Quem te viu, quem te vê

José Horta Manzano

«Je vous parle d‘un temps que les moins de vingt ans ne peuvent pas connaître». Essa é a primeira estrofe da belíssima canção ‘La Bohème’, obra de Charles Aznavour, um dos maiores letristas da língua francesa. Eu lhes falo de um tempo que os que têm menos de vinte anos não conheceram.

Também eu quero falar-lhes hoje de uma outra era, um tempo que a gente tem dificuldade em acreditar que tenha existido.

O Brasil é o gigante demográfico, industrial e econômico da América do Sul. Apesar de seus males ― que são muitos, sejamos honestos ― é o número um, sem concorrência nesta parte do mundo. No entanto, nem sempre foi assim.Para ti

Até meados do século XX, a nação preeminente do subcontinente não era nosso País, era a Argentina. Eram melhores que nós em quase tudo: poderio econômico, instrução pública, parque industrial, renda per capita, nível cultural, abertura para o mundo. Cem anos atrás, quando uma parte da população europeia, empurrada pela pobreza ou pelo espírito de aventura, tomou a decisão de emigrar, para cada um que escolhia o Brasil, dois se decidiam pela Argentina.

Em 1913, Buenos Aires já inaugurava sua primeira linha de metrô, feito que o Brasil só conseguiu igualar 60 anos mais tarde. Linhas marítimas que ligavam a Europa à capital portenha chegavam a anunciar acintosamente: «sem escala no Rio de Janeiro». As febres tropicais que se podiam contrair na capital de nossa República afastavam muita gente.

Nos anos 50, o Brasil ainda não podia se dar ao luxo de editar uma revista semanal dedicada exclusivamente ao público feminino. A Argentina já tinha a sua fazia muito tempo. Foi tentando soletrar os escritos do Para Ti, que uma velha tia-avó comprava sempre que lhe sobravam uns cobrinhos(*), que tive meu primeiro contacto com a língua de nossos vizinhos.

Nossos hermanos tinham tudo para continuar um caminho de sucesso. Era o que todos imaginavam. No entanto, não foi assim.

Que terá acontecido? Fica a impressão de que, em algum momento, alguma coisa se partiu, se interrompeu. O processo deu uma guinada. Quando e por quê? Economistas, sociólogos e cientistas políticos têm proposto explicações para essa deterioração. Não sendo especialista, não me cai bem especular. Não me resta senão constatar.

Fiquei surpreendido e, por que não dizê-lo, entristecido com uma reportagem transmitida pelo jornal da tevê suíça do dia 22 de janeiro. Conta a terrível história de uma mulher jovem, imigrante argentina vivendo atualmente em Genebra, na clandestinidade. A pobre gostaria de voltar para seu país, mas não tem dinheiro para comprar o bilhete.

A fim de obter a quantia necessária, a infeliz criatura propôs vender um de seus rins ou, eventualmente, uma parte de seu fígado. Uma história desatinada, inacreditável, de deixar boquiaberto.

Embora nunca tendo tido de enfrentar essa situação, creio saber que nossas representações diplomáticas têm obrigação de conceder uma passagem de volta a brasileiros que se encontrem em apuros no estrangeiro, como parece ser o caso dessa desventurada senhora.

Evidentemente, o bilhete de passagem posto à disposição do cidadão em dificuldade pelas autoridades consulares brasileiras nunca será dado de mão beijada. O repatriado não se safará com um simples «muito obrigado». Parece que nem mesmo um “Deus lhe pague” basta. O indivíduo terá de reembolsar o erário. Se não o fizer, dificilmente obterá novo passaporte.

Antes de mais nada, seria útil investigar a fundo a história dessa doadora singular. A ser verdadeira, é preocupante. Desconheço a regulamentação argentina no que tange à assistência que prestam a seus nacionais em caso de dificuldades no exterior. Tudo parece indicar que as leis de lá são diferentes das nossas. Como é que pode?Rico e pobre

Que o país vizinho esteja em situação econômica mais que complicada, disso sabemos todos. Mas que abandonem seus cidadãos ao deus-dará, obrigados a roçar atos desesperados como a ablação consentida de um órgão(!), aí já estamos passando dos limites. Entramos no cenário do salve-se quem puder.

De qualquer maneira, a lei suíça não permite a comercialização de órgãos. Doação, sim; venda, nunca. Portanto, não é por esse meio que a infortunada moça obterá sua passagem. Na Suíça, seus órgãos estarão salvaguardados.

Já disse alguém que uma nação só é grande quando consegue proteger seus cidadãos mais frágeis. Se, no Brasil, ainda temos um bom caminho a percorrer, parece que nossos hermanos estão metidos numa verdadeira camisa de onze varas.

Quem quiser assistir ao bloco de 2½ minutos do jornal suíço (em francês), clique aqui.

(*) O nome da pequena quantia de dinheiro que se leva no bolso varia com o tempo. O que hoje dizemos “uns trocados” já se chamou “manolitas” e, antes disso, “uns cobrinhos”. Fazia referência às moedas de menor valor, então feitas de cobre.

É tudo nosso

Marginal TietêJosé Horta Manzano

O Rio Tietê, posto ali por Mãe Natureza, foi uma das principais vias de penetração no território da América Portuguesa. Foi por ali que aventureiros burlaram o que tinha sido combinado no Tratado de Tordesilhas e expandiram os domínios da Coroa lusa até o Mato Grosso. Chegaram até as fraldas da Cordilheira dos Andes e só não foram além porque ferozes castelhanos, chegados pelo outro lado, já haviam se estabelecido naqueles pagos e não mostravam intenção nenhuma de abandonar o pedaço.

Já está fazendo meio século que o trecho do Tietê que corta a capital paulista deixou de ser rio. Tornou-se esgoto a céu aberto, uma cloaca, um espetáculo vergonhoso a que todo estrangeiro desembarcado em Guarulhos tem de assistir.

Trafegando pela pista de sua avenida marginal, é inútil tentar mostrar ao visitante a “beleza” da paisagem do lado direito, com direito a Anhembi e sambódromo: o que lhe atrai a atenção é o esgoto, do lado esquerdo. Um vexame permanente.

Depois de décadas de hesitação, o Departamento de Águas finalmente decidiu plantar ali 40 mil árvores para amenizar a feiura das águas pretas. Mesmo atrasada, foi uma boa iniciativa. Antes tarde que nunca.

