Com dedicatória

José Horta Manzano

No campeonato mundial da desigualdade social, o Brasil continua entre os primeiros colocados. A vertiginosa desigualdade não começou na semana passada. Nosso acachapante desempenho na matéria vem de longe e tem sido constante ao longo da história.

Já nos anos 1500, assim que os primeiros colonos se fixaram em estabelecimentos permanentes, a sociedade passou a dividir-se entre cidadãos do andar de cima e os demais. Os de cima eram os brancos, indivíduos livres. Os de baixo eram índios escravizados e privados de todos os direitos.

Nos séculos seguintes, a paisagem não mudou fundamentalmente. Os índios quinhentistas foram substituídos por negros africanos. Na sequência, estes últimos cederam lugar a um dégradé de populações que começa na classe média próspera, passa pelos remediados e vai até um oceano de dependentes (eternos e sem esperança) da bolsa família.

Há que reconhecer que, nos últimos anos, ações oficiais têm sido empreendidas visando a aplainar nosso brutal desnível social. Programas de quotas, bolsas várias, regimes preferenciais são algumas dessas ações. Muitas vezes são canhestras, não se sabe se intencionalmente ou por ignorância.

Mas ainda resta muito terreno a percorrer. A Justiça é um campo em que é flagrante a diferença de tratamento entre o que se dispensa a poderosos e o que se reserva para cidadãos humildes. Antigamente, se dizia, brincando, que “nunca se viu cidadão de gravata na cadeia”. Graças à Operação Lava a Jato, a situação mudou. Mas um pouquinho só, que a resistência do andar de cima é enorme. As alianças e cumplicidades são muitas.

Doutor José Dirceu, que um dia chegou a ser pressentido como futuro presidente da República, foi apanhado com a boca na botija. Condenado a 30 anos de cadeia por corrupção e lavagem de dinheiro, chegou a passar um curto período na prisão. Logo foi solto por simpatizantes instalados no mesmo andar de cima. Hoje cumpre «pena» em casa, livre de movimentos. Está tão bem de saúde e disposição que resolveu escrever uma autobiografia. Chama-se José Dirceu ‒ Memórias.

Se algum leitor gaúcho estiver interessado em adquirir o livro, esta quarta-feira lhe oferece oportunidade única. Doutor José Dirceu ‒ o criminoso condenado a 30 anos ‒ estará, em pessoa, recebendo admiradores e escrevendo dedicatórias numa noite de autógrafos organizada para lançamento de seu livro. Vai ter lugar às 19h, na Fetrafi (Porto Alegre), com direito a palestra e debate. Não percam!

O mundo dá voltas. Aquele que já foi presidente do partido que pretendia aplainar diferenças sociais no país aparece hoje como modelo do tratamento desigual dispensado pela Justiça no Brasil. Um perfeito contraexemplo.

Novela interminável e cansativa

José Horta Manzano

Quem diria?

Dois anos atrás, ninguém acreditava que o Lula fosse indiciado em processo criminal. Foi.

Dois anos atrás, ninguém imaginava que eventual processo pudesse prosperar nem que o homem pudesse ser interrogado. Foi.

Dois anos atrás, era impensável que fosse jamais julgado. Foi.

Dois anos atrás, nenhum habitante deste país ‒ nem o mais ingênuo ‒ sonhava que o homem pudesse ser condenado. Foi.

Dois anos atrás, nenhum vivente ousava antever que eventual condenação viesse a ser confirmada por tribunal colegiado. Foi.

Dois anos atrás, nenhum brasileiro acreditava que o temível «exército do Stédile» fosse apenas figura de linguagem. Foi.

Dois anos atrás, era inconcebível que um pedido de habeas corpus para livrar o guru da prisão fosse negado. Foi.

Chegamos ao antepenúltimo ato de uma tragicomédia de mau gosto. O capítulo desta semana é o lançamento de um livro atribuído ao Lula, embora tenha sido escrito por fiéis escudeiros. A obra traz palavras surpreendentes imputadas ao demiurgo.

