Frase do dia — 226

«Nuestras sociedades no valoran el conocimiento sino el reconocimiento, que no es lo mismo ni se obtiene igual.»

«Nossas sociedades não dão valor ao conhecimento, mas ao reconhecimento, que não é a mesma coisa e não se alcança pelo mesmo caminho.»

Fernando Iwasaki Cauti, escritor e filólogo peruano. A frase aparece em ensaio publicado pelo jornal peruano El Comercio.

Persona non grata

José Horta Manzano

Persona non grata 1O ofensor esquece e logo vira a página. O ofendido leva mais tempo. Pelas bandas do Planalto, o coice que nossa presidente assestou no embaixador da Indonésia já caiu na vala do esquecimento. Não é o que acontece em Djacarta.

Quatro dias depois da deplorável proeza de nossa esperta diplomacia, o governo indonésio ainda está longe de digerir o insulto. A edição do Jakarta Post deste 24 fev° traz artigo intitulado Brazil plays down RI’s threats – Brasil zomba das ameaças da Indonésia. O jornal lembra que o governo indonésio prometeu represálias que perigam custar caro ao Brasil.

O texto mostra indignação com o menosprezo explícito de dona Dilma por aquele país. Nossa presidente, para quem as estatísticas do momento contam mais que perspectivas futuras, declarou que as relações comerciais entre o Brasil e a Indonésia não representam mais que um porcento de nosso comércio exterior.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Mais uma vez, a senhora Rousseff escancara sua curta visão. Já próxima das setenta primaveras, a presidente ainda não conseguiu entender que o mundo não é congelado, que as coisas costumam mudar. O que hoje é pequeno pode-se tornar importante amanhã. E vice-versa, naturalmente.

O ultraje infligido àquele país foi pesado demais. Pior: foi proposital, de caso pensado, calculado para impactar. Mostrou a arrogância dos perigosos personagens que, aboletados no Planalto, maltratam nossa política exterior como criança birrenta pisoteia brinquedo que não lhe agrada mais.

O voluntarismo presidencial – na certa incentivado por seus toscos conselheiros de marketing – já começa a dar frutos. O Jakarta Post relata que o governo indonésio está reavaliando a planejada compra de 16 aviões modelo Super Tucano, da Embraer. O preço básico de cada aparelho é de 11 milhões de dólares. Sem opcionais.

Uma das páginas do portal de nosso Ministério das Relações Exteriores traz uma citação que vai assim:

Frontispício de um dos portais do Itamaraty

Frontispício de um dos portais do Itamaraty

«O Brasil é um dos 11 países do mundo que se relacionam com todos os Estados-membros das Nações Unidas. Dialogamos com todos porque respeitamos as diferenças.»

O importante não é a quantidade de países com os quais o Brasil se relaciona. A qualidade do diálogo pesa mais. A afronta que dona Dilma impôs ao povo indonésio desmente a bonita frase do Itamaraty.

Longe de ser partidária da dialética, nossa presidente é, no duro, fã do monólogo. Raivoso e insolente.

Diplomacia do coice

José Horta Manzano

Dilma 1Como eu, meus distintos leitores certamente ficaram sabendo do coice que nossa egrégia presidente assestou gratuitamente no embaixador da Indonésia – e, por procuração, nos 250 milhões de habitantes daquele país.

Como eu, meus distintos leitores se consternaram com a baixeza com que foi tratado o embaixador que, tendo vindo a palácio a convite, viu-se humilhado e feito de bobo na frente de diplomatas e autoridades. Imagine a situação: convidado formalmente a uma festa, você vai. Na porta, sua entrada é proibida e você é chamado de penetra. Foi o que aconteceu.

Palácio do Itamaraty e seu espelho d'água

Palácio do Itamaraty e seu espelho d’água

Como eu, meus distintos leitores ficaram apreensivos com a repercussão que essa grosseria está tendo nos itamaratis do mundo. A estas alturas, todos os governos do planeta já estão a par da estupidez de tratamento à qual diplomatas forasteiros estão expostos no Brasil.

Como eu, meus distintos leitores entenderam que, se alguma chance ainda subsistia de salvar o traficante brasileiro prisioneiro na Indonésia, ela escoou pelo ralo. Aquele país não pode agora graciar o condenado nem atenuar sua pena. Se o fizer, mostrará que se dobrou à chantagem de Brasília, atitude inconcebível. O comportamento de nossa preclara presidente foi o passo definitivo para a execução do apenado.

Como eu, meus distintos leitores atribuíram o gesto arrogante à conjugação de dois fatores venenosos: o mau humor crônico da mandatária e o aconselhamento gangrenado que tem recebido de seus ‘assessores’, notadamente um certo senhor Garcia – aquele do ‘top-top’.

Dilma e Garcia 3Pois fiquem meus distintos leitores sabendo que… por baixo do angu tem carne. A informação vem do Diário do Poder, do superantenado jornalista Cláudio Humberto. A carne por debaixo do angu é mais podre do que se pode imaginar. Sabe aquele tipo de gente capaz de pisar o pescoço da mãe para alcançar seu objetivo? Pois é, nossa altas autoridades são membros desse clube.

Dilma 3

Pelo relato do jornalista, o coice aplicado no diplomata indonésio nada mais seria que uma ideia de marqueteiro destinada a levantar ‘cortina de fumaça’. A intenção era fornecer matéria para reportagens revoltadas e editoriais indignados que assim, distraídos, desviariam por um momento a atenção da incômoda operação Lava a Jato. Funcionou perfeitamente.

Não estou aqui pra substituir-me ao tribunal indonésio. Se o conterrâneo condenado na Indonésia é culpado ou não, se foi julgado com isenção ou não, se a pena de morte é adequada ou não – meu intuito não é discutir isso. O que nos fica é a certeza de que, nesse episódio, o traficante condenado fez papel de inocente útil, de boi de piranha. Foi sacrificado para aliviar a barra do Planalto.

Descansai tranquilos, brasileiros! Vosso País está em boas mãos!

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Quem perdeu algum capítulo da história e gostaria de pôr-se a par do assunto pode clicar aqui.

Os boias-frias suíços

José Horta Manzano

Você sabia?

Para ter consistência, toda agremiação precisa contar com membros que tenham um mínimo de pontos em comum. Quanto maior for a disparidade entre os componentes, maior será a dificuldade em manter a coesão e a coerência do grupo.

Um dos grandes erros cometidos pela União Europeia foi ter acolhido países cujo nível socioeconômico destoa da média dos demais sócios. A UE tem quase sessenta anos. Conta com 28 membros, dos quais 13 foram admitidos nos últimos dez anos. Foi uma precipitação prejudicial a todos.