Pois o inventário do fim do ano passado revelou que, entre deperecimento natural, vandalismo e furto, 4 mil árvores haviam desaparecido. Uma em cada dez!

Com razão, todos protestam quando corre a notícia de que o deputado Fulano ou o ministro Beltrano, baralhando o público e o privado, se apoderou de nacos do patrimônio público. O mais curioso é que os que mais gritam são muitas vezes os mesmos que se apossam das mudas plantadas e pagas com o dinheiro de todos.

Fico imaginando o sujeito tomar emprestada a caminhonete de um amigo, vir até a avenida que margeia nossa cloaca, estacionar no meio daquele tráfego selvagem e arriscar a vida para roubar, para seu uso particular, um pedaço do patrimônio público. Edificante, não é?

Brasil, um país de todos ― essa é a versão oficial. Há uma outra, menos glamorosa: Brasil, país onde muitos se esfalfam para que uns poucos vivam no bem-bom.

A arte de nomear

Crédito: Fraudes.org

Crédito: Fraudes.org

José Horta Manzano

Pais brasileiros (e mães brasileiras, como costumava dizer um velho latifundiário que chegou até à presidência da República) costumam ser criativos ao dar nome a seus rebentos.

Criatividade demais, como tudo o que é excessivo, pode acabar em desastre. O Correio Braziliense nos informa que, alguns dias atrás, uma criança do sexo masculino foi registrada com nome feminino. Acabou dando um forrobodó dos diabos.

Compreendo que ninguém pode dar o que não tem. Não se extrai leite de pedra. Quem não recebeu instrução básica pode até não se dar conta de que, ao impor a seu filho um nome extravagante, excêntrico ou ridículo periga criar um sem número de problemas para o pequerrucho.

Os portugueses adotam uma norma ultrarradical que, acredito eu, não seja adaptada para estas terras tropicais. Naquele país d’além-mar, o prenome da criança tem necessariamente de ser pinçado dentre os que constam da lista oficial de nomes. Impossível escapar dela.

Nós cultivamos o exagero oposto. Num clima de liberou geral, aqui vale qualquer nome. Existente, novo, inventado, composto, impronunciável, qualquer um passa. A moda atual manda dobrar letras, enfiar agás, dáblius e ípsilons em qualquer posição. Fica chique. Vale nome de personagem de novela, nome de objeto, nome fabricado. As combinações são infinitas.

Não se pode esperar que cidadãos de poucas letras se deem conta da enormidade dificilmente reparável que estarão a cometer se impingirem a seus rebentos nomes como Crodomirnésio ou Baracobama. No entanto, é incompreensível que oficiais e escrivães de cartório digam amém a aberrações como essa que se perpetrou no DF.

Não temos ainda um Ministério dos Prenomes. Aliás, é melhor nem falar nisso, que poderia dar más ideias a um governo que não se peja com criar novos cargos.

Se oficiais e escrivães de cartório de registro civil não têm autoridade para barrar nomes extravagantes ou mal escritos, que lhes seja conferido esse poder. Caso os pais não concordem com o alvitre do oficial, recorrerão à arbitragem de um juiz.

O que não fica bem é marcar seres inocentes com um estigma que serão constrangidos a carregar pelo resto da vida.

É tudo verdade

(Colaboração de Roberto Freire, pescada no Blog da Dad)

No Havaí, todas as sandálias são havaianas.

A primeira missa do Brasil foi o maior programa de índio.

Mulher grávida reclama de barriga cheia.

Os filósofos têm um problema para cada solução.

Lixo = coisas que jogamos fora.

Crédito: Philippe Berry

Crédito: Philippe Berry

Coisas = lixo que guardamos.

Herói é o covarde que não teve tempo de fugir.

Tinja o cabelo de preto para namorar e de branco para  encontros de negócio.

Relógio que atrasa não adianta.

Nasci careca, nu e sem dente. O que vier é lucro.

Um chato nunca perde o seu tempo. Perde o dos outros.

Não brinque com fogo: ele não sabe brincar.

Celebridade é alguém que trabalha duro muito tempo para se tornar conhecida, e depois passa a usar óculos escuros para não ser reconhecida.

Você estará velho quando achar que antigamente era melhor.

Canela: parte do corpo útil para achar móveis no escuro.

Amigo é alguém que tem os mesmos inimigos que você.

A fé move montanhas. Os ecologistas são contra.

Ser canhoto é muito fácil, difícil é ser direito.

Quando não restar mais nenhuma opção, leia o manual de instruções.

Evite acidentes. Faça de propósito.

Quando era criança, pensava que dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje tenho certeza.

Você sabe que está ficando velho quando as velas saem mais caro que o bolo.

A primeira amnésia a gente nunca esquece.

A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com a mesma piada como se fosse a primeira vez.

Não existem ateus numa pane de avião.

No avião o medo é sempre passageiro.

Nosso aeroporto

José Horta Manzano

Quase três décadas atrás ― faz exatamente 28 anos neste 20 de janeiro ―, foi inaugurado o novo aeroporto de São Paulo. No começo, chamou-se indiferentemente Guarulhos ou Cumbica. Mais tarde, tentaram impor-lhe o nome do político que ocupava o cargo de governador do estado à época da inauguração. Parece que não pegou. Não é comum alguém dizer que apanhou seu voo no Franco Montoro. Continua sendo conhecido como Guarulhos ou Cumbica.

Desde os tempos em que o Padre Anchieta subiu a serra, faz meio milênio, para exercer seu apostolado no planalto, já se sabia que o sopé das encostas da Cantareira era sujeito a nevoeiros e brumas frequentes. Pior que isso, o caminho para se chegar lá, partindo da cidade de São Paulo, tem de atravessar, obrigatoriamente, o vale do Tietê.

Canal principal de drenagem das águas tropicais da região, o rio sempre foi alagadiço na estação das chuvas. A fraca declividade de seu leito, o alastramento da mancha urbana e o descaso dos habitantes e de seus dirigentes só fizeram agravar o problema.

O que é verdadeiro hoje, já o era quando foi escolhido o lugar onde se erigiria a nova estação aérea: o local não é adequado. Além disso, a via de acesso corre risco permanente de estar tomada pelas águas.

