Os frontaleiros

José Horta Manzano

Você sabia?

Frontaleiro é neologismo que acabo de inventar. Serve para designar pessoas que trabalham num país e residem noutro. Não é sinônimo perfeito de nossa palavra fronteiriço.

Em princípio, os frontaleiros cruzam a fronteira diariamente, ida e volta. Dependendo da distância entre o domicílio e o trabalho, há até quem faça o trajeto quatro vezes por dia. São os que têm tempo de almoçar em casa.

Presença de trabalhadores "frontaleiros" em diversas regiões da Suíça

Presença de trabalhadores “frontaleiros” em diversas regiões da Suíça

Embora frontaleiros existam em outros pontos do mundo, são fenômeno corriqueiro em certas regiões da Europa: na Suíça, por exemplo. A população economicamente ativa do país é de cerca de cinco milhões de indivíduos dos quais 300 mil são frontaleiros, contingente que atravessa a fronteira duas vezes por dia.

Duas razões principais fazem que a Suíça exerça forte atração sobre as regiões imediatamente vizinhas: os salários helvéticos são mais elevados e a oferta de empregos da vizinhança é baixa.

Durante os últimos anos, o Banco Nacional Suíço se empenhou em manter o valor do franco suíço artificialmente baixo a fim de socorrer exportadores e favorecer a vinda de turistas. Conseguiu seu intento à custa de comprar bilhões de euros. Mas tudo tem seu limite e a hora chegou de tomar outro rumo.

Vendo que não fazia mais sentido insistir nessa política de conter artificialmente a alta do franco, o banco central deixou de comprar euros e abandonou a moeda nacional duas semanas atrás. Permitiu, assim, que a flutuação siga as leis do mercado. A consequência foi imediata: o franco suíço valorizou-se 20% com relação ao euro e a todas as outras moedas. Subiu às alturas e lá ficou.

Paridade entre euro e franco suíço

Paridade entre euro e franco suíço

Nossos 300 mil frontaleiros, que recebem em franco e gastam em euro, abriram sorriso de orelha a orelha: da noite para o dia, tinham recebido 20% de aumento, presente do céu! O salário subiu enquanto as despesas domésticas continuam as mesmas. Maravilha!

Mas tem um porém. Algumas empresas suíças, especialmente as de setores voltados à exportação, passaram a enfrentar grande dificuldade em vender seus produtos que, em 24 horas, se tornaram vinte porcento mais caros.

Os funcionários frontaleiros, conscientes da ameaça que isso representa para seu próprio emprego, estão propondo a seus empregadores – espontaneamente! – uma diminuição de salário. Não fazem isso por compaixão, mas para salvaguardar o emprego.

Não há felicidade perfeita. Às vezes, há que saber entregar os anéis para salvar os dedos.

Dívidas, bolas & balas

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Notícia boa não vende jornal – todo empresário da mídia e todo jornalista sabe disso. Nada como uma boa desgraça para atrair leitor. Quanto mais dramática for, maior será o interesse de quem lê.

Isso vale não só para o Brasil, mas para o mundo todo. Na falta de cataclismas, nosso país tem sido lembrado, estes últimos dias, por problemas crônicos: finanças públicas, clubes de futebol endividados e balas perdidas.

Estatísticas 3O conceituado jornal francês Le Monde constata que, francamente, a «magia brasileira» já não funciona. Informa a seus leitores que a sétima economia mundial terminou o ano de 2014 com um déficit primário – fato que ocorre pela primeira vez desde 2002.

O jornal considera que o déficit deverá compelir dona Dilma a primeiro implementar medidas de recuperação das finanças públicas para, só então, pensar em retomada do crescimento.

Futebol 1A versão francesa do portal esportivo Yahoo revela alguns problemas do futebol profissional brasileiro. Segundo o artigo, os principais clubes brasileiros estão mergulhados num oceano de dívidas.

Na origem do problema, estariam má gestão e o momento economicamente difícil que o país atravessa. O portal conta que os doze times principais devem ao governo, em conjunto, mais de 600 milhões de dólares em impostos – praticamente o valor investido na renovação do Maracanã.