PIB europeu per capita Fonte: Eurostat 2014

PIB europeu per capita
Fonte: Eurostat 2014

Melhor teria sido primeiro ajudar países mais pobres a se desenvolver para, em seguida, permitir-lhes matricular-se no clube. O caso mais emblemático foi a admissão da Romênia, em 2007.

O PIB daquele país equivale à metade da média europeia. A disparidade social e econômica é abissal. Como integrantes do clube, podem circular livremente. O resultado é que grande quantidade de romenos se espalham pelo resto da União em busca de trabalho. Esse excesso de oferta de mão de obra alegra patrões mas põe salários em risco e desagrada funcionários tradicionais.

A Suíça, que assinou tratado de livre circulação com a União Europeia, também sente o baque. Romenos podem entrar no país sem visto. O último escândalo de exploração de trabalhadores estourou estes dias por aqui.

Computador 5A empresa Stefanini – multinacional brasileira do ramo de tecnologia – presta serviço à Firmenich, gigante mundial em desenvolvimento de perfumes, aromas e sabores artificiais. A probabilidade é grande de o sabor ‘morango’ do seu iogurte ou o perfume ‘lavanda’ do seu desodorante terem sido desenvolvidos pela firma suíça.

Para cumprir contrato firmado com a Firmenich, a multinacional brasileira dá emprego, em Genebra (Suíça), a técnicos em computação. Foi buscar seus funcionários na… Romênia. Paga a eles 800 francos por mês, salário que não permite a ninguém sobreviver neste país. Para evitar que morram de frio ou fome, a bondosa Stefanini providencia a seus semiescravos alimentação e transporte. Oferece-lhes alojamento coletivo. São tratados como os boias-frias brasileiros.

Não há salário mínimo nacional na Suíça. Os acordos são setoriais. Os bares, restaurantes e hotéis têm seu acordo. Os comerciários têm o seu, e assim por diante. Como nenhum acordo existe no ramo da informática, a generosa multinacional brasileira está dentro da legalidade.

Como estamos todos cansados de saber, nem tudo o que é legal é ético.

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O jornal da Televisão Suíça dedicou matéria de dois minutos ao assunto. Que clique aqui quem quiser assistir.

Placa de automóvel

José Horta Manzano

Placa francesa

Placa francesa

A União Europeia foi criada com um objetivo maior: evitar a guerra. Martirizada por dois conflitos de proporções bíblicas, os europeus se uniram para assegurar que loucuras daquele tipo nunca mais se repetiriam.

Placa italiana

Placa italiana

O intento foi alcançado. Se conflitos houve, foram regionais e não contaminaram o continente. Mas a união trouxe efeitos colaterais benéficos e consideráveis. Um deles, do qual os europeus nem sempre se dão conta, é a padronização de inúmeros aspectos das atividades humanas. São regras comuns que facilitam a vida.

Placa espanhola

Placa espanhola

A uniformização é abrangente. Vai de voltagem da corrente elétrica até formato de folhas de papel. Milhares de diretrizes têm sido editadas. Algumas delas são obrigatórias para todos os países, outras não. Entre as facultativas, está a uniformização das placas de identificação de veículos a motor.

Placa britânica

Placa britânica

Muitos países europeus adotaram grandes linhas normalizadas: letras pretas sobre fundo branco. No entanto, cada país tem liberdade de determinar a combinação de números e letras.

Placa portuguesa

Placa portuguesa

O

O resultado, às vezes, é curioso. França e Itália decidiram-se pelo mesmo padrão: duas letras, seguidas por três números e por duas outras letras. O acaso faz que um automóvel matriculado na Itália possa ostentar placa idêntica a um outro, matriculado na França. Já houve gente levando multa cometida por outro automobilista.

Nova placa brasileira

Nova placa brasileira

Nosso Mercosul tem-se mostrado inábil para resolver conflitos comerciais –frustrando o objetivo para o qual foi criado. No que se refere à identificação de automóveis, faz mais de quatro anos que se determinou a padronização das placas. A ideia é que todas elas sigam a mesma combinação. Cada país terá um lote de letras e números reservados, a fim de evitar o risco de placas repetidas.

Nova placa argentina

Nova placa argentina

Acho uma excelente ideia. Com todos os problemas que temos, não acredito que venha a ser posta em prática tão já. Está previsto para 2016, vamos ver. Se (e quando) entrar em vigor, teremos dado um passo à frente dos europeus. Nesse aspecto, pelo menos, seremos pioneiros.

Fonte: O Globo

Estratégia arriscada

José Horta Manzano

Pizzolato, o integrante da gangue do mensalão que fugiu para a Itália, continua na ordem do dia. Não tanto pelo que diz, mas pelo que dizem sobre ele.

Assalto 4O ex-diretor do Banco do Brasil é um moderno Ronald Biggs sem a sorte do renomado predecessor. Para quem se esqueceu, o inglês Biggs participou do «Great Train Robbery of 1963», assalto a um trem repleto de dinheiro. Foi preso, escapou da cadeia, deu volta ao mundo e acabou pousando sua trouxa no Brasil. Fez filho, casou-se, viveu no Rio de Janeiro 40 anos sem ser incomodado. O dinheiro, fruto do assalto, nunca foi encontrado.

Pois o antigo sindicalista Pizzolato – aquele que chegou, sabe-se lá como, à alta cúpula do Banco do Brasil – não foi tão sortudo. Fez o papelão de fugir e abandonar às feras os cúmplices, ato pra lá de malvisto no submundo do crime. Os traídos não se esquecerão.

Apanhado, o fugitivo cumpriu quase um ano de prisão fechada na Itália. Se se tivesse entregado à PF brasileira, não teria permanecido preso por mais tempo que isso. Já estaria, hoje, solto e senhor de seus passos.

A desastrada fuga espichou seu tormento. O homem está agora diante de um dilema. Se for extraditado, irá direto para a Papuda, onde periga apodrecer por bom tempo. Assim como virou as costas aos comparsas, por eles há de ser abandonado. Se, no entanto, Roma resolver guardá-lo, não será muito melhor: como Cacciola, ficará inscrito na lista da Interpol. Não poderá pôr os pés fora da Itália, sob risco de ser apanhado e despachado para Brasília. Tão cedo não usufruirá as delícias do clima da Costa del Sol, pros lados de Málaga (Espanha), onde adquiriu três apartamentos em condomínio de alto luxo.

