Frase do dia — 219

«A posse do cocaleiro Evo Morales, na Bolívia – salada de crendices alimentada pela ignorância e pelo culto à folha de coca (matéria-prima da cocaína) – foi de um ridículo atroz. Dilma poderia ter evitado esse mico.»

Cláudio Humberto, jornalista, em coluna do Diário do Poder, 23 jan° 2015.

Morreu de medo…

José Horta Manzano

Suisse 7Estes dias, realiza-se o Fórum Econômico Mundial, simpósio que, ano após ano, congrega os grandes deste mundo durante alguns dias em Davos, Suíça. Em seus tempos de esplendor, nosso guia fazia questão de comparecer e aparecer. Este ano, quarenta chefes de Estado fizeram questão de estar presentes, assim como 1500 dirigentes de multinacionais – um total de 2900 participantes.

É possível que a Mongólia não tenha enviado representante. É também provável que nenhum responsável do Haiti ou do Butão esteja presente.

Pelo ordenamento constitucional brasileiro, os cargos de chefe de Estado e de chefe do governo são exercidos pela mesma pessoa. Atualmente, dona Dilma Rousseff encarna esse superpersonagem.

Suisse 4Pois dona Dilma, mostrando que sua autoestima anda mais baixa do que se imagina, fez saber que preferia desdenhar a Suíça e prestigiar a reentronização de seu ídolo Evo Morales. A escolha há de ser fruto de um daqueles ataques de voluntarismo de que nossa presidente é vezeira. Recuso-me a acreditar que seus assessores, posto que sejam tacanhos, lhe tenham aconselhado trocar Davos por La Paz.

A ausência da figura maior da nação brasileira no fórum assinala marcha à ré na política de projeção mundial entabulada por nosso guia doze anos atrás. Põe a perder o esforço – às vezes atabalhoado, mas sincero – de alçar o nome do Brasil entre as potências planetárias.

Suisse 6Não acredito em escolhas ideológicas. Se dona Dilma faltou à reunião, foi por orgulho. Fugiu para escapar às críticas e à reprovação a seu modo de gerir a coisa pública. O mundo sabe, hoje, que a gestão de seu primeiro quadriênio foi calamitosa. Todos sabem também que nada de auspicioso se apresenta para o futuro próximo.

Resultado: como em reuniões familiares, fala-se mal dos ausentes. O economista-chefe do IHS – instituto americano de análise econômica e tecnológica – chegou a qualificar de «moribundo» o estado de saúde do Brasil. Enquanto isso, os Estados Unidos, a Índia e o México estão no foco da admiração. De fato, ninguém gosta de quem anda pra trás.

Suisse 5Dona Dilma tem perdido apoio internamente. Sua renúncia a representar o país em reuniões importantes periga ser interpretada como renúncia do Brasil a participar do clube dos grandes deste mundo. Nosso guia há de estar desgostoso.

De criança, a gente cantava um refrãozinho de deboche que assenta bem na atual chefe do Estado brasileiro. Começa com «Morreu de medo…». E termina com «… no dedo».

Forças ocultas

by Antônio Gabriel Nássara (1910-1996) caricaturista carioca

by Antônio Gabriel Nássara (1910-1996)
caricaturista carioca

Antigo ministro e embaixador, José Aparecido de Oliveira aceitou debater com estudantes, nos anos 80, sobre os acontecimentos de 1961, quando o presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo depois de tê-lo exercido por sete meses. Aparecido tinha sido secretário de Jânio.

Um rapaz muito agressivo e com a arrogância própria da idade criticou o gesto do antigo presidente – atribuído a “forças ocultas” – e declarou:

– Eu nunca teria feito isso!

Aparecido não perdeu a chance:

– Meu filho, você pode até estar certo, mas esse problema você nunca vai ter de enfrentar.

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Reprodução do original publicado pelo jornalista Cláudio Humberto in Diário do Poder,

Nota deste blogueiro
Apesar do que acreditam muitos, a carta renúncia de Jânio Quadros não mencionava “forças ocultas”, mas “forças terríveis”.

Non-white

José Horta Manzano

Benicio del Toro, porto-riquenho

Benicio del Toro, porto-riquenho

Faz alguns dias, o renomado site de informações Huffington Post publicou artigo sobre os indicados para o Oscar 2015. O articulista lamenta que a safra deste ano seja a mais nefasta para a ‘diversidade racial’.

