Depois da tempestade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu havia acabado de voltar do passeio diário com as cachorras. A tarde estava anormalmente quente e abafada. Tinha sido penoso para mim enfrentar a caminhada e as escadas. A falta de vento agravava minha dificuldade respiratória, ainda consequência do resfriado. Eu me sentia um corpo sem alma e era fácil perceber que às cachorras também faltava alento para prosseguir. Optei por voltar para casa mais cedo.

tempo-3Chegando ao apartamento, desabei no sofá da sala e liguei a televisão para me entreter um pouco. Alguns minutos depois, constatei surpresa que o vento voltava a soprar e havia começado a chover. Nada indicava que a chuva seria forte ou que duraria muito tempo. Tudo que me era dado perceber antes é que havia um silêncio de expectativa na natureza, como se até o canto dos pássaros tivesse de ser suspenso para auscultar a movimentação do ar no interior das nuvens. Logo a chuva engrossou e começaram a cair os primeiros raios.

De início, limitei-me a observar a cabeleira das palmeiras que ornamentam a entrada do condomínio se agitando ferozmente. À medida que a ventania foi se tornando mais violenta, não me restou alternativa a não ser levantar e fechar a janela do banheiro, que fica no final do corredor, em frente à sala, para evitar o encanamento do vento. Eu sabia que o trinco dessa janela estava emperrado e que ela poderia abrir com a força da ventania. Por isso, reforcei a vedação colocando um pedaço de plástico embaixo do trinco e voltei para a sala às pressas, na tentativa de tranquilizar as cachorras.

tempo-1Mal tive tempo de me sentar e escutei um forte estrondo: a janela tinha se aberto violentamente, o vidro estilhaçou e cacos voavam para todos os lados. Não havia nada mais a fazer, a não ser tentar proteger o rosto e as mãos de cortes. Antes que eu pudesse me refazer do susto, a porta do banheiro bateu com força às minhas costas e o apartamento todo estremeceu.

Corri para o quarto. Mesmo tendo certeza de que havia apenas uma fresta do tamanho de um dedo na janela, queria evitar mais estragos. A força do vento era tamanha que me foi difícil abrir a porta e caminhar até a janela. Não pude acreditar em meus olhos com o que vi na sequência. Parecia que uma potente mangueira havia sido introduzida janela adentro e a água jorrava em chafariz, molhando toda a minha cama. Preocupada, fui correndo verificar como estava o escritório, já que o computador e a secretária eletrônica ficam a poucos centímetros da janela. Como previsto, a água já escorria pelas paredes e se espraiava pelo piso. Temendo um curto-circuito, desliguei toda a aparelhagem e voltei à sala.

cachorro-33O temporal piorou. Granizos do tamanho de bolas de gude batiam com violência nos vidros, provocando um barulho ensurdecedor. Eu me sentia em meio a um filme de terror, tendo como trilha sonora a tempestade wagneriana. Temia que todas as janelas do apartamento se quebrassem de uma só vez. Não tive muito tempo para pensar em estratégias de defesa. Logo me dei conta de que a esquadria das janelas não suportaria a pressão da água acumulada. De fato, ela já brotava dos vãos, descia em cascata pelas paredes e escorria por debaixo dos móveis até a porta de entrada.

Levantei num pulo e corri para a área de serviço em busca de rodo, panos e baldes. Minha cachorra Aisha havia literalmente travado, atravessada na porta de acesso para a lavanderia. Em pânico absoluto, ela observava aquele cenário de caos e não se movia nem para frente, nem para trás, nem para os lados. Tive que lhe dar um safanão com o joelho e forçar a passagem. Passei as duas horas seguintes arrastando os móveis e tentando retirar o máximo possível de água. A sensação, porém, era a de estar enxugando gelo.

tempo-2Dizem que uma desgraça nunca vem sozinha. Em poucos instantes, a luz acabou e a noite chegou. Se a cena já era aterrorizante antes, não é difícil imaginar como era estar num ambiente iluminado apenas pelo clarão dos raios, ouvindo o uivo dos ventos e o ribombar dos trovões. A cereja do bolo não tardou: um raio atingiu em cheio o transformador do poste em frente ao condomínio, me cegando por alguns segundos. Aquilo foi a gota d’água para os ouvidos sensíveis da Molly. Espremida embaixo da mesa, ela me dava a pata em desespero, como se aquele gesto pudesse por si só colocar um ponto final na situação traumática.