Crédito: Yann Arthus-Bertrand

Crédito: Yann Arthus-Bertrand

Finalmente, a RFI – Radio France International volta a repisar assunto pra lá de espinhoso: as vítimas inocentes de balas perdidas. O problema é grave e sua solução, problemática. RFI relata que 16 pessoas foram atingidas, no Rio, neste primeiro mês do ano. Os franceses ficam sabendo que a audácia dos bandidos aumenta a cada dia e que malfeitores já não hesitam em atacar delegacias implantadas nas próprias favelas.

Revela-se também que uma bala perdida pode percorrer até três quilômetros antes de matar alguém. Para o público francês é inconcebível que, no coração da metrópole maravilhosa, cidadãos comuns possam diariamente ser vítimas de tiros.

Na Síria, no Iraque, no Afeganistão, ainda vá lá. Mas no Rio…

 

Missão de espionagem

Sebastião Nery (*)

Siqueira Campos, chefe da conspiração de 1930 em São Paulo, chamou Oscar Pedroso Horta, redator do Estado de São Paulo. Disse-lhe:

– Preciso renovar meus códigos de comunicação com Prestes, que está em Buenos Aires, levar uns mapas para ele organizar os planos do levante e trazer de lá um aparelho de rádio mais potente. Mas não esqueça: são mapas de guerra, privativos das Forças Armadas. Você vai cometer um crime de traição à Pátria. Topa?

Mapa 2Pedroso Horta topou. Pegou um avião da Nirba numa praia de Santos, dormiu em Porto Alegre, continuou para Montevidéu e voou para Buenos Aires, com aquele rolo enorme de mapas debaixo do braço. Foi para o hotel. De manhã, procuraria Prestes no endereço marcado.

De repente, batem à porta do quarto. Era um homenzinho muito magro, com botinas de elástico:

– Sou o comandante Luís Carlos Prestes. O senhor não é Oscar Pedroso Horta? Trouxe uma encomenda de São Paulo para mim?

– Não o conheço. Vim a negócios. Não trouxe nada para ninguém.

O homenzinho foi-se embora. Pedroso Horta trocou logo de hotel, pegou um táxi e foi ao endereço de Prestes. Bateu à porta. Alguém abriu. Era exatamente o homenzinho muito magro: Prestes.

(*) Excertos de artigo do jornalista Sebastião Nery.

Do Enem ao Nobel

Gerson de Almeida (*)

Estudante 8«A Argentina tem cinco prêmios Nobel, nenhum em literatura. Poderia ter seis: Borges foi severamente injustiçado. E citei os argentinos mais pela birra dos brasileiros: “somos pentacampeões!”. Ao olhar a galeria de notáveis argentinos devemos ficar quietinhos.

Em literatura, a Colômbia tem um. O Chile tem dois – um stalinista, mas valeu. O México tem um. O Peru tem um. Até a Guatemala, do tamanho do seu quintal, leitor, tem um Nobel! Nóis num guenta!

(…) Quando o Brasil terá um Nobel? Pelo resultado do último Enem… nunca! Nunquinha mesmo»

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(*) Citação extraída de artigo de Gerson de Almeida, colaborador do blogue literário Verso & Prosa.

Censura à francesa

José Horta Manzano

Com um número de desempregados girando em torno de 10% da população em idade de trabalhar, a França luta contra a estagnação. Já houve momentos piores, mas o crônico problema é causa de permanente angústia.

by Kianoush, desenhista iraniano

by Kianoush, desenhista iraniano

No Brasil, até 1994, o assunto principal era a inflação. Hoje, a corrupção dos políticos subiu à ribalta e suplanta qualquer outro tema. Nossa inflação, pelo menos por enquanto, passou para segundo plano.

Na França, faz trinta anos que o desemprego serve de pano de fundo a toda discussão política. Vez por outra, algum acontecimento extraordinário oculta, por um momento, a preocupação tradicional. Mas a eclipse é de curta duração. A realidade volta logo a dominar.

