaras, pois! Pior que está não fica. O resto se vê depois.

Para comemorar o aniversário

José Horta Manzano

1900 - Antigo Viaduto do Chá

1900 – Antigo Viaduto do Chá

Hoje é 25 de janeiro. A cidade de São Paulo comemora seu aniversário oficial. Para os paulistanos, é feriado, viva! Mas há polêmica em torno da data.

Uns dizem que os jesuítas não podem ter construído a igreja da noite para o dia, portanto, marcar uma data de fundação da cidade é termo equivocado. A missa realizada às 6h da manhã de 25 de janeiro de 1554 simbolizaria apenas a inauguração de um núcleo já fundado e habitado.

Outros invocam o fato de já existir, naquela altura, um outro núcleo colonial mais antigo, situado em Santo André da Borda do Campo. O mandachuva do lugar era o português João Ramalho, aquele que nossos livros de História nunca explicaram direitinho como é que tinha conseguido subir ao planalto antes dos jesuítas, desbravadores oficiais.

O novo povoado inaugurado em 1554 nada mais seria do que a transferência do bastião já existente em Santo André para um local mais seguro, mais facil de proteger. Se a colônia já estava lá, não pode ter sido fundada no dia e no ano que nossa historiografia reteve. O 25 de janeiro seria, portanto, apenas o dia da mudança.

1925 - Antigo Viaduto do Chá

1925 – Antigo Viaduto do Chá

Seja como for, na falta de provas cabais com firma reconhecida em cartório, fiquemos com a data oficial. Vale tanto quanto qualquer outra.

Para combinar com o dia, quero falar-lhes sobre o Viaduto do Chá, um dos símbolos maiores da cidade. O que nem todos sabem é que o viaduto que conhecemos hoje não é o original. Um outro existiu antes dele.

Jules Martin (1832-1906), um imigrante francês bastante ligado às artes e à arquitetura, apegou-se de tal modo à cidade que passou a se empenhar em resolver alguns de seus problemas. Muito conhecida é sua planta de São Paulo, feita com arte e esmero em 1877. Por essa mesma época, veio-lhe a ideia de construir uma ponte ligando o centro da cidade aos novos bairros que surgiam do outro lado do vale do Anhangabaú.

Não foi empresa fácil. Reunir os fundos necessários, convencer os edis, obter ganho de causa na desapropriação de casarões pertencentes a figuras influentes, tudo isso foi uma batalha que consumiu 15 anos. O viaduto foi finalmente inaugurado em 1892, assentado em sólida estrutura de ferro importado.

A cidade cresceu muito e muito rápido. Trinta anos mais tarde, a obra começou a parecer acanhada, estreita, insuficiente. Novo projeto foi feito.

1945 - Novo Viaduto do Chá

1945 – Novo Viaduto do Chá

Desta vez, o leito da ponte teria o dobro de largura e ficaria assentado sobre um elegante arco de concreto sustentado por dois largos pilares. O novo viaduto, esse que está lá até hoje, foi inaugurado em 1938.

Mas… que fazer entre a demolição do primeiro e a construção do segundo? Como fariam bondes, automóveis e transeuntes para atravessar de um lado para o outro? A solução encontrada foi simples: primeiro, constrói-se o novo; só então, demole-se o velho. E assim foi feito.

O novo viaduto não ocupa, portanto, o lugar exato do antigo. Fotos, vistas, gravuras da velha construção e da nova encontram-se por toda parte. O que eu nunca tinha visto era um retrato das duas pontes coexistindo: a nova já pronta, e a velha ainda de pé. Consegui, por um desse acasos difíceis de explicar, uma foto de 1938, creditada a Benedicto J. Duarte, que mostra justamente o breve período em que as duas construções coabitaram, uma praticamente colada à outra. A raridade fotográfica está logo mais abaixo.

O viaduto da esquerda é o novo, mais largo. Talvez no futuro se encontre algum outro testemunho visual desse momento singular. Por enquanto, acredito eu ser essa a única imagem.

Atualmente - Novo Viaduto do Chá

Atualmente – Novo Viaduto do Chá

No primeiro plano, à direita, está o prédio da Light, hoje transformado em centro comercial. Sempre à direita, mais ao fundo, percebe-se o prédio Matarazzo em construção, um dos raros testemunhos da arquitetura mussoliniana existentes na cidade. Depois da débâcle do império Matarazzo, o prédio serviu de sede para o Banco do Estado (Banespa). Atualmente, abriga a Prefeitura do município.