Contrariando o que, dois anos atrás, seria simplesmente impensável, o ora condenado garante que está pronto para ser preso. Esquecido de alguns episódios pouco gloriosos do passado, nosso guia declara ainda que a palavra fugir não existe em seu dicionário. Assegura, por via de consequência, que não vai tentar escapar ao encarceramento.

Quem viver, verá.

Le casse du siècle

José Horta Manzano

Na manhã da segunda-feira 19 de julho de 1976, os funcionários da agência de Nice (França) do Banco Société Générale ficaram intrigados. Quando o encarregado foi ao subterrâneo buscar dinheiro para distribuir aos caixas antes da abertura ao público, constatou que a pesada porta de aço blindado da sala dos cofres não se abria. Tenta daqui, tenta dali, e nada. Chamaram ajuda externa.

Serralheiros tampouco lograram destravar a blindagem. Foi preciso chamar reforço e arrombar a porta. Ao penetrar no salão, deram-se conta de que a porta havia sido soldada por dentro. Olhando entorno, contemplaram um espetáculo desolador: 371 cofres de clientes haviam sido arrombados e pilhados. Pior que isso, a porta que dava para o cofre central da agência estava aberta e, no lugar do compartimento blindado, havia um enorme buraco.

Passado o primeiro momento de estupor, caíram na real: o banco havia sido assaltado durante o fim de semana. Feitas as contas, chegou-se a uma estimativa do valor subtraído. Tinham desaparecido quarenta e seis milhões de francos da época, equivalentes a 30 milhões de euros atuais (100 milhões de reais).

Agência de banco assaltada

Na verdade, nunca se conhecerá o valor exato, dado que clientes costumam armazenar valores cuja existência preferem dissimular do fisco. Estava consumado «le casse du siècle» ‒ o assalto do século. Nem um centavo dos valores roubados foi recuperado até hoje. Ficou famosa a frase que os malfeitores deixaram escrita a giz na parede: «Ni coup de feu, ni violence, ni haine» ‒ nem tiro, nem violência, nem ódio.

Toda a força policial da França arregaçou as mangas pra descobrir os autores. Um assalto daquela envergadura não era obra de uma pessoa só. Uma equipe robusta e aguerrida tinha de estar por detrás. As investigações revelaram que os malfeitores, depois de descer pelas bocas de esgoto a uns 100m de distância, tinham levado três meses escavando um túnel. Tinham feito uso de material sofisticado levado ao local peça por peça pra não despertar suspeita.

Foram logo apanhados três ou quatro indivíduos, velhos conhecidos da polícia. Confessaram ter feito parte da turma dos tatus, mas eram arraia miúda. O que se procurava mesmo era o cérebro do bando. Descobriram que seria um tal de Monsieur Spaggiari, notório integrante da bandidagem. Encontrado, foi preso e acusado. Seis meses mais tarde, durante um interrogatório, o homem conseguiu escapulir. Peregrinou durante anos por França, Oropa e Bahia. Até pelo Brasil, o homem passou. Jamais recapturado, faleceu em 1989.

A façanha rendeu três filmes, mas a busca pelos malfeitores, passados tantos anos, foi aos poucos abandonada. Quase quarenta anos mais tarde, é lançado um livro em que o escritor se denuncia e revela ser o verdadeiro chefe do bando, o autor intelectual. A obra foi escrita sob pseudônimo mas, em casos assim, a justiça tem direito a conhecer quem se esconde por detrás. Não tardou a baterem à porta de um certo Monsieur Cassandri, que acabou detido e interrogado.

Seu advogado argumentou que o crime estava prescrito, razão pela qual o assaltante se tinha sentido livre pra confessar a façanha ao distinto público. De fato, pela lei francesa, o falastrão não pode mais ser processado pelo roubo. Só que não previram um detalhe: a lei não prevê prescrição para o crime de lavagem de dinheiro.