Acalmei-a como pude e me enchi de paciência para esperar o retorno da energia. Respirei fundo, fechei os olhos e deixei-me enredar com meu passatempo favorito: viajar no tempo. Quando estou passando por momentos difíceis e não vislumbro solução imediata, sinto-me estimulada imaginando como seria lidar com o mesmo problema séculos atrás, caso habitasse em uma zona rural, sem vizinhos e sem contar com os recursos de conforto contemporâneos. A fabulação confortou-me por alguns minutos, mas logo a ansiedade retornou.

Tão logo a tempestade amainou, pensei em ligar para minha irmã para descobrir qual era a dimensão exata dos estragos no bairro. Me angustiava o som dos helicópteros da polícia voando baixo e o barulho das sirenes das ambulâncias que corriam para lá e para cá. Tirei o fone do gancho e….surpresa, ele estava mudo! Foi a minha vez de entrar em pânico. Lá estava eu, ilhada dentro de um apartamento, no alto de um morro, na maior cidade das Américas, sem nenhuma forma de contato com o mundo exterior.

tempo-4Era preciso fazer alguma coisa de prático para retomar o controle da situação. Enchi-me de coragem, desci as escadas com o auxílio de uma vela e fui até a portaria. Pedi ao porteiro que me emprestasse o celular. Ele balançou a cabeça em negação, indicando que a bateria estava descarregada. Ainda, me alertou que seria inútil procurar outros aparelhos, já que nenhuma operadora de telefonia móvel estava funcionando na região.

Voltei para o apartamento me sentindo a criatura mais desamparada do planeta. Sabendo que só podia contar comigo mesma, desanimei de vez, perdi a fome, cabulei o jantar e fui me deitar de roupa e tudo no sofá da sala. Acordei acabrunhada às três horas da madrugada, em meio a uma crise de hipoglicemia, só para constatar que nada havia mudado.

Vinte e seis horas e meia depois de iniciada a tempestade, a luz voltou, o telefone se curou espontaneamente da afonia e eu pude, finalmente, reaprender o valor da tecnologia e da civilização humana. Deixei meus olhos passearem pelo ambiente fortemente iluminado, encantei-me de novo com as cores da tela da televisão, e alegrei-me com as notícias na tela do computador. Contrariando minha tradicional resistência aos ‘gadgets’ eletrônicos, redescobri estupefata como é bom poder pressionar um simples botão e encontrar resposta para a maioria dos problemas de sobrevivência no século 21.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Futebol equilibrista

José Horta Manzano

Enchente do Rio Negro, nas cercanias de Manaus, inundou campos de futebol – já precários por natureza.

Sem paciência para esperar pela volta da secura, a juventude construiu uma plataforma flutuante, junto à margem do rio.

Cobrança de escanteio é verdadeiro espetáculo de equilibrismo. O treino de futuros craques continua.

A Agência Reuters tirou uma série de belíssimas fotos. Clique para aumentar.

Foto La Presse/Reuters

Foto La Presse/Reuters

Interligne 28a

Foto La Presse/Reuters

Foto La Presse/Reuters

Interligne 28a

Foto La Presse/Reuters

Foto La Presse/Reuters

Interligne 28a

Foto La Presse/Reuters

Foto La Presse/Reuters

Interligne 28a

Foto La Presse/Reuters

Foto La Presse/Reuters

Interligne 28a

Lata d’água

José Horta Manzano

Copo d'água 2No Rio de Janeiro, na noite de 19 para 20 jan° 2009, faleceu o compositor paraense Joaquim Antônio Candeias Júnior, também conhecido como Jota Júnior. Tinha 85 anos.