No fundo, à esquerda, vê-se o Palacete Prates, na esquina da Praça do Patriarca com Líbero Badaró. Seria demolido nos anos 60 para ceder lugar a uma torre de vidro que guarda o nome do antigo proprietário. É o Edifício Conde de Prates.

Feliz aniversário, São Paulo!Viaduto do Chá I e II

Nota: Clique nas fotos para aumentar

Nosso aeroporto

José Horta Manzano

Quase três décadas atrás ― faz exatamente 28 anos neste 20 de janeiro ―, foi inaugurado o novo aeroporto de São Paulo. No começo, chamou-se indiferentemente Guarulhos ou Cumbica. Mais tarde, tentaram impor-lhe o nome do político que ocupava o cargo de governador do estado à época da inauguração. Parece que não pegou. Não é comum alguém dizer que apanhou seu voo no Franco Montoro. Continua sendo conhecido como Guarulhos ou Cumbica.

Desde os tempos em que o Padre Anchieta subiu a serra, faz meio milênio, para exercer seu apostolado no planalto, já se sabia que o sopé das encostas da Cantareira era sujeito a nevoeiros e brumas frequentes. Pior que isso, o caminho para se chegar lá, partindo da cidade de São Paulo, tem de atravessar, obrigatoriamente, o vale do Tietê.

Canal principal de drenagem das águas tropicais da região, o rio sempre foi alagadiço na estação das chuvas. A fraca declividade de seu leito, o alastramento da mancha urbana e o descaso dos habitantes e de seus dirigentes só fizeram agravar o problema.

O que é verdadeiro hoje, já o era quando foi escolhido o lugar onde se erigiria a nova estação aérea: o local não é adequado. Além disso, a via de acesso corre risco permanente de estar tomada pelas águas.

A lógica indicava duas saídas. A primeira delas, mais evidente, era transformar o já existente sítio de Viracopos em aeroporto metropolitano. A estrutura de base estava pronta e boa parte das desapropriações já tinham sido feitas. O clima da região é bem menos sujeito aos caprichos úmidos de Guarulhos. O problema maior era o afastamento de 95km da capital. A ideia de se implantar uma linha de trem expresso entre o terminal aéreo e a metrópole não vingou.

A segunda saída apontava para um compromisso. Aceitar a instabilidade climática de Guarulhos, mas compensar o risco com um acesso rapidíssimo e garantido o tempo todo. A ligação férrea seria bem mais curta (23km), portanto, muito menos onerosa.

Sabemos todos que os decididores da época optaram pela pior solução: escolheram construir no sítio menos adequado e, como se não bastasse, passaram por cima do fato de que um aeroporto é, em princípio, frequentado por passageiros. Deixaram que o problema do transporte rápido e seguro fosse resolvido pelas gerações seguintes.Aeroporto Guarulhos

Sabe-se lá quais foram as absconsas razões que levaram as autoridades a tomar essa decisão. Dizem uns que os militares que governavam o País na época só bateram o martelo quando se certificaram de que o novo aeroporto civil seria instalado junto à base aérea já existente. Dizem outros que interesses mais escusos ― e não necessariamente voltados ao bem-estar da população ― guiaram a escolha.

O fato é que Guarulhos, 45° aeroporto do mundo em movimento de passageiros segundo a última lista publicada pelo Airports Council International, é um dos raros ― provavelmente o único entre os 50 maiores ― a não oferecer a seus passageiros o conforto de uma ligação férrea frequente, rápida e segura com o centro da metrópole.

Essa incúria, à qual brasileiros dão de ombros como se fosse fatalidade incontornável, talvez explique em parte a forte baixa na chegada de turistas. As estatísticas do Aeroporto de Guarulhos mostram que a entrada de visitantes provenientes dos 26 maiores países emissores encolheu 20% entre 2005 e 2011. Estamos falando de 400 mil chegadas a menos, a cada ano. É um bocado de gente!

Mas nem tudo está perdido, caros leitores! Como trinta anos atrás, novos projetos continuam a pipocar esporadicamente. É trem-bala para cá, ligação expressa para lá. A cada vez, tem-se o sentimento de que «agora, vai»!