A lógica indicava duas saídas. A primeira delas, mais evidente, era transformar o já existente sítio de Viracopos em aeroporto metropolitano. A estrutura de base estava pronta e boa parte das desapropriações já tinham sido feitas. O clima da região é bem menos sujeito aos caprichos úmidos de Guarulhos. O problema maior era o afastamento de 95km da capital. A ideia de se implantar uma linha de trem expresso entre o terminal aéreo e a metrópole não vingou.

A segunda saída apontava para um compromisso. Aceitar a instabilidade climática de Guarulhos, mas compensar o risco com um acesso rapidíssimo e garantido o tempo todo. A ligação férrea seria bem mais curta (23km), portanto, muito menos onerosa.

Sabemos todos que os decididores da época optaram pela pior solução: escolheram construir no sítio menos adequado e, como se não bastasse, passaram por cima do fato de que um aeroporto é, em princípio, frequentado por passageiros. Deixaram que o problema do transporte rápido e seguro fosse resolvido pelas gerações seguintes.Aeroporto Guarulhos

Sabe-se lá quais foram as absconsas razões que levaram as autoridades a tomar essa decisão. Dizem uns que os militares que governavam o País na época só bateram o martelo quando se certificaram de que o novo aeroporto civil seria instalado junto à base aérea já existente. Dizem outros que interesses mais escusos ― e não necessariamente voltados ao bem-estar da população ― guiaram a escolha.

O fato é que Guarulhos, 45° aeroporto do mundo em movimento de passageiros segundo a última lista publicada pelo Airports Council International, é um dos raros ― provavelmente o único entre os 50 maiores ― a não oferecer a seus passageiros o conforto de uma ligação férrea frequente, rápida e segura com o centro da metrópole.

Essa incúria, à qual brasileiros dão de ombros como se fosse fatalidade incontornável, talvez explique em parte a forte baixa na chegada de turistas. As estatísticas do Aeroporto de Guarulhos mostram que a entrada de visitantes provenientes dos 26 maiores países emissores encolheu 20% entre 2005 e 2011. Estamos falando de 400 mil chegadas a menos, a cada ano. É um bocado de gente!

Mas nem tudo está perdido, caros leitores! Como trinta anos atrás, novos projetos continuam a pipocar esporadicamente. É trem-bala para cá, ligação expressa para lá. A cada vez, tem-se o sentimento de que «agora, vai»!

Enquanto «não vai», contentemo-nos com um chique e sofisticado sistema automático de despacho de malas. Revolucionário. Está previsto para entrar em funcionamento em junho de 2014. Se não chover daqui até lá, evidentemente. Veja aqui.

Ânimo, que falta só um ano e meio! A partir daí, temporais, enchentes e nevoeiros podem até bloquear o aeroporto ou o caminho que leva a ele. Em compensação, a bagagem será encaminhada au-to-ma-ti-ca-men-te!

Pode não ser muito útil, mas é um charme. Ou não?

Melhorou um bocado

El Malecón

El Malecón

José Horta Manzano

Dia 8 de janeiro, postei o texto De quoi je me mêle?  para expressar minha indignação contra o que me pareceu uma intromissão irresponsável da República Federativa do Brasil nos assuntos internos da vizinha Venezuela.

Mais do que a ingerência explícita, chocou-me o fato de a manifestação impertinente, que empenhava nossa nação, ter partido de um mero assessor especial da presidência da República.

Uma semana depois, em 15 de janeiro, nova intrusão ― anônima, é verdade, mas presumivelmente oriunda do mesmo gabinete ― obrigou-me a voltar à carga. Argumentei em novo post ― Ah, se Bolivar soubesse… ― que a Venezuela não era um protetorado brasileiro. Não cabia a nossas autoridades dar pitacos em seus assuntos internos.

Não acredito que os mandachuvas de Brasília se deixem guiar por minha visão de mundo, embora ache modestamente que, se o fizessem de quando em vez, talvez não lhes ficasse mal.

Deve-se dar a César o que lhe pertence. E razão, como sabemos todos, dá-se a quem tem. Hoje quero exprimir meu alívio. Finalmente, o Itamaraty deu mostra de que ainda guarda um resquício de bom senso. Alvíssaras!

A Agência EFE, em notícia repercutida por diversos órgãos de imprensa, informa que o titular das Relações Exteriores de nossa República ― ministro que leva o adequado e conveniente nome de Antonio Patriota ― foi muitíssimo mais prudente sobre o assunto.

Em entrevista coletiva, nosso chanceler evitou dar diretivas ao governo venezuelano. Diferentemente do desastrado assessor especial, ponderou que cabe às autoridades do país vizinho encontrar solução para o imbróglio político em que se enfiaram. A meu ver, ainda falou mais do que precisava, talvez levado pelo entusiasmo do momento. Assim mesmo, manteve postura profissional e não cometeu o irreparável. Veja aqui e aqui.

Talvez nosso iracundo assessor especial tenha sentido o desaveu, o discreto puxão de orelha. Talvez não. Em todo caso, permito-me dar a ele uma sugestão: faria melhor se decidisse passar uma temporada numa certa ilha caribenha. Se faltar dinheiro para a passagem, posso até oferecer pequena contribuição para completar a vaquinha. Meu óbulo não há de ser pesado, pois periga sermos muitos a querer contribuir.

A brisa suave que sopra por sobre o malecón(*) e o mormaço tropical não hão de lhe fazer mal. Poderia até aproveitar para congraçar-se com velhos companheiros, hoje já companheiros velhos.

Entrevistas coletivas não são comuns naquelas paragens. O silêncio evitaria, assim, que o mundo ouvisse o santo nome de nossa República atrelado a uma percepção política que estacionou nos anos sessenta.

Não custa sonhar, não é mesmo?

(*) Malecón é o nome do passeio marítimo de Havana.

O Brasil e a saúde

José Horta Manzano

Uma vez, de visita a uma unidade de saúde de Porto Alegre, um mandachuva graúdo, muito conhecido, daquele tipo que costuma dizer o que lhe vem à cabeça, saiu-se com esta: “Eu acho que não está longe da gente atingir a perfeição no tratamento de saúde neste país”. O séquito anuiu e aplaudiu. Cortesãos costumam dizer amém a tudo o que seu mestre diz.  Parece que houve até quem acreditasse na gabarolice.

