ENGRISH AROUND THE WORLD ― 1a. parte

José Horta Manzano

O Carnaval está aí, minha gente! É hora de esquecer, nem que seja por alguns dias, as agruras da vida real.

Cem anos atrás, quando nossa festa maior ainda se confundia com o entrudo, não havia internet. Mas todo cidadão medianamente escolarizado possuía alguns rudimentos de francês, língua dominante da época. Minha avó sabia até a letra da Marseillaise ― na sua visão muito pessoal, entenda-se.

Hoje em dia, somos quase todos navegantes da rede. O mundo mudou, o francês foi suplantado pelo inglês, e todos os que se aventuram na internet têm de ter, queiram ou não, alguns rudimentos de inglês. Se não, estão perdidos.

Vamos aproveitar estes dias para atenuar a dureza do quotidiano. Vamos observar um pouco como se ajeitam outros povos para se comunicar numa língua que nem sempre lhes é familiar. Diversão garantida.

Quem preferir, pode mudar de canal e torcer por sua escola preferida no desfile da avenida. Ou do sambódromo.Não entendo

Dry cleaners in Bangkok:
Drop your trousers here for best results.

In a Nairobi restaurant:
Customers who find our waitresses rude ought to see the Manager.

On the grounds of a private school:
No trespassing without permission.

On an Arctic River highway:
TAKE NOTICE: When this sign is under water, this road is impassable.

On a sign in Japan:
Do not lean on gate for it occurs you Trouble.

On a poster at Fight Illiteracy:
Are you an adult that cannot read? If so, we can help.

In a City restaurant:
Open seven days a week and weekends.

A sign seen on an automatic restroom hand dryer:
DO NOT ACTIVATE WITH WET HANDS!

On a Japanese hotel’s website:
Beautiful green, seasonal flowers, and carps in the pond are waiting for you.
Is the public bath hot spring?
Tofu is made of soybeans, water, and magnesium chloride.
Here is tasteful Kyoto that you have been thinking of!
The link is free and there is not getting in touch on the occasion of the link in this page, being necessary.
Is there a laundry machine? Yes. It is on the roof top of our hotel.

In a maternity ward:
NO CHILDREN ALLOWED.

In a cemetery:
Persons are prohibited from picking flowers from any but their own graves.

Sign in Japanese public bath:
Foreign guests are requested not to pull cock in tub.

Tokyo hotel’s rules and regulations:
Guests are requested not to smoke or do other disgusting behaviours in bed.

Hotel room notice in Chiang-Mai, Thailand:
Please do not bring solicitors into your room.

Hotel brochure in Italy:
This hotel is renowned for its peace and solitude. In fact, crowds from all over the world flock here to enjoy its solitude.

In a Shanghai Hotel:
Is forbitten to steal hotel towels please.
If you are not person to do such thing is please not to read notis.

In another Chinese hotel room:
Please to bathe inside the tub.

In a Bucharest hotel lobby:
The lift is being fixed for the next day. During that time we regret that you will be unbearable.

In a Leipzig elevator:
Do not enter the lift backwards, and only when lit up.

In a Belgrade hotel elevator:
To move the cabin, push button for wishing floor. If the cabin should enter more persons, each one should press a number of wishing floor. Driving is then going  alphabetically by national order.

In a Paris hotel elevator:
Please leave your values at the front desk.

In a hotel in Athens:
Visitors are expected to complain at the office between the hours of 9 and 11 a.m. daily.

In a Serbian hotel:
The flattening of underwear with pleasure is the job of the chambermaid.

In a Japanese hotel:
You are invited to take advantage of the chambermaid.

In the lobby of a Moscow hotel across from a Russian Orthodox monastery:
You are welcome to visit the cemetery where famous Russian composers, artists, and writers are buried daily except thursday.

In an Austrian hotel catering to skiers:
Not to perambulate the corridors in the hours of repose in the boots of ascension.

On the menu of a Swiss restaurant:
Our wines leave you nothing to hope for.

On the menu of a Polish hotel:
Aalad a firm’s own make; limpid red beet soup with cheesy dumplings in the form of a finger; roasted duck let loose; beef rashers beaten up in the country people’s fashion.

In a Hong Kong supermarket:
For your convenience, we recommend courteous, efficient self-service.

Outside a Hong Kong tailor shop:
Ladies may have a fit upstairs.

In a Rhodes tailor shop:
Order your summers suit. Because is big rush we will execute customers in strict rotation.

From a Russian Weekly:
There will be a Moscow Exhibition of Arts by 15,000 Russian Federation painters and sculptors. These were executed over the past two years.

In an East African newspaper:
A new swimming pool is rapidly taking shape since the contractors have thrown in the bulk of their workers.

In a Vienna hotel:
In case of fire, do your utmost to alarm the hotel porter.

A sign posted in Germany’s Black Forest:
It is strictly forbidden on our Black Forest camping site that people of different sex, for instance, men and women, live together in one tent unless they are married with each other for that purpose.

In a Zurich hotel:
Because of the impropriety of entertaining guests of the opposite sex in the bedroom, it is suggested that the lobby be used for this purpose.

Amanhã tem mais.

Os picaretas

José Horta Manzano

Muitos anos atrás, um personagem da vida política declarou que o Congresso brasileiro era uma espécie de antro em que vadiavam «uns 300 picaretas». Talvez você se lembre quem disse isso. Eu esqueci.

Pode até ser que que o figurão tivesse razão. Aliás, nos tempos em que pronunciou sua frase lapidar, ele mesmo se candidatou ― e foi eleito ― deputado federal. Aconteceu na época em que foi preparada, temperada, cozinhada e servida ao bom povo a fabulosa ‘constituição-cidadã’ de 1988, ainda hoje em vigor. Com algumas centenas de correções e ajustes, naturalmente.

A seu favor, diga-se que o incriminador da picaretagem não teve atuação destacada na elaboração da Lei Maior. Por certo, havia de ter outras preocupações pela cabeça, que ninguém é de ferro.Picareta

Não me lembro se a constatação foi exprimida antes ou depois de ele ter sido eleito parlamentar. Pouco importa. Não consta que tenha jamais desmentido sua visão do Executivo, o que nos leva a crer que, até hoje, mantenha sua opinião. Está aí um homem de convicções firmes!

Infelizmente, estes últimos anos, numerosos indícios têm corroborado a afirmação do mandachuva. Ainda estes dias, houve troca de cadeiras em nosso parlamento tupiniquim. O recém-eleito presidente do Senado Federal, terceiro personagem na linha sucessória da presidência da República(!) , é alvo de processos criminais.

Um outro personagem, já condenado criminalmente pelo Supremo Tribunal Federal, acaba de assumir o cargo de deputado que lhe cabe. Com toda a pompa e a dignidade que lhe são devidas.

Para coroar, acabamos de tomar conhecimento da decepção de um nobilíssimo representante do povo, por acaso o deputado federal mais votado do País nas últimas eleições. Antes de ser levado pelos braços do povo à Casa dos Representantes, exercia o ofício de palhaço.

Tiririca quer voltar ao antigo mister. Era de esperar. A sabedoria popular, em sua secular erudição, sempre profetizou: cada macaco no seu galho. Tudo indica que fazer palhaçada é mais gratificante que fazer picaretagem. Talvez até mais rendoso.

Que ninguém mais acuse os parlamentares brasileiros de fazerem palhaçada! O nome do jogo é picaretagem. No duro.

Para quem esteve em cura de sono estes últimos dias e perdeu a notícia, aqui está a reportagem da Folha de São Paulo, que não me deixa mentir.

Plágio? (parte 2)

José Horta Manzano

O artigo de ontem rendeu pano para mangas. Dizem que os adolescentes querem todos ser diferentes vestindo-se todos da mesma maneira. Com gente grande não funciona exatamente do mesmo jeito.

