Tsunami urbano 2

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, pouco mais de duas semanas atrás, escrevi um artigo sobre um monstruoso erro de urbanização que foi ― e continua sendo ― cometido na cidade de São Paulo.2013-0308 Enchente

Dizia eu que, quando os jesuítas subiram a serra, quase quinhentos anos atrás, já chovia, e muito, nessa terra. Os drenos que a natureza havia pacientemente sulcado durante milênios foram ignorados. Acabaram sendo canalizados, ou seja, enfiados dentro de canos, literalmente. Os tubos foram calculados para um fluxo médio. Vê-se hoje que os períodos de subida das águas foram soberbamente menosprezados.

Deu no que deu. Reparem bem: as enchentes acontecem sempre nos mesmos lugares, exatamente nas regiões em que a natureza foi violentada. Como dizia um chefe que tive muito anos atrás, com seu carregado sotaque estrangeiro: «ninguém tapeia a natureza».

Hoje, pelo que li nos jornais, foi vez da Avenida Prof. Ascendino Reis, lá pelos lados do Ibirapuera. Por que justamente lá, bairro de classe média alta, lugar de gente fina? Ora, minha gente, porque por ali passava um dreno natural, um córrego chamado Uberaba. O fio d’água, margeado por vegetação, seguia pela atual Avenida José Maria Whitaker, passava por detrás da colina onde hoje está instalado o Aeroporto de Congonhas, dava uma guinada para oeste e desembocava no córrego Pinheirinho. Este, por sua vez, seguia até desaguar no Rio Pinheiros.Ascendino Reis 1952

Ascendino Reis 2013Taparam os córregos e acharam que o problema estava resolvido. Bairros foram arruados e terrenos foram vendidos. Só esqueceram de combinar com a natureza. Impassível, ela continua a verter suas águas pelos mesmos caminhos. Tanto se lhe dá que o escoadouro esteja asfaltado. Casas, automóveis, caminhões não são capazes de deter força maior que eles. Não há brucutu que segure uma enchente.

Para os curiosos, duas imagens seguem anexadas. A primeira, de 1952, mostra o Córrego Uberaba, ainda não canalizado. Note-se que passa por debaixo da Avenida Ascendino Reis. Não procurem a Avenida Rubem Berta, porque ainda não existia.

A segunda imagem, mais ou menos na mesma escala, foi tirada do google e mostra a mesma região nos dias de hoje. Os córregos sumiram do mapa. Mas a topografia continua igual. As águas seguem o mesmo caminho milenar.

Ninguém tapeia a natureza.

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Clique nos mapas para ampliar.

3 pensamentos sobre “Tsunami urbano 2

  1. Pingback: Planejamento enfim? | Brasil de Longe

  2. Minha avó materna morava na Alameda dos Guaicanans 227,quando criança eu ia brincar la no final da rua,que era justamente onde havia este corrego,ainda me lembro das pontes de madeira!Eu morava na Miguel Estefano,579,esquina com a rua Carneiro da Cunha,lugar que pertenceu a minha familia de 1895 até 1985,quando nos mudamos pra Santos,nos fundos da minha casa tinha a rua Visconde de Pelotas,que depois mudou para rua da Contagem,no final desta rua havia um corrego que passava nos fundos de uma casa(Rua dos Caciques com Artur Thiré),lembro que íamos la pegar morangos que nasciam no barranco,hoje vendo pela imagem aerea do google,já não existe mais!Abraços!

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    • Obrigado pelo comentário, caro Eduardi. Também eu me lembro de córregos que já entraram pelo cano, literalmente. Um dos que foram obrigados a esse triste fim foi o Itororó, soterrado pela 23 de Maio. Cheguei a conhecer aquele vale no tempo em que era mato só.

      Continue conosco! Um abraço.

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