Para comemorar o aniversário

José Horta Manzano

1900 - Antigo Viaduto do Chá

1900 – Antigo Viaduto do Chá

Hoje é 25 de janeiro. A cidade de São Paulo comemora seu aniversário oficial. Para os paulistanos, é feriado, viva! Mas há polêmica em torno da data.

Uns dizem que os jesuítas não podem ter construído a igreja da noite para o dia, portanto, marcar uma data de fundação da cidade é termo equivocado. A missa realizada às 6h da manhã de 25 de janeiro de 1554 simbolizaria apenas a inauguração de um núcleo já fundado e habitado.

Outros invocam o fato de já existir, naquela altura, um outro núcleo colonial mais antigo, situado em Santo André da Borda do Campo. O mandachuva do lugar era o português João Ramalho, aquele que nossos livros de História nunca explicaram direitinho como é que tinha conseguido subir ao planalto antes dos jesuítas, desbravadores oficiais.

O novo povoado inaugurado em 1554 nada mais seria do que a transferência do bastião já existente em Santo André para um local mais seguro, mais facil de proteger. Se a colônia já estava lá, não pode ter sido fundada no dia e no ano que nossa historiografia reteve. O 25 de janeiro seria, portanto, apenas o dia da mudança.

1925 - Antigo Viaduto do Chá

1925 – Antigo Viaduto do Chá

Seja como for, na falta de provas cabais com firma reconhecida em cartório, fiquemos com a data oficial. Vale tanto quanto qualquer outra.

Para combinar com o dia, quero falar-lhes sobre o Viaduto do Chá, um dos símbolos maiores da cidade. O que nem todos sabem é que o viaduto que conhecemos hoje não é o original. Um outro existiu antes dele.

Jules Martin (1832-1906), um imigrante francês bastante ligado às artes e à arquitetura, apegou-se de tal modo à cidade que passou a se empenhar em resolver alguns de seus problemas. Muito conhecida é sua planta de São Paulo, feita com arte e esmero em 1877. Por essa mesma época, veio-lhe a ideia de construir uma ponte ligando o centro da cidade aos novos bairros que surgiam do outro lado do vale do Anhangabaú.

Não foi empresa fácil. Reunir os fundos necessários, convencer os edis, obter ganho de causa na desapropriação de casarões pertencentes a figuras influentes, tudo isso foi uma batalha que consumiu 15 anos. O viaduto foi finalmente inaugurado em 1892, assentado em sólida estrutura de ferro importado.

A cidade cresceu muito e muito rápido. Trinta anos mais tarde, a obra começou a parecer acanhada, estreita, insuficiente. Novo projeto foi feito.

1945 - Novo Viaduto do Chá

1945 – Novo Viaduto do Chá

Desta vez, o leito da ponte teria o dobro de largura e ficaria assentado sobre um elegante arco de concreto sustentado por dois largos pilares. O novo viaduto, esse que está lá até hoje, foi inaugurado em 1938.

Mas… que fazer entre a demolição do primeiro e a construção do segundo? Como fariam bondes, automóveis e transeuntes para atravessar de um lado para o outro? A solução encontrada foi simples: primeiro, constrói-se o novo; só então, demole-se o velho. E assim foi feito.

O novo viaduto não ocupa, portanto, o lugar exato do antigo. Fotos, vistas, gravuras da velha construção e da nova encontram-se por toda parte. O que eu nunca tinha visto era um retrato das duas pontes coexistindo: a nova já pronta, e a velha ainda de pé. Consegui, por um desse acasos difíceis de explicar, uma foto de 1938, creditada a Benedicto J. Duarte, que mostra justamente o breve período em que as duas construções coabitaram, uma praticamente colada à outra. A raridade fotográfica está logo mais abaixo.

O viaduto da esquerda é o novo, mais largo. Talvez no futuro se encontre algum outro testemunho visual desse momento singular. Por enquanto, acredito eu ser essa a única imagem.

Atualmente - Novo Viaduto do Chá

Atualmente – Novo Viaduto do Chá

No primeiro plano, à direita, está o prédio da Light, hoje transformado em centro comercial. Sempre à direita, mais ao fundo, percebe-se o prédio Matarazzo em construção, um dos raros testemunhos da arquitetura mussoliniana existentes na cidade. Depois da débâcle do império Matarazzo, o prédio serviu de sede para o Banco do Estado (Banespa). Atualmente, abriga a Prefeitura do município.

No fundo, à esquerda, vê-se o Palacete Prates, na esquina da Praça do Patriarca com Líbero Badaró. Seria demolido nos anos 60 para ceder lugar a uma torre de vidro que guarda o nome do antigo proprietário. É o Edifício Conde de Prates.

Feliz aniversário, São Paulo!Viaduto do Chá I e II

Nota: Clique nas fotos para aumentar

Um pensamento sobre “Para comemorar o aniversário

  1. Pingback: José Manzano escreve sobre o aniversário de nossa cidade. | Caetano de Campos

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