É bem verdade que há gente de comportamento um tanto excêntrico ― antigamente, diríamos esquisito ― , que elege um modelo e passa a vida tentando imitá-lo, mas a maioria não chega a tal extremo de mimetismo.

Falei em plagiato porque me surpreendeu a semelhança entre duas canções populares, nada mais. O caso me deixou a impressão de ir além de uma simples coincidência.

Nunca tinha dado maior atenção a esse assunto, mas uma boa amiga e fiel leitora me chamou a atenção para outros casos tanto ou mais contundentes do que o que citei.Notas musicais

Andei pesquisando e me dei conta de que há muito mais plágios entre céu e terra do que sonha nossa vã filosofia. Peraí!  O que eu acabo de dizer não é plágio, é citação, coisa bem diferente. Citação (ou paródia) é uma piscadela, uma reminiscência que se insere aqui e ali para florir um texto ou uma melodia. Copiar trechos inteiros de obra alheia e assinar embaixo são outros quinhentos.

Uma rápida busca me revelou inúmeras acusações de plágio. Há material para livros inteiros, um artiguinho não basta. Quero só apontar alguns casos mais flagrantes.

O ‘rei’ Roberto Carlos foi acusado, anos atrás, de se apoderar de uma canção de um músico diletante. Processado pelo autor, defendeu-se. Passou uns 15 anos interpondo recursos, mas não houve jeito: foi condenado. Veja aqui.

O crítico de arte Luís Antônio Giron  já publicou diversos artigos apontando trechos de composições de Tom Jobim que se assemelham estranhamente a obras de outros autores. Os cinco últimos parágrafos deste artigo publicado na Gazeta Mercantil são edificantes.

Lúcio Ribeiro e Pedro Alexandre Sanches, em texto estampado na Folha de São Paulo, vão pelo mesmo caminho. Lançam uma sombra de dúvida sobre a autoria de Águas de Março.

Tem um caso que merece a palma de prata. É a parecença entre o Prelúdio n°4 de Frédéric Chopin e A Insensatez de Antônio Carlos Jobim. As peças são gêmeas univitelinas. Veja o inteligente entrelaçamento.

And the winner is….  A palma de outro vai para… Lamartine Babo! Torcedor fanático do América Futebol Clube, não hesitou em copiar a canção americana Row Row Row e transformá-la em hino de seu time. Sem tirar nem pôr.Violino

Confira:

Row Row Row, de Joy Hodges

Hino do America F.C., de Lamartine Babo

Vamos copiar o Ai, se eu te pego, assinar embaixo, e entrar numa grana firme? Que tal?

Plágio?

José Horta Manzano

Os dicionários informam que plágio é o ato de apresentar, como de sua própria autoria, obra intelectual produzida por outra pessoa. Tanto faz que seja texto, pintura, desenho, música, foto. Há que convir que a definição é ao mesmo tempo precisa e vaga.

Sua precisão está na clareza: apresentar como seu algo que foi feito por outro, não resta dúvida, é apropriação indébita, roubo.radio 1

No entanto, quando nos referimos a obras musicais, entram dois complicadores: a inspiração e o tempo de execução da obra. Não é impossível que dois compositores tenham na mesma época inspiração semelhante e que, em toda honestidade, escrevam peças musicais muito parecidas. Há mais: existem casos em que apenas trechos de uma peça guardam certa semelhança com passagens de obra alheia.

Já houve quem acusasse o grande Tom Jobim de plagiar o não menos grande Cole Porter. De fato, os primeiros compassos do Samba de uma nota só lembram muito o início de Night and day. No entanto, algumas notas mais adiante, as obras seguem caminhos tão diversos que fica afastada a ideia de pura e simples cópia. Por mim, Jobim está absolvido.

Os mais antigos talvez se lembrem de uma canção de autoria de Dolores Duran (1930-1959), composta em 1958. Chamava-se Castigo. O nome é pouco evocador, mas muita gente deve se lembrar da letra: «A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer, briga pensando que não vai sofrer (…)». Marisa Gata Mansa foi a primeira a gravar. Maysa ― que ainda era Maysa Matarazzo ― fez do samba-canção seu cavalo de batalha.

Fiquei conhecendo, algum tempo atrás, um bolero mexicano composto por Wello Rivas (1913-1990). Ok, ok, a simples menção ao termo bolero, hoje, incomoda. Nossa estética musical se modificou. Mas não vamos perder de vista que a própria Dolores Duran ― que, apesar do nome artístico hispanizante, se chamava Adiléia Silva da Rocha ― iniciou sua carreira cantando… boleros.

A composição a que me refiro se chama Llegaste tarde. Por mais que tenha procurado, não consegui encontrar o ano de lançamento. Quando ouvi pela primeira vez a composição de Rivas, fiquei um bocado surpreso. A primeira parte guarda semelhanças intrigantes com o Castigo de nossa Dolores. Mesma linha melódica, mesma harmonia.

Será coincidência ou plágio? Se for cópia, quem terá copiado quem? Dolores já se foi há mais de meio século. Rivas também já fez sua travessia faz mais de 20 anos. Llegamos demasiado tarde. Não saberemos nunca.radio 3

Para quem quiser conferir, há registros no youtube. O caminho é este aqui:

Gravação de Castigo, por Taiguara

Gravação de Llegaste tarde, por Amparo Montes

Gravação de Castigo, por Roberto Luna

Gravação de Llegaste tarde, por Los Soberanos

O pior cego…

José Horta Manzano

Trecho de um dos editoriais do Estadão desta segunda-feira 4 de fereveiro.

“Na quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, saudou como altamente importante a recuperação lenta, mas aparentemente firme, da produção americana. Afinal, a recuperação da maior economia do mundo é benéfica para todos. Não se sabe se o ministro, antes desse comentário, consultou o líder Luiz Inácio da Silva. O ex-presidente havia-se mostrado muito feliz por chegar ao fim do mandato com o Brasil ainda em crescimento e os Estados Unidos em recessão. Seria um despropósito, exceto em caso de guerra, festejar as dificuldades de qualquer outro país. Mais que um despropósito, seria uma enorme tolice alegrar-se por uma crise no mais importante mercado do mundo.
Mas essa tolice ocorreu.”

O texto completo está aqui.

Arrastão europeu

José Horta Manzano

Imaginamos todos que arrastão seja exclusividade tupiniquim, coisa nossa, exclusividade nacional. Pois vou mostrar ao distinto leitor e à graciosa leitora que estão enganados.

A antiga arte da pirataria atingiu seu apogeu lá pelos anos 1700. Falo daquela de cinema, de espadachins com tapa-olho preto, daquela que nos inspirava temor, respeito e até ― convenhamos ― uma certa admiração. Essa, feliz ou infelizmente, acabTGV 1ou.

Nos tempos áureos, piratas eram aqueles que agiam por conta própria, empresários autônomos, como diríamos hoje. Já corsários obravam a mando e por conta de terceiros. O mandatário tanto podia ser o rei da Inglaterra, como o da França ou o mandachuva de outro lugar qualquer.

Um ponto comum unia os atacantes: sabiam o que buscavam. Coisa pouca não lhes interessava. Arriscavam pesado, mas, sabiam escolher o alvo. Se conseguissem vencer a batalha, a recompensa era garantida e farta.

Os tempos passaram. Ouro e pedras preciosas já não são transportados por via marítima. Hoje vão por avião e seguem percurso ultraprotegido, com escolta de agentes de óculos escuros e fones de ouvido, tudo vigiado por câmeras e snipers. Piratear avião para roubar-lhe o conteúdo? Podia ficar bem em filmes dos anos 70. Hoje, nem pensar.

