Lições de desapego

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Desde que entrou em minha vida há exatos seis meses, Vivi, minha SRD afrodescendente, tem me dado lições quase diárias de como me desapegar de tudo o que eu tolamente considerava fundamental para minha felicidade, conforto e bem-estar. Não me entendam mal, não é a primeira vez que me envolvo na tarefa de adestrar um filhote. Mas, como dizia um amigo, é certamente a primeira vez que tenho de cuidar desta que é minha quarta filhotinha.

Ela me força a adotar na prática o conceito jesuíta de pecado, aquele que dita que só há pecado quando há intenção de pecar. Sempre que enlouqueço de raiva com suas traquinagens e tenho ímpetos de atirá-la pela janela, ela me olha com aquele olhar ao mesmo tempo cândido e safado de filhote, como se me perguntasse: “O que foi que eu fiz de errado agora?” Ora bolas, deixa de ser histérica, eu estava só querendo descobrir que gosto isso tem.

Tudo é brincadeira para ela, até mesmo o hábito de abocanhar algo que ela já aprendeu que não deve, bem debaixo do meu nariz, e depois sair correndo, convidando-me a persegui-la pela casa toda. Acompanha compenetradamente cada gesto meu ao longo do dia e, na sequência, dedica-se a tentar repeti-los dentro da lógica e das habilidades caninas. Se acendo um cigarro, na primeira distração ela surrupia o maço inteiro ‒ se possível, também o isqueiro ‒ e os mordisca com ar de prazer. Se a tranco em algum cômodo como castigo, ela logo descobre um jeito de me forçar a abrir a porta, quebrando coisas, fazendo ruídos estranhos ou chorando alto.

Obriga-me a ter disciplina para tudo. Não posso me preparar para dormir sem antes checar se deixei à mostra e ao alcance dela algum objeto tentador para as travessuras da madrugada. Não consigo sair de casa sem antes me perguntar que tipo de retaliação por seu pretenso ‘abandono’ ela vai adotar. Provocação é seu sobrenome e seu passatempo favorito.

Os estragos têm sido pesados do ponto de vista financeiro: ela deixou marcas de dente tanto na lente de meus óculos de leitura quanto nos de sol, abriu um buraco no braço do sofá novinho que ganhei de minha irmã, quebrou absolutamente todos os enfeites de vidro e de cerâmica que acumulei ao longo da vida e, por último, abriu furos na mangueira da máquina de lavar roupas, fazendo com que a área de serviço fosse inundada. Meu limite de tolerância foi ultrapassado quando ela arrancou a capa e comeu diversas páginas de um de meus livros preferidos. Nesse dia, chorei copiosamente pela ‘morte’ dos únicos objetos que considero sagrados, intocáveis.

Educar um filhote, seja de que espécie for, é um exercício diário de generosidade. Perdoar é sempre um desafio sobre-humano. Aprender a se repetir que esses pequenos crimes do cotidiano não são planejados, não são perpetrados com o propósito de causar mágoa ou aborrecimento, entender que cães não sabem estimar o valor financeiro ou afetivo de um objeto, são tarefas dignas de um asceta experimentado – coisa que estou longe de ser e um estado ao qual nunca aspirei chegar.

Ao mesmo tempo, quando, ao final de um dia exasperante, eu contemplo a pequena meliante dormindo a sono solto, abrigada entre as patas de sua companheira peluda, meu coração se enche de ternura e me envergonho de tanto destempero. Magicamente, me dou conta mais uma vez de que sou eu ‒ e não ela ‒ quem está precisando alcançar a maturidade emocional. Melhor dizendo, descubro de novo que somos nós, os humanos, que necessitamos aprender com os animais a bem-aventurança que é saber viver um dia de cada vez, refestelar-se apenas e tão somente no aqui e agora.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Brioches e direitos humanos

José Horta Manzano

A dinastia dos Valois reinou sobre a França durante três séculos, de 1293 a 1589. De Filipe VI a Henrique III, foram 13 reis. Não sei se doutora Luislinda Valois, ministra brasileira dos Direitos Humanos, descende da linhagem real. Nada é impossível.

Luís XII, rei da França, da dinastia dos Valois

Que tenha ou não sangue azul, seu recente infeliz pronunciamento sobre trabalho escravo periga entrar para a história. Pela porta dos fundos. O desajeitado argumento da ministra lembra a terrível frase atribuída a uma rainha da França ‒ que, por sinal, não era da dinastia Valois. Falo de Maria Antonieta, aquela que, ao ouvir o povo faminto reclamando pão, teria lançado: «Não têm pão? Que comam brioches!».