De fato, pela visão do autor, é a primeira vez nos últimos 17 anos que nenhum «não branco» aparece na lista. A última vez em que o lamentável episódio ocorreu foi em 1998.

Javier Bardem, espanhol

Javier Bardem, espanhol

De lá pra cá, a lista de indicados trouxe, a cada ano, pelo menos um «não branco». Como exemplo, o jornal nomeia, ano a ano, os artistas que salvaram a diversidade racial. Abaixo, vão alguns significativos exemplos.

O espanhol Javier Bardem garantiu a quota em 2011. Indicada em 2010, Penélope Cruz esteve entre as candidatas ‘não brancas’. Em 2001, o porto-riquenho Benicio del Toro reforçou o time. Em 1999 – pasme! – foi nossa Fernanda Montenegro quem salvou a lavoura. Indicada por sua atuação em Central do Brasil, a carioca foi a única artista ‘não branca’ aquele ano.

Para que não subsistam dúvidas, o Huffington Post, em nota de pé de página, deixa as coisas claras. Quanto à distinção entre brancos e ‘não brancos’, declara:

Penélope Cruz, espanhola

Penélope Cruz, espanhola

«We went with the very broadest interpretation and included actors like Javier Bardem and Penelope Cruz as “non-white,” due to their Hispanic ancestry, despite the fact that many Hispanics may identify racially as white.»

Fernanda Montenegro, brasileira

Fernanda Montenegro, brasileira

Em tupiniquim, fica assim:
«Demos preferência ao entendimento mais amplo possível. Assim, listamos atores como Javier Bardem e Penélope Cruz como “não brancos” por causa de sua ascendência hispânica – apesar do fato de muitos hispânicos se considerarem brancos.»

E o distinto leitor? Como é mesmo que se declarou no último recenseamento?

Senador contrarregra

Certa vez, os senadores discutiam sobre o adiantamento da maioridade penal, quando Eduardo Suplicy (PT-SP) voltou a exibir sua veia artística.

DiscursoPassou a ler um relatório sobre o tema, onde havia um trecho em que um cachorro latia. Suplicy leu e latiu. Três vezes. Risos gerais.

Adiante, ele se referiu a “vários tiros de arma de fogo”. Novamente Suplicy ilustrou a leitura berrando os tiros.

O então senador tucano Arthur Virgílio (AM), com reflexos de judoca, levantou os braços, com ar de espanto, como se tivesse sido atingido pelos disparos. Mais risos.

Sem Suplicy, o Senado ficará menos divertido.

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Reprodução de artigo publicado pelo jornalista Cláudio Humberto in Diário do Poder,

A vida é um moinho

«O carioca Marco Archer Cardoso Moreira viveu 17 anos em Ipanema, 25 traficando drogas pelo mundo e 11 em cadeias da Indonésia, até morrer fuzilado, aos 53, neste sábado, por sentença da Justiça daquele país muçulmano.»

Primeiro parágrafo de artigo do repórter Renan Antunes de Oliveira, que entrevistou o prisioneiro, hoje falecido. Foi em 2005, numa prisão indonésia. Clique aqui quem quiser conhecer mais sobre o entrevistado.

As balanças de dona Dilma

José Horta Manzano

O braço armado da Justiça indonésia aplicou ontem a pena capital a meia dúzia de indivíduos. Todos eles haviam sido condenados por infração gravíssima à lei nacional que reprime a produção e o tráfico de drogas entorpecentes.

Entre os executados, estava um conterrâneo nosso. Traficante multirrecidivista, o moço estava preso e condenado havia mais de dez anos. Iludido pelo clima tropical, imaginou que sua saga teria o desfecho usual no Brasil: a impunidade e o apagamento da memória.

Deu-se mal. Assim como nem tudo o que reluz é ouro, clima quente não é automaticamente sinônimo de justiça mansa. Que o diga a cidade-estado de Singapura, aquela onde quem atira papel na rua paga multa de mil dólares.

Dilma indignadaDona Dilma – aquela que já integrou milícias cujo intuito era eliminar inimigos a tiros – «indignou-se». Chamou para consultas seu embaixador em Djacarta. Não há que pasmar: faz parte do jogo. Em código diplomático, significa que o Brasil está descontente. Daqui a algumas semanas, quando a poeira tiver baixado, o embaixador volta a seu posto, e vira-se a página.

