Vaquinha virtual

José Horta Manzano

Proponho a organização de uma «vaquinha virtual» ‒ a expressão está na crista da onda! ‒ para financiar meia dúzia de dicionários. Destinam-se aos fazedores de manchetes e chamadas na grande mídia.

Investir em Instrução Pública dá mais futuro que chamar de volta presidentes de passado tenebroso.

Chamada do Estadão, 3 jul° 2016

Chamada do Estadão, 3 jul° 2016

Não é «nonogenário». Aquele (ou aquilo) que já passou dos noventa anos é nonagenário. Qualquer dicionário confirma.

Mãe, tirei zero!

José Horta Manzano

Saíram os resultados do Enem, exame a que se submetem alunos do ensino médio. Diferindo da antiga prática de cada escola avaliar por seus próprios critérios, o exame atual é padronizado. Igual para todos.

Tem suas limitações, na medida que não leva em conta particularidades regionais. Tem suas vantagens dado que, como passa todos os examinandos pela mesma peneira, os resultados são comparáveis.

Seja como for, as notas da prova de redação, publicadas ontem, são inquietantes. Dos seis milhões de candidatos, meio milhão lograram a façanha de levar zero. Zero, minha gente! Sabe o que é isso?

De cada dez jovens que chegam ao fim da escola média, um não consegue preencher nenhum dos critérios exigidos para a prova de redação. Não tem capacidade de se exprimir. Ou de entender o enunciado.

E aqui falamos só dos que tiraram zero. Não tenho informação sobre os que levaram nota um, dois, três. Imagino que sejam numerosos, haja vista a avalanche de zeros. Por que isso acontece?

Temos, no Brasil, um bilinguismo de facto. O distanciamento cada vez mais acentuado entre a língua caseira e a língua formal, criou o que linguistas qualificam de diglossia – um bilinguismo em que uma das variantes tem mais prestígio.

ExameEsse fato, no entanto, não saberia responder sozinho pelo fracasso dos brasileirinhos quando se lhes põe uma caneta entre os dedos. Outras regiões do mundo são atingidas pelo mesmo fenômeno sem que ele se converta em iletrismo.

A língua materna de oitenta porcento dos suíços não é a língua de cultura da região. Em casa, suíços alemães e suíços italianos falam cada qual seu dialeto. Só vão aprender a língua formal na escola.

Ainda hoje, a maioria dos italianos tem um dialeto por língua materna. Muitos alemães se encontram nessa situação. Nem por isso, suíços, italianos e alemães chegam ao final da escola média sem conseguir se exprimir por escrito. Portanto, o problema brasileiro não é esse. Antes, deveria ser considerado uma riqueza, uma oportunidade a mais.

Quando fiz a escola média, não havia internet. Para procurar o significado de uma palavra, tinha de se levantar, ir até a estante, pegar o dicionário, abrir na página desejada. Hoje, com dois cliques, se resolve o problema.

Escrita 3Não se «baixavam» livros. Para ler, tinha de comprar – o que nem sempre era possível, que o dinheiro era pouco. O mais simples era tomar emprestado. Tinha de ir até a biblioteca, preencher a ficha, mostrar documento, levar o livro pra casa, ler, voltar à biblioteca e devolver. Uma maratona.

Vamos partir da premissa que o brasileiro médio não emburreceu. Quanto à leitura e ao aprendizado, ficaram mais accessíveis. Onde está o problema então? Na minha opinião, o que mudou foram as exigências e as expectativas da sociedade.

Já não se atribui à formação, à cultura e à erudição o mesmo valor que antes. Essa degringolada começou trinta, quarenta anos atrás. Não é obra deste ou daquele governo, embora seja inegável que os últimos doze anos contribuíram para acelerar o declínio.

Estudante 2É muito difícil elevar, de chofre, o padrão de cultura da população – principalmente porque as autoridades, incultas, não se dão conta do problema. Mais fácil será baixar o nível de exigência do Enem.

Assim como sutis mudanças em parâmetros estatísticos promoveram milhões de brasileiros à classe média, miúdas alterações nos critérios de avaliação do Enem promoverão os brasileiros ao nível de povo culto. Por que não?

Não trará cultura, mas aliviará consciências.