Assalto 3Leio hoje na Folha que a estratégia dos advogados que defendem os interesses do Estado brasileiro será de acusar signor Pizzolato de ser «italiano por conveniência». Dirão que o extraditando «só se lembrou da cidadania italiana na hora da necessidade». É estratégia arriscada que mostra pouca familiaridade com a visão europeia do tema da nacionalidade.

Italia PisaOlhos italianos enxergam a situação por outro prisma. Veem signor Pizzolato como um italiano que recebeu de graça a nacionalidade brasileira pelo simples fato de ter nascido em solo tupiniquim. O Brasil é, de fato, um dos raros países que concedem automaticamente a cidadania aos que vêm à luz em seu território. No conceito peninsular, signor Pizzolato nasceu italiano, continua italiano e italiano sempre será. Punto e basta.

Não sei quem terá sugerido a estratégia, mas ela é mais que ousada – é temerária. Periga ferir sensibilidades. A meu ver, diminui as chances de o Estado brasileiro conseguir obter a extradição do condenado.

Pensando bem… talvez seja exatamente esse o objetivo, cáspite! Um Pizzolato longe do Brasil não poderá ser preso, nem interrogado, nem convocado. Jamais poderá – sai, demônio! – fazer delação premiada. Repatriado, periga lançar lenha à fogueira. Melhor que por lá fique, não é companheiros?

La legge è uguale per tutti

José Horta Manzano

As aventuras de Signor Pizzolato renderiam um bom romance de suspense com toques de surrealismo. Quem sabe até, um dia, as peripécias serão levadas à tela.

Tribunal 5Que é esse senhor? Ora, falo daquele mensaleiro que, usurpando a identidade de um parente já falecido, fugiu para a Itália para escapar à punição. Imaginando-se mais esperto que o resto da gangue, virou as costas para os demais, desertou na calada e se foi para o que imaginava fosse porto seguro.

Deu-se mal. Caçado, foi encontrado e encarcerado. Trancaram-no em regime fechado mais tempo que os comparsas instalados na Papuda. Durante esse tempo, comeu menos feijão, mas macarrão não lhe há de ter faltado.

Num primeiro momento, a justiça italiana negou a extradição solicitada pelo Brasil, em decisão que desagradou a promotoria e o governo brasileiro. Entraram ambos com recurso, que acaba de ser julgado. A corte suprema de Roma, em decisão definitiva, cassou a decisão das instâncias inferiores. Estatuiu que o réu é passível de extradição.

Tribunal 6Exatamente como no Brasil, o decreto de reexpedição do condenado tem de ser assinado pelo chefe do governo – que pode, em teoria, graciar o extraditando. Pessoalmente, acredito que signor Matteo Renzi, o primeiro-ministro, não se oporá à decisão do tribunal maior.

A parte surrealista vem embutida no relato do embate entre a promotoria e os defensores do réu. Pizzolato alegou que escapara do Brasil para «salvar a vida». Sabemos todos que seus parceiros não só foram bem tratados na prisão, como também transformaram o cárcere em sala de visitas e em balcão de negócios.

Justiça 5Para reforçar o irrealismo, numa confissão espontânea da injustiça social que impera no País, as autoridades brasileiras garantiram que o condenado «receberá tratamento melhor que os demais presos».

Tem mais. Diante dos juízes da corte de Roma, os advogados contratados pelo Brasil afirmaram que, como os companheiros condenados no mensalão, Pizzolato «fará parte de uma categoria de presos aos quais está assegurado o total respeito da lei e de seu conforto».

A conclusão se impõe: no Brasil, nem todos os presos têm direito ao respeito nem acesso a condições de conforto. A estratificação socioeconômica não se extingue à porta da penitenciária.

Interligne 18bPS1:
Todo tribunal italiano assegura, em letras garrafais afixadas à vista de todos, que «La legge è uguale per tutti» – a lei é igual para todos.

PS2:
Recomendo aos distintos leitores dar uma espiada em meu artigo Vamos jogar golfe? É boca livre. Foi postado um ano atrás e trata das peripécias de signor Pizzolato.

A orelha e a pulga

José Horta Manzano

Petroleo 1Muita gente é afiliada ao CTC – Clube dos Teóricos do Complô. São pessoas que enxergam intenções ocultas em tudo o que acontece. Têm certeza, por exemplo, de que o homem jamais pousou na Lua. As imagens que estamos cansados de ver não passariam de cenas filmadas em estúdio.

Muitos há que entreveem, nos ataques que derrubaram prédios em Nova York, o dedo de autoridades americanas. Estaria o governo daquele país fabricando pretexto para invadir o Iraque.

Há ainda os que juram que Getúlio, João Goulart, Castello Branco e Juscelino não morreram de morte morrida, mas de assassinato.

Embora acredite que a verdade integral sobre os fatos raramente seja divulgada, não faço parte dos adeptos sistemáticos da teórica do complô. Assim mesmo, vez por outra, aparece alguma notícia que nos põe, digamos assim, a pulga atrás da orelha.

La Paz, Bolívia

La Paz, Bolívia

Na edição do domingo 1° fev° 2015, o caderno de Economia do importante diário boliviano La Razón traz matéria sobre a Petrobrás. Nem de longe menciona o «chega pra lá» que o folclórico Lula, então presidente de nossa República, levou em 2006, quando seu colega Evo Morales decidiu encampar as instalações bolivianas de nossa petroleira.

Petrobras 3O artigo dá notícia de que, no ano de 2014, a Petrobrás investiu um milhão de dólares em projetos de desenvolvimento social dirigido a bolivianos desfavorecidos. (Só para constar, observe-se que a operação Lava a Jato foi deflagrada já em março 2014.)

Foram quinze os projetos desenvolvidos em solo boliviano pela petroleira brasileira no ano passado. Beneficiaram diretamente 2850 famílias, sem contar outras 7000 que recolheram proveito indireto.

Não tendo a ser nacionalista exacerbado, muito menos em matéria de esmola. A miséria é global. Nenhum necessitado é mais merecedor que outro – estão todos no mesmo barco.

Assim mesmo, convenhamos, algo está mal contado nessa história. O destino final dos bilhões surrupiados da Petrobrás ainda está por ser revelado, se é que o será um dia. Do desvio de dezenas de bilhões, aparecem três milhõezinhos aqui, mais dois ali… e o resto? Usado para financiar campanha? Quá! É o povo quem financia a propaganda eleitoral.

Bolivia 2Não resisto à tentação de revelar o que a pulga, atrás da minha orelha, está sussurrando. Ela me diz que esse mísero milhãozinho aplicado em caridade na Bolívia é a parte miudinha de um manancial muito mais extenso. Não é senão a pontinha do iceberg. O grosso da ajuda talvez jamais venha a ser revelado.