A boa notícia é que dona Dilma já não parece mais raciocinar como fazia nos anos 1970. Já abandonou a ideia de que a solução tem de passar pelo estampido das armas. A má notícia é que dona Dilma tem várias balanças – nem todas aferidas pelo mesmo gabarito.

De fato, não me lembro de jamais ter lido uma linha sobre eventual «indignação» presidencial em referência aos mais de 150 assassinatos que ocorrem todos os dias no país que ela mesma governa há mais de quatro anos.

São cento e cinquenta execuções. Por dia. Ontem, hoje e amanhã também. Sem processo, sem condenação, sem habeas corpus, sem advogado, sem embargos infringentes. Sem «indignação» presidencial e sem recolha de embaixador.

Ah, essas balanças desreguladas… Faz-se urgente a criação de um Ministério de Pesos e Medidas.

Pátria educadora

Carlos Brickmann (*)

Sim, Dilma disse num dia que o lema de seu governo seria: “Brasil, pátria educadora”. E, na mesma semana, houve cortes no orçamento federal. Os maiores cortes atingiram o Ministério da Educação.

Mas a pátria educadora não é apenas a educação: é também a cultura. E o Museu Nacional, com 196 anos de história, maior instituição latino-americana de antropologia e história natural, fechou as portas ao público.

"Que notas são estas?" by Emmanuel Chaunu, desenhista francês

“Que notas são estas?”
by Emmanuel Chaunu, desenhista francês

Motivo: há três meses a Universidade Federal do Rio de Janeiro não paga as empresas terceirizadas de limpeza e segurança. Os serviços foram paralisados e o museu não podia mesmo receber visitantes.

Por que a UFRJ, subordinada ao Ministério da Educação, parou de pagar? Porque o governo federal parou de repassar as verbas para esses serviços. O salário de dezembro dos funcionários não saiu, nem o vale-transporte. E os 4 milhões que prometeram liberar nesta semana não resolvem o problema.

É a pátria educadora em ação.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.

Je suis François

José Horta Manzano

Papa Francisco

Papa Francisco

Não é raro que governantes e altas personalidades façam declarações inabituais por ocasião de viagem ao estrangeiro. Será por influência do ar viciado da cabine do avião. Será por causa da sensação de liberdade concedida pelo passeio. Freud deve poder explicar. O fato é que figurões costumam soltar a língua.

Assim fez o Lula em Paris, logo no começo do primeiro mandato, quando ainda saboreava a chegada ao poder como conto de fadas – sem imaginar que se transformaria no pesadelo de hoje. Naquela ocasião, confessou algo do tipo: «Sou, mas… quem não é?». Era sobre o caixa dois de seu partido, escancarado pelo escândalo do mensalão. A declaração imprudente do Lula há de persegui-lo pelo resto da existência.

Lionel Jospin, que foi primeiro-ministro da França de 1997 a 2002, tinha ambições presidenciais. O ar viciado do avião há de tê-lo afetado quando voltava de uma viagem ao exterior. Confidenciou a um bando de jornalistas que o presidente Chirac estava velho, com um pé na cova e incapaz de continuar no cargo. A eleição ocorreu meses depois. Chirac ganhou. Derrotado e desmoralizado, Jospin pendurou definitivamente as chuteiras. A entrevista dada no avião foi-lhe fatal.

Em viagem do Sri Lanka às Filipinas, Papa Francisco usou e abusou de sua habitual franqueza. Nada mais fez do que reafirmar posição oficial da Igreja – mas, saída de sua boca, a fala encontra eco planetário. Cobrado sobre o assassinato de caricaturistas franceses, não se escafedeu. Em seu característico estilo direto, defendeu o direito à liberdade de expressão. Mas acrescentou que ele não abrange o direito à ofensa.

Charlie 4Sorridente e expressivo, Francisco fez uma comparação. Usando palavras pouco comuns para o cargo que ocupa, foi claro: «Se alguém vier falar mal de minha mãe, periga levar um soco!». E acrescentou que era reação normal, humana. Finalizou assinalando que não se deve zombar de outras religiões nem menosprezar a fé de outrem. Quem o fizer estará se expondo a represálias.