O castelhano ― uma língua multipolar

Alberto José Miyara (*)

«O castelhano é a única língua multipolar do mundo. Idiomas como francês e alemão são monopolares: sabe-se que seus destinos se determinam na França e na Alemanha. A Suíça, a Bélgica, a Áustria ou o Québec são bem-vindos para engordar o número de falantes, mas, na hora das definições, têm direito a uma atenção meramente protocolar.

O inglês e o português são bipolares. A Inglaterra e Portugal, por serem o berço de cada uma dessas línguas, exercem, na hora das decisões, peso bem maior do que poderia sugerir a relativa importância de suas economias diante dos Estados Unidos e do Brasil. (O Canadá ou a Austrália ficam fora de toda negociação, assim como Angola e Moçambique.) O resultado é que os países que constituem essa bipolaridade nem sempre chegam a um acordo, o que se reflete nas ortografias irritantemente distintas entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos e entre Portugal e o Brasil.

Mas em castelhano as coisas são diferentes. (…)»

Para ler o texto integral (em espanhol), clique aqui.

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(*) Alberto José Miyara é poeta, escritor e engenheiro argentino. O excerto reproduzido acima aparece na introdução de seu interessantíssimo Diccionario Argentino-Español.
Sua obra poderia ser comparada, por exemplo, a um glossário do falar brasileiro destinado a leitores portugueses.

Politicamente correto estilo anos 60

José Horta Manzano

Você sabia?

Você acha que essa irritante moda do politicamente correto é novidade, uma importação recente? Pois prepare-se para uma decepção.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Um movimento eclodiu neste Brasil brasileiro muitos anos antes de importarmos essa maneira estranha de nos comunicar, em que cada palavra tem de ser sopesada antes de ser pronunciada.

Um rascunho de cartilha politicamente correta foi apresentado décadas antes de trazermos, de importação, essa novidade tão distante do jeito irreverente de se exprimir de nossa gente.

Mais de cinquenta anos atrás, já havia gente enxergando o mal por toda parte. Na época, a solução preconizada era bem mais radical que hoje. Se, atualmente, certas expressões são apenas desaconselhadas, há meio século a ideia era francamente bani-las, removê-las do dicionário. ¡Vaya radicalismo! ― diriam nossos hermanos.

A capital paulista contou, durante mais de setenta anos, com um jornal de qualidade que, infelizmente, já desapareceu. Chamava-se A Gazeta. Circulou de 1906 a 1979. Quem se interessar em conhecer um pouco da história do jornal pode visitar esta página.

O professor Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), filólogo e lexicógrafo, era autor do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, adotado no ensino público.

Em 20 de julho de 1961, o professor Silveira Bueno foi entrevistado por um jornalista da Gazeta. O assunto era justamente a ameaça que sofria seu dicionário de ser amputado de algumas palavras julgadas ofensivas.

Era o prenúncio dos tempos estranhos que vivemos. Já então, confundia-se o recado com o portador. Já então, imaginava-se ingenuamente que, eliminado o mensageiro, estaria automaticamente eliminada a mensagem.

É erro antigo que perdura. A língua é maior que dicionaristas. A língua pertence a seus falantes. Lexicógrafos e dicionaristas nada mais fazem que registrar fatos da língua, não são seus criadores, nem responsáveis por eles.

Inseri no post de hoje a entrevista de 1961. Ela se explica por si mesma, dispensa maiores comentários.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Naquele começo dos anos 60, os Estados Unidos ― grande democracia ― ainda viviam tempos de segregação. Ainda se construíam banheiros públicos separados para pretos e para brancos, ainda se reservavam lugares para não brancos no fundo dos ônibus.

Está aí a prova do pioneirismo de nosso País. Para dizer a verdade, eu bem que preferia que tivéssemos sido os primeiros em outros campos mais proveitosos para a população, mas ― que fazer? ― não se muda a História.

Só mais um detalhe picante. Quem tiver a paciência de ler a entrevista de Silveira Bueno verá que a birra da época era contra a palavra negro, considerada, então, pesada e ofensiva. Os descendentes de africanos haviam de ser chamados de pretos, essa era a forma suave, delicada e correta.

O tempora, o mores!