Passaram-se 7 anos. Um artigo da Folha de São Paulo deste 18 de janeiro escancara uma realidade a anos-luz do que havia declarado o figurão. Nunca saberemos se ele foi sincero quando disse o que disse ou se sabia que suas palavras levianas visavam apenas a aparecer no jornal televisivo.Boné enfermeiro

Segundo a investigação da Folha, é conveniente que os paulistanos fujam de dores lombares e de fraqueza nas pernas. O exame necessário para encontrar a origem do mal tem fila de espera de 35 meses (= 3 anos!). Já para os que precisam se submeter a uma colonoscopia, o futuro é mais risonho: apenas 10 meses de paciência são suficientes.

Na espera de conseguir a graça de uma consulta ou de um exame na maior, mais rica e mais bem aparelhada capital brasileira, perto de 700 mil compatriotas usufruem seu quinhão da quase-perfeição alardeada em 2006. Continuam na fila.

Il faut choisir entre la peste et le choléra, dizem os franceses quando se defrontam com um dilema, com uma escolha obrigatória entre duas opções ruins.

Que Deus ajude os trabalhadores brasileiros, aqueles mesmos que entregam ao governo parte de seu salário magro sem lograr reavê-lo sob forma de cuidados públicos com a saúde.

Dia destes, vão ter de escolher entre câncer e aids. E isso não é metáfora.

Life is cheap

Mãos ao alto 1José Horta Manzano

Pelo fim dos anos 70, numa época em que eu trabalhava para uma firma americana estabelecida em São Paulo, recebemos um visitante dos EEUU. Lá pelas tantas, em meio a um bate-papo despretensioso, não me lembro mais por que razão, ele se saiu com esta: life is cheap in this country ― a vida é barata neste País.

Levei um bom tempo tentando decifrar a mensagem do forasteiro. Certamente ele não se referia ao preço dos gêneros alimentícios, nem ao salário dos funcionários ― que, naquela época como hoje, andava um bocado defasado se comparado com os países mais adiantados.

Com o passar dos anos, confrontando fatos brasileiros com acontecimentos internacionais, fui pouco a pouco me dando conta do alcance das palavras do visitante. Acredito que hoje consigo decodificar o significado delas.

Faz umas duas semanas, os jornais deram, nas páginas internas, a notícia de que o dono de um restaurante havia assassinado um cliente. O motivo? Uma discussão provocada por uma reclamação sobre uma diferença de 7 reais na conta da refeição. Sete reais! Uma vida ceifada por três dólares! Para reavivar memórias curtas, aqui está a informação publicada pela Folha de São Paulo.

Estes dias, repeteco fúnebre. Desta feita, foi a vez de o dono de um restaurante ser presenteado com bilhete de ida simples para o necrotério em consequência de um litígio sobre uma conta de 8 reais. Oito reais! Quem esteve passeando na Polinésia semana passada pode se atualizar relendo a informação dada pelo Correio Braziliense.

Poderia ter acontecido com o distinto leitor, com a elegante leitora, com qualquer um de nós. Ou não?

A notícia de que um jovem desequilibrado trucidou 20 pessoas numa escola americana, faz alguns dias, chocou e comoveu o mundo. Baldes de tinta foram gastos em tentativas de explicação do tresloucado gesto. Jornais da Guatemala, da Somália e da Mongólia repercutiram a pavorosa informação.

Que eu tenha visto, salvo escassas notas internas de nossa mídia, poucos se interessaram pelos homicídios tupiniquins. Um filósofo de botequim poderia até chegar à conclusão de que massacres só chamam a atenção quando as vítimas são numerosas. Ou ricas e famosas.

Vamos, minha gente, matutemos um instante. Cometer o irreparável contra um semelhante já era, por si, uma barbárie condenada pelos neandertais, cinquenta mil anos atrás. Fazê-lo hoje, em pleno século XXI, por um punhado de reais ultrapassa o entendimento. É surrealista.

Mãos ao alto 2Desgraçadamente, como sabemos todos, selvagerias como essas acontecem diariamente em nosso País. As duas que mencionei só tiveram direito a menção na imprensa por terem sido perpetradas em recintos públicos de grandes cidades. Bateladas de acontecimentos semelhantes passam em branco. Sabe Deus o que se comete quotidianamente nos grotões de Santa Sebastiana do Fundão ou de Jururu d’Oeste.

Onde está o erro? Por que é que a constatação do visitante de 35 anos atrás permanece tão atual? De que serve adotar linguagem politicamente correta, patrocinar manifestações esportivas prestigiosas, trombetear crescimento econômico, enquanto o valor da vida humana continua tão insignificante?

Crime & castigo

José Horta Manzano

Andei lendo um artigo do sisudo Financial Times sobre práticas quase-legais, comuns no Brasil. A revista tenta explicar a seus leitores o que é e como funciona o jeitinho brasileiro. Poucos devem ter entendido. Palavras são insuficientes para descrever uma realidade da qual o leitor está muito afastado.

Achado não é roubado. Taí um provérbio perfeitamente plausível e aceito no Brasil, mas incompreensível para muitos povos, entre eles os europeus do norte. Para um alemão (ou um inglês, ou um suíço, ou um finlandês, ou um belga), o fato de alguém ter encontrado um objeto perdido por outro indivíduo não lhe confere posse automática.

Uma pessoa é possuidora daquilo que lhe tiver sido vendido, dado de presente, doado. Pode até apossar-se do que tiver sido atirado ao lixo. Mas não tem ― ou não deveria ter ― direito de propriedade sobre objeto a cuja posse o dono legítimo não tenha renunciado. O provérbio achado não é roubado pode servir para ladrões, não para gente honesta.

Disco de estacionamento

Disco de estacionamento

Leis variam conforme o lugar do planeta. O que é permitido aqui pode perfeitamente ser proibido ali, e vice-versa. Diferenças refletem a diversidade cultural entre países e regiões. No entanto, um princípio é básico e universal: leis são feitas para serem cumpridas.

Na teoria, pelo menos, é assim. Mas por que é que a teoria funciona em certos lugares e não em outros? Por que será que alguns povos cumprem virtuosamente os preceitos legais, enquanto outros são mais laxistas e convivem com jeitinhos?

A resposta está no empenho de cada sociedade em fazer que a lei seja cumprida. Quando há concordância sobre o fato de que as normas devem ser respeitadas, a própria comunidade se encarrega de coibir desvios. Em palavras mais chãs: quando todos entendem que a lei deve ser cumprida, uns vigiam os outros.