Três anos mais tarde, Maria Antonieta foi guilhotinada. O mesmo não há de acontecer com doutora Luislinda, que a pena de morte não vigora no Brasil. Além do que, o que ela disse não é criminoso, mas apenas indecente e indigno de quem dirige os que cuidam dos direitos humanos no país. Pode-se ver aí um sinal dos tempos. Nos dias atuais, quem é que dá bola para dignidade? Quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro, mermão!

Na verdade, escandaloso mesmo, não é o argumento da doutora. A aberração consiste em conceder a determinados cidadãos uma aposentadoria de trinta e tantos mil reais enquanto a massa do populacho se deve contentar com um salário mínimo. Isso dá uma relação de 1 para 35 ‒ digna de padrões africanos.

Henrique III, rei da França, da dinastia dos Valois

Em países mais adiantados, a relação entre os salários mais baixos e os mais elevados costuma ser bem menos ampla. Quatro para um, cinco para um, algo assim. Trinta e cinco para um é inimaginável.

Não sei como a doutora enxerga seu mandato para cuidar dos direitos humanos. A meu ver, o combate não se resume a impor que se diga afrodescendente em vez de preto, com sobrepeso em vez de gordo, portador do bacilo de Koch em vez de tuberculoso. Isso não passa de maquiagem. Expressões pasteurizadas não dão camisa a ninguém nem põem comida no prato.

Enquanto o fosso entre ricos e pobres for tão profundo, de pouco adiantará suavizar a linguagem. Em vez de reclamar privilégios, a doutora deveria ser a promotora número um da batalha pela diminuição da distância entre as franjas extremas da sociedade.

A tolerância é uma prática

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Já faz tempo que venho filosofando a respeito de como a moralidade do século 21 deslocou-se integralmente para o discurso, deixando praticamente intocada a aceitação social de práticas perversas, típicas de nossos ancestrais das cavernas.

Pense comigo. A gente é capaz de aprender rapidinho a substituir negro por afrodescendente, veado e sapatão por gay, mongoloide por Down, piranha ou galinha por mulher liberada e empoderada, mas demora uma eternidade para incorporar o conceito de que todos, sem exceção, são portadores da mesma essência de dignidade humana. É como se acreditássemos que, retirando o peso discriminatório que algumas palavras adquiriram historicamente, toda a mágoa desaparecesse e se abrissem, por milagre, as portas para a plena incorporação das diferenças.

Ledo engano. Quando a emoção cresce, a razão evanesce e a hipocrisia desaparece. Um instante de desatenção e o filtro de censura volta a se fragilizar. E lá vamos nós gritando de novo da arquibancada: «Macaco, volta para a senzala de onde você nunca deveria ter saído!»; «Bicha louca, desce do salto e aprende a ser homem!»; «Sai daqui, seu debiloide babão!»; «Aí, gostosa, vem aqui que o papai vai te mostrar como é que se faz!».

O velho Shakespeare já havia nos alertado séculos atrás que as palavras podem ser cheias de som e fúria, mas, em última análise, não querem dizer nada. Caetano nos ensinou, através da canção, que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Nelson Rodrigues usou toda a sua mordacidade para nos mostrar que, olhando de perto, ninguém é normal. Em vão.

Não nos parece contraditório sair às ruas gritando palavras de protesto contra a corrupção na política e continuar fazendo pequenos agrados a quem pode nos tirar de uma situação aflitiva. Assinar petições contra o desmatamento na Amazônia ou aquecimento global e continuar a jogar lixo nas ruas e nos córregos. Postar nas redes sociais mensagens religiosas de amor ao próximo, respeito às diferenças e compaixão diante do sofrimento humano e, no minuto seguinte, propor com o máximo de virulência possível a perseguição, tortura e morte da pessoa que espancou um cão. Condenar com veemência o terrorismo, elegendo como bode expiatório de ocasião o fundamentalismo islâmico, e matar a pauladas e pontapés o torcedor do time adversário. Repetir de peito estufado o velho discurso ufanista de que somos o país da conciliação e, na sequência, reclamar que o Brasil não vai para a frente por causa de seu povinho que abaixa a cabeça para tudo.

Por que, se estamos fartos de saber de tudo isso, as mil cabeças da Hidra da intolerância continuam assumindo o controle? Como fazer para que nosso discurso e nossa prática passem a coincidir? É isso que venho tentando investigar.