Censura 2Monsieur Hollande, presidente de todos os franceses, chegou a declarar publicamente, ano passado, que sua candidatura à reeleição estava ligada à «inversão da curva do desemprego». Em miúdos: caso o número dos que buscam trabalho não diminua daqui até 2017, ele não concorrerá a novo mandato, jogará a toalha, entregará o trono ao sucessor e voltará pra casa, rabo entre as pernas. Se manterá ou não a palavra dada, só o tempo dirá. De todo modo, a promessa presidencial dá a dimensão do problema da escassez de emprego na França.

No fim de 2014, o governo francês anunciou projeto de lei-ônibus para lutar pela recuperação econômica. São inúmeros artigos que tratam de assuntos variados: liberalização do horário de funcionamento de estabelecimentos comerciais, flexibilidade de autorização a particulares para se dedicar ao transporte público, afrouxamento no registro de certas profissões regulamentadas, simplificação de funcionamento de cadernetas de poupança, abrandamento de normas de dispensa de funcionários.

Censura 3Entre as modificações previstas, está uma que causou rebuliço. Trata da abolição do sacrossanto direito que a mídia tem de guardar segredo quanto a suas fontes de informação. O projeto pretendia afrouxar as normas vigentes. A mídia francesa enxergou aí uma tentativa de cerceamento do direito de informar. Levantou-se clamor nacional.

Censura 4O governo cedeu. Retirou do projeto o artigo que mexia no segredo profissional dos jornalistas. A lei que será proposta ao parlamento não comportará nenhuma menção à liberdade de imprensa. Fica afastado o espectro da censura disfarçada.

Enquanto isso, no Brasil, o governo continua insistindo em seu famigerado plano eufemisticamente chamado de «controle social da mídia». Espero – e acredito – que nosso Congresso não ousará votar nenhum dispositivo nesse sentido. Se bem que, com parlamentares que temos, acostumados a sacrificar o bom senso em prol de benefícios pessoais, nada é garantido. É bom desconfiar e convém manter a vigilância. O futuro dirá.

A Copa e as Olimpíadas

José Horta Manzano

Não se deve ter os olhos maiores que o estômago. Não convém botar no prato quantidade maior do que se vai comer. Quem assim fizer, periga dar vexame e decepcionar comensais.

JO 2020 3O Campeonato Mundial de Futebol (hoje chamado Copa do Mundo) e os Jogos Olímpicos de Verão (também ditos Olimpíadas) são os encontros esportivos mais importantes do mundo. Concorridos, frequentados, badalados e comentados, são preparados com esmero por atletas e pelo país-sede.

Ambos os eventos se realizam a cada quatro anos. Não por acaso se alternam, com dois anos de intervalo, como se um não quisesse pisar o pé do outro. O Brasil conseguiu que lhe fosse atribuída a organização dos dois megaeventos, assim seguidinho, um em 2014 e o outro em 2016.

Há quem acredite que foi por coincidência. Não é meu caso. Embora não seja de conhecimento público, tudo fica registrado nalgum lugar. Tenho certeza de que, um dia, as «gestões» responsáveis pela atribuição dos dois certames ao Brasil serão reveladas à luz do sol.

O governo brasileiro apostava todas as fichas na Copa 2014. Acostumados a navegar em mar de fantasia, tinham certeza de que – com a colaboração ativa do Todo-poderoso – o Brasil levaria a taça. Deu no que deu: panes de som nos estádios, obras inacabadas, metrôs e trens-bala inexistentes, vaias à presidente, retumbante fiasco esportivo. A olhos estrangeiros, a imagem de nosso País perdeu um bocado de seu brilho.

Crédito: Shizuo Kambayashi

Crédito: Shizuo Kambayashi

Tudo isso entornou água fria na expectativa que os Jogos Olímpicos despertavam. A pouco mais de um ano do evento que reunirá a nata do esporte mundial, pouco se fala neles. Nossa presidente já deve estar considerando se vale a pena participar da abertura oficial e correr o risco de levar mais uma vaia planetária.

Mas que fazer? Combinado está. O Brasil e, em especial, o Rio de Janeiro têm de se aplicar. Falta muito pouco tempo e ainda há muito que fazer. Falando em falta de tempo, o Japão, que hospedará em 2020 a edição seguinte das Olimpíadas, já arregaçou as mangas.

