Gente fina é outra coisa

José Horta Manzano

Luiz Inácio da Silva, que foi um dia presidente desta República, anda meio borocoxô. Como já diziam os antigos, mentira tem perna curta. O passar do tempo tem-se mostrado cruel para com o antigo mandarim. Pouco a pouco, não só o Brasil, mas também o resto do mundo vai-se dando conta de que a «emergência» do Brasil, que tinha sido apresentada como iguaria fina, não era mais que um reles pastel de vento. Crocante e apetitoso por fora, mas vazio por dentro.

Apesar de todo o esperneio, da cara feia, do jogo de cena, dos atuais murros na mesa, o conjunto dos anos Lula mostra pouco ou nenhum avanço de nosso País. Hoje, políticos roubam com mais desfaçatez que antes. A criminalidade e a insegurança ressentida pelo cidadão aumentou. Quem tem possibilidade de fazê-lo vive em casa ou prédio cercado de muros e de barreiras que lembram jaulas.

Turisticamente, a imagem do País no estrangeiro está muito deteriorada ― um europeu preferirá passar suas férias na República Dominicana, na Tailândia ou até no Marrocos, mas evitará o Brasil. As estradas continuam tão esburacadas como antes, ou até mais. Os portos e aeroportos seguem travados, ineficientes, incapazes de fazer frente à demanda. A qualidade da instrução pública decaiu a tal ponto que os mandachuvas se viram na obrigação de instituir quotas para promover artificialmente certas franjas da população. As condições de locomoção dentro das megalópoles continua calamitosa, seja por transporte individual, seja por transporte coletivo.

A inflação voltou, o dólar sobe um pouco a cada dia, investidores estrangeiros procuram outros horizontes mais seguros. O companheiro Chávez se foi, Zelaya não voltou ao poder, o Oriente Médio continua se estraçalhando, Evo anda ridicularizado pelo mundo civilizado, a Argentina se afunda cada vez mais. O Mercosul não concluiu nenhum acordo comercial importante e emperrou de vez ― até o Paraguai dá mostras de insatisfação. Cansados de esperar, os países mais dinâmicos do subcontinente se juntaram para costurar uma aliança mais comercial e menos ideológica.

Dizem que a agricultura vai bem. Sei não. Cinquenta anos atrás, costumava-se dizer que «esta terra é tão boa que, se deixar cair um bago de feijão, ele germinará». Hoje importamos feijão da China. Sim, senhores, da China! A produção nacional há de ter encolhido. Ou cedeu lugar à soja, que pode trazer lucro a grandes grupos, mas não alimenta o brasileiro. Está aí mais uma prova de que a fortuna particular de grandes empresários passa à frente da segurança alimentar da população.

O sistema nacional de saúde ― aquele mesmo do qual um extasiado Lula disse já ter atingido a «quase perfeição» ― continua em pandarecos. Muitos médicos brasileiros se recusam a trabalhar em condições tão precárias, o que força o governo a importar profissionais. Vêm para o Brasil os excedentários estrangeiros ou os que não encontraram colocação em seus próprios países. Podemos continuar por muitos parágrafos, mas… pra quê? O mal que está feito está feito. Só nos resta desejar ânimo às gerações futuras para consertarem o estrago. Vão ter trabalho.

Homem meio perdido by Lynch

Homem meio perdido
by Lynch

O velho mandarim está borocoxô, dizia eu, mas nem por isso fez voto de silêncio. Tem evitado aparição pública, que as vaias que recebeu nos Jogos Panamericanos, anos atrás, deixaram um trauma. Dá preferência a comparecer a assembleias fechadas, às quais só correligionários são admitidos. Esteve num desses almoços quinta-feira, dia 5.