Enquanto «não vai», contentemo-nos com um chique e sofisticado sistema automático de despacho de malas. Revolucionário. Está previsto para entrar em funcionamento em junho de 2014. Se não chover daqui até lá, evidentemente. Veja aqui.

Ânimo, que falta só um ano e meio! A partir daí, temporais, enchentes e nevoeiros podem até bloquear o aeroporto ou o caminho que leva a ele. Em compensação, a bagagem será encaminhada au-to-ma-ti-ca-men-te!

Pode não ser muito útil, mas é um charme. Ou não?

O trem-bala

José Horta Manzano

Uma primeira licitação está sendo preparada para a construção de um trem-bala ligando três grandes núcleos urbanos brasileiros: São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro. O valor estimado? Uma bagatela: 35 bilhões. Estimativa inicial, natualmente, sujeita a dobrar ou triplicar nos próximos anos. Mas isso é detalhe. O que são 50 ou 100 bilhões para um país rico e sem problemas como o nosso?

Primeira consideração:
São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro são cidades servidas por aeroportos de primeira linha. Uma ponte aérea funciona há mais de 50 anos entre o Rio e São Paulo, com partidas a cada 10 minutos. Quem tem pressa chega logo.

Train 2Segunda consideração:
Os mais de quarenta mil mortos (40’000!) em acidentes rodoviários que o Brasil registra a cada ano revelam uma desgraça nacional, um descalabro. Assistimos, indiferentes, a um genocídio continuado. Uma diminuição no volume de tráfego rodoviário seria mais que bem-vinda.

Terceira consideração:
Falta visão aos políticos brasileiros. Simplesmente porque são gente despreparada para as funções que pretendem exercer. A mentalidade que trouxe os primeiros povoadores europeus da terra tupiniquim continua valendo entre eles: après moi, le déluge. Depois de mim, pode vir até o dilúvio, porque estou aqui apenas para passar bem e ganhar dinheiro fácil. Se a coisa ficar preta, me mando pra Miami. Tchau e bença.

Quarta consideração:
Desde que se implantaram no Brasil nos anos 50, os fabricantes de automóveis, além de montar carros, montaram um grupo de pressão ― em bom português, um lobby ― destinado a abortar todo plano de expansão da rede ferroviária. As pressões foram tão fortes que desde então o governo central deixou até de investir na manutenção da malha existente. O resultado conhecemos todos: os caminhos de ferro do Brasil foram sucateados.

Conclusão:
Mesmo sem levar em consideração os inevitáveis «ajustes» de última hora, 35 bilhões de reais já é muita coisa. Melhor seria se o governo central investisse essa enxurrada de dinheiro na reabilitaçãTrain 3o do transporte ferroviário.

Na Europa, tirando algum caso muito especial e localizado, o transporte público intermunicipal se faz por estrada de ferro. Os trens são frequentes, limpos, bem cuidados, respeitam o horário, viajam a velocidades de cruzeiro entre 100 e 140km/h. Há sistemas de assinatura para viajantes frequentes: paga-se por mês ou por ano, com bom desconto. Tanto se pode escolher assinar por um determinado percurso ou pela rede nacional.

Aviões não se arriscam a levantar voo ou a pousar sob certas condições meteorológicas. Automóveis e ônibus não conseguem trafegar em pistas alagadas. Os trens são mais confiáveis. Chuva, vento, nevoeiro, frio, calor, neve, gelo ― nada impede que cumpram o prometido. O trem leva seus passageiros do centro de uma cidade até o coração de outra. Confortável e silenciosamente e, o que é ainda mais importante: sem poluir.

No Brasil, o material ferroviário foi liquidado, mas sobrou o traçado das linhas. Pode não parecer, mas a existência dessas rotas já é um grande passo: elimina ― ou diminui drasticamente ― o gasto com expropriações.

Por que não reabilitar a linha Campinas-SP-Rio, já existente? Que se refaça o traçado de certas curvas para permitir velocidade mais elevada. Que se reinstalem os dormentes. Que se invista em material, que se reabram as antigas estações, que se construam novas. Tudo isso custará infinitamente menos que um trem-bala. E ainda sobrará muito pano para mangas. Se as malversações permitirem, vai dar para reabilitar toda a rede ferroviária do Sudeste brasileiro.