Já vão longe os tempos de Ronald Biggs e seu milionário assalto ao trem pagador. Já vão longe? Talvez nem tanto…

Jornais da França informam que, talvez por não contarem com nenhuma Iemanjá a festejar, uns 30 pequenos delinquentes juvenis escolheram o dia 2 de fevereiro para assaltar um trem. Não um trem qualquer, faça-me o favor: um trem-bala. Sim, senhor.

Os membros da quadrilha mirim promoveram uma vaquinha, mas ela não deve ter rendido o suficiente para comprar bilhetes para todos. Tomaram, então, a decisão de não embarcar no trem como passageiros, mas de obrigá-lo a parar nalgum ponto do percurso.Capitão Gancho

Não foi difícil. Conseguiram lanternas vermelhas, do tipo utilizado pelas estradas de ferro francesas para assinalar perigo grave logo à frente. Instalaram as luzes ao longo da linha. Os maquinistas têm instrução categórica de imobilizar a composição à vista dessas lanternas. É sinal de emergência extrema.

Parado o trem, assim que os responsáveis pela segurança se deram conta de que não se tratava de acidente, mas de um assalto, acionaram o dispositivo que tranca imediatamente todas as portas dos vagões de passageiros. Por mais que o bando tenha tentado forçá-las, não tiveram sucesso. A invasão do trem-bala foi assim evitada. A polícia veio em seguida e carregou boa parte dos frustrados atacantes ao distrito.

Quem quiser conferir, leia aqui, aqui ou aqui.

Qualquer semelhança com um arrastão tupiquim não é simples coincidência. As mesmas causas costumam engendrar as mesmas consequências. A população das periferias francesas é frequentemente constituída de gente pouco instruída, de origem estrangeira, rejeitada pelo resto da população. Alguns de seus membros, mais ingênuos ou menos escrupulosos, acreditam que a violência seja o caminho mais rápido para obter o TGV 2dinheiro que lhes falta. E para adquirir os objetos que cobiçam.

Hoje há menos piratas pelo mundo. Mas que não se acanhem os novos capitães gancho, sejam eles franceses ou somalis. Caso um dia, apanhados, consigam escapar, nosso País não costuma negar asilo a fugitivos de Justiça. Se tiverem sido condenados, a acolhida será ainda mais efusiva. E se o crime tiver sido de sangue, terão direito a tapete vermelho e, quem sabe, até a um empreguinho público, uma sinecura qualquer.

Já faz tempo que nossas ‘otoridades’ perderam o senso da honra e do ridículo.

UE e Mercosul

José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 janeiro 2013

Marché communCasamento só faz sentido se for completo e consumado. Se não, não passará de aliança, combinação, arreglo, confraria. É a conclusão amarga a que estão chegando os que acreditaram que a União Europeia desembocaria numa união política federal. O navio está fazendo água e, pelo jeito, o casamento não se consumará.

Assim como a extinta URSS deixou pelo caminho levas de viúvas ― algumas das quais até hoje se recusam a deixar cair a ficha ―, a União Europeia já começa a engendrar seus órfãos.

As recentes ameaças proferidas pelo primeiro-ministro britânico não deixam dúvidas: seu povo não vê mais vantagem em continuar amarrando seu destino ao do continente. Mais dia, menos dia, Londres periga anunciar o divórcio.

Mas comecemos pelo começo. As cinzas da Segunda Guerra racharam a Europa em dois campos antagônicos. A URSS acaparou um deles e tratou de amansar seu novo protetorado. A ferro e a fogo. Deixou claro que ordens do Kremlin não eram passíveis de contestação.

O outro campo ficou solto, como nau sem mastro. Faziam parte dele perdedores da guerra (Alemanha, Itália), ganhadores (Reino Unido, França) e países neutros. Para complicar, havia a sombra amiga mas acachapante dos EUA. Esse ecletismo tornava difícil designar um ponto de convergência.

Se objetivo comum havia entre as nações do bloco ocidental, era a firme determinação de enterrar de vez o espectro da guerra. Fora isso, cada um tinha suas necessidades próprias. A Alemanha, derrotada e fragmentada, sonhava com sua reunificação. A Itália, destruída e cansada de guerra, queria crescer e estancar o sangramento que a emigração maciça lhe causava. A França, a Holanda, a Bélgica tinham um projeto comum: docilizar e conter a vizinha Alemanha, que tanto mal lhes havia feito e que tanto temor ainda infundia. O Reino Unido sonhava recobrar o status de potência mundial que tinha usufruído por mais de um século. Espanha e Portugal queriam distância: seus dirigentes ambicionavam tão somente conservar o poder que tinham conquistado.Mercosul 2

Se pessoas se casam, firmas se associam, entidades se fundem, países se unem, será por imposição ou porque algum interesse comum os aproxima. De amor, o casamento europeu certamente não foi. Se foi de razão, as motivações inconfessas de cada membro acabaram por revelar-se incompatíveis.

Por que iludir-se? Como as gentes, as nações só procuram ajuda de outras quando ― e enquanto ― duram suas necessidades. Terminada a precisão, tchau e bença. Juras de amor eterno entre países não valem.

Erros foram cometidos desde que o Tratado de Roma criou o Mercado Comum em 1957. Os dirigentes não conseguiram ― ou não quiseram ― ver que ao redor da mesa se concentravam interesses divergentes e até conflitantes. Enquanto o povo se entreteve a colar os cacos dos vasos que a Segunda Guerra tinha estilhaçado, a convivência foi cordial e até pareceu confluir. A conjuntura também ajudou: até poucos anos atrás, o mundo viveu decênios de inusitado e ininterrupto crescimento econômico.

Hoje os ideais europeus parecem esgarçados. A geração é outra. Nenhum dos atuais dirigentes conheceu a guerra e seu cortejo de misérias. Nenhum viveu infância aterrorizada por passos cadenciados da soldadesca invasora. Não conheceram desemprego. Conflitos armados lhes parecem inimagináveis, coisa de gente pobre.

Eis por que a maioria dos europeus de hoje julga a união política do continente desnecessária. A UE é hoje vista mais como entrave que como solução.Euromercosul

Na crença ingênua de que todos os membros obedeceriam às orientações do Banco Central, 17 países adotaram uma moeda única. Não se preocuparam com centralizar controles e torná-los obrigatórios. Erraram feio. Livres e desimpedidos, cada um deles fez o que bem entendeu. E deu no que deu, com países inteiros à beira da falência, enquanto outros esbanjam saúde financeira. A exasperação das populações é compreensível. Uns carecem desesperadamente de ajuda, enquanto outros, considerando que não lhes toca pagar por erros alheios, torcem o nariz à ideia de levantar o tampo da burra. O balaio de gatos em que se meteram os europeus é de bom tamanho. Cabe a eles agora encontrar a saída.

Quanto a nós, com nosso Mercosul bizarro, estamos alguns passos atrás. Ainda dá para evitar o pior. Vamos torcer para que vaidades individuais de nossos mandachuvas não sobrepujem o interesse das populações. Para não perder a face, que se atenham ao simulacro de mercado comum que temos. E que parem por aí.

União política é assunto sério. Se não deu certo na URSS, nem na Europa, por que teria sucesso entre nós?

Os gatos e o Senado

José Horta Manzano

Tem dias em que os acontecimentos nos atropelam a tal ponto, que nos sentimos invadidos pela desesperança, pelo desalento.

Observo meus gatos e me ponho a pensar que eles, sim, têm sorte. Alheios a tudo o que se passa fora de seu pequeno universo de alguns metros quadrados, vão vivendo sua vidinha de gatos. Comem e dormem quando têm vontade, não sentem raiva, nem rancor, nem inveja. Não são desonestos, nem falastrões, nem fingidos. Não sabem esconder seus sentimentos. Quando estão alegres, rolam pelo chão. Quando sentem medo, escondem-se debaixo de algum móvel.