Dia desses, tropecei num interessantíssimo artigo científico a respeito do modo como nossos cérebros processam palavras e significados. Segundo estudos realizados com pacientes que sofreram lesões em um dos hemisférios cerebrais, o sentido literal (de dicionário) de cada palavra é apreendido primordialmente pelo lobo esquerdo, o cérebro da razão e da lógica linear. No entanto, quando a palavra vem acoplada a outra que envolve julgamento de valor, o cérebro esquerdo fica confuso e passa a depender integralmente do direito para absorver as alterações de significado da mensagem. Só para relembrar, o cérebro direito é aquele da síntese, da apreensão global da realidade e do manejo das emoções.

Parece então que, talvez por influência da hiperutilização do modelo binário da tecnologia da computação, desaprendemos a manter razão e emoção unidas ao interagirmos com a realidade e com as pessoas à nossa volta. Em vez disso, alternamos o discurso politicamente correto e a indignação com o comportamento de terceiros que verbalizam outras percepções.

A armadilha é perigosa e eu mesma não me canso de cair nela. O sentimento de superioridade moral que embala nossa reação de crítica a práticas sociais que não endossamos é tão poderoso que nos impele a desconsiderar quaisquer condicionantes e passar por cima do outro com trator e tudo, esmagando-o sem clemência e destruindo cada um de seus argumentos.

A saída? Ainda não sei. Só posso oferecer como sugestão para reflexão um pensamento de Aristóteles com que me deparei outro dia: «Educar a mente sem educar o coração não pode ser chamado de educação».

Outra pista que persigo há um bom tempo me foi ofertada em caráter pessoal por aquele que chamo de “meu anjo”. Certa vez, durante uma discussão ácida com meu pai, perdi a paciência e saí batendo a porta, esbravejando que meu ouvido não era penico para ele depositar sua insensatez. Ainda no corredor, já me sentindo um tanto acabrunhada e envergonhada, tive a nítida sensação de ouvir o conselho: «É preciso negociar também com as feridas».

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

#Enojados estamos todos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O sistema judiciário brasileiro acaba de parir mais uma aberração jurídica. Deu ganho de causa a um infrator de trânsito e confirmou a punição a uma funcionária do Estado que tentou fazer cumprir a lei. Por quê? Ora bolas, porque o infrator é um juiz! Para um estrangeiro, sentenças kafkianas como essa agregam um tom surreal aos contornos jurídicos de nosso país. Mas para nós, cidadãos comuns, é só a confirmação do que sempre soubemos e sentimos: há um absoluto descompasso entre a Justiça e a cidadania brasileiras.

O que a sentença comunica explicitamente é que já há respaldo legal para que juízes se sintam e se posicionem alegremente acima da lei. Com ela, fica sacramentada a criação de uma categoria especial de cidadãos que não se veem obrigados a respeitar os códigos constitucionais brasileiros. Mais que isso, reafirma-se que há um tipo especial de cidadão a quem não se pode relembrar sua condição de simples mortal e falível, sob pena de ter de pagar uma indenização a título de “dano moral”.

Juízo Final by Hans Memling (≈1435-1494)

Juízo Final
by Hans Memling (≈1435-1494)

Daqui por diante, corremos todos o risco de sermos enquadrados como afrontadores da lei caso sejamos atingidos por uma bala perdida (quem mandou ficar na linha de tiro da polícia?), atropelados (quem mandou perambular pelas ruas?), vítimas de erro médico (quem mandou pedir ajuda a um médico ou a um hospital?) ou demitidos por justa causa sem causa justa para isso (quem mandou colocar-se nas mãos de seu chefe?).

A sentença exarada pelos desembargadores cariocas me fez lembrar do ar de candura com que a então ministra Zélia Cardoso de Mello argumentou que “o povo é só um detalhe” enquanto explanava à nação os motivos do sequestro da poupança de todos nós.

Em outras circunstâncias, eu até riria. Admiro o senso de humor dos brasileiros para enfrentar as situações mais penosas do cotidiano. Tudo parece ganhar leveza quando usamos de ironia sutil para encarar as cafajestadas de nossa elite ou de nossas “otoridades”. Mas quando são essas mesmas eminências (não-pardas, veja bem, porque não sou louca para pespegar a qualificação de afrodescendente a um magistrado) a pesar a mão sobre nossas combalidas costas, a piada perde subitamente a graça. Lá se vai o espírito de conciliação e o nojo para com nosso mal disfarçado sistema de castas pede asilo em nosso peito.

