Não dá samba

José Horta Manzano

«Mulher que não dá samba, eu não quero mais». Assim vai o refrão do samba sacudido que Paulo Vanzolini criou e Carmen Costa gravou em 1974 em duo com Paulo Marquez. Nessa música, o compositor pinta os traços de uma mulher-objeto. Fosse hoje, ele seria renegado como machista malvado, plantado a milhas do politicamente correto. Na época, no entanto, a Polícia dos Costumes ainda não havia criado essas amarras. Artista podia permitir-se maior liberdade de movimento.

Hoje não se deve mais falar em mulher que dá samba, que não pega bem. Mas ainda não é proibido ver gente famosa dar substantivo e adjetivo. Não é façanha pra qualquer um. Duas condições precisam estar reunidas. Em primeiro lugar, o personagem deve ser importante e amplamente conhecido. Em segundo, seu nome tem de permitir a criação de derivados.

Vários campos da atividade humana são propícios à criação de adjetivos e substantivos derivados de nome próprio. No campo religioso, São Bento (Benedito) deu a paciência beneditina. São Francisco desembocou na humildade franciscana. Nas artes e nas ciências, há muitos exemplos: freudiano, balzaquiana, dantesco, machadiano.

A política é campo fértil para esse tipo de derivação. No passado, tivemos adhemarismo/adhemarista, janismo/janista, juscelinismo/juscelinista, getulismo/getulista e numerosos outros. É que, por capricho da história, o nome desses figurões aceitava um sufixo. Já outros nomes não aceitam derivação. FHC, nesse campo foi estéril. Como falar em FHCismo? Impossível. No mesmo caso estão Collor, Sarney, Renan, Geisel, França e tantos outros. Não se prestam a formar substantivo nem adjetivo. Collorismo? Não dá. Sarneyista? Que feio!

A cereja em cima da glória de todo homem político é a nomeação de corrente política com base em seu nome. Nesse ponto, Lula teve sorte. (Não só nesse, aliás.) Lulismo e lulista são termos amplamente aceitos e utilizados. Convenhamos: emprestar o próprio nome a uma tendência política é pra inflar o ego de qualquer um.

Quando se apresentaram treze pretendentes à Presidência da República, examinei o nome de cada um. Acabei me dando conta de que quase nenhum permitia a criação de derivados. Haddadismo? Alckminismo? Diasismo? Boulosismo? Nem em pesadelo! Era uma coleção de nomes estéreis. Só se salvava um: Bolsonaro. E o homem acabou ganhando! Que agrade ou não, bolsonarista já está na praça, aceito por número crescente de veículos. Aliás, o número de bolsonaristas da undécima hora cresce a cada dia.

Muito poucos já ousaram bolsonarismo. O substantivo virá com o tempo. Só nos resta esperar que ele nunca assuma a conotação pejorativa que hoje carregam lulismo e, sobretudo, dilmismo.

Le der des ders

José Horta Manzano

Vanzolini, 5 nov 2011
com minha irmã

Le dernier des derniers, abreviada em le der des ders é a expressão que os franceses usam para se referir ao derradeiro, ao último dos moicanos, a um acontecimento que assinala o fim de uma era.

Foi o que senti ao tomar conhecimento do desaparecimento de Paulo Vanzolini, aos 89 anos. Não sei que repercussão estará tendo a notícia no Brasil nestes tempos de rap e de funk. Quanto a mim, tenho realmente o sentimento de uma perda derradeira. Foi-se o último dos últimos.

Vanzolini, 24 set 2011
Roda de samba

Com sua partida, fechou-se um ciclo. Isso não quer dizer que não haja gente boa entre os modernos, mas os tempos são outros, o gosto musical mudou, a técnica se alterou, a MPB seguiu novos rumos. Dos sambistas tradicionais, não sobrou nenhum.

Não tenho a pretensão de fazer aqui um necrológio. Disso já cuidaram os jornais. Gostaria de frisar uma característica rara no panorama musical brasileiro: Paulo era um compositor que não dependia de suas músicas para ganhar a vida. Era, no mais puro sentido da palavra, um amador. Compunha por prazer, como queria e quando lhe dava vontade.

Vanzolini, 20 out 2012
De chapéu, como se deve!

«Duro de ouvido», sem formação musical, autor de compassos de pé quebrado, Vanzolini não era um músico que se interessava por lagartos. Cientista de formação, era um renomado zoólogo ― mais precisamente um herpetólogo, especialista em répteis ― que fazia uma musiquinha aqui, outra ali. Mas que musiquinhas!

Não foram centenas, mas as poucas que chegaram a ser gravadas são verdadeiros monumentos. Além das ultraconhecidas Ronda e Volta por cima, há preciosidades. Amor de trapo e farrapo, Cravo branco, Samba erudito, Praça Clóvis, Mulher que não dá samba são grandes composições.

Vanzolini, 15 set 2012
Roda de samba

Maior ainda que a musicalidade inata, o talento do Vanzolini letrista era excepcional. «Inveja é a raiva do pó contra quem o pisa», fragmento do samba Inveja está, a meu ver, no mesmo patamar do célebre «Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima».

Vanzolini, 5 mai 2011
com minha irmã e o neto dela

Ultimamente, embora debilitado pelo passar dos anos, Paulo Vanzolini conservava absoluta lucidez. Costumava frequentar um boteco na avenida Lins de Vasconcelos, em São Paulo, perto de seu Cambuci natal. Tinha lá sua mesa reservada. Vinha sempre acompanhado de dois ou três amigos para uma roda de samba improvisada.

Em algumas dessas ocasiões, familiares meus tiveram a sorte de passar momentos amigos com ele. Algumas fotos acompanham este post .

Oxalá outras mentes inspiradas e privilegiadas como a de Vanzolini possam surgir. Que descanse em paz.

Paulo Vanzolini
Citação

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Entre as dezenas de artigos que li estes últimos dias sobre Paulo Vanzolini, sobressai o escrito Cobras e lagartos, publicado por Cláudio Ângelo em seu blogue Curupira.

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