Tsunami urbano

José Horta Manzano

Tsunami é uma imensa vaga oceânica provocada por um tremor de terra, geralmente submarino. Chega a atingir altura de 30m ou 40m. Nada lhe pode resistir, nem central atômica.

Rua Frederico Steidel - fev° 2013Crédito: Danilo Verpa/Folhapress

Rua Frederico Steidel – fev° 2013
Crédito: Danilo Verpa/Folhapress

Queda de meteorito é outro fenômeno natural contra o qual pouco ou nada se pode fazer. O rochedo vaga pelo universo até que resolve cair em algum lugar. O risco de despencar em terra habitada é pouco, embora às vezes aconteça, como na Rússia, semana passada.

Diferentemente de fenômenos dos quais não podemos escapar, há aqueles que, se não podem ser banidos, podem, sim, ser controlados ou contornados. Enchentes e alagamentos fazem parte dessa categoria.

O clima do Sudeste do Brasil é subtropical chuvoso. Do sul da Bahia a Santa Catarina, chove. E cai muita água, geralmente concentrada em certos períodos do ano. Esse regime não começou na semana passada, já vigora faz alguns milhões de anos.

A natureza é sábia. Para muita chuva, muitos drenos. À diferença de outras partes do planeta, onde o clima é mais árido, nosso território é densamente provido de drenos naturais. São fios d’água, tanques, ribeirões, riachos, rios.

Os primeiros habitantes destas terras, aqueles que, por um engano histórico-geográfico, chamamos até hoje de «índios», bobos não eram. Jamais se estabeleceriam em zonas periodicamente inundáveis.

Região da Frederico Steidel - 1895

Região da Frederico Steidel – 1895

Região da Frederico Steidel - 2013

Região da Frederico Steidel – 2013

Durante os primeiros quatro séculos de ocupação das novas terras, o homem branco respeitou a sabedoria dos indígenas. Na cidade de São Paulo, até fins do século XIX, não viria à cabeça de ninguém urbanizar charcos ou zonas alagadiças. Sabiam que, se o fizessem, estariam garantindo problemas para o futuro.

De repente, sabe-se lá se terá sido por ignorância ou por cupidez ― provavelmente pela conjunção dos dois fatores ―, o homem decidiu que era chegada a hora de domar a natureza. Ingenua mas arrogantemente, sentiu-se capacitado para a empreitada.

Alagadiços foram drenados, cursos d’água foram escondidos debaixo de ruas novas, riachos tiveram seus cursos alterados, tanques naturais foram desativados. Mas esqueceram de combinar com as chuvas. Estas, como de hábito, continuaram a cair, impassíveis e abundantes. Deu no que deu.

A maior metrópole do País, vitrina e orgulho do povo, traz na alma a intrepidez dos bandeirantes, mas… tem medo de chuva. Uma pancada mais forte, e o caos se instala.

Neste 19 de fevereiro foi a vez da Rua Frederico Steidel, no centro da cidade, a um passo do Minhocão, a dois do Largo do Arouche, a três da Praça da República. E olhe que não foi aguinha de molhar a sola do sapato, não. Enchente de submergir motor de automóvel!

De onde vem esse problema recorrente? Pouco mais de um século atrás, como registra a planta da cidade publicada por Hugo Bonvicini em 1895, o arruamento da região ainda não estava terminado. Um riacho natural de escoamento das águas da Praça da República e de Higienópolis estava no meio do caminho. Estorvava. A municipalidade autorizou que se enterrasse o fio d’água. Por cima, abriu-se a Rua Frederico Steidel. A comparação da planta de 1895 com as imagens de 2013 mostra que a rua inundada ainda não existia 120 anos atrás.

Nos primeiros anos, o tubo dentro do qual o riacho foi aprisionado deu conta do recado. O crescimento selvagem da cidade, no entanto, provocou crescente impermeabilização do solo. As chuvas continuam caindo. Sem ter por onde se infiltrar, as águas respeitam a lei da gravidade: escorrem sempre pelos mesmos caminhos, estejam eles arruados ou não.

Buraco do Adhemar - 1967

Buraco do Adhemar – 1967

Pode-se encontrar paliativo para a situação. Se o problema das enchentes do Vale do Anhangabaú foi resolvido, não há por que deixar outras regiões ao deus-dará. É verdade que dá menos visibilidade política, mas melhorar a qualidade de vida de seus governados faz parte da tarefa de prefeitos e de governadores. Moradores das regiões descuradas também são eleitores.

Ninguém faz milagres, nem São Pedro.

2 pensamentos sobre “Tsunami urbano

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