V como Velocidade

José Horta Manzano

Sigismeno é boa gente, mas meio bobão. Embora seja muito aplicado, atencioso e curioso, a compreensão de certas coisas lhe escapa. Para compensar, o que lhe falta de cultura sobra-lhe de boa vontade. É um tipo agradável.

Hoje, logo de manhã, leu uma chamada do Estadão online que lhe deu nó nos miolos. A manchete associa o nome de Ayrton Senna ― o símbolo de um Brasil veloz e triunfante ― a um reles congestionamento de tráfego, símbolo de um Brasil lento e descrente.

Eu lhe expliquei que, assim que o glorioso campeão de velocidade sobre quatro rodas desapareceu num trágico acidente, seu nome havia sido dado à antiga Rodovia dos Trabalhadores. A intenção, naturalmente, era ligar o nome do corredor a uma estrada por onde se costumava transitar em alta velocidade.

Sigismeno, que não sabia disso, olhou-me muito espantado. Ele me perguntou por que tinham «desomenageado» (não reparem, Sigismeno inventa neologismos de vez em quando) todos os trabalhadores para homenagear um só. Quis saber se uma só figura podia ser mais importante que todos os outros reunidos. Fiquei sem saber responder.

Chamada do Estadão de 29 nov° 2013

Chamada do Estadão de 29 nov° 2013

Refletindo um pouco mais sobre o caso, concluí que realmente não faz sentido, numa cidade que se expande a cada dia, dar preferência a desnomear logradouros tradicionais para honrar novos ídolos. Teria sido tão mais simples dar o nome do campeão a, digamos, um novo bairro. Um bairro inteiro!

Além de não desonrar todos os trabalhadores do Brasil, traria vantagem adicional: afastaria o vexame de ligar o nome de Senna ao de um congestionamento de tráfego.

É comum e compreensível banir estátuas e homenagens a heróis caídos em desgraça. Na antiga União Soviética, estátuas de Stalin desapareceram. Naquele país, até uma cidade mudou de nome: Leningrado recuperou seu primitivo nome de São Petersburgo. No Iraque, a imensa escultura representando Saddam foi posta abaixo. Na própria cidade de São Paulo, logo em seguida à implantação do regime republicano, a Rua da Imperatriz virou 15 de novembro, enquanto a Rua do Príncipe tornou-se Quintino Bocaiuva.

Já faz quase 20 anos que a estrada mudou de nome. Mas só hoje Sigismeno se deu conta disso. Ficou deveras chocado com a confiscação do nome antigo, perpetrada em detrimento de todos os trabalhadores. Há de ser para confirmar a tradicional máxima: rei morto, rei posto. Mesmo assim, não faz sentido. Trabalhador nunca foi rei no Brasil.

Se Sigismeno chegar a alguma conclusão, eu lhe conto.

O cantor das multidões

José Horta Manzano

Os mais jovens hão de me perdoar. Que é que se há de fazer? Cada um tem sua história, cada um se lembra daquilo que conheceu, cada um tem seus ídolos.

Se um dia eu lhes falar de Noel Rosa ou de Chiquinha Gonzaga, estarei relatando o que li ou o que ouvi dizer. Não fomos contemporâneos neste vale de lágrimas. Assim como meu sobrinho nascido em 2012 ― tenho um, não é figura de expressão ― aprenderá pelas coletâneas de músicas antigas quem foi Roberto Carlos ou o que cantava Beyoncé. Assim é a vida.

Eliete Negreiros escreveu um belo artigo publicado no dia 15 de fevereiro na Revista Piauí. Traz algumas pinceladas de Orlando Silva (1915-1978). Aquele que um dia foi o cantor das multidões teve uma existência de altos e baixos. Quem quiser conferir, que faça uma visita por aqui.

Não se pode dizer que Orlando fosse um deus de beleza, não era nenhum Apolo. Sua estrela começou a brilhar, como a de tantos outros, no rastro de um encontro fortuito, obra do acaso. Não tivesse havido aquele vis-à-vis com Chico Alves ― o inconteste rei da voz ―, jamais o jovem teria sido projetado no cenário musical brasileiro. Ele trazia um único predicado: sua voz. Melodiosa, afinadíssima, potente, um tiquinho anasalada, inimitável.

Para Chico, o indiscutível rei da época, 17 anos mais velho, o modesto novato despontava como uma promessa de continuidade. Não lhe pareceu ― como nunca foi ― um concorrente ou uma ameaça. Dizem que Francisco Alves, inteligente e arguto, era pessoa muito generosa.

Orlando teve uma fase de ouro fértil e festejada, mas, infelizmente, demasiado curta para alguém de tamanho talento. Não durou mais que uns dois ou três anos, nos idos de 1937, 1938. Minha mãe contava que chegou a presenciar alguma de suas apresentações. Na época, o espetáculo ocorria ao vivo, no superlotado auditório da Rádio Record, rua Quintino Bocaiúva esquina com rua Direita, em São Paulo ― o prédio ainda está lá. Ao final, as mocinhas sacavam tesouras de suas bolsas e se acotovelavam para cortar um pedaço da gravata do artista. Queriam levar para casa uma relíquia, um troféu.

O desastre de que o cantor foi vítima, relatado no artigo de Eliete, obrigou-o a longo tempo de hospitalização, quando recebeu doses de morfina para alívio das dores. O medicamento cavalar amenizou-lhe os sofrimentos, mas desgraçou-lhe a existência.

Orlando Silva - 1960    Crédito: jhm

Orlando Silva – 1960
Crédito: jhm

Como todos os opiáceos, a potente morfina induz à adição. Nosso desventurado Orlando Silva desceu aos abismos da dependência. O entorpecente, alidado ao consumo de bebidas alcoólicas, afastou o cantor de seu público. O ostracismo durou mais de uma dúzia de anos.

Quando Orlando tentou uma volta à ribalta, muito tempo havia passado, já estávamos nos anos 50. A valsa tinha saído de moda e o samba-canção começava a ocupar lugar na preferência dos ouvintes, já prenunciando a bossa-nova.

A voz do cantor também já não era a mesma. Não que tivesse envelhecido, não tinha ainda 40 anos de idade, mas o lampejo cristalino da juventude havia desaparecido.

Por teimosia, ou mais provavelmente por necessidade, Orlando persistiu. Gravou ainda alguns discos, mas as mocinhas já não disputavam retalhos de sua gravata.

Por mero acaso, tive ocasião de vê-lo pessoalmente, numa viagem que fizemos juntos num ônibus da Cometa, de Águas da Prata a São Paulo. Foi de relance, em janeiro de 1960. Munido de minha máquina fotográfica caixotinho, como se usava na época, tirei uma foto do cantor através do vidro. Estávamos esperando pela partida do coletivo. Foi de novo minha mãe quem exclamou: «Olha, aquele é o Orlando Silva!».

Na época, eu estava mais interessado em Ray Charles e Chubby Checker, mas assim mesmo bati a chapa. Saiu meio desajeitada, meio desfocada, mas fiz questão de inseri-la aqui no artigo.

Orlando Silva não estava mais portando gravata, que a moda tinha passado. Ainda que estivesse, já fazia tempo que as gentes haviam esquecido o cantor das multidões. Não foi senão muitos anos mais tarde que aprendi a conhecer e a apreciar sua arte.

Como costumava dizer minha avó:

Tudo passa
O tempo corre
Passa o tempo
E tudo morre.