JO 2020 4Como também acontece no Brasil, fluência em línguas estrangeiras não é o ponto forte dos japoneses. Que não seja por isso, que há remédio pra tudo. O governo japonês já tomou as medidas que julga necessárias para preencher essa lacuna. Especial atenção está sendo dedicada à formação de policiais, bombeiros, garçons e guias fluentes em inglês.

Seminários de formação de guias bilíngues estão sendo organizados. O objetivo das autoridades de Tóquio para 2020 é dispor de 35 mil colaboradores bilíngues para dar apoio aos turistas e mostrar-lhes o espírito acolhedor dos japoneses.

Alguém sabe quantos guias bilíngues foram formados para os JOs do Rio? Procurei, mas não encontrei a resposta. Talvez algum distinto leitor possa me iluminar.

Lata d’água

José Horta Manzano

Copo d'água 2No Rio de Janeiro, na noite de 19 para 20 jan° 2009, faleceu o compositor paraense Joaquim Antônio Candeias Júnior, também conhecido como Jota Júnior. Tinha 85 anos.

O artista havia atingido seu apogeu nos anos 1950, quando suas obras foram gravadas por dezenas de cantores – dos bons. Francisco Alves, Jair Rodrigues, Marlene, as Irmãs Batista, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Nélson Gonçalves, Ângela Maria estavam entre os que se valeram de composições de Jota Júnior.

Sassaricando, Confete, Sapato de pobre (é tamanco), Garota de Saint-Tropez, Lata d’água (na cabeça) são algumas de suas centenas de composições. É justamente esta última que me inspira uma reflexão.

Lata d'água 1Nos tempos em que a personagem de Jota Júnior subia o morro levando sua reserva de água, todos dizíamos «lata d‘água». Ninguém ousaria o esquisito «lata de água». Simplesmente porque a expressão «lata d‘água» subentendia que a lata já estava cheia. «Lata de água» descrevia apenas o recipiente, sem informar se estava cheio ou não.

O mesmo se pode dizer de outra mazela carioca: a «falta d‘água», que já atormentava a população em tempos bem mais chuvosos que os atuais.

Parece cheio, mas cabe mais água by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Parece cheio, mas cabe mais água
by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Quem tinha sede costumava pedir um «copo d‘água», jamais um «copo de água» nem – horror dos horrores! – um «copo com água».

Enchentes e racionamentos permanecem, mas a língua mudou. A «lata d‘água», a «falta d‘água», o «copo d‘água» têm perdido terreno. Fiz uma pesquisazinha caseira no site do jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Considerando essas três locuções, contei o número de vezes em que aparecem na forma contraída (d’) e na forma extensa (de). É curioso notar que a forma extensa vem ganhando de goleada sobre a contraída.

Vejam o quadro com a porcentagem de ocorrência de cada forma:

Interligne vertical 14Falta d’água   27%
Falta de água  73%

Copo d’água    16%
Copo de água   84%

Lata d’água     9%
Lata de água   92%

Faz sentido. Se morro e clima mudaram e os anseios de cada um também, por que a fala permaneceria estática? Que venha muita chuva e que nos deixe «debaixo de água»!

Advertência importante:
A amostragem que serviu de recheio para este artigo não tem valor científico. Eventuais reclamações devem ser endereçadas a Google Corporation, Mountain View (CA), EUA.

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Clique aqui quem quiser recordar Marlene e sua Lata d’água, lembrança nostálgica de uma época em que, no morro, ninguém arriscava servir de ponto final para bala perdida.

Frase do dia — 220

«A deslegitimação que vem por aí abalará primeiro o PT. Na mesa do juiz Moro há denúncias que abalarão também o PMDB e o PSDB, isso para se falar só dos três maiores partidos.

A Operação Mãos Limpas italiana varreu partidos políticos minados pela corrupção e fortaleceu o regime democrático. Até onde a vista alcança, no Brasil acontecerá a mesma coisa.»

Elio Gaspari em sua coluna d’O Globo, 28 jan° 2015.

Dilma não escapa das críticas

José Horta Manzano

Suisse 11Dia 22 de janeiro, publiquei o post Morreu de medo…, que trata da imperdoável ausência da presidente da República no Fórum Econômico Mundial.