O artista havia atingido seu apogeu nos anos 1950, quando suas obras foram gravadas por dezenas de cantores – dos bons. Francisco Alves, Jair Rodrigues, Marlene, as Irmãs Batista, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Nélson Gonçalves, Ângela Maria estavam entre os que se valeram de composições de Jota Júnior.

Sassaricando, Confete, Sapato de pobre (é tamanco), Garota de Saint-Tropez, Lata d’água (na cabeça) são algumas de suas centenas de composições. É justamente esta última que me inspira uma reflexão.

Lata d'água 1Nos tempos em que a personagem de Jota Júnior subia o morro levando sua reserva de água, todos dizíamos «lata d‘água». Ninguém ousaria o esquisito «lata de água». Simplesmente porque a expressão «lata d‘água» subentendia que a lata já estava cheia. «Lata de água» descrevia apenas o recipiente, sem informar se estava cheio ou não.

O mesmo se pode dizer de outra mazela carioca: a «falta d‘água», que já atormentava a população em tempos bem mais chuvosos que os atuais.

Parece cheio, mas cabe mais água by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Parece cheio, mas cabe mais água
by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Quem tinha sede costumava pedir um «copo d‘água», jamais um «copo de água» nem – horror dos horrores! – um «copo com água».

Enchentes e racionamentos permanecem, mas a língua mudou. A «lata d‘água», a «falta d‘água», o «copo d‘água» têm perdido terreno. Fiz uma pesquisazinha caseira no site do jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Considerando essas três locuções, contei o número de vezes em que aparecem na forma contraída (d’) e na forma extensa (de). É curioso notar que a forma extensa vem ganhando de goleada sobre a contraída.

Vejam o quadro com a porcentagem de ocorrência de cada forma:

Interligne vertical 14Falta d’água   27%
Falta de água  73%

Copo d’água    16%
Copo de água   84%

Lata d’água     9%
Lata de água   92%

Faz sentido. Se morro e clima mudaram e os anseios de cada um também, por que a fala permaneceria estática? Que venha muita chuva e que nos deixe «debaixo de água»!

Advertência importante:
A amostragem que serviu de recheio para este artigo não tem valor científico. Eventuais reclamações devem ser endereçadas a Google Corporation, Mountain View (CA), EUA.

Interligne 37a

Clique aqui quem quiser recordar Marlene e sua Lata d’água, lembrança nostálgica de uma época em que, no morro, ninguém arriscava servir de ponto final para bala perdida.

Virem-se, conterrâneos!

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno fica muito impressionado com as estrepolias que mãe natureza faz sem pedir licença a ninguém. Horrorizou-se com as cheias do Rio Madeira, no extremo oeste.

Ao ver que a presidente sobrevoava regiões alagadas, achou que ela teria feito melhor se tivesse utilizado um barco para se aproximar das vítimas da enchente. Teria sido um modo mais chegado de mostrar compaixão. Decisões presidenciais são, por vezes, mistérios insondáveis.

Ele ficou um bocado surpreso quando soube que a chefe do Executivo tinha insinuado que aquele desastre só podia ser obra de chuvas estrangeiras, que as nossas são bem-comportadas. E chuvas vão lá escolher onde preferem cair?

Acalmou-se ao ler o desmentido oficial que assegurava que jamais, em tempo algum dona Dilma diria tal enormidade. Chegou à conclusão que, certamente, devia ter ouvido mal.Rio Madeira

Sigismeno, que gosta das coisas certinhas ― pão, pão, queijo, queijo ― sentiu-se incomodado com um detalhe. Foi quando dona Dilma chamou as vítimas de «pessoas que estão em situação de calamidade». Econômico por natureza, meu amigo achou que era um desperdício de palavras. Uma só teria dado o recado: flagelados. Enfim, cada um se exprime como consegue.

Mas Sigismeno, que também não é um idiota total, ficou chocado quando soube que, num singular gesto de largueza, os mandachuvas tinham autorizado as vítimas das intempéries a sacar o Fundo de Garantia.

Ele sempre imaginou que aquele dinheirinho ― poupança forçada a que são obrigados todos os assalariados ― devesse servir de garantia para os velhos dias. Pensou com seus botões (mas suficientemente alto para que eu ouvisse) que era superfácil fazer caridade com o dinheiro dos outros.