Não se organizam em sociedade, não dão nada a ninguém, tampouco pedem o que quer que seja. Não têm a dirigi-los um Congresso, não elegem deputados, não se desapontam com suas más escolhas, não se arrependem, não reclamam. Não sabem sequer que existem, portanto, não têm ideia de que vão morrer um dia. Uma bênção!

O homem, que é um ser ― dizem ― mais evoluído, tem problemas de outra ordem.

Neste comecinho de fevereiro, os brasileiros deveriam cobrir-se de luto da cabeça aos pés. Principalmente a cabeça, que é para esconder a vergonha.Luto 1

No Senado da República, de cada 4 votantes, 3 escolheram para conduzi-los um senhor que já tinha sofrido a reprovação de seus pares, não faz tanto tempo assim. Um indivíduo de sombria reputação, sobre cujos ombros pesam acusações de crimes pesados.

Esse quadro, inconcebível em qualquer país civilizado ― «emergente» ou já assomado ― parece perfeitamente aceitável no Brasil. Muitas aberrações são admitidas em nosso País, desde que as aparências estejam salvas. A dignidade de nossas instituições escorreu pelo bueiro, mas poucos parecem estar preocupados. As regras foram respeitadas. Portanto, podemos todos louvar nossa grande democracia, que se afirma a cada dia.

Está aí a prova de que o problema não está nas instituições. O buraco é mais embaixo. O problema está no caradurismo e na ganância de uns poucos, assentada na ignorância da esmagadora maioria.

Qualquer observador isento, honesto e de boa-vontade, após análise desses fatos, chegará necessariamente à mesma conclusão. É de uma evidência mais clara que sopa de asilo: o baixíssimo nível de instrução do grosso da população propicia espetáculos indecentes como esse com que nos brindaram nossos nobres senadores. Não só propicia, como encoraja.

Como mudar isso tudo? É aí que surge a amarga conclusão: não há jeito. As leis são feitas exatamente por aqueles que dela se valem em proveito próprio.

Mas tem de haver uma solução! Uma revolução, talvez? É demais aleatório. Sabe-se como começa um levante, mas nunca se sabe onde vai parar. A única saída passa obrigatoriamente pela elevação do nível de instrução, do conhecimento e da cultura de todos. Se vai demorar? Vai. E muito. Mas o processo tem de ter início já. Quanto antes, melhor.

Só para a morte não há remédio. Sapateiros, costureiras e outros pequenos artesãos ― hoje em via de extinção ― costumavam ostentar uma plaquinha na parede com os dizeres: «o impossível fazemos na hora, milagres demoram um pouquinho mais». Continua válido.

Em dias como hoje, dá uma vontade danada de ser gato.

A Casa dos Representantes

José Horta Manzano

“O PT faz acordo para levar um denunciado e um investigado pelo Ministério Público às presidências do Senado e da Câmara, financia partidos para atraí-los à base governista, correligionários de altas patentes são condenados à prisão e, segundo o presidente do partido, a ‘oposição apartidária’ é que desmoraliza a política. Que tal?”

Esse é o primeiro parágrafo do artigo de Dora Kramer publicado pelo Estadão online neste 1° de fevereiro. Quem estiver interessado na continuação que clique aqui.

Salve-se quem puder

José Horta Manzano

Faz alguns dias, a França mandou suas tropas para o Mali.

Antes de ir mais adiante, vamos pôr as coisas claras: os habitantes do país lhe dão o nome de Mali (LÍ, com acento tônico na última sílaba). Ouvi dizer que locutores da televisão brasileira andam pronunciado Male, como se a palavra fosse paroxítona. Não me parece correto. Fico com Mali (LÍ). Afinal, quem deu o nome ao país não fomos nós.

Como todos sabem, a França e mais 26 parceiros integram um organismo supranacional chamado União Europeia, união cada vez mais estranha, em que cada um faz o que lhe apraz, no momento em que decide, da maneira que lhe parece mais conveniente, sem se preocupar com os outros sócios.

Desde que Shakespeare pôs na boca de seu Hamlet a celebérrima réplica “to be, or not to be: that’s the question”, a humanidade se deu conta de que não se pode ser e não ser ao mesmo tempo. A gente não se associa somente para as horas do bem-bom, para, em seguida, se fingir de morto quando o negócio azeda. Ultimamente, é assim que tem funcionado esta União. Desde que estourou a crise económica, já faz alguns anos, o clube navega à deriva, sem eira nem beira, tapando um buraco aqui e outro ali.

Na intervenção em terras africanas, o intuito declarado do governo francês é cortar na raiz a ameaça ― concreta ― de que terroristas fanáticos façam da região uma base, um refúgio. É uma opção militar forte, mas não destituída de lógica.

Em matéria de ingerência em países estrangeiros, há precedentes, alguns bem sucedidos, outros não.Marché commun

Nos anos 60, os EUA intervieram no distante Vietnã com o mesmo propósito. Acabou em desastre.

Canhões soviéticos calaram revoluções na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968). Conseguiram o que queriam. Tudo viria a desmoronar junto com o Muro de Berlim, anos mais tarde, mas essa já é uma outra história.

Há muitos e muitos outros exemplos de intromissão na casa dos outros. Mas cada caso é um caso, não vamos explorá-los todos neste espaço.

Voltando ao problema do Mali, os 26 parceiros da França ― falo dos demais membros da União Europeia ― já declararam que não enviarão reforço militar. Se Paris tomou essa decisão com desenvoltura e sem consultar os sócios, que siga seu caminho solitário até o fim.

Não discuto sobre a conveniência da decisão francesa. Soberano, seu governo fez o que achava que devia. O que me surpreende é o fato de a União, após mais de 50 anos de convivência, ainda ser incapaz de combinar antes de agir.

Cada dia fica mais claro que este agrupamento de países está perdendo sua razão de ser. Nascido de um consenso, vai aos poucos se esfiapando, como tecido mal alinhavado.

Não faz sentido expor ao resto do planeta uma falta de coesão tão profunda. Tudo isso acaba deixando uma impressão de desordem que não bate com a imagem de civilidade e de civilização que os 27 gostariam de exibir.

Ao fim e ao cabo, não sobra mais que uma confraria de comerciantes. Que fariam seus negócios de qualquer maneira, com tratados ou sem eles.

Arrombada a porta, põe-se a tranca

José Horta Manzano

Nos idos de 1967, eu estava trabalhando na Suécia. Travei conhecimento com uma senhora muito simpática. Poliglota e inteligente, teria ali pelos 40 anos. Tinha nascido no Brasil, mas, casada com um sueco, vivia em Malmö fazia já vários anos. Vamos chamá-la senhora Almgrén, mas não posso garantir que fosse esse o nome. Passou muito tempo e já não tenho certeza.

Uma música francesa, gravada por Sacha Distel (1933-2004), estava nas paradas de sucesso, como se dizia na época. Na crista da onda, muito popular. Era ― como explicar? ― um «samba europeu». Um ritmo um tanto desengonçado que grande parte do povo do Velho Continente acreditava ser música brasileira. Aliás, muitos ainda acreditam, acreditem.

O compasso da canção, divertida e bem animada, hesitava entre cumbia, conga e rumba. Chamava-se «L’incendie à Rio», o incêndio no Rio. Meu conhecimento de francês, precário à época, não me permitia entender a letra.

Comentei com a senhora Almgrén que eu gostava muito daquela música. Maliciosamente, ela me replicou que, se eu entendesse a letra, por certo gostaria menos. Fiquei um tanto perplexo. “Ué” ― pensei ― “e por quê?”