Uma vez, anos atrás, deixei o carro num lugar onde o estacionamento era permitido durante 15 horas. Parava-se o veículo e punha-se um disco horário, visível do lado de fora, indicando a hora de chegada. As 15 horas expiravam à 3h da madrugada, mas eu tinha intenção de ficar até as 8h da manhã. Que fazer? Pensei: «mas que bobagem, nenhum guarda vai aparecer para multar às 4h da madrugada, numa rua residencial, escura e tranquila». Fui dormir tranquilo, sem imaginar que havia cometido um erro de avaliação. Um guarda veio no meio da noite e grudou o desagradável papelzinho no para-brisa. Resultado: paguei a multa e nunca mais bobeei em matéria de estacionamento. A quase certeza de ser sancionado inibe o cidadão na hora de descumprir regulamentos.

Alguns meses atrás, recebi uma multa por excesso de velocidade. Fui flagrado por um radar. Não havia como reclamar: dia, hora, minuto e lugar exato estavam anotados e fotografados. Um detalhe: o excesso foi de… 1 km/h (um quilômetro por hora!). Não adiantava reclamar. Paguei. Dura lex, sed lex.

Quero ainda contar uma aventura acontecida com um conhecido meu, faz já alguns anos, no tempo em que telefones de bolso não existiam. Ele tinha estacionado na rua, junto à calçada, com um carro atrás e outro na frente. Na hora de ir embora, fez uma manobra desastrada e amassou de leve o para-choque de um dos que estavam estacionados. Em casos como esse, o costume aqui é deixar um cartão de visitas, um papelzinho, um recado qualquer, preso no vidro do carro atingido. O autor do descuido deixa-se um pedido de desculpas e seus próprios dados, para que o dono do outro carro possa entrar em contacto com vistas ao ressarcimento.

Meu conhecido não tinha cartão, nem papel à disposição. Teve, então, uma ideia. Memorizou o número da placa do carro acidentado. Chegando em casa, ligou imediatamente para a polícia, identificou-se, contou o que tinha acontecido e deu o número da placa que havia decorado. O policial disse-lhe textualmente: «ainda bem que o senhor ligou, porque já tínhamos recebido três denúncias feitas por pessoas que testemunharam o ocorrido».Acusação

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Espantoso para quem não está acostumado, não é? Pois é assim que funciona. Costumo dizer que um alemão (ou um sueco, ou um holandês, ou um austríaco) não é mais nem menos honesto do que um brasileiro. Se ele cumpre as leis, é porque sabe que, se não o fizer, dificilmente se livrará da sanção. Se não for flagrado pela autoridade, não escapará da vigilância da sociedade.

No dia ― ainda muito distante ― em que os brasileiros se compenetrarem de que fazem todos parte da mesma sociedade, no dia em que se derem conta de que o malfeito de um prejudica a comunidade inteira, a criminalidade e o jeitinho entrarão em queda acelerada.

Mas ainda vai levar tempo, que ninguém se afobe. Até lá, muita água ainda vai correr pelo Amazonas.

Parceria estratégica

José Horta Manzano

Já faz uns dez anos que, na onda de alinhamento automático com tudo o que lhe soasse antiamericano ou antieuropeu, o governo brasileiro houve por bem incentivar as curiosas relações político-comerciais ditas «sul-sul». Stricto sensu, a expressão é gritantemente inexata. É um tremendo equívoco sustentar que China, Rússia e Índia sejam países «do sul». Mas relevemos a impropriedade geográfica e passemos ao que interessa.

Todas las monedas tienen dos caras ― dizem os espanhóis. Para nós, a cara está de um lado apenas. E a coroa, entalhada no verso, nem sempre é tão reluzente como parece.

Desdenhando as economias ricas ― hoje conhecidas como «países centrais» ― o Brasil preferiu cortejar nações periféricas. Após um rufar de tambores que prenunciava futuro radioso, a mágica está dando chabu. A realidade é cruel e começa a revelar-se pouco faceira.

Ninguém se deu conta de que as nações ditas emergentes têm necessidades semelhantes às nossas. Nossos manufaturados não são de grande valia para esses novos parceiros. A complementaridade que se buscava tinha outro nome: concorrência. Competição feroz.

Nossa obstinação tinha objetivos muito mais políticos do que comerciais. Em vez de seguir o sábio exemplo de países que alavancaram o nível de vida de seu povo fortalecendo a economia discretamente, na moita, sem se preocupar em aparecer como grandes potências, o Brasil instalou a carroça à frente dos bois. Deu-se ares de nação poderosa sem se preocupar em reforçar seu esqueleto, em sanar suas próprias deficiências. Nossa infraestrutura continua rudimentar, a calamitosa instrução pública continua a prover nossa juventude de formação tosca.

Deu no que deu. O Brasil, um gigante em aparência, continua assentado em pés de barro. Ações são tomadas apenas em caráter de emergência, no sufoco, sem planejamento de longo prazo. Remenda-se aqui, tapa-se um buraco ali, constrói-se um puxadinho acolá. Toca-se a trombeta, mas a banda não acompanha.

Mas não reclamemos, gente impertinente! Ainda nos resta… o feijão! Esse é nosso, e ninguém nos tira. Será?

A China ― sempre ela, o nosso melhor «parceiro estratégico» ― tem usufruído de nossa ingenuidade. Não acredita? Pois então continue a leitura.

O bacalhau vem de Portugal ou da Noruega. E o feijão preto, evidentemente, é produto da terra, brasileiro legítimo. Certo? É o que imaginamos todos. A realidade é um pouco diferente.

Crédito: Die grüne Speisekammer

Crédito: Die grüne Speisekammer

Artigo pra lá de instrutivo publicado pela Folha de São Paulo deste 15 de janeiro nos informa que a China se tornou nosso maior fornecedor de feijão preto. Estamos comprando feijão da China, companheiros!

E não é só. Nos últimos quatro anos, a importação de produtos agrícolas cultivados em terras chinesas quadruplicou. Passou de 0,8 a 2,3 bilhões de dólares por ano. E a gente que imaginava que o grande país oriental, superpovoado, não tinha espaço nem para enterrar seus mortos na horizontal. Vivendo e aprendendo.

Já faz anos que nosso país se desindustrializa. Disso, já sabíamos todos. Pois agora ficamos sabendo que nos tornamos dependentes da China para o feijão nosso de cada dia. E para o bacalhau também, pasmem.

Como é reconfortante saber que estamos sendo governados por gente de visão. Viva a parceria estratégica!