Reafirmou que não abona, de modo nenhum, os atentados: «É verdade que não se pode reagir com violência.». Mas – emendou – não é aceitável que um punhado de caricaturas «ridicularize uma inteira religião».

Para Francisco na chegada a Manila

Para Francisco na chegada a Manila

Concordo com a posição do surpreendente hermano papa. Por mais chocante que tenha sido o ataque à redação do semanário Charlie Hebdo, deve-se levar em conta que os fanáticos reagiram ao que ressentiam como grave ofensa à sua fé.

A meu ver, a carnificina do Hyper Cacher – supermercado kosher parisiense – foi, essa sim, ignóbil, abjecta, asquerosa. Quatro vítimas foram chacinadas não por algum ato que tivessem praticado, mas unicamente pelo fato de serem judias.

O inquietante espetáculo destampou a fossa onde cochilam pogroms e noites de cristal. O odor fétido, relíquia de uma era de trevas, estagna perigosamente nos ares de Paris.

Interligne 18h

Para assistir ao vídeo do pronunciamento papal (um minuto e meio), clique aqui.

A marcha dos 4 milhões na França envergonha o Brasil

Cláudio Tognolli (*)

Paris

Paris

A marcha dos 4 milhões, em Paris, envergonha a América Latina em geral e o Brasil em particular. Prova que, tecnicamente, abandonamos a cidadania há muito.

Magro e grave, outro dia um comerciante dos Jardins comentava: «Em São Paulo, se mata apenas para ouvir o barulho do tombo. Mas deixa pra lá, sempre foi assim». No Brasil roubos e matanças já se incorporaram ao nosso biótipo: saem pela urina. E sem pedrinhas machucantes.

Há finais de semana em que se matam 50 pessoas em São Paulo. Homicídios mataram 56 mil brasileiros em 2013. Qual o hino da Irlanda? Na prática, a balada Sunday Bloody Sunday, do U2. Sabe quantos morreram no Domingo Sangrento em janeiro de 1972? Quatorze ativistas. Quantos morreram no nosso Carandiru? Cento e onze. Os números brutais de matanças no Brasil não mais nos emocionam.

O brasileiro incorporou à sua sub-rotina o acostumar-se com mortes a quilo e roubos a tonelada. Uma vez, em Israel, um ministro caiu por desviar seis mil dólares. Por aqui, todos seguem firmes com o petrolão. E Dilma vai muito bem, obrigado.

Interligne vertical 11aNo livro Os Sertões, Euclydes da Cunha descreve o brasileiro como o Hércules-Quasímodo: «Falta-lhe a aparência impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente».

Somos Hércules porque ainda sobrevivemos nesta pré-coerência estilizada que é a cidadania brasileira.

Os 4 milhões de pessoas nas ruas não protestaram apenas contra as mortes. Protestaram contra o estado de coisas que o terror traz.

Bordeaux

Bordeaux

Sabem o que é o terror? É o medo sem objeto. Por isso, a Bruxa de Blair fez tanto sucesso: não eram tubarões ou Jasons ou Chucks no ataque: eram ventos, galhinhos. Era o Nada. Por isso, Heidegger e Sartre diziam que a questão mais fundamental da filosofia do século 20 era o Nada.

A França não quer viver no estado do Nada. Neste sábado, os policiais franceses foram orientados a retirarem suas fotos das redes sociais porque «o ataque terrorista pode vir de qualquer canto». Ninguém suporta o terror sem objeto.

Isso serve para os dois lados. Logo depois do ataque às torres gêmeas, o presidente George W. Bush mostrava a foto dos 19 terroristas. Mais tarde, proibiu a divulgação. Saía de cena o «terrorista» e entrava o «terrorismo», o que justificava combatê-lo onde interessasse a Bush. Foi assim que se forjou a invasão do Iraque.

Marselha

Marselha

O cineasta Alfred Hitchcock admitia que «não existe terror no estrondo, mas na antecipação dele». Richard Nixon, que foi presidente dos EUA, gostava de dizer que «as pessoas reagem ao medo, não ao amor». E Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, orgulhava-se de ter detectado que «falamos sempre não para dizer algo, mas para obter algum efeito».