Eu dizia que os ausentes costumam ficar na berlinda e ser alvo da maledicência dos que compareceram. Dito e feito. O jornalista Cláudio Humberto nos informa sobre a sequência dos acontecimentos em Davos.

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Interligne vertical 16 3KbRoubalheira nos envergonha

Cláudio Humberto (*)

A comitiva brasileira no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, têm sido questionada sobre o escândalo de corrupção na Petrobras, a mais global das grandes empresas brasileiras. Funcionário do governo alemão até pediu a um diplomata brasileiro para confirmar a informação de que há políticos de partidos governistas que, se não forem presos, poderão até virar ministros do governo Dilma Rousseff.

O funcionário alemão curioso referia-se a Henrique Alves (PMDB-RN) e Ciro Nogueira (PP-PI), que ainda podem virar ministros.

Suisse 12Além da expressão de espanto, diplomatas brasileiros ainda têm de enfrentar sorrisos dissimulados ridicularizando a corrupção no Brasil.

Joaquim Levy deixou boa impressão em Davos, mas diplomatas acham que a tarefa – insubstituível – de atrair investidores era de Dilma.

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(*) Excerto de artigo do jornalista Cláudio Humberto, publicado no Diário do Poder.

Terra do cruz-credo

José Horta Manzano

Você sabia?

Assalto 2Como faz a cada ano, o respeitado instituto mexicano Seguridad, Justicia y Paz publicou estudo que mede a criminalidade urbana no planeta. Divulgou a lista das 50 cidades mais violentas do mundo – pelo critério de número de homicídios em relação à população.

O país campeão estourado em matéria de violência urbana – o distinto leitor já deve desconfiar – é nossa amada Terra de Santa Cruz. Que digo? Santa Cruz? Está mais para cruz-credo!

A lista de 2013 trazia 16 cidades brasileiras entre as 50 mais violentas do mundo. A edição 2014 não só confirma a presença das mesmas dezesseis como também acrescenta três: são agora 19. Em números redondos, quatro entre as dez cidades mais violentas – considerados todos os continentes e todos os países – se encontram no Brasil. Nosso País segue firme na vanguarda do crime. Nossa dianteira é de tal importância que dificilmente poderemos ser alcançados. Somos imbatíveis.

Crime 1Contrastando com as autoridades das outras 18 cidades brasileiras mencionadas no estudo, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás não gostou de ver a capital do Estado mais uma vez na lista da vergonha.

Aderindo a estratégia muito em voga no Brasil atual, tentou menosprezar a mensagem e «desconstruir» o mensageiro. Criticou o instituto mexicano, sua metodologia e seus dados. Tentou desqualificar e desmerecer o estudo. Disse que estavam errados, que não era bem assim, que, no fundo, não se matava tanto em Goiânia.

Charge publicada no site Seguridad, Justicia y Paz

Charge publicada no site
Seguridad, Justicia y Paz

Mexeram em vespeiro. Tiveram direito a uma longa resposta, com números, fontes e tabelas, assinada pelo presidente do instituto. O artigo está em destaque no site da ong, exposto a quem quiser ler. As autoridades goianas atiraram no estafeta e acertaram o próprio pé. Para coroar, ganharam a charge que vai reproduzida aqui acima.

As 19 cidades brasileiras constantes da lista das 50 mais violentas do mundo em 2014 são as seguintes:

Posição   Cidade             Taxa(1)
———————————————————————————————————
04        João Pessoa        79,41
06        Maceió             72,91
08        Fortaleza          66,55
10        São Luís           64,71
11        Natal              63,68
15        Vitória            57,00
16        Cuiabá             56,46
17        Salvador           54,31
18        Belém              53,06
20        Teresina           49,49
23        Goiânia            44,82
29        Recife             39,05
30        Campina Grande     37,97
33        Manaus             37,07
37        Porto Alegre       34,65
39        Aracaju            34,19
42        Belo Horizonte     33,39
44        Curitiba           31,48
46        Macapá             25,45

(1) Homicídios intencionais por 100 mil habitantes

Para efeito de comparação, note-se que a taxa global brasileira beira 25 homicídios intencionais por 100 mil habitantes, número altíssimo.