Ah, se Bolivar soubesse…

José Horta Manzano

«Brasil pede que Venezuela realize eleições se Chávez morrer», proclamou a Folha de SP.

O Jornal do Brasil foi mais incisivo: «Brasil quer (sic) novas eleições em caso de morte de Chávez».

A Agência Reuters seguiu na mesma linha: «Exclusivo: Brasil quer (sic de novo) eleição na Venezuela se Chávez morrer».

Nenhum deles mencionou claramente suas fontes. Mas, pela convergência das afirmações, é de acreditar que a «vontade» do Brasil emane de esferas pra lá de elevadas. O desejo terá sido expresso por gabinetes estreitamente ligados ao Planalto. Talvez a ânsia venha dos mesmos aposentos que abrigam os sombrios personagens que já vêm se manifestando há alguns dias.

Mas que história é essa de «o Brasil quer»? A Venezuela não é um protetorado brasileiro. Ao que se saiba, não pediu a opinião ― e muito menos solicitou a intervenção ― de Brasília.

Fico curioso tentando adivinhar qual seria a reação de nossos mandachuvas se a situação fosse inversa. Imaginemos por um instante ― é somente um exercício hipotético, que não me atribuam votos nefastos! ― que o inquilino do nosso Planalto estivesse nos estertores, a um pé da cova, como diz o povo.

Suponhamos ainda ― continuo no campo da teoria, que ninguém me atire pedras ― que um governo estrangeiro se atrevesse a declarar abertamente como quer (sic) que a transição se passe em nossas plagas.

Dá para imaginar a indignação e o fuzuê que isso causaria por aqui?

Brasil e Venezuela 1

Tanto a sofrida Venezuela quanto o sofrido Brasil são, até segunda ordem, Estados (em teoria) civilizados, soberanos, organizados, reconhecidos internacionalmente e, acima de tudo, regidos por uma Constituição. A Venezuela, como todo país de direito, conta com uma Lei Maior que indica o caminho a seguir em caso de impedimento, ausência ou falecimento do primeiro mandatário. Não cabe a outros dar-lhe lições para enfrentar situações políticas particulares.

As regras geralmente aceitas de convivência pacífica entre nações não preveem, em hipótese alguma, que uma potência estrangeira intervenha com tal descaramento no destino de outro país. Pelo menos, não de maneira tão desabrida. Pelo menos, não em tempo de paz.

Troca de notas diplomáticas sigilosas sempre houve e sempre haverá. Faz parte do jogo. O que não tem cabimento é a publicidade que se tem dado a autoridades que, ao exprimir anseios pessoais, embaraçam e comprometem uma nação inteira.

Como dizem os ingleses, se cada um varresse diante de sua própria porta, o mundo inteiro seria mais limpo.

Para pensar em casa

José Horta Manzano

Este blogue traz uma que outra citação. Pode ser um provérbio latino, pode ser uma frase pronunciada por algum figurão de nossos tempos, se bem que garimpar frases inteligentes, nestes tempos estranhos, está-se tornando tarefa árdua. É trabalhoso, mas não impossível. A prova vem logo aqui abaixo. Não resisti à tentação de reproduzir duzentas e poucas palavras encharcadas de sensatez.

Sob o título Prepotência sem Fronteiras, o perspicaz Elio Gáspari tomou sua pluma mais corrosiva e publicou em sua coluna da Folha online deste 13 de janeiro um tópico digno de ser recortado e levado para ler em casa. É melhor morrer amigo dele.

Elio Gáspari

Elio Gáspari

“Don Corleone orienta o comissariado

Elio Gáspari

Num momento luminoso para o PT, o companheiro Olívio Dutra, fundador do partido, ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul, disse ao deputado José Genoino: “Eu acho que tu deverias pensar na tua biografia, na trajetória que tens dentro do partido. Eu acho que tu deverias renunciar. Mas é a minha opinião pessoal, a decisão é tua. Não tenho porque furungar(*) nisso”.

Dias depois, o comissário André Vargas, secretário de Comunicação do partido, disse que Olívio fora “pouco compreensivo”. E mostrou a faca: “Quando ele passou pelos problemas da CPI do Jogo do Bicho, teve a compreensão de todo o mundo. (…) Ele já passou por muitos problemas, né?”

Engano. Durante o governo de Olívio Dutra, o PT gaúcho foi apanhado numa maracutaia, mas ele nunca foi acusado de envolvimento direto no caso. Processo judicial, nem pensar. Genoino e seus colegas foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal.

Olívio Dutra é de um tempo em que petistas rachavam apartamento em Brasília (seu parceiro era Lula). Quando deixou a prefeitura, voltou a ser um bancário. Com seus bigodes e uma bolsa tétrica, anda de ônibus. Passou por problemas, mas nunca passou pelas soluções dos comissários de hoje.

A resposta de André Vargas indica que, no PT 2.0, uma pessoa com a biografia de Olívio é um estorvo, tornando-se necessário colocá-lo ao alcance de qualquer suspeita.”

(*) Furungar é regionalismo gaúcho. Quer dizer remexer, xeretar. (Nota do blogueiro).

Politicamente correto estilo anos 60

José Horta Manzano

Você sabia?

Você acha que essa irritante moda do politicamente correto é novidade, uma importação recente? Pois prepare-se para uma decepção.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Um movimento eclodiu neste Brasil brasileiro muitos anos antes de importarmos essa maneira estranha de nos comunicar, em que cada palavra tem de ser sopesada antes de ser pronunciada.

Um rascunho de cartilha politicamente correta foi apresentado décadas antes de trazermos, de importação, essa novidade tão distante do jeito irreverente de se exprimir de nossa gente.

Mais de cinquenta anos atrás, já havia gente enxergando o mal por toda parte. Na época, a solução preconizada era bem mais radical que hoje. Se, atualmente, certas expressões são apenas desaconselhadas, há meio século a ideia era francamente bani-las, removê-las do dicionário. ¡Vaya radicalismo! ― diriam nossos hermanos.

A capital paulista contou, durante mais de setenta anos, com um jornal de qualidade que, infelizmente, já desapareceu. Chamava-se A Gazeta. Circulou de 1906 a 1979. Quem se interessar em conhecer um pouco da história do jornal pode visitar esta página.

O professor Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), filólogo e lexicógrafo, era autor do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, adotado no ensino público.

Em 20 de julho de 1961, o professor Silveira Bueno foi entrevistado por um jornalista da Gazeta. O assunto era justamente a ameaça que sofria seu dicionário de ser amputado de algumas palavras julgadas ofensivas.