Provocado por jornalistas quanto ao caso da espionagem exercida pelos serviços secretos americanos sobre o governo de todos os países relevantes, não se fez rogar. Aconselhou ao presidente Obama ter a humildade de pedir desculpas à Dilma por ter quebrado o sigilo da correspondência eletrônica dela. Não lhe ocorreu que, no tempo em que foi presidente, suas próprias mensagens já deviam estar sendo monitoradas. A contraespionagem brasileira é realmente lerda. Se um programa de tevê não tivesse botado o dedo na ferida, o Planalto jamais se preocuparia com essas insignificâncias.

As declarações esclarecidas de nosso messias continuam a nos surpreender com pérolas inesperadas. Desta vez, a cereja sobre o bolo teve sabor escandinavo. A uma certa altura, o Lula mencionou o «presidente da Suécia». Pode conferir: está no Globo (3° parágrafo a contar do fim) e no Estadão (igualmente no 3° parágrafo a contar do fim).

Que você ou eu não estejamos bem a par de que, na Suécia, não há presidente, mas um rei (chefe do Estado) e um primeiro ministro (chefe do governo), vá lá, é compreensível. Há até quem confunda Suíça com Suécia. No entanto, vindo da parte de um homem que foi presidente do Brasil durante 8 anos ― e que, ainda por cima, fez visita de Estado à Suécia em setembro de 2007, ocasião em que foi recebido pelo rei Carlos XVI Gustavo ― é alucinante.

Fico impressionado com a incapacidade de aprender que têm certas pessoas. Para nosso simplório personagem, tudo isso há de ser demasiado sutil. Para ele, de qualquer maneira, são todos loiros de olhos azuis, tudo a mesma coisa. E ‘vâmo’ em frente, que eu sou mais eu!

Um passo à frente, dois atrás

José Horta Manzano

Governar é prever. Não é concebível que nossas autoridades maiores, da presidência da República até a Câmara Municipal do mais humilde lugarejo, não façam outra coisa senão tapar buracos.

Na ausência de planos visando ao longo prazo, nosso governo é errático. Em todos os níveis. Vivemos uma rotina de anúncios espalhafatosos. Em vez de uma linha diretiva com começo, meio e fim, temos um pac hoje, um pec amanhã, quem sabe um pic ou um poc na semana que vem. Anúncios, aplausos, colheita de votos. E mais nada.

Do muito dinheiro sugado dos que suam camisa, algumas migalhas são distribuídas aqui e ali aos mais desafortunados. O resto ― o grosso da colheita ― não volta à população sob forma de melhoria. Para que servirá? Onde vai parar essa dinheirama toda? Sabe Deus.

Uma parte, sabemos todos, vai servir para autolouvação dos mandachuvas: placas, comícios, propaganda dita institucional, remuneração de marqueteiros, anúncios chamativos. O distinto público não tem direito a ser informado sobre o destino do resto da bolada.

E pensar que todos, absolutamente todos contribuem para abarrotar o baú. Até aqueles que, por ignorância ou descaso, não se dão conta disso. Os próprios beneficiários de bolsas várias colaboram para retribuir, sob forma de impostos indiretos. Cooperam para o enchimento da arca central. Cada quilo de carne de sol, de feijão, de farinha traz impostos embutidos.

Enquanto anúncios de pacs, pecs e pics proliferam, a estrutura que sustenta o edifício vai sendo minada. Atordoados pela propaganda oficial, poucos brasileiros se dão conta da desorganização crescente do País e da deterioração de sua imagem.

Os de fora, que não estão embalados pelas doces e vazias promessas oficiais, veem com mais clareza. O Brasil, que dez anos atrás tinha até sido incluído na lista dos emergentes, está aos poucos submergindo, voltando às profundezas de onde não soube aflorar.

Autódromo de Interlagos

Autódromo de Interlagos

A cidade de São Paulo, vitrine maior da pujança nacional, vai deixar de ser palco de corridas de Fórmula I. A confirmar-se o que está sendo anunciado, nossa maior e mais rica metrópole será suprimida do calendário da prestigiosa competição a partir de 2014.