Sacha Distel

Sacha Distel

Indulgente, minha amiga explicou que a letra relatava um incêndio imaginário numa torrefação de café no Rio de Janeiro. E descrevia a atrapalhação dos bombeiros que não encontravam as mangueiras, nem o esguicho, nem a escada. Somente no final da noite, quando todo o quarteirão estava reduzido a cinzas, os petrechos foram encontrados. Assim mesmo, os bombeiros continuavam não podendo sair do quartel porque o caminhão estava enguiçado e ninguém sabia onde estava a manivela para dar partida no motor.

Uma zombaria total, como se vê. Retratava nosso País como era visto pelos europeus, um lugar muito alegre e animado, mas totalmente bagunçado. Quem quiser recordar (ou conhecer) L’incendie à Rio, pode dar uma espiada aqui. Vem com vídeo, música e letra.

O bem informado blogue de Sonia Racy, alojado no Estadão, nos informa neste 30 de janeiro que a Câmara Federal do Brasil não tem brigadistas de incêndio. Pior que isso, a Casa não dispõe sequer de servidores treinados para casos de incêndio(!). Não acredita? Pois confira aqui.

Quando a canção de Sacha Distel fez sucesso, fazia 3 ou 4 anos que se encerrara a «Guerra da Lagosta», um daqueles conflitos sem batalha e sem sangue. Foi nessa época, dizem, que De Gaulle teria pronunciado a célebre frase «o Brasil não é um país sério». Dizem outros que jamais o general teria cometido tal afronta. Ele nunca confirmou. Tampouco desmentiu. Vamos deixar para voltar ao assunto noutra ocasião.

Neste finzinho de janeiro, passados alguns dias do pavoroso drama de Santa Maria, aparecem outros podres, aos borbotões: casas de espetáculo funcionando sem alvará, proteção contra incêndio inexistente, pessoal não treinado. Em resumo: é a ganância de braço dado com a irresponsabilidade. Se nem a Câmara ― a casa dos representantes do povo brasileiro! ― escapa do descaso, imagine o resto. Nossos 513 deputados devem, realmente, estar totalmente ocupados com outros assuntos.

É urgente que os poderosos que mandam no Brasil tomem um banho de integridade e de probidade. Queira o destino que o inconcebível drama gaúcho tenha sido a última tragédia decorrente de desleixo aliado ao descaso e à cupidez. Já está na hora levar as coisas a sério.

Que o clichê sublinhado pelo irreverente Incendie à Rio possa ser atirado à lata de lixo do passado. Para nunca mais voltar.

Jeito brasileiro de governar

José Horta Manzano

Certos escrevinhadores são bons, outros menos. Alguns poucos são muito bons. Os muito bons conseguem, às vezes, conjugar num só parágrafo ideias soltas que, embora espalhadas aqui e ali, pertencem a um mesmo tronco. São todas exemplos acabados da maneira brasileira de governar, de mandar.

Segue um parágrafo do artigo que José Nêumanne Pinto publica no Estadão online de 30 de janeiro. Quem quiser ler o texto integral, vai encontrá-lo aqui.

José Nêumanne Pinto

José Nêumanne Pinto

” A presidente Dilma Rousseff foi a Santa Maria e chorou com pena das famílias que o Estado abandona ao desamparo. Assim como o imperador dom Pedro II jurou que venderia o último diamante da Coroa para não deixar um cearense morrer de fome. Fê-lo mais de cem anos antes de os sertanejos continuarem perdendo tudo, até a própria vida, por causa da sede implacável. As imagens das ruínas da obra inacabada da transposição do Rio São Francisco sem que uma gota de água fosse levada à caatinga mais próxima são a denúncia mais deslavada da hipocrisia generalizada de gestores públicos que, desde o Império até hoje, garimpam votos valiosos na miséria que os donos do poder semeiam em suas posses e colhem na máquina pública que, eleitos pelos súditos, passam a pilotar. Os maganões da República mantêm-se no poder enganando os sobreviventes da seca do semiárido, das enxurradas da Serra Fluminense e deste incêndio em pagos gaúchos. “

Em boca fechada…

José Horta Manzano

Artigo da Folha online de 29 de janeiro nos dá conta de uma palestra proferida por um coronel. Em sua fala, o militar exprime temor de que ataques cibernéticos possam «acabar com a Copa do Mundo de 2014».

Tenho dois reparos a fazer. O primeiro vem perfeitamente expresso por um velho provérbio italiano: «certe cose no si dicono, si fanno», certas coisas não se dizem, se fazem.Psiu 1 Nós outros temos também um refrão, muito popular, que dá o mesmo recado. Costumamos dizer que «o segredo é a alma do negócio». No frigir dos ovos, os dois ditados vão na mesma direção. Lá, como aqui, a sabedoria popular costuma pairar acima de atitudes impensadas.

Anunciar aos quatro ventos que um hipotético malfeito pode até vir a realizar-se não ajuda ninguém, nem esconjura o perigo. Pelo contrário, pode até dar más ideias aos que, mal-intencionados, não tinham pensado nisso. É atitude contraproducente.

Certos riscos podem ― e devem ― ser sopesados, avaliados, considerados no âmbito de comitês, círculos e departamentos criados justamente para esse fim. Não é prudente subir ao telhado e gritar ao povo o nome do perigo e a estratégia que será usada para combatê-lo. Pouco estímulo já basta para que mentes malfazejas passem do plano ao ato.

Piratas, que antes arriscavam a pele ao atacar caravelas a fim de subtrair-lhes o precioso carregamento, hoje se ocultam por detrás da tela anônima de seus computadores. E podem ser tanto ou mais maléficos do que foram seus predecessores. A ver meu, a prudência impõe a discrição em assuntos sensíveis como esse de que o coronel tratou.

O segundo reparo que tenho a fazer é ainda menos alentador. Tantos são os possíveis ― e altamente previsíveis ― problemas que atropelarão nosso País durante a Copa e os Jogos Olímpicos, que a venda de bilhetes falsos parece um mal menor, se é que assim me posso exprimir.

Psiu 2Logística, acomodação, alimentação, intercompreensão, criminalidade corriqueira não dependem de especial malevolência de mentes tortuosas. São empecilhos que já estão aí e que atormentam nacionais e estrangeiros a cada dia. Com toda certeza, estorvarão também as manifestações esportivas previstas. A fala do militar só veio borrifar um pouco mais de combustível às brasas que dormitam.

Às vezes, é melhor trabalhar calado.

Alvíssaras!

José Horta Manzano

Séculos de presença árabe na Península Ibérica deixaram marcas. Visitas tão demoradas não se esquecem assim tão facilmente. O tempo se encarregou de apagar muita coisa, mas a língua tratou de guardar o que lhe pareceu apropriado. Entre milhares de termos, expressões, palavras, uma cai especialmente bem hoje. Alvíssaras!Visages

Os dicionaristas não são uníssonos quanto à origem da expressão. Para o Houaiss, o Aulete e o Priberam, virá do árabe al-bixra ou al-buxra. Para o Aurélio, o termo é descendente de al-basara. Pouco importa. Todos concordam que se trata de uma boa nova. Uma excelente nova!

A notícia, publicada pelo Estadão de 28 de janeiro e repercutida por Exame e pela Veja, é um começo de uma suspeita de uma esperança de um início de um primórdio do advento de uma solução para o gravíssimo problema da concentração urbana que marca o Brasil atual.

A falta de visão ― sempre ela! ― que caracteriza nossos governantes desde Tomé de Souza gerou um filhote bastardo: a falta de planejamento. Bastardo ou legítimo, o fruto não costuma cair muito longe da árvore. Temos aí mais uma prova. Governantes que exercem sua função com a ideia única de enricar e de preservar seu poder não se preocupam em preparar um futuro melhor para seus governados.