Não pude deixar de concordar com ele. Ninguém se insurgiria se fosse liberada uma verba de emergência para ajudar os flagelados a atravessar este momento difícil. Mas incentivá-los a gastar o pecúlio que vai fazer falta mais tarde pareceu, a meu amigo, medida criticável e eminentemente antissocial.

Para um governo que se diz preocupado com o “social”, cai mal.

Planejamento enfim?

José Horta Manzano

Em meu artigo Tsunami urbano, publicado neste blogue em 20 de fevereiro de 2013, teci algumas considerações sobre as enchentes recorrentes que submergem pontos específicos da cidade de São Paulo.

Voltei ao assunto em 9 de março com o artigo Tsunami urbano 2.

Desembocadouro do riacho Anhangabaú, SP  Crédito: Moacyr Lopes Júnior/FolhaPress

Desembocadouro do riacho Anhangabaú, SP
Crédito: Moacyr Lopes Júnior/FolhaPress

Com alívio e alegria, leio na Folha de São Paulo dois artigos de Amanda Kamanchek sobre ao mesmo tema. Aqui e também aqui. Com direito a fotos e até infográfico. Trazem a visão do geólogo Luiz de Campos Jr, coordenador do projeto Rios e Ruas.

Já está passando da hora de o poder público arregaçar as mangas e enfrentar o problema. Alvíssaras!

Tsunami urbano 2

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, pouco mais de duas semanas atrás, escrevi um artigo sobre um monstruoso erro de urbanização que foi ― e continua sendo ― cometido na cidade de São Paulo.2013-0308 Enchente

Dizia eu que, quando os jesuítas subiram a serra, quase quinhentos anos atrás, já chovia, e muito, nessa terra. Os drenos que a natureza havia pacientemente sulcado durante milênios foram ignorados. Acabaram sendo canalizados, ou seja, enfiados dentro de canos, literalmente. Os tubos foram calculados para um fluxo médio. Vê-se hoje que os períodos de subida das águas foram soberbamente menosprezados.

Deu no que deu. Reparem bem: as enchentes acontecem sempre nos mesmos lugares, exatamente nas regiões em que a natureza foi violentada. Como dizia um chefe que tive muito anos atrás, com seu carregado sotaque estrangeiro: «ninguém tapeia a natureza».

Hoje, pelo que li nos jornais, foi vez da Avenida Prof. Ascendino Reis, lá pelos lados do Ibirapuera. Por que justamente lá, bairro de classe média alta, lugar de gente fina? Ora, minha gente, porque por ali passava um dreno natural, um córrego chamado Uberaba. O fio d’água, margeado por vegetação, seguia pela atual Avenida José Maria Whitaker, passava por detrás da colina onde hoje está instalado o Aeroporto de Congonhas, dava uma guinada para oeste e desembocava no córrego Pinheirinho. Este, por sua vez, seguia até desaguar no Rio Pinheiros.Ascendino Reis 1952

Ascendino Reis 2013Taparam os córregos e acharam que o problema estava resolvido. Bairros foram arruados e terrenos foram vendidos. Só esqueceram de combinar com a natureza. Impassível, ela continua a verter suas águas pelos mesmos caminhos. Tanto se lhe dá que o escoadouro esteja asfaltado. Casas, automóveis, caminhões não são capazes de deter força maior que eles. Não há brucutu que segure uma enchente.

Para os curiosos, duas imagens seguem anexadas. A primeira, de 1952, mostra o Córrego Uberaba, ainda não canalizado. Note-se que passa por debaixo da Avenida Ascendino Reis. Não procurem a Avenida Rubem Berta, porque ainda não existia.

A segunda imagem, mais ou menos na mesma escala, foi tirada do google e mostra a mesma região nos dias de hoje. Os córregos sumiram do mapa. Mas a topografia continua igual. As águas seguem o mesmo caminho milenar.

Ninguém tapeia a natureza.

.

Clique nos mapas para ampliar.