A megalópole que concentra fatia considerável da riqueza produzida no País não foi sequer capaz de construir um estádio de futebol ― de futebol! ― em tempo hábil para acolher a Copa das Confederações. Que vergonha!

Será que ainda tem jeito de consertar? Pelo andar da carruagem, nosso País vai continuar deitado em berço esplêndido. Eternamente.

Parceria estratégica

José Horta Manzano

Já faz uns dez anos que, na onda de alinhamento automático com tudo o que lhe soasse antiamericano ou antieuropeu, o governo brasileiro houve por bem incentivar as curiosas relações político-comerciais ditas «sul-sul». Stricto sensu, a expressão é gritantemente inexata. É um tremendo equívoco sustentar que China, Rússia e Índia sejam países «do sul». Mas relevemos a impropriedade geográfica e passemos ao que interessa.

Todas las monedas tienen dos caras ― dizem os espanhóis. Para nós, a cara está de um lado apenas. E a coroa, entalhada no verso, nem sempre é tão reluzente como parece.

Desdenhando as economias ricas ― hoje conhecidas como «países centrais» ― o Brasil preferiu cortejar nações periféricas. Após um rufar de tambores que prenunciava futuro radioso, a mágica está dando chabu. A realidade é cruel e começa a revelar-se pouco faceira.

Ninguém se deu conta de que as nações ditas emergentes têm necessidades semelhantes às nossas. Nossos manufaturados não são de grande valia para esses novos parceiros. A complementaridade que se buscava tinha outro nome: concorrência. Competição feroz.

Nossa obstinação tinha objetivos muito mais políticos do que comerciais. Em vez de seguir o sábio exemplo de países que alavancaram o nível de vida de seu povo fortalecendo a economia discretamente, na moita, sem se preocupar em aparecer como grandes potências, o Brasil instalou a carroça à frente dos bois. Deu-se ares de nação poderosa sem se preocupar em reforçar seu esqueleto, em sanar suas próprias deficiências. Nossa infraestrutura continua rudimentar, a calamitosa instrução pública continua a prover nossa juventude de formação tosca.

Deu no que deu. O Brasil, um gigante em aparência, continua assentado em pés de barro. Ações são tomadas apenas em caráter de emergência, no sufoco, sem planejamento de longo prazo. Remenda-se aqui, tapa-se um buraco ali, constrói-se um puxadinho acolá. Toca-se a trombeta, mas a banda não acompanha.

Mas não reclamemos, gente impertinente! Ainda nos resta… o feijão! Esse é nosso, e ninguém nos tira. Será?

A China ― sempre ela, o nosso melhor «parceiro estratégico» ― tem usufruído de nossa ingenuidade. Não acredita? Pois então continue a leitura.

O bacalhau vem de Portugal ou da Noruega. E o feijão preto, evidentemente, é produto da terra, brasileiro legítimo. Certo? É o que imaginamos todos. A realidade é um pouco diferente.

Crédito: Die grüne Speisekammer

Crédito: Die grüne Speisekammer

Artigo pra lá de instrutivo publicado pela Folha de São Paulo deste 15 de janeiro nos informa que a China se tornou nosso maior fornecedor de feijão preto. Estamos comprando feijão da China, companheiros!

E não é só. Nos últimos quatro anos, a importação de produtos agrícolas cultivados em terras chinesas quadruplicou. Passou de 0,8 a 2,3 bilhões de dólares por ano. E a gente que imaginava que o grande país oriental, superpovoado, não tinha espaço nem para enterrar seus mortos na horizontal. Vivendo e aprendendo.

Já faz anos que nosso país se desindustrializa. Disso, já sabíamos todos. Pois agora ficamos sabendo que nos tornamos dependentes da China para o feijão nosso de cada dia. E para o bacalhau também, pasmem.

Como é reconfortante saber que estamos sendo governados por gente de visão. Viva a parceria estratégica!