Juízo Final by Michelangelo Buonarrotti (1475-1564)

Juízo Final
by Michelangelo Buonarrotti (1475-1564)

Tudo bem, acuso o golpe e passo recibo da minha perda de humor. Não abro mão, porém, de exigir explicações de três instâncias do Direito nacional diante desse novo monstrengo jurídico, a saber: da OAB, do CNJ e do STF. Para que essas explicações venham a público de forma transparente e embaladas em linguagem que qualquer cidadão comum das ruas possa entender, estou lançando um abaixo-assinado solicitando que essas entidades respondam ao seguinte questionário:

Interligne vertical 16 3Kd1. Do ponto de vista legal, o juiz apanhado numa blitz da Lei Seca no Rio de Janeiro em 2011 infringiu ou não infringiu o Código Nacional de Trânsito? Se sim, por favor especifique a(s) infração(ões) cometida(s) e informe a(s) penalidade(s) que deveria(m) ser aplicada(s) em cada caso;

2. Ainda do ponto de vista legal, que ação deveria ser adotada pelo servidor do Estado – no caso, uma agente de trânsito – que estivesse à frente da operação de fiscalização para obrigar o infrator a respeitar a lei? Por favor, especifique a(s) ação(ões) prevista(s) no Código Nacional de Trânsito e na descrição de cargo da servidora do Estado;

3. Se uma das ações previstas legalmente for, segundo esse mesmo código, a apreensão do veículo, que outra(s) atitude(s) deve o agente de Estado adotar caso se depare com resistência do infrator? Por favor, especifique.

4. Essa entidade considera que houve abuso de autoridade na implementação de qualquer medida tomada pela agente de trânsito? Se sim, por favor, especifique a circunstância;

5. Essa entidade considera que, quando a agente do Estado em questão declarou que “juiz não é Deus”, a intenção foi de fato a de zombar da honra do cargo de magistrado? Se sim, por favor, apresente a argumentação legal correspondente.

6. Como se configura, dentro do enquadramento legal, o dano moral neste caso? Por favor, ao invés de citar cláusulas, parágrafos e incisos legais, justifique em linguagem simples as circunstâncias que levaram os desembargadores que julgaram o processo em 1ª e 2ª instâncias à convicção de que houve de fato dano irremediável à honra do juiz que conduzia o veículo.

7. Finalmente, considerando que o atual Ministro-Chefe do STF, Ricardo Lewandowski, declarou publicamente há poucos dias que “nenhum juiz é Deus e todos devem cumprir a constituição”, solicitamos que essa entidade especifique as diferenças que identifica entre uma declaração e outra.

Conclamo todos os internautas pensantes que ainda sentem um tremor de indignação percorrer seu corpo a que assinem a presente petição e a que a divulguem em todos os meios de comunicação a seu dispor.

Antecipadamente grata.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Politicamente correto estilo anos 60

José Horta Manzano

Você sabia?

Você acha que essa irritante moda do politicamente correto é novidade, uma importação recente? Pois prepare-se para uma decepção.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Um movimento eclodiu neste Brasil brasileiro muitos anos antes de importarmos essa maneira estranha de nos comunicar, em que cada palavra tem de ser sopesada antes de ser pronunciada.

Um rascunho de cartilha politicamente correta foi apresentado décadas antes de trazermos, de importação, essa novidade tão distante do jeito irreverente de se exprimir de nossa gente.

Mais de cinquenta anos atrás, já havia gente enxergando o mal por toda parte. Na época, a solução preconizada era bem mais radical que hoje. Se, atualmente, certas expressões são apenas desaconselhadas, há meio século a ideia era francamente bani-las, removê-las do dicionário. ¡Vaya radicalismo! ― diriam nossos hermanos.

A capital paulista contou, durante mais de setenta anos, com um jornal de qualidade que, infelizmente, já desapareceu. Chamava-se A Gazeta. Circulou de 1906 a 1979. Quem se interessar em conhecer um pouco da história do jornal pode visitar esta página.

O professor Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), filólogo e lexicógrafo, era autor do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, adotado no ensino público.

Em 20 de julho de 1961, o professor Silveira Bueno foi entrevistado por um jornalista da Gazeta. O assunto era justamente a ameaça que sofria seu dicionário de ser amputado de algumas palavras julgadas ofensivas.

Era o prenúncio dos tempos estranhos que vivemos. Já então, confundia-se o recado com o portador. Já então, imaginava-se ingenuamente que, eliminado o mensageiro, estaria automaticamente eliminada a mensagem.

É erro antigo que perdura. A língua é maior que dicionaristas. A língua pertence a seus falantes. Lexicógrafos e dicionaristas nada mais fazem que registrar fatos da língua, não são seus criadores, nem responsáveis por eles.

