Virando a página

by Luciano “Kayser” Vargas (1970-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

No Brasil, ainda se ouve o eco das reclamações dos que ficaram desagradados com o resultado da eleição. Ainda tem gente imitando o guru Roberto Jefferson e jogando paus e pedras na polícia. E até dando tiros de revólver contra a força pública. A razão é que esses inconformados pressentem que dificilmente poderão contar de novo com um extremista na Presidência. O pesadelo (chamado de “sonho” por bandidos, garimpeiros selvagens, madeireiros ilegais, grileiros, milicianos e ingênuos) acabou.

Esse estropício que está de saída do Planalto conseguiu chegar lá em 2018 porque ninguém tinha a medida do que poderia ser um indivíduo nazi-fascista sentado no trono. Ninguém tinha nunca convivido com um. Agora todos sabem. É por isso que, pelas próximas décadas, é de duvidar que outro espécime da mesma laia seja eleito. Nem ele, nem uma imitação.

No Brasil, ainda pipoca aqui e ali uma notícia de rodapé sobre aqueles agrupamentos de gente embandeirada zanzando de um lado pro outro como se estivessem todos em estado de transe coletiva, a chorar o messias naufragado. Já no estrangeiro, Bolsonaro e seus devotos são página virada. O Brasil agora é mencionado em relação à COP27 e, cada vez mais, em relação à Copa.

O canal de informação contínua France Info se alegra de ver o Brasil de retorno à COP27(*) e lamenta que a China de Xi Jinping esteja ausente.

France Info

O sueco Nyheter 24 também se enche de esperança ao mencionar a presença de Lula na Conferência Climática. Diz textualmente:

“A recente vitória de Luiz Inácio “Lula” da Silva nas eleições presidenciais brasileiras é vista como um possível ponto de inflexão na luta pelo cumprimento das metas climáticas globais. Com o negacionista climático Jair Bolsonaro no poder, as florestas tropicais vitais da Amazônia foram desmatadas a um ritmo acelerado – o que Lula diz querer parar.”

Nyheter 24

O inglês The Guardian anuncia que o Brasil, a Indonésia e o Congo estão em tratativas para formar uma aliança estratégica para a conservação da floresta úmida. O novo clube, que reúne mais de 50% da floresta equatorial, já recebeu o apelido de “OPEP das Florestas Tropicais”, em alusão à Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

The Guardian

A edição alemã do site esportivo GOAL escolheu outro tema. Publica artigo sobre o fervor com que a Seleção canta o hino nacional. Lembra que, na Copa de 2014, o público presente no estádio continuava a cantar a cappella quando os 90 segundos regulamentares permitidos pela Fifa para cada hino se esgotavam e o acompanhamento musical silenciava.

Para completar, o artigo conta a história de nosso hino e traz a versão alemã da letra – com todos os versos. E inclui ainda um vídeo de um jogo de 2014 com o estádio inteiro cantando de pé. Era uma época em que vestir-se de amarelo significava apenas ser um cidadão direito, não de extrema-direita.

Goal (deutsche Ausgabe)

(*) COP = Conference of the Parties (Conferência das Partes). Na verdade, o nome em inglês é Climate Change Conference (Conferência de Mudanças Climáticas). No entanto, a sequência CCC foi abandonada visto que, na língua inglesa, a sigla já tinha mil e uma utilidades.

Na política dos EUA dos anos 1930:
Civilian Conservation Corps

Nos negócios:
Cash Conversion Cycle

Nos aplicativos de mensagem:
Coricidin Cough and Cold

Na escola:
Community Classroom Collaborative

Na administração californiana:
California Conservation Corps

Na área de saúde:
Clinical Competency Committee

Na temática LGBT:
Classic Closet Case

Curso de inglês grátis

José Horta Manzano

Você sabia?

Na França, há uma estação de rádio de informação contínua, que irradia durante 24h por dia. Difunde um jornal completo a cada meia hora e repete as manchetes a cada quinze minutos.

No meio dessa enxurrada de notícias, sobram alguns minutinhos aqui e ali, que são recheados com entrevistas curtas e outras amenidades. Aos sábados, quando o perfil dos ouvintes se modifica, até receitas culinárias são apresentadas.

Todas as manhãs, dois minutos são reservados a Jean-Pierre Gauffre, que tece uma crônica sobre algum acontecimento do momento. O homem é humorista fino. Sua arte está a milhas de distância do humor escrachado e escatológico que costuma dominar os espetáculos destinados a provocar o riso. Enfim, a cada artista, seu público. E vice-versa.

O tema de hoje girou em torno das aulas grátis de inglês e de espanhol que o Senac de Belo Horizonte está oferecendo. Trata-se de um curso básico dirigido especificamente às prostitutas da cidade. A intenção é prepará-las para acolher os clientes que a Copa-14 certamente trará.

Crédito noticias.r7.com

Crédito noticias.r7.com

A notícia é verdadeira, não foi invenção do cronista. Confira no site R7 de notícias. Monsieur Gauffre trata o tema com a necessária delicadeza. Pela seriedade da elocução, parece até estar lendo uma notícia qualquer. Mas lá no fundo se percebe uma fina ironia. Ele chega a propor ao presidente da França que se inspire nesse exemplo para enriquecer programas de formação profissional contínua já existentes no país.

Se alguém se dispuser a gastar dois minutos ouvindo a crônica de hoje, o endereço está aqui. O site de France-info funciona mais ou menos como um caraoquê: o texto e voz aparecem na tela ao mesmo tempo. É prático para desempoeirar velhos conhecimentos de língua francesa.

E a gente fica aqui a matutar por que cargas d’água certas iniciativas úteis ― não falo apenas de cursos de línguas para profissionais do sexo ― são tomadas somente na iminência de eventos considerados importantes, tais como eleições, copas do mundo, visita de estrangeiros ilustres.

Um ditado resume bem a situação: limpa-se somente por onde passa a procissão. É aforismo antigo, mas continua firme e forte. Valia ontem e continua valendo hoje.