De nomes infelizes

José Horta Manzano

Quem tem nome ridículo ― como Rolando Escada Abaixo, Um Dois Três de Oliveira Quatro, Adolf Hitler da Silva ― já está preparado para situações engraçadas. Faz parte do jogo.

Já quem tem nome apenas exótico não imagina que vá passar apuro. No entanto, foi o que aconteceu dia 23 de abril com uma jovem francesa. A espantosa notícia nos vem pelo jornal Le Dauphiné Libéré.

A jovem estava sonhando com aquela viagem fazia tempo. Seriam as primeiras férias com a família nos EUA. Afiveladas as malas, dirigiram-se os quatro ― casal mais dois filhos ― ao Aeroporto de Genebra (Suíça), o mais à mão para quem vive na Savoia francesa.

Avião 3Na hora do registro no balcão, o atendente comunicou à moça que ela estava na lista negra das autoridades americanas e que, por isso, não poderia embarcar. Sem maiores explicações. Não adiantava chorar nem bater o pé. Quando se trata de segurança nacional, os americanos não brincam em serviço. Preferem exagerar pra mais que pra menos.

Decepcionados, os quatro ex-futuros viajantes voltaram para casa. As férias estavam estragadas. Mas… qual a razão dessa surpreendente proibição? A francesa imagina que só pode ter sido por causa de seu nome. De origem iugoslava, seu nome de solteira é Alic Aida. Nos escaninhos dos computadores, algum algoritmo há-de ter associado Alic Aida a… Al-Qaeda!

A moça garante que, no original, Alić se pronuncia Alitch. Não adiantou. Computadores não estão nem aí para a pronúncia.

A arte de nomear

Crédito: Fraudes.org

Crédito: Fraudes.org

José Horta Manzano

Pais brasileiros (e mães brasileiras, como costumava dizer um velho latifundiário que chegou até à presidência da República) costumam ser criativos ao dar nome a seus rebentos.

Criatividade demais, como tudo o que é excessivo, pode acabar em desastre. O Correio Braziliense nos informa que, alguns dias atrás, uma criança do sexo masculino foi registrada com nome feminino. Acabou dando um forrobodó dos diabos.

Compreendo que ninguém pode dar o que não tem. Não se extrai leite de pedra. Quem não recebeu instrução básica pode até não se dar conta de que, ao impor a seu filho um nome extravagante, excêntrico ou ridículo periga criar um sem número de problemas para o pequerrucho.

Os portugueses adotam uma norma ultrarradical que, acredito eu, não seja adaptada para estas terras tropicais. Naquele país d’além-mar, o prenome da criança tem necessariamente de ser pinçado dentre os que constam da lista oficial de nomes. Impossível escapar dela.

Nós cultivamos o exagero oposto. Num clima de liberou geral, aqui vale qualquer nome. Existente, novo, inventado, composto, impronunciável, qualquer um passa. A moda atual manda dobrar letras, enfiar agás, dáblius e ípsilons em qualquer posição. Fica chique. Vale nome de personagem de novela, nome de objeto, nome fabricado. As combinações são infinitas.

Não se pode esperar que cidadãos de poucas letras se deem conta da enormidade dificilmente reparável que estarão a cometer se impingirem a seus rebentos nomes como Crodomirnésio ou Baracobama. No entanto, é incompreensível que oficiais e escrivães de cartório digam amém a aberrações como essa que se perpetrou no DF.

Não temos ainda um Ministério dos Prenomes. Aliás, é melhor nem falar nisso, que poderia dar más ideias a um governo que não se peja com criar novos cargos.

Se oficiais e escrivães de cartório de registro civil não têm autoridade para barrar nomes extravagantes ou mal escritos, que lhes seja conferido esse poder. Caso os pais não concordem com o alvitre do oficial, recorrerão à arbitragem de um juiz.

O que não fica bem é marcar seres inocentes com um estigma que serão constrangidos a carregar pelo resto da vida.