A pulguinha me diz que um naco do dinheiro surrupiado ao povo brasileiro pode ter ido financiar interesses eleitorais além-fronteira. Para corroborar essa ideia, tivemos recentemente a renovação do mandato do presidente do país vizinho, reeleito pela enésima vez.

Pulgas nem sempre têm razão, mas insistem em cochichar atrás da orelha.

Interligne 18cSe alguém quiser ler o artigo do jornal boliviano, clique aqui.

Sangria de gente e de dinheiro

José Horta Manzano

Interligne vertical 12«Pregúntele a los brasileños acaudalados por qué se están mudando al sur de Florida y mencionarán las altas tasas de criminalidad y la moribunda economía de su país.

Sin embargo, hay otra explicación que Alyce M. Robertson, directora de la Autoridad de Desarrollo del Centro de Miami, escuchó con frecuencia en sus recientes viajes de negocios a Brasil: “Dilma”.»

Meus distintos e cultos leitores hão de ter entendido a citação acima, extraída do jornal hondurenho La Prensa, 8 fev° 2015. De fato, o artigo informa que brasileiros endinheirados buscam o sul da Florida para escapar da violência e da «economia moribunda» do Brasil. Outro motivo citado com frequência para a fuga é simplesmente: “Dilma”. Sem comentários.

Imigração 5Ninguém quer ser o último a sair do País, aquele que vai apagar a luz do aeroporto. Embora o êxodo se esteja acentuando estes últimos anos, não é de hoje que brasileiros abastados procuram escapulir do ambiente agressivo do país de origem. Uns poucos optam pela Europa, mas a grande maioria gosta mesmo é dos EUA.

Já repararam que todo latino-americano tem uma quedinha especial pelo grande irmão do Norte? Isso vale até para os que nutrem forte antipatia por aquele país. Ou alguém já viu algum arauto do antiamericanismo transferir-se, de mala e cuia, para Cuba ou para a Venezuela?

Miami 1O jornal hondurenho ressalta que Miami se tornou a maior cidade brasileira fora do Brasil. Estimativas indicam que 300 mil compatriotas vivem nos arredores daquela metrópole. As estatísticas mostram também que 51% dos turistas que visitam a região são brasileiros.

Em 2010, os brasileiros investiram menos de um bilhão de dólares em compra de imóveis no exterior. Três anos depois, a cifra subiu para perto de três bilhões e meio. De dólares.

Os pioneiros, aqueles que se transferiram ao sul da Florida décadas atrás, constituíram o pedestal sobre o qual se assenta a corrente migratória atual. Os primeiros que lá chegaram abriram as primeiras lojas dedicadas a brasileiros, supermercados, bares, restaurantes, açougues, cabeleireiros, agências imobiliárias. Todos os serviços, enfim, aos quais estamos acostumados.

Compra de propriedades no exterior por brasileiros 2007 a 2013, em bilhões de dólares

Compra de propriedades no exterior por brasileiros
2007 a 2013, em bilhões de dólares

Ao encontrar infraestrutura montada, os novos imigrantes se sentem em casa. E vão ficando. E contribuem para reforçar o pedestal onde se virão apoiar novos imigrantes. Está formado o círculo virtuoso.

Imigração 3Ninguém abandona a terra natal de coração leve. Se centenas de milhares de conterrâneos se foram – e justamente os mais endinheirados – é porque a coisa tá realmente preta. É uma pena. É de mau agouro para o Brasil de amanhã.

Os mais abastados são os que mandarão os filhos às melhores escolas. Estatisticamente, essa segunda geração será mais bem formada do que a média de nossa juventude nacional. Sendo jovens criados e escolarizados nos EUA, é pouco provável que retornem à terra dos pais. Prejuízo para quem ficou pra trás.

Enfim, que fazer? Esse é mais um efeito colateral do inacreditável descalabro que transpira por todos os poros da administração pública brasileira.

Expurgo seletivo

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 fev° 2015

Placa 6A Batalha de Verdun, travada entre tropas francesas e alemãs, estendeu-se por dez meses. Enfrentamento mais sangrento e desastroso da Primeira Guerra, durou todo o ano de 1916 e deixou 700 mil vítimas. Ainda assim, alçou o nome do General Philippe Pétain ao panteão da história francesa. O líder tornou-se ícone. Nos anos que se seguiram, pencas de homenagens lhe foram prestadas. Por toda a França, edifícios e logradouros foram rebatizados com seu nome.

Um quarto de século mais tarde, quando estourou nova guerra, a França, de uma só voz, chamou de novo o herói para salvar a nação. Deu tudo errado. Pétain, já octogenário, determinou rendição incondicional e consentiu que o inimigo ocupasse o país.

Placa 5Finda a guerra e expulsos os invasores, o velho general teve de prestar conta de seus atos. Foi julgado e condenado por traição. Ato contínuo, ruas e praças que tinham recebido seu nome foram desbatizadas. A história oficial preferiu apagar o herói e guardar o traidor. Não mais que três ou quatro povoados têm hoje alguma ruela com o nome do militar.

E nós com isso? Pois temos, nós também, figura similar: Getúlio Vargas. Num primeiro momento, tomou o país de golpe e fez carreira de ditador impiedoso e longevo. Mais tarde, foi presidente eleito democraticamente e incensado por meio Brasil.

É justamente a cronologia dos fatos que diferencia Vargas de Pétain. O general francês primeiro foi herói, em seguida traidor. Já nosso Vargas nacional usurpou primeiro, para terminar como presidente bem-amado. Em casos assim, a ordem dos fatores altera o produto. O Getúlio democrático redimiu o ditador ilegítimo. Sua memória é perpetuada em ruas, praças, avenidas, edifícios, escolas.

Placa 4Entre as recomendações preconizadas pelo relatório final da Comissão Nacional da Verdade, está o banimento de tudo que faça alusão à memória de personagens ligados ao regime instaurado em 1964. Considerando – com acerto – que o golpe militar tomou de assalto e desmantelou a ordem então vigente, a comissão aconselha que se altere a «denominação de logradouros, vias de transporte, edifícios e instituições públicas de qualquer natureza» que lembrem todo indivíduo acumpliciado ou comprometido com a ruptura.

Se posta em prática, a obra será monumental. De fato, entre generais presidentes, governadores nomeados, senadores biônicos, empresários coniventes e que tais, há muita placa de rua a ser trocada. Mas sejamos complacentes. Admitamos a justeza da recomendação. Vamos abraçar a ideia de que não cai bem homenagear indivíduos que tenham participado de infração à legalidade de seu tempo.