Trajeto da boca de esgoto até o banco

Monsieur Cassandri ‒ que não consta tenha jamais trabalhado na vida ‒ é homem rico. Nestes quarenta anos, saindo do nada, comprou, entre outras coisas, uma casa nos Alpes, um night-club em Marselha, numerosos terrenos na Córsega. Investiu ainda dezenas de milhares de euros em casacos de pele. Dado que os originais do livro foram encontrados em seu computador, o assaltante não teve como negar a autoria.

O resultado da vaidade foi pesado. Não só o autor do assalto como esposa, filhos e outros chegados estão sendo processados por lavagem de dinheiro. De fato, toda a família participou da festança. Atualmente, estão todos prestando contas à Justiça de Marselha. Vai ser difícil escaparem à mão pesada de desabusados juízes.

Moral da história:
Segredo é pra quatro paredes. Não vale a pena vangloriar-se desse tipo de proeza ‒ nunca se sabe.

Cum fovet fortuna, cave, namque rota rotunda
Quando a fortuna te favorece, tem cuidado porque a roda gira.

O preço da vaidade

José Horta Manzano

Quatro anos atrás, quando foi eleito e assumiu a presidência da França, monsieur François Hollande se sentia como se estivesse sentado numa nuvem, pairando sobre a humanidade. Tinha chegado lá! Ele não é um caso especial. Todo figurão político, uma vez eleito para cargo importante, parece entrar num universo paralelo. É difícil escapar ao sentimento de superioridade, à impressão de invulnerabilidade daquele que já entrou para a História.

Por aqueles dias, dois jornalistas do jornal Le Monde pensaram em escrever um livro contando a história da presidência Hollande. Pediram entrevista ao presidente e apresentaram-lhe a ideia. Montar o livro era obra de paciência. Ficou combinado que, ao longo de três ou quatro anos, os dois escritores teriam encontros com o presidente para recolher suas confidências.

francois-hollande-10Agora, seis meses antes do fim do mandato de monsieur Hollande, o livro finalmente ficou pronto e acaba de ser posto à venda. Traz o resumo de mais de sessenta encontros, espalhados por quatro anos em cerca de 200 horas de conversa. Como se sabe, a desgraça atrai mais a atenção do que a felicidade. Todos os jornalistas do país leram rapidamente a obra a fim de descobrir as passagens mais picantes.

Os autores, por seu lado, não foram lá muito bonzinhos na hora de escolher título para o livro. Chamaram-no «’Un président ne devrait pas dire ça…’» ‒ ‘Um presidente não deveria dizer isso…’. Puseram entre aspas, dado que a frase foi realmente pronunciada pelo próprio presidente em algum momento das entrevistas. Com isso, evitaram toda acusação de traição e turbinaram a venda da obra. O livro se vende às pilhas em todas as livrarias e supermercados.

Em 200 horas de bate-papo, sai muita coisa boa, mas é inevitável que o gravador registre bobagens também. Saiu muita besteira, que incomodou muita gente. Uma delas, mais contundente, sacudiu o coreto. É o trecho em que o presidente qualifica os magistrados como «lâches», que equivale a covardes ou frouxos. Ai, ai, ai…

A magistratura se alevantou indignada. A grita foi tão estrondosa que obrigou o presidente a pedir desculpas públicas. Disse ele que o que disse não era bem o que disse, que a coisa não era bem assim, que havia sido mal compreendido. Soltou aquelas desculpas esfarrapadas de quem não tem como justificar um escorregão. Sua humilhação serviu para acalmar um pouco o escândalo. Ah, essa vaidade que acomete os poderosos… Imaginam-se todos acima do bem e do mal, sentimento ilusório.

francois-hollande-11O episódio me trouxe à lembrança certas falas do ex-presidente Lula. Também ele um dia imaginou-se inatingível. Disse cobras e lagartos. Com verbo tosco, agrediu a magistratura, numa tentativa desastrada de desqualificar justamente aqueles que, um dia, poderiam ser chamados a julgá-lo. Taí: o momento chegou.