O terrorismo vive de efeitos. Quer se fazer presente mesmo onde jamais vai estar. A França não protesta apenas contra as mortes, mas contra um estado de coisas no ar.

Mas o brasileiro jamais vai conhecer esse tipo de sensibilidade. Afinal, Hércules-Quasímodo não tem tempo pra essas coisas…

(*) Claudio Tognolli é escritor, jornalista e músico.

Interligne 18cObservação deste blogueiro
Analisando os 56 mil homicídios que ocorrem no Brasil a cada ano, chegamos à média de 153 por dia. Dá 6,4 por hora. Desde o momento em que o distinto leitor iniciou a leitura deste artigo, é enorme a probabilidade de (pelo menos) um humano ter sido assassinado. Comparados a nossa cifra impressionante, os caídos em guerras e guerrilhas de Afeganistão, Iraque, Síria & adjacências – todos juntos! – são café pequeno. Nesse ramo de atividade, pelo menos, somos campeões do mundo. Fazemos mais e melhor que qualquer país em guerra.

Mãe, tirei zero!

José Horta Manzano

Saíram os resultados do Enem, exame a que se submetem alunos do ensino médio. Diferindo da antiga prática de cada escola avaliar por seus próprios critérios, o exame atual é padronizado. Igual para todos.

Tem suas limitações, na medida que não leva em conta particularidades regionais. Tem suas vantagens dado que, como passa todos os examinandos pela mesma peneira, os resultados são comparáveis.

Seja como for, as notas da prova de redação, publicadas ontem, são inquietantes. Dos seis milhões de candidatos, meio milhão lograram a façanha de levar zero. Zero, minha gente! Sabe o que é isso?

De cada dez jovens que chegam ao fim da escola média, um não consegue preencher nenhum dos critérios exigidos para a prova de redação. Não tem capacidade de se exprimir. Ou de entender o enunciado.

E aqui falamos só dos que tiraram zero. Não tenho informação sobre os que levaram nota um, dois, três. Imagino que sejam numerosos, haja vista a avalanche de zeros. Por que isso acontece?

Temos, no Brasil, um bilinguismo de facto. O distanciamento cada vez mais acentuado entre a língua caseira e a língua formal, criou o que linguistas qualificam de diglossia – um bilinguismo em que uma das variantes tem mais prestígio.

ExameEsse fato, no entanto, não saberia responder sozinho pelo fracasso dos brasileirinhos quando se lhes põe uma caneta entre os dedos. Outras regiões do mundo são atingidas pelo mesmo fenômeno sem que ele se converta em iletrismo.

A língua materna de oitenta porcento dos suíços não é a língua de cultura da região. Em casa, suíços alemães e suíços italianos falam cada qual seu dialeto. Só vão aprender a língua formal na escola.

Ainda hoje, a maioria dos italianos tem um dialeto por língua materna. Muitos alemães se encontram nessa situação. Nem por isso, suíços, italianos e alemães chegam ao final da escola média sem conseguir se exprimir por escrito. Portanto, o problema brasileiro não é esse. Antes, deveria ser considerado uma riqueza, uma oportunidade a mais.

Quando fiz a escola média, não havia internet. Para procurar o significado de uma palavra, tinha de se levantar, ir até a estante, pegar o dicionário, abrir na página desejada. Hoje, com dois cliques, se resolve o problema.

Escrita 3Não se «baixavam» livros. Para ler, tinha de comprar – o que nem sempre era possível, que o dinheiro era pouco. O mais simples era tomar emprestado. Tinha de ir até a biblioteca, preencher a ficha, mostrar documento, levar o livro pra casa, ler, voltar à biblioteca e devolver. Uma maratona.

Vamos partir da premissa que o brasileiro médio não emburreceu. Quanto à leitura e ao aprendizado, ficaram mais accessíveis. Onde está o problema então? Na minha opinião, o que mudou foram as exigências e as expectativas da sociedade.

Já não se atribui à formação, à cultura e à erudição o mesmo valor que antes. Essa degringolada começou trinta, quarenta anos atrás. Não é obra deste ou daquele governo, embora seja inegável que os últimos doze anos contribuíram para acelerar o declínio.

Estudante 2É muito difícil elevar, de chofre, o padrão de cultura da população – principalmente porque as autoridades, incultas, não se dão conta do problema. Mais fácil será baixar o nível de exigência do Enem.