O vácuo total de planificação do crescimento populacional de nosso País engendrou uma desorganização na implantação da infraestrutura. Enquanto algumas poucas regiões concentram uma oferta regular de serviços básicos, outras carecem do estrito necessário. O Brasil, potência econômica de que mutos se orgulham, tem ainda municípios sem esgoto, sem água tratada e até sem estrada de acesso. Um desequilíbrio incompreensível. Visível e perigoso.Multidão

A atração que os centros dotados de alguma oferta de serviços tem exercido, ao longo das décadas, é irresistível. O resultado é o inchaço desmedido de algumas concentrações humanas e o despovoamento de territórios inteiros, largados ao deus-dará.

Não é fenômeno exclusivamente brasileiro, longe disso. É característica dos países do Terceiro Mundo, hoje pudicamente chamado de «países em desenvolvimento» ou até, com certo exagero, de «nações emergentes».

A concentração de multidões em espaço exíguo acaba por provocar efeito perverso. Ao invés de se elevar, o nível dos serviços decai. Ao final, o que se vê é um amontoado humano em que uns poucos bem-nascidos ou bem-sucedidos se locomovem em helicóptero, enquanto aos demais resta apinhar-se em sacolejantes e improváveis transportes coletivos. Lentos, ruidosos, desconfortáveis e sobretudo perigosos.

A melhor notícia do dia ― e das últimas semanas ― é a intenção do governo paulista de implantar 400km de linhas férreas radiais regionais, a partir da capital do Estado. Entendamo-nos bem: estamos, por enquanto, na fase das boas intenções. Nada nos garante que o desafogo da região central venha a ser realidade tão já.Multidão 2

Assim mesmo, intenção por intenção, essa é das boas. Caso ― digo bem: caso ― se concretize, servirá de exemplo para outras concentrações populacionais por esses brasis afora.

Resta-nos esperar que não esteja longe o dia em que nossas «metrópoles», de que tantos parecem se orgulhar, perderão suas características africanas e se aproximarão de padrões aceitáveis.

Alvíssaras, pois! Pior que está não fica. O resto se vê depois.

Os antípodas

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando éramos crianças, qual de nós não ouviu dizer que, se cavássemos um túnel debaixo de nossos pés, bem fundo, bem bem fundo, iríamos sair no Japão? Acho que todos os guris brasileiros aprenderam essa história. Até dicionários vão na onda e citam o País do Sol Nascente como diametralmente oposto ao nosso. O Houaiss e o Aulete fazem isso. Confira o verbete antípoda no Aulete online. Assim, caso você tenha se esquecido do significado desse termo, aproveitará para refrescar a memória. Aqui.

No entanto, sinto dizer-lhes, essa afirmação não corresponde exatamente à realidade. Se conseguissem escavar esse furo interminável e chegar sãos e salvos ao outro lado ― coisa que até hoje ninguém conseguiu ― os brasileirinhos teriam uma grande decepção. Noventa por cento do território brasileiro é antípoda de algum lugar perdido no meio do Oceano Pacífico, pelas bandas do Mar da China.

Globo terrestre com sobreimpressão dos antípodas em verde claro.
crédito: procrastin.fr/blog

Somente alguns poucos habitantes das selvas amazônicas teriam alguma chance de desembocar na ilha de Bornéu, na Indonésia. Quanto aos outros, tchibum! Iriam fazer companhia aos peixes do Pacífico.

O que me inspirou este escrito foi uma competição marítima que se repete a cada 4 anos, na época do verão do Hemisfério Sul, a partir de novembro. Chama-se Vendée Globe, volta ao mundo em barco a vela, com um único marinheiro, sem assistência externa e sem escalas. Começa e termina na localidade francesa chamada Les Sables d’Olonne, na costa Atlântica. A edição deste ano acabou justamente neste 27 de janeiro, com a chegada do vencedor após 78 dias de navegação. É evento muito seguido na Europa, especialmente na França. Lembra vagamente a volta ao mundo em 90 dias imaginada por Júlio Verne.

Quando se fala em volta ao mundo, imaginamos que ela se deva fazer pelo equador da Terra, contornando-se os continentes que estiverem no meio do caminho. Pois a Vendée Globe não faz jus a essa crença. Na verdade, poderia bem chamar-se Volta da Antártida. O que fazem os concorrentes, depois de zarpar da França, é atravessar o Oceano Atlântico de alto a baixo, dar a volta ao continente antártico, «subir» de volta o Atlântico de sul a norte, e retornar ao ponto de partida.

Traçado da corrida Vendée Globe

Traçado da corrida Vendée Globe

Mas, convenhamos, falar em volta ao mundo tem muito mais charme do que falar em contornar a Antártida. Ou não?

Nota: Antípoda é palavra formada por duas raízes gregas. Anti = contra, contrário. Podos = pé. Assim, antípoda é aquele que, teoricamente, pisa um chão diametralmente oposto ao nosso.

Brrrr…

José Horta Manzano

Você sabia?

Cada país tem seus encantos e cada um se defende como pode. Chamar a atenção e atrair turistas é sempre importante.La Brévine 1

A Suíça não tem mar, nem coqueiros, nem riquezas minerais, nem indústria pesada. Até as melancias por aqui são raras, o que faz que poucos tenham a chance de passear por aí com uma delas pendurada no pescoço para causar frisson nos transeuntes.

No Brasil, São Joaquim (SC) e Campos do Jordão (SP) são polos de atração de forasteiros, que vêm unicamente para sentir aquele friozinho ― que nem sempre responde presente quando a gente quer. Pois fiquem sabendo que a Suíça também tem sua pequena Sibéria, ora pois!

É um minúsculo município de forma alongada (2km ou 3km de largura por uns 20km de comprimento), povoado por apenas 650 pessoas. Chama-se La Brévine e fica no Cantão de Neuchâtel, encarapitado nos Montes Jura, no noroeste do país. Das localidades habitadas, é a mais fria do país. A Suíça conta, naturalmente, com picos bem mais elevados e muito mais gelados. Mas, como é compreensível, ninguém mora lá.

Comparada com as alturas de São Joaquim e de Campos do Jordão, a altitude da Brévine até que é modesta: não passa muito de 1000m. O que faz a diferença é que o povoado está localizado numa bacia ― uma região côncava cercada de morros ―, situação que lhe confere um microclima pra lá de especial.La Brévine 2

Recordes de frio são frequentemente registrados ali. Principalmente no inverno, embora aconteçam esporadicamente também no verão. A condição sine qua non para que o fenômeno sobrevenha é que a noite tenha sido clara, sem nuvens e sem vento. Tem um nome que soa familiar aos paulistanos: uma inversão térmica. Sem a poluição, sem os gases de escapamento e sem a massa humana apinhada num espaço reduzido, naturalmente.

São episódios caracterizados por uma camada de ar muito frio que estagna no fundo da bacia, enquanto ar mais quente fica por cima. Algumas dezenas de metros acima do fundo do vale, a temperatura pode perfeitamente estar uns 10 graus mais elevada.

Desde que, no dia 12 de janeiro de 1987, os termômetros marcaram ali 41.8° abaixo de zero(!), o minúsculo município ganhou fama nacional e o apelido de Sibéria Suíça.

Todos os anos, desde então, o vilarejo organiza sua Festa do Frio, num sábado de janeiro. Vem gente de longe só para sentir aquela sensação picante. Este ano foi dia 26 de janeiro. Até que não estava tão frio assim: «somente» 22 graus abaixo de zero. Mas já é friagem de bom tamanho, pra ministro nenhum botar defeito.