Placa 3Façamos um rapidíssimo sobrevoo da história do Brasil. Para não complicar, passemos por cima do fato de o Estado português ter-se apoderado de um território que não lhe pertencia. Como hipótese de trabalho, consideremos que, a partir de 1500, Lisboa era proprietária destas terras.

Um belo dia, trezentos anos depois da descoberta, um grupo de súditos descontentes urdiu golpe contra a coroa. Pretendiam subverter a ordem legítima e mandar o dono da terra às favas. Fracassada, a tentativa deixou uma vítima: o Tiradentes.

Trinta anos depois, num obscuro cenário de briga em família, um fogoso jovem de 23 anos renegou pai e mãe e atropelou o ordenamento em vigor havia já três séculos. Seria o futuro Dom Pedro I. Apoderou-se do imenso território e, julgando-se imortal, autonomeou-se defensor perpétuo do Brasil. Quanta imodéstia!

Placa 2Quase sete décadas mais tarde, numa manhã nevoenta, um general cometeu a afronta de anunciar ao imperador que o regime estava derrubado. Agindo como porta-voz de fardados amotinados, injungiu o monarca a abandonar trono e pátria. Deodoro da Fonseca era o nome do homem.

Houve outras tentativas de derrubada do regime e de reviravolta da ordem vigente – todas malsucedidas.

Se é justo que se purifiquem ruas e praças expurgando o nome daqueles que embarcaram no golpe de 64 ou dele se beneficiaram, justo também será aplicar o princípio a todos os que atentaram contra a ordem vigente. Seja em que tempo for.

Placa 1Que nossas ruas e praças sejam, pois, depuradas do nome de Tiradentes, de Dom Pedro I, do Marechal Deodoro da Fonseca. Que seja desnomeado todo logradouro que lembre gente ligada ao golpe de 1822 ou ao de 1889. Pau que dá em Chico também dá em Francisco – é questão de coerência.

Em seguida, como solução para erradicar o problema, que se proíba dar nome de gente a logradouros. Que se organize concurso nacional para escolher nomes novos. Há trabalho pela frente.

Corrupção à chinesa

José Horta Manzano

Tudo na China é superlativo. Um território mais extenso que o nosso, uma população pra lá de numerosa, o ar mais poluído do planeta, o maior número de usuários de internet, regiões de clima tropical contrastando com outras de temperatura siberiana.

Chinês 2Por lá também, a corrupção é praga nacional. Como a nossa, talvez até mais alastrada. A diferença fica por conta do tratamento que se dá aos corruptos – quando apanhados.

A agência de notícias oficial acaba de anunciar a condenação de um antigo dirigente do Banco Agrícola da China. O senhor Yang Kun, que exerceu a vice-presidência durante sete anos, foi acusado de ter recebido propina de empresas, por um total de 5 milhões de dólares.

Justiça

Justiça

Um tribunal de Nanquim sentenciou o executivo à prisão perpétua. Na China, prisão perpétua significa passar o resto da vida atrás das grades. Sem embargos infringentes e sem pizza.

A condenação ocorreu no âmbito da campanha anticorrupção lançada, já faz dois anos, pelo presidente Xi Jinping. Assim que assumiu o cargo, o senhor Xi garantiu que «varreria» o setor financeiro a fim de expurgá-lo dos elementos podres.

Um dos diretores do Banco de Pequim assim como o presidente do Banco Minsheng – maior estabelecimento de crédito do país – estão sendo interrogados, suspeitos de corrupção. Caso o tribunal os julgue culpados, devem seguir o mesmo destino do dirigente do Banco Agrícola: xilindró até o dia de São Nunca. Com direito a uma tigela de arroz diária naturalmente.

Chinês 2Se nosso legislador quisesse, realmente, acabar com a corrupção nas altas esferas brasileiras, bastaria adotar a solução chinesa. Acabava rapidinho. O aperto é que aqueles que fazem as leis são justamente os maiores infratores.

Ainda não chegou o dia em que veremos nossos corruptos e nossos corruptores passar o resto da vida no xadrez.

Voto eletrônico

José Horta Manzano

Não é a primeira vez que escrevo sobre este assunto. Nem há de ser a última. Mecânica e eletricidade são noções antigas, princípios que a gente já teve tempo de assimilar. Quando nascemos, já fazia tempo que existiam.

ComputadorJá no que se refere à eletrônica… nós, os mais antigos, ficamos com um pé atrás. Eletrônica é novidade. Claro está que ela tem seu lado bom – também não precisa ser chucro nem turrão. No entanto, ela guarda um lado meio arisco, sombrio, misterioso, insondável, impenetrável.

De repente, o computador que funcionava perfeitamente trava. É como burro quando empaca: não há meio de fazê-lo sair do lugar. A única saída é desligar, esperar um pouco, religar e torcer pra que dê certo. E não adianta perguntar ao especialista. Tampouco ele sabe o que aconteceu.

Urna 5O mesmo drama se repete quando o mouse «encanta»; quando o teclado não responde mais; quando vírus escandaloso destrói a memória; quando vírus malicioso nos conduz a destinos que não estavam no programa.

Já disse e repito: desconfio da urna eletrônica. Pode ser modernosa, mas esconde perigos grandes. Se Mister Obama, de seu trono na Casa Branca, consegue ouvir as conversas de dona Dilma, em seu trono no Planalto, não me espantaria que algum enxerido mal-intencionado alterasse – à distância – o resultado de um voto. Nada nos garante que isso não esteja sendo feito.

Antes de entabular hipotética e complicada «reforma política», mais fácil seria começar pelo começo: instituir o voto seguro. A Europa inteira vota com o sistema tradicional: cabine com cortininha, cédula de papel, urna transparente, apuração pública e controlada por representantes de todos os partidos. Por que, diabos, nós temos de fazer diferente?

Urna 8Não sei se o distinto leitor reparou na votação que elegeu o presidente do Senado Federal. É sintomático. Nada de maquininha de votar, de botão, de alavanca, de painel. Cédulas de papel foram depositadas na velha e boa urna de nossos avós. Ad majorem securitatem – para maior garantia.

Se eles, que são do ramo, desprezam o voto eletrônico, por que devemos nós, do andar de baixo, engolir sem reclamar?

Os frontaleiros

José Horta Manzano

Você sabia?

Frontaleiro é neologismo que acabo de inventar. Serve para designar pessoas que trabalham num país e residem noutro. Não é sinônimo perfeito de nossa palavra fronteiriço.

Em princípio, os frontaleiros cruzam a fronteira diariamente, ida e volta. Dependendo da distância entre o domicílio e o trabalho, há até quem faça o trajeto quatro vezes por dia. São os que têm tempo de almoçar em casa.