Assim como sutis mudanças em parâmetros estatísticos promoveram milhões de brasileiros à classe média, miúdas alterações nos critérios de avaliação do Enem promoverão os brasileiros ao nível de povo culto. Por que não?

Não trará cultura, mas aliviará consciências.

Indignação e catarse

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Atos violentos, como os ataques terroristas perpetrados na França há alguns dias, costumam gerar forte indignação em todo o mundo. Em mim também. No entanto, o que mais tem chamado minha atenção nos últimos meses é a repetição por toda parte de comportamentos que têm por objetivo primário o de impor de forma violenta as próprias percepções, crenças e visões de mundo a todo o restante da humanidade.

Cagoule 1Exemplos desse tipo de conduta incluem desde casos corriqueiros, como carros circulando com o aparelho de som ligado na potência máxima, passando por comentários raivosos nas redes sociais diante de literalmente qualquer tipo de opinião expressa, até os assim chamados “hate crimes” – crimes de ódio. É como se os outros tivessem se transformado em simples obstáculos que impedem que cada um acesse e desfrute tudo aquilo que lhe dá prazer. Assassinatos em série com requintes inimagináveis de perversidade, esquartejamentos, estupros, casos de pedofilia e violência doméstica multiplicam-se exponencialmente, atingindo agora não apenas os desafetos habituais mas também as pessoas mais próximas do círculo familiar, do ambiente de trabalho ou com as quais o infrator possui laços afetivos. Não há escrúpulo, culpa ou remorso. Nenhuma emoção penosa o suficiente para demover o mal-intencionado do desejo de causar dor, sofrimento e morte.

Frente a esse cenário catastrófico, uma pergunta insiste em percorrer meu cérebro: o que leva um ser humano a romper com as as regras civilizatórias mais básicas? Desconfio instintivamente do diagnóstico pontual de transtornos mentais. A coisa está mais para epidemia do tipo ebola do que para asilo de loucos. O vírus do rancor, do ódio e da vingança dissemina-se em velocidade francamente espantosa em todos os cantos do mundo.

A agressividade não é estranha nem rara no mundo animal. Lutas de vida ou morte são bastante frequentes entre animais que disputam território, comida, água ou parceiros sexuais mas, até onde eu saiba, não há notícia de embates sangrentos que não envolvam essas causas.

Há alguns meses, assisti a um debate capitaneado por um filósofo francês cujo argumento central era o de que a indignação não é um sentimento verdadeiramente moral. E explicava: nós só nos indignamos com o comportamento dos outros, nunca com nossa própria conduta. Caso alguém aponte um ato antiético que tenhamos eventualmente cometido, temos sempre uma justificativa na ponta da língua: eu estava desequilibrado naquele momento, não tive a intenção, foi um segundo de distração, não pesei as consequências, etc. etc. etc.

Cruzada 1Essa argumentação voltou à minha cabeça com força nos últimos dias. Temos, como sociedade, um novo bode expiatório já pronto para o abate: o fanatismo islâmico contraria os princípios mais caros do cristianismo, do judaísmo, do budismo e de muitas outras religiões “ocidentais”. O que fazer então? Treinar novos exércitos de combatentes e declarar nova guerra santa? Exterminar todos aqueles que agridem frontalmente nossa fé? Em nome de quê? É bem possível que os comandantes desses novos batalhões argumentem que estão apenas defendendo os valores da vida, da solidariedade, da compaixão, da harmonia e da conciliação.

Mas… espere um pouco: é somente a mim que esse convite à conflagração parece insano? Ou será que ainda há pessoas que se dão conta de que os dois lados do conflito estão contaminados pela mesma doença? Aquela enfermidade que nos obriga a colocar, como ponto de honra de nossa vida, a minha ideologia, as minhas crenças políticas e religiosas, o meu estilo de vida têm de prevalecer, custe o que custar.

by Diogo Salles, desenhista paulista

by Diogo Salles, desenhista paulista

A pergunta permanece: por quê? Um de meus professores de psicanálise me encantou com a teoria de que todas as pendengas sociais partem de uma sensação pessoal de insatisfação. Não de desequilíbrio de poder, repetia ele, mas de um desequilíbrio de satisfação. Um formulado bastante sensato, a meu ver. Se estou satisfeita com minha vida afetiva, profissional e financeira, que razão teria para ficar me perguntando se outras pessoas estão mais ou menos satisfeitas do que eu?