Talvez por falta de assuntos mais relevantes, até a televisão noticiou o evento. Quem quiser se refrescar com um minuto e meio siberiano, clique aqui. E quem gostar de emoções fortes e não tiver medo de sentir uns calafrios, pode consultar uma lista de temperaturas historicamente baixas já registradas na Brévine. Aqui.Chica-bon

Vai um Chica-bon aí?

Trinta dicas de Português

José Horta Manzano

1. Vc. deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. O escritor deve prescindir de recorrer ao uso de um estilo de escrita em demasia rebuscado. Tal prática costuma advir do excessivo esmero com que exibicionistas ― nem sempre ínclitos ―, cuja auto-incensação decorre justamente dos parcos conhecimentos linguísticos de que dispõem, chegam a raiar o paroxismo narcisístico, sem contar, para tanto, com supedâneo sólido no que tange à formação escolástica no campo da língua pátria.

3. Anule aliterações altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.Alfabeto

5. Fuja de lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando parecer relevante) é geralmente desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem vernácula são o top.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou?… Então, valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é um erro fatal em todas as circunstâncias.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai tornar-se uma palavra repetitiva. A repetição da palavra pode até fazer com que a palavra repetida desqualifique qualquer texto onde tal palavra se encontrar assim repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: “― Quem cita os outros não tem idéias próprias”.

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, isto é, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, ou seja, basta mencionar cada argumento uma só vez. Por outras palavras: evite repetir a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que usar a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: “mesóclises: evitá-las-ei!”

23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

24. Não abuse das exclamações!!! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!

25. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia por elas abarcada e, por compreenderem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo accessível, forçam, destarte, o infeliz leitor a dissecá-las nos seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língoa portu-guêza.

Alfabeto 227. Seja incisivo e coerente. Ou não.

28. Não vá estar escrevendo (nem vá estar falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e vai estar causando ambiguidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda vão estar acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza de que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando desta maneira irritante.

29. Outra barbaridade que tu deves evitar, tchê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região de onde vens, ô meu! Uai…nada de mandar esse trem… vixi… entendeu, bichinho?

30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém vai aguentar, já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

No spams!

José Horta Manzano

Avisa-me uma fiel leitora que propaganda indesejada e intempestiva tem aparecido quando se põe a ler meu blogue. Pergunta-me se decidi abrir este espaço a chamadas comerciais. A resposta é um redondo e sonoro NÃO!

Este é um cantinho onde pessoas de boa vontade se reúnem. Não é um encontro de vendilhões. Vem quem quer, não paga nada para entrar, só fica se lhe interessar. Não há nenhuma espécie de reclame, anúncio, propaganda. Nem proselitismo. Digo o que penso, da maneira que sinto, mas ninguém é obrigado a estar de pleno acordo. Para reparos, está aí o campo de comentários.

Também eu já fui vítima desses anúncios que se intrometiam, de repente, no meio de alguma leitura calma. Imaginei que outros internautas também pudessem estar sendo incomodados pelo mesmo tipo de intrusão. Dito e feito. Andei pesquisando em alguns fóruns e me dei conta de que se trata de uma praga que começa a se disseminar. É insidiosa, porque faz o leitor pensar que a propaganda foi inserida com a anuência do site onde aparece. Não é assim.

Os computadores não utilizam todos os mesmos sitemas, as mesmas versões, por isso não lhes posso dar uma receita única para livrá-los dessa coceira. Se essa intrusão estiver acontecendo com vocês, recomendo procurarem conselho em algum fórum que reúna outras vítimas. Não é difícil se desembaraçar desse mal, acreditem. Posso até dar algum bom conselho, mas prefiro não fazê-lo aqui. Se alguém estiver padecendo do mesmo ataque, que me contacte por email, e lhe direi como procedi. O endereço está lá em cima, no menu Contacto.

Este blogue não tem patrocinadores, nem mecenas, nem anunciantes, nem spammers. Não os tem e não deseja tê-los.

Para comemorar o aniversário

José Horta Manzano

1900 - Antigo Viaduto do Chá

1900 – Antigo Viaduto do Chá

Hoje é 25 de janeiro. A cidade de São Paulo comemora seu aniversário oficial. Para os paulistanos, é feriado, viva! Mas há polêmica em torno da data.

Uns dizem que os jesuítas não podem ter construído a igreja da noite para o dia, portanto, marcar uma data de fundação da cidade é termo equivocado. A missa realizada às 6h da manhã de 25 de janeiro de 1554 simbolizaria apenas a inauguração de um núcleo já fundado e habitado.

Outros invocam o fato de já existir, naquela altura, um outro núcleo colonial mais antigo, situado em Santo André da Borda do Campo. O mandachuva do lugar era o português João Ramalho, aquele que nossos livros de História nunca explicaram direitinho como é que tinha conseguido subir ao planalto antes dos jesuítas, desbravadores oficiais.

O novo povoado inaugurado em 1554 nada mais seria do que a transferência do bastião já existente em Santo André para um local mais seguro, mais facil de proteger. Se a colônia já estava lá, não pode ter sido fundada no dia e no ano que nossa historiografia reteve. O 25 de janeiro seria, portanto, apenas o dia da mudança.

1925 - Antigo Viaduto do Chá

1925 – Antigo Viaduto do Chá

Seja como for, na falta de provas cabais com firma reconhecida em cartório, fiquemos com a data oficial. Vale tanto quanto qualquer outra.

Para combinar com o dia, quero falar-lhes sobre o Viaduto do Chá, um dos símbolos maiores da cidade. O que nem todos sabem é que o viaduto que conhecemos hoje não é o original. Um outro existiu antes dele.

Jules Martin (1832-1906), um imigrante francês bastante ligado às artes e à arquitetura, apegou-se de tal modo à cidade que passou a se empenhar em resolver alguns de seus problemas. Muito conhecida é sua planta de São Paulo, feita com arte e esmero em 1877. Por essa mesma época, veio-lhe a ideia de construir uma ponte ligando o centro da cidade aos novos bairros que surgiam do outro lado do vale do Anhangabaú.

Não foi empresa fácil. Reunir os fundos necessários, convencer os edis, obter ganho de causa na desapropriação de casarões pertencentes a figuras influentes, tudo isso foi uma batalha que consumiu 15 anos. O viaduto foi finalmente inaugurado em 1892, assentado em sólida estrutura de ferro importado.

A cidade cresceu muito e muito rápido. Trinta anos mais tarde, a obra começou a parecer acanhada, estreita, insuficiente. Novo projeto foi feito.

1945 - Novo Viaduto do Chá

1945 – Novo Viaduto do Chá

Desta vez, o leito da ponte teria o dobro de largura e ficaria assentado sobre um elegante arco de concreto sustentado por dois largos pilares. O novo viaduto, esse que está lá até hoje, foi inaugurado em 1938.

Mas… que fazer entre a demolição do primeiro e a construção do segundo? Como fariam bondes, automóveis e transeuntes para atravessar de um lado para o outro? A solução encontrada foi simples: primeiro, constrói-se o novo; só então, demole-se o velho. E assim foi feito.

O novo viaduto não ocupa, portanto, o lugar exato do antigo. Fotos, vistas, gravuras da velha construção e da nova encontram-se por toda parte. O que eu nunca tinha visto era um retrato das duas pontes coexistindo: a nova já pronta, e a velha ainda de pé. Consegui, por um desse acasos difíceis de explicar, uma foto de 1938, creditada a Benedicto J. Duarte, que mostra justamente o breve período em que as duas construções coabitaram, uma praticamente colada à outra. A raridade fotográfica está logo mais abaixo.

O viaduto da esquerda é o novo, mais largo. Talvez no futuro se encontre algum outro testemunho visual desse momento singular. Por enquanto, acredito eu ser essa a única imagem.