Presença de trabalhadores "frontaleiros" em diversas regiões da Suíça

Presença de trabalhadores “frontaleiros” em diversas regiões da Suíça

Embora frontaleiros existam em outros pontos do mundo, são fenômeno corriqueiro em certas regiões da Europa: na Suíça, por exemplo. A população economicamente ativa do país é de cerca de cinco milhões de indivíduos dos quais 300 mil são frontaleiros, contingente que atravessa a fronteira duas vezes por dia.

Duas razões principais fazem que a Suíça exerça forte atração sobre as regiões imediatamente vizinhas: os salários helvéticos são mais elevados e a oferta de empregos da vizinhança é baixa.

Durante os últimos anos, o Banco Nacional Suíço se empenhou em manter o valor do franco suíço artificialmente baixo a fim de socorrer exportadores e favorecer a vinda de turistas. Conseguiu seu intento à custa de comprar bilhões de euros. Mas tudo tem seu limite e a hora chegou de tomar outro rumo.

Vendo que não fazia mais sentido insistir nessa política de conter artificialmente a alta do franco, o banco central deixou de comprar euros e abandonou a moeda nacional duas semanas atrás. Permitiu, assim, que a flutuação siga as leis do mercado. A consequência foi imediata: o franco suíço valorizou-se 20% com relação ao euro e a todas as outras moedas. Subiu às alturas e lá ficou.

Paridade entre euro e franco suíço

Paridade entre euro e franco suíço

Nossos 300 mil frontaleiros, que recebem em franco e gastam em euro, abriram sorriso de orelha a orelha: da noite para o dia, tinham recebido 20% de aumento, presente do céu! O salário subiu enquanto as despesas domésticas continuam as mesmas. Maravilha!

Mas tem um porém. Algumas empresas suíças, especialmente as de setores voltados à exportação, passaram a enfrentar grande dificuldade em vender seus produtos que, em 24 horas, se tornaram vinte porcento mais caros.

Os funcionários frontaleiros, conscientes da ameaça que isso representa para seu próprio emprego, estão propondo a seus empregadores – espontaneamente! – uma diminuição de salário. Não fazem isso por compaixão, mas para salvaguardar o emprego.

Não há felicidade perfeita. Às vezes, há que saber entregar os anéis para salvar os dedos.

Do Enem ao Nobel

Gerson de Almeida (*)

Estudante 8«A Argentina tem cinco prêmios Nobel, nenhum em literatura. Poderia ter seis: Borges foi severamente injustiçado. E citei os argentinos mais pela birra dos brasileiros: “somos pentacampeões!”. Ao olhar a galeria de notáveis argentinos devemos ficar quietinhos.

Em literatura, a Colômbia tem um. O Chile tem dois – um stalinista, mas valeu. O México tem um. O Peru tem um. Até a Guatemala, do tamanho do seu quintal, leitor, tem um Nobel! Nóis num guenta!

(…) Quando o Brasil terá um Nobel? Pelo resultado do último Enem… nunca! Nunquinha mesmo»

Interligne 18c

(*) Citação extraída de artigo de Gerson de Almeida, colaborador do blogue literário Verso & Prosa.

Censura à francesa

José Horta Manzano

Com um número de desempregados girando em torno de 10% da população em idade de trabalhar, a França luta contra a estagnação. Já houve momentos piores, mas o crônico problema é causa de permanente angústia.

by Kianoush, desenhista iraniano

by Kianoush, desenhista iraniano

No Brasil, até 1994, o assunto principal era a inflação. Hoje, a corrupção dos políticos subiu à ribalta e suplanta qualquer outro tema. Nossa inflação, pelo menos por enquanto, passou para segundo plano.

Na França, faz trinta anos que o desemprego serve de pano de fundo a toda discussão política. Vez por outra, algum acontecimento extraordinário oculta, por um momento, a preocupação tradicional. Mas a eclipse é de curta duração. A realidade volta logo a dominar.

Censura 2Monsieur Hollande, presidente de todos os franceses, chegou a declarar publicamente, ano passado, que sua candidatura à reeleição estava ligada à «inversão da curva do desemprego». Em miúdos: caso o número dos que buscam trabalho não diminua daqui até 2017, ele não concorrerá a novo mandato, jogará a toalha, entregará o trono ao sucessor e voltará pra casa, rabo entre as pernas. Se manterá ou não a palavra dada, só o tempo dirá. De todo modo, a promessa presidencial dá a dimensão do problema da escassez de emprego na França.

No fim de 2014, o governo francês anunciou projeto de lei-ônibus para lutar pela recuperação econômica. São inúmeros artigos que tratam de assuntos variados: liberalização do horário de funcionamento de estabelecimentos comerciais, flexibilidade de autorização a particulares para se dedicar ao transporte público, afrouxamento no registro de certas profissões regulamentadas, simplificação de funcionamento de cadernetas de poupança, abrandamento de normas de dispensa de funcionários.

Censura 3Entre as modificações previstas, está uma que causou rebuliço. Trata da abolição do sacrossanto direito que a mídia tem de guardar segredo quanto a suas fontes de informação. O projeto pretendia afrouxar as normas vigentes. A mídia francesa enxergou aí uma tentativa de cerceamento do direito de informar. Levantou-se clamor nacional.

Censura 4O governo cedeu. Retirou do projeto o artigo que mexia no segredo profissional dos jornalistas. A lei que será proposta ao parlamento não comportará nenhuma menção à liberdade de imprensa. Fica afastado o espectro da censura disfarçada.

Enquanto isso, no Brasil, o governo continua insistindo em seu famigerado plano eufemisticamente chamado de «controle social da mídia». Espero – e acredito – que nosso Congresso não ousará votar nenhum dispositivo nesse sentido. Se bem que, com parlamentares que temos, acostumados a sacrificar o bom senso em prol de benefícios pessoais, nada é garantido. É bom desconfiar e convém manter a vigilância. O futuro dirá.

A Copa e as Olimpíadas

José Horta Manzano

Não se deve ter os olhos maiores que o estômago. Não convém botar no prato quantidade maior do que se vai comer. Quem assim fizer, periga dar vexame e decepcionar comensais.

JO 2020 3O Campeonato Mundial de Futebol (hoje chamado Copa do Mundo) e os Jogos Olímpicos de Verão (também ditos Olimpíadas) são os encontros esportivos mais importantes do mundo. Concorridos, frequentados, badalados e comentados, são preparados com esmero por atletas e pelo país-sede.