Em nossa sociedade psicologicamente imatura e egocêntrica, parece ser mais fácil confundir poder e força, conhecimento e sabedoria. Infelizmente, ainda estamos às voltas com as crises de birra típicas da infância e engatinhando na difícil arte de lidar com frustrações e limites.

O mais angustiante, entretanto, é que a indignação diante de acontecimentos tão nefastos dura apenas um segundo. Os protestos de massa podem aliviar significativamente a tensão do momento, mas a catarse não constrói. Quase imediatamente voltamos à rotina de engolir outros sapos pessoais, a tensão começa a se acumular novamente e a insatisfação nos empurra para a busca de novos bodes expiatórios.

A pergunta agora é: até quando vamos nos conformar em tratar dos sintomas e voltar as costas para a busca dos motivos de nossa insanidade coletiva?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Tudo muda

José Horta Manzano

Houve tempo em que a vida era mais simples. A gente não precisava desconfiar de todos(as), não precisava trancar a porta de casa, não tinha medo de sair à noite. Roubalheiras praticadas por homens (mulheres) políticos(as) eram mais modestas – raramente chegavam às manchetes.

Lenin 1

Até falar era mais fácil. Todos(as) falavam como tinham aprendido. Não precisava policiar o vocabulário. Com exceção de palavrão, naturalmente. Chamar alguém de negro(a) era muito ofensivo. Convinha dizer preto(a). Nesse particular, a situação se inverteu.

Brasileiros(as), baianos(as), mineiros(as) e gaúchos(as) não se sentiam ofendidos se, como a língua ensina há um milênio, o masculino plural fosse utilizado para englobar todos(as) os(as) cidadãos(ãs).

Já não é mais assim. Hoje precisa tomar um cuidado danado pra não melindrar nenhum(a) vivente. Não se sabe a quem atribuir essa mudança de percepção. Dizem alguns que o iniciador foi o velho Sarney, no tempo em que chegou à presidência. Parece que sempre começava suas falas saudando «Brasileiros e brasileiras!».

Manif 12,jpgSeja como for, a prática está-se generalizando. Se faltasse uma prova, ela foi dada hoje no protesto organizado pelos(as) empregados(as) na indústria metalúrgica do ABC paulista. Os(as) metalúrgicos(as) aderiram ao que consideram politicamente correto.

Pelo rodar da carroça, a tradução do grito de guerra do Manifesto do Partido Comunista terá de ser repensada.

«Proletarier aller Länder, einigt euch!»

passa a ser

«Proletários(as) de todos os países, uni-vos!»

A força do slogan sairá perdendo, mas ninguém periga ser processado(a) por danos morais.

Já acabou

José Horta Manzano

Inimigas 1Em entrevista concedida à jornalista Eliane Cantanhêde, dona Marta Suplicy – figurinha carimbada e assaz longeva do petismo – declarou que «ou o PT muda ou acaba». Causou frisson no partido. Passadas 24 horas, os líderes atuais ainda estão discutindo o teor da resposta.

O amargor de dona Marta é compreensível. Nos tempos áureos em que caminhava sobre tapete vermelho, ganhava eleição e era prestigiada no partido, a vida lhe parecia mais doce. Não deu nem um pio quando estourou o escândalo do mensalão. Continuou calada quando companheiros foram condenados à prisão fechada.

Sua contribuição maior ao folclore político brasileiro – aquela que marcará sua biografia – foi a frase pronunciada em jun° 2007, no auge da crise da aviação conhecida como apagão aéreo. Nove entre dez brasileiros pensantes se lembrarão de sua declaração debochada: «Relaxa e goza!». Raras foram as figuras políticas capazes de despertar, com três palavras, reprovação instantânea, nacional e unânime. Dona Marta realizou a façanha.

Dilma e MartaSua bronca com o partido é relativamente recente. Desde que o Lula, seu padrinho, deixou a presidência, os holofotes se desviaram pouco a pouco da senadora. Pra reverter a situação, ela bem que tentou algum golpe de estrelismo. Não funcionou. É situação pra lá de frustrante para quem se afiliou ao partido 35 anos atrás.