Conosco ninguém podosco.

O piscinão e o rio

José Horta Manzano

Uma reportagem do Estadão informa que acabam de abrir uma praia artificial na cidade de São Paulo. Escrita com certo desmazelo, a notícia diz que vai ser possível curtir as férias «no mar» (sic) sem sair da cidade. Diz ainda que os termômetros da Zona Leste da cidade chegam a marcar temperaturas 14°C (!) mais elevadas que no resto do município. Afirmação fantasiosa. No dia em que fizer, ao mesmo tempo, 15° na Praça da Sé e 29° no Tatuapé, certamente já terá nevado em Caruaru.

O relaxo da repórter que jogou displicentemente palavras no papel sem refletir no que estava escrevendo ― e, principalmente, sem se preocupar com as consequências de sua incúria ― é sintomático. Entra na categoria do «não-estou-nem-aí», onipresente no dia a dia brasileiro.

O fato de a cidade ter tido de esperar até o século XXI para, enfim, conseguir que as autoridades municipais instalassem uma praia para o lazer de seus habitantes é outro exemplo do mesmo espírito.

Rio Tietê

Rio Tietê há 80 anos

São Paulo, plantada em região chuvosa, cresceu à beira d’água. A natureza é sábia: zonas tropicais, onde precipitações são constantes e abundantes, possuem drenos naturais. Se assim não fosse, pântanos e lagos se teriam formado. A área habitada do município conta com dezenas de escoadouros, fios d’água, tanques, ribeirões, córregos, riachos e rios. Por sinal, a cidade nasceu na junção de dois deles: o Anhangabaú e o Tamanduateí.

A mancha urbana foi-se expandindo lentamente. Um século atrás, a urbanização aproximou-se timidamente do pai de todos, o Tietê. A partir daí, a irresponsabilidade da administração pública encontrou na indiferença da população um forte aliado. Deram-se as mãos. Os danos causados ao conforto urbano têm sido, desde então, imensos e continuados. Em muitos casos, o mal é irreparável, não há volta possível. Um dos desastres maiores é o ‘desaparecimento’ dos cursos d’água que caracterizam nossa região.

Ocultou-se o Ribeirão do Anhangabaú, encoberto pelo vale homônimo. O Córrego do Saracura escondeu-se debaixo da Avenida 9 de Julho. O Ribeirão da Bexiga e o Itororó foram enterrados pela avenida 23 de Maio. Água Branca, Ipiranga, Lavapés, Água Espraiada e tantos outros sumiram do mapa. Literalmente.

Mas a natureza não deixou de ser tropical e úmida. As chuvas continuam caindo e a água, uma vez encharcada a terra, tem de escapar por algum lugar. Privada de seus drenos naturais, ela se acumula em baixios ― daí as enchentes e as inundações.

Outro crime causado pela cupidez imobiliária acumpliciada com sucessivas administrações municipais foi a instalação de um pesado parque industrial nas margens do escoadouro maior: o rio Tietê. Um dos recantos mais bonitos e agradáveis da cidade foi assim trucidado.

Com mais de 1’500km2 de território municipal à disposição, foram escolher justamente o lugar mais aprazível para instalar indústrias poluentes. Aquela região costumava servir para pesca, para lazer e para piqueniques. Onde, até 70 ou 80 anos atrás havia regatas e competições de natação, temos hoje um escoadouro a céu aberto, negro, viscoso, malcheiroso, morto.

Remédio, há. Se os londrinos conseguiram reabilitar seu rio, por que não conseguríamos nós? Pois o governo brasileiro não se vangloriou recentemente de a economia brasileira ter ultrapassado a britânica? E então? O País há de ter capacidade tecnológica e econômica para tratar os dejetos lançados in natura pelas indústrias. Ou não?

Mãos à obra, minha gente! Um Tietê recuperado e despoluído oferecerá possibilidades de lazer bem mais amplas que o acanhado «piscinão» do Tatuapé.

É Natal. Não custa sonhar, não é mesmo? Sai baratinho.

PS: Por coincidência, um dos editoriais do Estadão deste 23/12/2012 discorre sobre uma das tantas consequências do descaso com que vêm sendo tratadas as águas paulistanas desde os tempos de Anchieta.