Ambos os eventos se realizam a cada quatro anos. Não por acaso se alternam, com dois anos de intervalo, como se um não quisesse pisar o pé do outro. O Brasil conseguiu que lhe fosse atribuída a organização dos dois megaeventos, assim seguidinho, um em 2014 e o outro em 2016.

Há quem acredite que foi por coincidência. Não é meu caso. Embora não seja de conhecimento público, tudo fica registrado nalgum lugar. Tenho certeza de que, um dia, as «gestões» responsáveis pela atribuição dos dois certames ao Brasil serão reveladas à luz do sol.

O governo brasileiro apostava todas as fichas na Copa 2014. Acostumados a navegar em mar de fantasia, tinham certeza de que – com a colaboração ativa do Todo-poderoso – o Brasil levaria a taça. Deu no que deu: panes de som nos estádios, obras inacabadas, metrôs e trens-bala inexistentes, vaias à presidente, retumbante fiasco esportivo. A olhos estrangeiros, a imagem de nosso País perdeu um bocado de seu brilho.

Crédito: Shizuo Kambayashi

Crédito: Shizuo Kambayashi

Tudo isso entornou água fria na expectativa que os Jogos Olímpicos despertavam. A pouco mais de um ano do evento que reunirá a nata do esporte mundial, pouco se fala neles. Nossa presidente já deve estar considerando se vale a pena participar da abertura oficial e correr o risco de levar mais uma vaia planetária.

Mas que fazer? Combinado está. O Brasil e, em especial, o Rio de Janeiro têm de se aplicar. Falta muito pouco tempo e ainda há muito que fazer. Falando em falta de tempo, o Japão, que hospedará em 2020 a edição seguinte das Olimpíadas, já arregaçou as mangas.

JO 2020 4Como também acontece no Brasil, fluência em línguas estrangeiras não é o ponto forte dos japoneses. Que não seja por isso, que há remédio pra tudo. O governo japonês já tomou as medidas que julga necessárias para preencher essa lacuna. Especial atenção está sendo dedicada à formação de policiais, bombeiros, garçons e guias fluentes em inglês.

Seminários de formação de guias bilíngues estão sendo organizados. O objetivo das autoridades de Tóquio para 2020 é dispor de 35 mil colaboradores bilíngues para dar apoio aos turistas e mostrar-lhes o espírito acolhedor dos japoneses.

Alguém sabe quantos guias bilíngues foram formados para os JOs do Rio? Procurei, mas não encontrei a resposta. Talvez algum distinto leitor possa me iluminar.

Terra do cruz-credo

José Horta Manzano

Você sabia?

Assalto 2Como faz a cada ano, o respeitado instituto mexicano Seguridad, Justicia y Paz publicou estudo que mede a criminalidade urbana no planeta. Divulgou a lista das 50 cidades mais violentas do mundo – pelo critério de número de homicídios em relação à população.

O país campeão estourado em matéria de violência urbana – o distinto leitor já deve desconfiar – é nossa amada Terra de Santa Cruz. Que digo? Santa Cruz? Está mais para cruz-credo!

A lista de 2013 trazia 16 cidades brasileiras entre as 50 mais violentas do mundo. A edição 2014 não só confirma a presença das mesmas dezesseis como também acrescenta três: são agora 19. Em números redondos, quatro entre as dez cidades mais violentas – considerados todos os continentes e todos os países – se encontram no Brasil. Nosso País segue firme na vanguarda do crime. Nossa dianteira é de tal importância que dificilmente poderemos ser alcançados. Somos imbatíveis.

Crime 1Contrastando com as autoridades das outras 18 cidades brasileiras mencionadas no estudo, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás não gostou de ver a capital do Estado mais uma vez na lista da vergonha.

Aderindo a estratégia muito em voga no Brasil atual, tentou menosprezar a mensagem e «desconstruir» o mensageiro. Criticou o instituto mexicano, sua metodologia e seus dados. Tentou desqualificar e desmerecer o estudo. Disse que estavam errados, que não era bem assim, que, no fundo, não se matava tanto em Goiânia.

Charge publicada no site Seguridad, Justicia y Paz

Charge publicada no site
Seguridad, Justicia y Paz

Mexeram em vespeiro. Tiveram direito a uma longa resposta, com números, fontes e tabelas, assinada pelo presidente do instituto. O artigo está em destaque no site da ong, exposto a quem quiser ler. As autoridades goianas atiraram no estafeta e acertaram o próprio pé. Para coroar, ganharam a charge que vai reproduzida aqui acima.

As 19 cidades brasileiras constantes da lista das 50 mais violentas do mundo em 2014 são as seguintes:

Posição   Cidade             Taxa(1)
———————————————————————————————————
04        João Pessoa        79,41
06        Maceió             72,91
08        Fortaleza          66,55
10        São Luís           64,71
11        Natal              63,68
15        Vitória            57,00
16        Cuiabá             56,46
17        Salvador           54,31
18        Belém              53,06
20        Teresina           49,49
23        Goiânia            44,82
29        Recife             39,05
30        Campina Grande     37,97
33        Manaus             37,07
37        Porto Alegre       34,65
39        Aracaju            34,19
42        Belo Horizonte     33,39
44        Curitiba           31,48
46        Macapá             25,45

(1) Homicídios intencionais por 100 mil habitantes

Para efeito de comparação, note-se que a taxa global brasileira beira 25 homicídios intencionais por 100 mil habitantes, número altíssimo.

Assalto 1É verdade que estamos numa situação menos sinistra que a infeliz Venezuela (45 por 100 mil). No entanto, estamos bem longe de uma Alemanha (0,8), de um Japão (0,4) ou de uma pacífica Hong Kong (0,2). Ainda temos longo caminho a percorrer. Será trabalho para as próximas gerações. Com sorte, os netos de nossos netos conhecerão um país mais civilizado.

Obs:
Quem quiser consultar o estudo completo do instituto, pode descarregá-lo, em língua portuguesa e em formato pdf, aqui.

Crise de vocações

José Horta Manzano

Você sabia?

Rivaz, o menor município suíço Superfície: 0,3 km2

Rivaz, o menor município suíço
Superfície: 0,3 km2

«Procuram-se candidatos a vereador» – é anúncio que poderia ser feito na Suíça. E não é garantido que surtisse efeito. Nesse particular, o país atravessa verdadeira crise de vocações. Poucos são os que se dispõem a seguir carreira política.

Também, pudera. Boas estimativas indicam que o país conta com 150 mil eleitos(!), número elevado para uma população total de 8 milhões. Trocando em miúdos, um em cada 50 cidadãos exerce cargo eletivo. Parece uma orgia de dinheiro público desperdiçado, não é? Pois já verá o distinto leitor que a realidade é um bocado diferente.