Pra pôr a coisa em termos polidos, direi que dona Dilma e ela não são exatamente amigas do peito. Desbocada como criança mimada, Marta pisoteou muita gente e colecionou inimizades. Nos próximos quatro anos, sua probabilidade de obter posto de destaque são franzinas. Desesperançada com a falta de perspectiva, a senadora – que completará 70 anos daqui a dois meses – resolveu chutar o pau da barraca.

Inimigas 1«Ou o PT muda ou acaba» – foi o que disse. Tenho o embaraçoso dever de lembrar à senadora que, como partido, o PT já acabou faz mais de dez anos. A antiga agremiação que lutava contra roubalheira e injustiças se degenerou, se abastardou, se desnaturou. Pulou a cerca e exibe hoje perfil de organização criminosa.

Já faz tempo que o Brasil inteiro entendeu a metamorfose desse curioso partido. Está na hora de dona Marta também reconhecer a realidade.

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A contar desta semana, a jornalista Eliane Cantanhêde passa a assinar uma coluna no Estadão. Suas análises aparecerão três vezes por semana. O link permanente está anotado na coluna da direita, no tópico meus links preferidos.

Frase do dia — 218

«All the media of Europe should respond to the Islamist terrorist assassinations in Paris by co-ordinated publication next week of selected cartoons from Charlie Hebdo, and a commentary explaining why they are doing this. Otherwise, the assassin’s veto will have prevailed.»

«Semana que vem, toda a mídia europeia deveria reagir aos assassinatos perpetrados em Paris pelos terroristas islâmicos com a publicação sincronizada de algumas charges do Charlie Hebdo, acompanhadas por um comentário sobre o porquê de estarem agindo assim. Do contrário, o veto dos assassinos terá triunfado.»

Timothy Garton Ash, historiador britânico, in The Globe and Mail.

Tomara que caia

Guilherme Fiuza (*)

by Jorge Braga, desenhista goiano

by Jorge Braga, desenhista goiano

«O mensalão e o petrolão não são casos de corrupção. Pertencem a um sistema de corrupção, montado sob a bandeira da justiça social e da bondade.

(…) E as investigações já mostraram que esse sistema esteve ligado diretamente ao Palácio do Planalto nos últimos dez anos. Um deputado de oposição disse que o maior medo do PT não era perder a eleição presidencial, mas que depois Dilma fizesse delação premiada.»

(*) Guilherme Fiuza é jornalista e escritor. Excerto de artigo publicado no jornal O Globo. Para ler na íntegra, clique aqui.

Fazenda e justiça

Sebastião Nery (*)

Arca 1O primeiro ministro da Fazenda do Brasil era corrupto. O primeiro ministro da Justiça do Brasil era corrupto.

O governador-geral Tomé de Souza, nomeado pelo rei de Portugal, desembarcou em Salvador em 1549, instalando a primeira capital do Brasil.

Os dois principais colaboradores do nascente poder colonial eram fidalgos portugueses com prestígio na corte de Lisboa. O primeiro, Antonio Cardoso de Barros, provedor-mor, era responsável pela arrecadação de impostos. O segundo, Pero Borges, ouvidor-mor, administrava a justiça. Roubaram muito, ficaram riquíssimos.

Pero Borges não veio por vontade própria. Havia sido condenado pela justiça portuguesa por ato de corrupção. Motivo: administrador da obra, desviara parte do dinheiro destinado à construção do aqueduto de Mafra, cidade próxima a Lisboa. Para livrá-lo da prisão, as relações familiares, com prestígio na Casa Real, negociaram sua vinda ao Brasil.

Dinheiro voadorQuanto a Antônio Cardoso de Barros, foi designado administrador das finanças públicas e gestor da economia. Sua missão: arranjar recursos para a construção da cidade de Salvador e áreas do Recôncavo baiano. Era de fato o ministro da Fazenda, tributando com rigor os poucos engenhos de açúcar já existentes. Parte dos recursos era incorporada a seu patrimônio pessoal. Ficou milionário e tornou-se proprietário de engenhos, acumulando poder e fortuna.

Era o tiro de largada na roubalheira do patrimônio público no Brasil.

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(*) Excertos de artigo do jornalista Sebastião Nery.