Era o prenúncio dos tempos estranhos que vivemos. Já então, confundia-se o recado com o portador. Já então, imaginava-se ingenuamente que, eliminado o mensageiro, estaria automaticamente eliminada a mensagem.

É erro antigo que perdura. A língua é maior que dicionaristas. A língua pertence a seus falantes. Lexicógrafos e dicionaristas nada mais fazem que registrar fatos da língua, não são seus criadores, nem responsáveis por eles.

Inseri no post de hoje a entrevista de 1961. Ela se explica por si mesma, dispensa maiores comentários.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Naquele começo dos anos 60, os Estados Unidos ― grande democracia ― ainda viviam tempos de segregação. Ainda se construíam banheiros públicos separados para pretos e para brancos, ainda se reservavam lugares para não brancos no fundo dos ônibus.

Está aí a prova do pioneirismo de nosso País. Para dizer a verdade, eu bem que preferia que tivéssemos sido os primeiros em outros campos mais proveitosos para a população, mas ― que fazer? ― não se muda a História.

Só mais um detalhe picante. Quem tiver a paciência de ler a entrevista de Silveira Bueno verá que a birra da época era contra a palavra negro, considerada, então, pesada e ofensiva. Os descendentes de africanos haviam de ser chamados de pretos, essa era a forma suave, delicada e correta.

O tempora, o mores!

Glossário

José Horta Manzano

Aqui está um Pequeno Glossário do Português Atual. Alguns de vocês já devem ter visto, mas sempre vale a pena ver de novo. É boa receita para alegrar um sábado.Glossario

ABREVIATURA    —    ato de abrir um carro de policia
ALOPATIA    —   dar um telefonema para a tia
BARBICHA    —   boteco para gays
CÁLICE    —   ordem para ficar calado
CAMINHÃO    —   estrada muito grande
CATÁLOGO    —   ato de apanhar coisas rapidamente
COMBUSTÃO    —   mulher com peito grande
DESTILADO    —   tudo o que estiver do lado de cá
DETERGENTE    —   ato de prender indivíduos suspeitos
DETERMINA    —   ato de prender uma garota
ESFERA    —   animal feroz já amansado
HOMOSSEXUAL    —   sabão em pó indicado para lavar as partes íntimas
LEILÃO    —   Leila com mais de 1m80 de altura
KARMA    —   expressão usada em MG para serenar ânimos
LOCADORA    —   uma mulher de nome Dora com problemas mentais
NOVAMENTE    —   diz-se de indivíduos que renovam sua maneira de pensar
OBSCURO    —   “OB” de cor preta
QUARTZO    —   partze ou aposentzo de um apartamentzo
RAZÃO    —   lago muito extenso e pouco profundo
RODAPÉ    —   aquele que já teve carro mas agora vai a pé
SAARA    —   muulher do Jaacó
SEXÓLOGO    —   sexo apressado
SIMPATIA    —   quando se concorda com a irmã da mãe
SOSSEGA    —   mulher desprovida de visão
TALENTO    —   característica de movimento reduzido
TÍPICA    —   o que o mosquito nos faz
UNÇÃO    —   erro de concordância muito freqüente (o correto seria um é)
TIÇÃO    —   variante do mesmo erro
VATAPÁ    —   ordem dada por prefeito de cidade esburacada
VIDENTE    —   dentista relatando seu trabalho
VOLÁTIL    —   sobrinho avisando aonde vai

Estalactite

Estalactite 2José Horta Manzano

Você sabia?

Estalactite, sabemos todos o que é. Damos esse nome àquelas curiosas formações encontradas principalmente no interior de grotas úmidas. São como colunas, como cones invertidos ― de cabeça para baixo, com a base presa no teto.

O nome, que soa tão científico, entrou na língua pela via erudita. Começou a ser mencionado cerca de 200 anos atrás, mas só foi dicionarizado bem mais tarde. Provém de uma raiz grega ― stalaktos ― que significa gotejante, aquilo que escorre gota a gota.

No dia a dia, usamos palavras descendentes dessa mesma família. Entre outras, instilar e destilar. Ambas trazem embutida a ideia de gota a gota, pouco a pouco.

Nas grutas, as estalactites são formadas por precipitação de matéria calcária. Muito lentamente, gotículas de água escorrem pelas colunas. Com o passar do tempo, a água evapora e o cálcio solidifica. Resultam imagens um tanto fantasmagóricas, mas, ainda assim, belíssimas. Daquelas que nos remetem a antigos desenhos animados.

Nestes tempos em que crianças não hesitam em trucidar criaturas monstruosas em jogos de computador, uma floresta de estalactites não deve mais assustar ninguém. Mas garanto-lhes que esses cones invertidos já cumpriram seu papel atemorizante na mente de muitos dos adultos em que nos convertemos.Estalactite 4

Não é só em grutas e cavernas que se encontram formações desse tipo. No inverno, caprichos climáticos de latitudes mais frias proporcionam às vezes espetáculos impressionantes.

Após uma boa nevada, às vezes o sol aparece. Seus raios, embora tênues, podem ser suficientes para derreter uma parte da neve acumulada. O resultado é um filete d’água que goteja de telhados, de amuretas, de rochedos. Quando não há vento, as gotículas vão-se congelando à medida que escorrem. Formam-se então estalactites de gelo, de muita beleza.

Não resistem muito tempo, mas encantam os olhos. O que é bom dura pouco.Estalactite 5

Curso de inglês grátis

José Horta Manzano

Você sabia?

Na França, há uma estação de rádio de informação contínua, que irradia durante 24h por dia. Difunde um jornal completo a cada meia hora e repete as manchetes a cada quinze minutos.

No meio dessa enxurrada de notícias, sobram alguns minutinhos aqui e ali, que são recheados com entrevistas curtas e outras amenidades. Aos sábados, quando o perfil dos ouvintes se modifica, até receitas culinárias são apresentadas.

Todas as manhãs, dois minutos são reservados a Jean-Pierre Gauffre, que tece uma crônica sobre algum acontecimento do momento. O homem é humorista fino. Sua arte está a milhas de distância do humor escrachado e escatológico que costuma dominar os espetáculos destinados a provocar o riso. Enfim, a cada artista, seu público. E vice-versa.