Território escarpado, árido, sem riqueza mineral, de agricultura problemática, a Suíça atraiu pouca cobiça no passado. Até o advento de Napoleão – cujo objetivo era controlar a Europa inteira– ninguém tinha espichado olhos gananciosos para este rincão encarapitado nos Alpes.

Corippo, o município menos habitado População: 18 pessoas

Corippo, o município menos habitado
População: 18 pessoas

Assim, a Suíça nunca viveu sob a lei de um monarca. É formada por territórios, ditos cantões, que se foram agregando ao longo dos séculos. Cada um dos cantões é composto por municípios. Na maioria dos casos, o território municipal é exíguo – herança da divisão medieval em paróquias.

A contagem de 1° jan° 2015 deu um total de 2324 municípios. Com o passar do tempo, o número deles vem caindo em consequência de fusões. Dá pra entender. Os tempos modernos exigem especialização. A infraestrutura e os equipamentos de que a prefeitura é responsável precisam ser planejados e geridos por gente do ramo. Municípios muito pequenos não têm massa crítica para enfrentar esses desafios.

De uns 20 anos pra cá, as fusões têm-se acelerado e o número de municípios tem diminuído. Veja a progressão:

Interligne vertical 14Ano    Total municípios
1990        3021
1995        2975
2000        2899
2005        2763
2010        2596
2015        2324

A população média de cada município não chega a 3000 pessoas. Assim mesmo, o Poder Executivo de todos os municípios segue o sistema colegial: é composto de pelo menos três eleitos. São assistidos por um conselho municipal cujos membros também são eleitos. Essa massa de gente deve custar os olhos da cara, não?

Pois é aí que reside a grande diferença entre os costumes helvéticos e os nossos. No Brasil, prefeito e vereadores são assalariados, vivem disso. Não é o que acontece na Suíça.

Sessão do Conselho Municipal

Sessão do Conselho Municipal

Somente municípios muito grandes remuneram seus eleitos e exigem deles dedicação integral. Municípios pequenos – que são a esmagadora maioria – limitam-se a dar indenização simbólica de alguns milhares de francos por ano. Em alguns casos, vereador e prefeito nem dinheiro recebem: devem contentar-se com algumas garrafas de vinho no Natal. Há ainda minúsculos municípios cujos eleitos têm de se contentar com um «muito obrigado».

Na Suíça, só faz política quem se interessa sinceramente pela gestão da coisa pública. Carreira política está mais para apostolado que para investimento. Já no Brasil…

Non-white

José Horta Manzano

Benicio del Toro, porto-riquenho

Benicio del Toro, porto-riquenho

Faz alguns dias, o renomado site de informações Huffington Post publicou artigo sobre os indicados para o Oscar 2015. O articulista lamenta que a safra deste ano seja a mais nefasta para a ‘diversidade racial’.

De fato, pela visão do autor, é a primeira vez nos últimos 17 anos que nenhum «não branco» aparece na lista. A última vez em que o lamentável episódio ocorreu foi em 1998.

Javier Bardem, espanhol

Javier Bardem, espanhol

De lá pra cá, a lista de indicados trouxe, a cada ano, pelo menos um «não branco». Como exemplo, o jornal nomeia, ano a ano, os artistas que salvaram a diversidade racial. Abaixo, vão alguns significativos exemplos.

O espanhol Javier Bardem garantiu a quota em 2011. Indicada em 2010, Penélope Cruz esteve entre as candidatas ‘não brancas’. Em 2001, o porto-riquenho Benicio del Toro reforçou o time. Em 1999 – pasme! – foi nossa Fernanda Montenegro quem salvou a lavoura. Indicada por sua atuação em Central do Brasil, a carioca foi a única artista ‘não branca’ aquele ano.

Para que não subsistam dúvidas, o Huffington Post, em nota de pé de página, deixa as coisas claras. Quanto à distinção entre brancos e ‘não brancos’, declara:

Penélope Cruz, espanhola

Penélope Cruz, espanhola

«We went with the very broadest interpretation and included actors like Javier Bardem and Penelope Cruz as “non-white,” due to their Hispanic ancestry, despite the fact that many Hispanics may identify racially as white.»

Fernanda Montenegro, brasileira

Fernanda Montenegro, brasileira

Em tupiniquim, fica assim:
«Demos preferência ao entendimento mais amplo possível. Assim, listamos atores como Javier Bardem e Penélope Cruz como “não brancos” por causa de sua ascendência hispânica – apesar do fato de muitos hispânicos se considerarem brancos.»

E o distinto leitor? Como é mesmo que se declarou no último recenseamento?

As balanças de dona Dilma

José Horta Manzano

O braço armado da Justiça indonésia aplicou ontem a pena capital a meia dúzia de indivíduos. Todos eles haviam sido condenados por infração gravíssima à lei nacional que reprime a produção e o tráfico de drogas entorpecentes.

Entre os executados, estava um conterrâneo nosso. Traficante multirrecidivista, o moço estava preso e condenado havia mais de dez anos. Iludido pelo clima tropical, imaginou que sua saga teria o desfecho usual no Brasil: a impunidade e o apagamento da memória.

Deu-se mal. Assim como nem tudo o que reluz é ouro, clima quente não é automaticamente sinônimo de justiça mansa. Que o diga a cidade-estado de Singapura, aquela onde quem atira papel na rua paga multa de mil dólares.

Dilma indignadaDona Dilma – aquela que já integrou milícias cujo intuito era eliminar inimigos a tiros – «indignou-se». Chamou para consultas seu embaixador em Djacarta. Não há que pasmar: faz parte do jogo. Em código diplomático, significa que o Brasil está descontente. Daqui a algumas semanas, quando a poeira tiver baixado, o embaixador volta a seu posto, e vira-se a página.

A boa notícia é que dona Dilma já não parece mais raciocinar como fazia nos anos 1970. Já abandonou a ideia de que a solução tem de passar pelo estampido das armas. A má notícia é que dona Dilma tem várias balanças – nem todas aferidas pelo mesmo gabarito.

De fato, não me lembro de jamais ter lido uma linha sobre eventual «indignação» presidencial em referência aos mais de 150 assassinatos que ocorrem todos os dias no país que ela mesma governa há mais de quatro anos.

São cento e cinquenta execuções. Por dia. Ontem, hoje e amanhã também. Sem processo, sem condenação, sem habeas corpus, sem advogado, sem embargos infringentes. Sem «indignação» presidencial e sem recolha de embaixador.

Ah, essas balanças desreguladas… Faz-se urgente a criação de um Ministério de Pesos e Medidas.