Inseri no post de hoje a entrevista de 1961. Ela se explica por si mesma, dispensa maiores comentários.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Naquele começo dos anos 60, os Estados Unidos ― grande democracia ― ainda viviam tempos de segregação. Ainda se construíam banheiros públicos separados para pretos e para brancos, ainda se reservavam lugares para não brancos no fundo dos ônibus.

Está aí a prova do pioneirismo de nosso País. Para dizer a verdade, eu bem que preferia que tivéssemos sido os primeiros em outros campos mais proveitosos para a população, mas ― que fazer? ― não se muda a História.

Só mais um detalhe picante. Quem tiver a paciência de ler a entrevista de Silveira Bueno verá que a birra da época era contra a palavra negro, considerada, então, pesada e ofensiva. Os descendentes de africanos haviam de ser chamados de pretos, essa era a forma suave, delicada e correta.

O tempora, o mores!

Un chat est un chat

José Horta Manzano

Uma conjectura atormenta filósofos desde a Grécia antiga: mudando o símbolo muda-se a coisa? Em palavrório mais chique: a coisa e seu símbolo são convergentes ou inapelavelmente antinômicos?

Os franceses, com sua longa experiência em matéria de conflitos, afrontamentos, revoluções e guerras, ensinam a «appeler un chat un chat» ― se for um gato, há que dizer que é um gato. Esse dito popular exorta o bom povo a não ter medo de dizer as coisas como elas são. Dar nome aos bois, diríamos nós outros. Diríamos? Dizíamos, caro leitor, dizíamos.

Até alguns anos atrás, os contorcionismos verbais se restringiam a suavizar tabus geralmente de ordem sexual. Todas as palavras que pudessem, de perto ou de longe, remeter ao sexo eram evitadas. Até fenômenos fisiológicamente naturais como a trivial menstruação tinham seus nomes eludidos. Dizia-se que a moça estava «naqueles dias».

Costumes mudam com o passar do tempo. Não há que ser empacado nem caprichoso, que o mundo é assim mesmo. A sociedade evolui e, com ela, as modas, as palavras, as expressões. De uns tempos para cá, essa guinada tem-se acelerado em nosso País. É fenômeno importado, mas pegou forte, alastrou-se como fogo em palha seca.

Uma lista de nomes e expressões a banir foi instituída. E esse rol tende a se avolumar a cada dia. Não se fala mais assim, não se diz mais isso, nem pensar em pronunciar aquilo. Fica a desagradável impressão de que mentores mal-intencionados se concertaram para agir conscientemente a fim de acirrar ânimos, aprofundar fossos entre extratos sociais, separar o povo em campos distintos e antagônicos.

Elizete Cardoso

Palavras estranhas ― e nem sempre bem escolhidas ― nos vêm sendo impostas. Mulato, por exemplo, palavra a execrar hoje em dia, deve ser substituída por afrodescendente. Ora, há que ter em mente que todos os mulatos são também eurodescendentes, se não, não seriam mulatos. Por que, raios, o afro- teria precedência sobre o euro-? Devemos enxergar aí uma nova discriminação?

O Brasil já foi um país muito mais livre. O que digo pode soar estapafúrdio para os mais jovens, mas é o que ressinto. Éramos pobres, sim, mas podíamos sair à rua sem medo de ser assaltados, não precisávamos viver enjaulados como bichos no zoológico, a porta de casa dispensava tranca. E era natural dar nomes aos bois.

Hoje os brasileiros são mais ricos (ou menos pobres, conforme o critério estatístico adotado), mas vivem na apreensão permanente do assalto, da violência, da bala perdida, do sequestro relâmpago. São obrigados a cercar-se de jaulas, câmeras de controle, porteiros, vigias. E, para coroar tudo, como morango em cima de bolo de aniversário, já não se pode falar como antes. Temos de filtrar nossas palavras, pesar nossas expressões, policiar nosso discurso.

Será que, de uns dez anos para cá, teremos sido capazes de resolver a conjectura secular dos filósofos? Será que, mudando o nome da coisa, mudamos também a essência dela? Será que o mulato transfigurado em euro-afrodescendente será mais respeitado, mais valorizado, mais favorecido, mais feliz?

Se assim for, chegou a hora de enfiar o grande Ataulfo Alves no mesmo balaio ao qual já foram condenados Monteiro Lobato e o Saci-Pererê. Seu samba Mulata Assanhada, de 1956, tem de ser banido do cancioneiro nacional.

E é bom que preparem um balaio de bom tamanho. Muita gente fina vai ter de se acomodar lá dentro. Gente do quilate de Ary Barroso, Chico Buarque, Noel Rosa, isso só para começar. Pelas regras de hoje, estão todos em pecado mortal.