O tema de hoje girou em torno das aulas grátis de inglês e de espanhol que o Senac de Belo Horizonte está oferecendo. Trata-se de um curso básico dirigido especificamente às prostitutas da cidade. A intenção é prepará-las para acolher os clientes que a Copa-14 certamente trará.

Crédito noticias.r7.com

Crédito noticias.r7.com

A notícia é verdadeira, não foi invenção do cronista. Confira no site R7 de notícias. Monsieur Gauffre trata o tema com a necessária delicadeza. Pela seriedade da elocução, parece até estar lendo uma notícia qualquer. Mas lá no fundo se percebe uma fina ironia. Ele chega a propor ao presidente da França que se inspire nesse exemplo para enriquecer programas de formação profissional contínua já existentes no país.

Se alguém se dispuser a gastar dois minutos ouvindo a crônica de hoje, o endereço está aqui. O site de France-info funciona mais ou menos como um caraoquê: o texto e voz aparecem na tela ao mesmo tempo. É prático para desempoeirar velhos conhecimentos de língua francesa.

E a gente fica aqui a matutar por que cargas d’água certas iniciativas úteis ― não falo apenas de cursos de línguas para profissionais do sexo ― são tomadas somente na iminência de eventos considerados importantes, tais como eleições, copas do mundo, visita de estrangeiros ilustres.

Um ditado resume bem a situação: limpa-se somente por onde passa a procissão. É aforismo antigo, mas continua firme e forte. Valia ontem e continua valendo hoje.

Mais um

Àqueles que acham que me excedi ao criticar a intromissão da diplomacia brasileira no caso da vizinha Venezuela ― cujo presidente eleito está impedido de tomar posse do cargo por problemas de saúde ―  recomendo dar uma espiada no artigo de Elio Gáspari publicado pela Folha desta quarta-feira. Ultraexperiente em política, o jornalista não só vai direto ao ponto, como também faz um paralelo com situações já vividas pelo Brasil no tempo dos militares. Vale a pena conferir.

Identidade de análise

José Horta Manzano

Publiquei ontem um post que chamei  De quoi je me mêle. No escrito, eu me insurgia contra o fato de o governo brasileiro interferir desabridamente em problemas internos de um país vizinho.

Vejo hoje, reconfortado, que um dos editoriais do Estadão vai exatamente pela mesma linha e com os mesmos argumentos. É bom a gente sentir que não está só. Confira.

Da nacionalidade

Passaporte BRJosé Horta Manzano

Universidades costumam distribuir ― nem sempre judiciosamente ― títulos de doutor honoris causa a cidadãos preeminentes. Poíticos e artistas são as escolhas mais frequentes. É um excelente investimento: não custa grande coisa, aumenta a visibilidade da universidade e bajula um figurão.

A mim sempre pareceu uma homenagem inadequada. Um título de doutor se consegue depois de muita luta, de grande esforço, de enorme dedicação, de incontáveis sacrifícios. É um atestado de capacidade e, principalmente, de mérito. Não fica bem distribuí-lo como mimo a figurões. Chega a humilhar os que transpiraram para chegar lá.

Outro costume me chama a atenção. É a outorga do título de cidadão honorário de um município. O afago foi instituído com bastante lógica, para saudar pessoas que, embora sendo originárias de um município, tenham trazido benefícios a outro. Este último mostra seu reconhecimento ao forasteiro, em homenagem pública.

Outra coisa é distribuir títulos de cidadão honorário a torto e a direito a figurões da política ou do mundo do espetáculo. Em geral, são gente que pouco ou nada fez em prol do município outorgante. É menos grave que um título de doutor dado a quem não merece, concedo. Mas não deixa de ser um escárnio com relação à população do município.

Jornais do mundo inteiro, entre eles o francês Le Monde nos informam que uma nova modalidade de homenagem está sendo inaugurada estes dias: a distribuição de passaportes. O ator francês Gérard Depardieu acaba de receber um passaporte russo. Foi-lhe concedido por simples decreto do presidente Putin. Antes disso, a ligação do ator com a Rússia se resumia a três pontos: ter decorado às pressas algumas palavras do idioma local; ter tido um pai comunista; ter recentemente representado o papel de Rasputin num filme girado no país. Mais nada.

Nem todos os russos apreciaram. Gérard Depardieu enalteceu a “grande democracia” russa, fato que enfureceu muita gente. Por outro lado, o ator tem a fama de «lever le coude» (= levantar o cotovelo), expressão caseira que os franceses usam para apontar alguém que exagera na bebida. Um dos simpatizantes de Putin ― cineasta russo nacionalista ― não apreciou a prenda ofertada pelo presidente ao ator. Sarcasticamente, comentou: «teremos um alcoólatra a mais!».

Um artigo do Estadão online nos informa que, indagado pelo entrevistador, Gérard Depardieu respondeu que sim, aceitaria de bom grado um passaporte brasileiro, se o documento lhe fosse oferecido.

Que se distribuam, a torto e a direito, títulos honoríficos de doutor ou que se espalhem títulos de cidadão deste ou daquele município já são práticas discutíveis. Agora, que se instale a moda de oferecer nacionalidade por capricho presidencial já estamos passando dos limites.

A nacionalidade ― sua aquisição e sua perda ― estão perfeitamente definidas em nossa Constituição e em leis complementares. Outorgá-la não é, nem pode ser, direito privativo e discricionário do chefe do executivo. Para obtê-la, há um caminho a ser trilhado.

Para casos de urgente necessidade de caráter humanitário, há outros expedientes à disposição das autoridades. A concessão da nacionalidade não é mimo que se ofereça, sem mais nem menos, a figuras populares.

Nacionalidade não é brinde, é bem mais sério que isso.

É sol, é sal, é sul!

José Horta Manzano

Muito melhor que eu, Everaldo José dos Santos conta a história da marchinha Allah-la-ô, gravada por Carlos Galhardo em 1941, nos tempos áureos do carnaval de rua.

Ao saber dos quase 41 graus registrados hoje no Rio de Janeiro, não pude deixar de me lembrar da composição de Haroldo Lobo e Nássara.

Crédito: Yann Arthus-Bertrand

Crédito: Yann Arthus-Bertrand

O calor tropical não devia ser muito mais suave que o de agora na então Capital Federal. Mas as praias eram menos frequentadas, o que certamente amenizava a temperatura. A coabitação era, digamos assim, menos íntima e o calor humano menos invadente.

Melhor que tudo: não havia arrastão!