Atualmente - Novo Viaduto do Chá

Atualmente – Novo Viaduto do Chá

No primeiro plano, à direita, está o prédio da Light, hoje transformado em centro comercial. Sempre à direita, mais ao fundo, percebe-se o prédio Matarazzo em construção, um dos raros testemunhos da arquitetura mussoliniana existentes na cidade. Depois da débâcle do império Matarazzo, o prédio serviu de sede para o Banco do Estado (Banespa). Atualmente, abriga a Prefeitura do município.

No fundo, à esquerda, vê-se o Palacete Prates, na esquina da Praça do Patriarca com Líbero Badaró. Seria demolido nos anos 60 para ceder lugar a uma torre de vidro que guarda o nome do antigo proprietário. É o Edifício Conde de Prates.

Feliz aniversário, São Paulo!Viaduto do Chá I e II

Nota: Clique nas fotos para aumentar

O general tinha razão

José Horta Manzano

Ingleses e franceses são ligados pela língua. Não, não me entendam mal, cada um tem a sua, disso sabemos. O fato é que, desde que Guilherme, duque da Normandia, juntou suas tropas, atravessou o Canal da Mancha e

The white cliffs of Dover

The white cliffs of Dover

venceu os ingleses na Batalha de Hastings, no longínquo ano de 1066, a influência da língua francesa tornou-se avassaladora nas terras conquistadas.

Estudiosos andaram fazendo as contas e chegaram à conclusão de que 70% do vocabulário inglês é de origem latina. A maior parte dessa importação maciça chegou a bordo dos navios invasores, o resto veio por via erudita.

O francês ― tal como era falado um milênio atrás ― tornou-se a língua da corte inglesa, o que lhe conferiu grande prestígio. O substrato anglo-saxão não se perdeu de todo, mas passou a ser considerado linguajar camponês. Gente fina falava a língua dos cortesãos, desprezando altaneiramente o vernáculo.

Um exemplo: cada animal já tinha, evidentemente, seu nome secular. Que estivesse sobre quatro patas ou no prato, o nome era o mesmo. Com a chegada da nova elite, os campônios guardaram a antiga denominação, mas as classes mais chegadas ao poder adotaram logo o novo nome trazido pelos conquistadores. Daí termos hoje os binômios ox/beef, pig/pork, calf/veal, sheep/mutton e tantos outros. O nome germânico permaneceu para o bicho vivo, enquanto a denominação importada ficou valendo para o animal já transformado em alimento.

Apesar de o francês ter sido a língua de cultura da Inglaterra durante três séculos e a despeito da impressionante interpenetração linguística que daí resultou, ingleses e franceses foram inimigos desde sempre.

A Entente Cordiale, um arreglo político costurado entre as potências coloniais quase 200 anos atrás, ainda na esteira do que tinha sido o turbilhão napoleônico, trouxe uma certa distensão. Ideias guerreiras foram deixadas de lado, mas uma vaga animosidade persiste até hoje. Diz-se, jocosamente, que os ingleses são os melhores inimigos dos franceses. E vice-versa.

Quando de bom humor, um inglês chamará um francês de Frenchie. Se estiver de maus bofes, vai chamá-lo de frog (=rã). Como se sabe, na França se comem coxas de rã, hábito capaz de horripilar qualquer inglês. Um francês, bem ou mal-humorado, não hesitará em epitetar o inglês de rosbif, palavra que dispensa tradução. Os dois povos vivem uma permanente relação de atração-repulsão que só Freud explica. Amam-se e repelem-se ao mesmo tempo.

Quando o Tratado de Roma inaugurou as bases do que seria o Mercado Comum Europeu e, mais tarde, a União Europeia, o Reino Unido não participou da festa. Provavelmente não quis. Estávamos ainda no fim dos anos 50, o reino insular ainda guardava seu status de grande potência mundial, controlava metade da África, tinha incontáveis possessões espalhadas pelo planeta. Achou que não lhe convinha afiliar-se a uma confraria de vizinhos.

O tempo passou, foram-se as colônias, a Grã-Bretanha entrou em crise profunda. Empobreceu. Lembrou-se então dos vizinhos, cujo mercado comum ia indo bem, e pediu para entrar.

Foi aí que entrou em cena o velho general. Falo de Charles de Gaulle, presidente da República Francesa de 1958 a 1969. Teria seus defeitos, como cada um de nós, mas pelo menos uma grande qualidade não se lhe pode negar: era visionário. Conseguia fazer abstração das minúcias do dia a dia para projetar-se no futuro e vislumbrar o que poderia acontecer se esta ou aquela decisão fosse tomada agora.

Entendeu que o Reino Unido não devia ser acolhido pela Comunidade Europeia. Inglaterra e Europa eram, no seu entender, incompatíveis. Ele enxergava as duas entidades como água e óleo: por mais que se chocalhe, acabarão se separando. O general barrou a entrada do vizinho do norte. Durante seus onze anos de mando, bateu pé firme, como quem dissesse «enquanto eu viver, a Inglaterra não entra».

Como todo mortal, um dia o general se foi. A Inglaterra ficou. Voltou a pleitear admissão no clube. Finalmente, em 1973, foi aceita.

A teimosia do velho general, que nunca explicou tim-tim por tim-tim as razões de sua recusa em aceitar o Reino Unido na Comunidade, foi intuída, anos mais tarde, por analistas. O tempo encarregou-se de deixar claro que a Inglaterra nunca teve ― e ainda não tem ― intenção de tornar-se membro de uma Europa Federal, objetivo final da UE. Seu interesse sempre se restringiu a usufruir das vantagens comerciais que a participação no bloco lhe pudesse oferecer. E vamos parando por aí.

Enquanto tudo ia bem, economia mundial de vento em popa, inflação próxima de zero, nenhuma crise à vista, as vozes divergentes permaneceram anestesiadas. Mas nada como uma crisezinha para despertar velhos ressentimentos. E não é que a crise chegou?

Estes dias, David Cameron, Primeiro-Ministro britânico prometeu que, caso seja reeleito, convocará um plebiscito para que seu povo, afinal, se pronuncie. Votarão pela permanência ou não do país na União Europeia. A notícia espocou no continente como raio em céu azul. Não se fala de outra coisa estes dias.

UEDizem uns que a fala do dirigente destinava-se tão somente a apaziguar os ânimos dos compatriotas mais radicalmente anti-europeus. Dizem outros que não é bem assim. Fato é que, naquelas plagas, promessas de Primeiro-Ministro costumam ser cumpridas. Votarão? É bem provável. Quando? Dentro de alguns anos, certamente. Que decidirão? Só Deus sabe.

Desde o século XVII, os franceses mais cultos dão ao Reino Unido o terrível apelido de Pérfida Albion. Por que pérfida? Pérfidos são os que não cumprem com sua palavra. Por que Albion? Parece que o termo tem origem na primeira visão de quem chega às ilhas britânicas atravessando o Canal da Mancha: os famosos «white cliffs of Dover», as falésias brancas de Dover. Branco em latim é albus. Daí a Albion é um pulo.

Será que os britânicos vão abandonar o barco? Será que o velho general tinha mesmo razão? O túnel que passa sob o Canal da Mancha será mesmo tapado?

Quem viver verá.

Nota: Neste artigo, para evitar repetições maçantes, usei indistintamente as expressões Inglaterra, Grã-Bretanha, Reino Unido e Ilhas Britânicas. Minhas distintas leitoras e meus eruditos leitores sabem que não são termos intercambiáveis.

O Reino Unido é composto de quatro países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. A Grã-Bretanha é a ilha principal que abriga três deles, à exceção da Irlanda do Norte.  “Ilhas Britânicas” é expressão imprecisa, geograficamente pouco significativa.