Como o distinto leitor pode se dar conta, nosso guia não foi o único a cair na armadilha. É perigoso e contraproducente indispor-se contra a Justiça. Como se costuma dizer, não convém cuspir pra cima. O mundo dá voltas e a cusparada periga cair em cima do bravateiro. A coisa vai e a coisa vem ‒ ninguém revoga as leis da física.

Mãe, tirei zero!

José Horta Manzano

Saíram os resultados do Enem, exame a que se submetem alunos do ensino médio. Diferindo da antiga prática de cada escola avaliar por seus próprios critérios, o exame atual é padronizado. Igual para todos.

Tem suas limitações, na medida que não leva em conta particularidades regionais. Tem suas vantagens dado que, como passa todos os examinandos pela mesma peneira, os resultados são comparáveis.

Seja como for, as notas da prova de redação, publicadas ontem, são inquietantes. Dos seis milhões de candidatos, meio milhão lograram a façanha de levar zero. Zero, minha gente! Sabe o que é isso?

De cada dez jovens que chegam ao fim da escola média, um não consegue preencher nenhum dos critérios exigidos para a prova de redação. Não tem capacidade de se exprimir. Ou de entender o enunciado.

E aqui falamos só dos que tiraram zero. Não tenho informação sobre os que levaram nota um, dois, três. Imagino que sejam numerosos, haja vista a avalanche de zeros. Por que isso acontece?

Temos, no Brasil, um bilinguismo de facto. O distanciamento cada vez mais acentuado entre a língua caseira e a língua formal, criou o que linguistas qualificam de diglossia – um bilinguismo em que uma das variantes tem mais prestígio.

ExameEsse fato, no entanto, não saberia responder sozinho pelo fracasso dos brasileirinhos quando se lhes põe uma caneta entre os dedos. Outras regiões do mundo são atingidas pelo mesmo fenômeno sem que ele se converta em iletrismo.

A língua materna de oitenta porcento dos suíços não é a língua de cultura da região. Em casa, suíços alemães e suíços italianos falam cada qual seu dialeto. Só vão aprender a língua formal na escola.

Ainda hoje, a maioria dos italianos tem um dialeto por língua materna. Muitos alemães se encontram nessa situação. Nem por isso, suíços, italianos e alemães chegam ao final da escola média sem conseguir se exprimir por escrito. Portanto, o problema brasileiro não é esse. Antes, deveria ser considerado uma riqueza, uma oportunidade a mais.

Quando fiz a escola média, não havia internet. Para procurar o significado de uma palavra, tinha de se levantar, ir até a estante, pegar o dicionário, abrir na página desejada. Hoje, com dois cliques, se resolve o problema.

Escrita 3Não se «baixavam» livros. Para ler, tinha de comprar – o que nem sempre era possível, que o dinheiro era pouco. O mais simples era tomar emprestado. Tinha de ir até a biblioteca, preencher a ficha, mostrar documento, levar o livro pra casa, ler, voltar à biblioteca e devolver. Uma maratona.

Vamos partir da premissa que o brasileiro médio não emburreceu. Quanto à leitura e ao aprendizado, ficaram mais accessíveis. Onde está o problema então? Na minha opinião, o que mudou foram as exigências e as expectativas da sociedade.

Já não se atribui à formação, à cultura e à erudição o mesmo valor que antes. Essa degringolada começou trinta, quarenta anos atrás. Não é obra deste ou daquele governo, embora seja inegável que os últimos doze anos contribuíram para acelerar o declínio.

Estudante 2É muito difícil elevar, de chofre, o padrão de cultura da população – principalmente porque as autoridades, incultas, não se dão conta do problema. Mais fácil será baixar o nível de exigência do Enem.

Assim como sutis mudanças em parâmetros estatísticos promoveram milhões de brasileiros à classe média, miúdas alterações nos critérios de avaliação do Enem promoverão os brasileiros ao nível de povo culto. Por que não?

Não trará cultura, mas aliviará consciências.