Assalto 1É verdade que estamos numa situação menos sinistra que a infeliz Venezuela (45 por 100 mil). No entanto, estamos bem longe de uma Alemanha (0,8), de um Japão (0,4) ou de uma pacífica Hong Kong (0,2). Ainda temos longo caminho a percorrer. Será trabalho para as próximas gerações. Com sorte, os netos de nossos netos conhecerão um país mais civilizado.

Obs:
Quem quiser consultar o estudo completo do instituto, pode descarregá-lo, em língua portuguesa e em formato pdf, aqui.

A deputada e as medalhas

José Horta Manzano

Não sei qual terá sido a repercussão do folclórico episódio protagonizado por uma deputada estadual gaúcha que outorgou a 21 de seus familiares a Medalha do Mérito Farroupilha – mais alta honraria oferecida pela Assembleia do Rio Grande do Sul.

Se alguém ficou sem saber, pode ler a notícia no Estadão ou na Folha de São Paulo. Transcrevo agora a reação irônica e bem-humorada do jornalista gaúcho David Coimbra.

Interligne 18h

Interligne vertical 16 3KfUm pedido para a deputada das medalhas

David Coimbra (*)

Medalha 3Não é verdade que a deputada Marisa Formolo, do PT, homenageou 21 parentes na Assembleia Legislativa. Nada disso. Foi VOCÊ quem homenageou os 21 parentes da deputada, o marido dela, filhos e netos, todos aqueles cunhados, mais um genro e, o que mais me surpreende, uma nora – as mulheres em geral não se dão bem com as noras.

Sim, foi VOCÊ e, glup, eu também, porque a Assembleia Legislativa representa o povo do Rio Grande do Sul. Nós é que pagamos aquelas medalhas que os Formolo ostentarão com orgulho cívico na galinhada de domingo. Espero que ninguém deixe a medalha que nós demos cair na sopa de capeletti.

A deputada disse que tomou essa iniciativa para valorizar a família. Achei bonito. Tanto que venho aqui, como contribuinte e cidadão, fazer uma solicitação à parlamentar. É o seguinte:

Dona Marisa, gostaria, por favor, que o povo do Rio Grande do Sul desse uma medalha para a minha mãe. Dona Diva, o nome dela. A minha mãe, digo.

Medalha 1Veja, deputada: minha mãe era professora da rede estadual de ensino. Só por isso ela merecia ser homenageada. Ensinou criancinhas por anos e anos e anos. Eu mesmo testemunhei galalaus se aproximando emocionados dela e balbuciando, como se ainda fossem meninotes: “Profe… senhora me ensinou a tabuada…”

Mas, depois de se desquitar, minha mãe não conseguiu sustentar os três filhos com o salário pago pelo mesmo Estado que paga o seu salário, deputada. Assim, ela foi ser vendedora de livros da Abril Cultural. Trabalhava sábados, domingos e, desta forma, os três filhos conseguiram fazer faculdade, sonho de toda família descendente de imigrantes.

Medalha 4Verdade que a minha mãe nunca foi do PT. Reconheço que isso pesa contra a concessão da homenagem. Ser do PT é legal porque você pode fazer o que quiser, mentir na campanha, montar caixa dois, tomar algum da Petrobrás, tudo, e continuará com a imagem de defensor dos oprimidos. Você pode até ser preso, que entrará no presídio de punho cerrado, vitorioso, uma vítima dos poderosos. É lindo ser do PT.

Medalha 2Li também que seu irmão foi agraciado com a maior honraria do Estado porque foi presidente de sindicato. Droga. Minha mãe nunca foi presidente de sindicato. Não dava tempo! Ela tinha de trabalhar para pagar as prestações do BNH, as contas da casa, os livros que a escola pedia todo começo de ano, essas coisas que as pessoas que não têm medalha pagam.

Por fim, fiquei sabendo que a senhora é autora do projeto de lei que institui a Política Estadual de Apoio ao Bambu, no que, evidentemente, teve o respaldo e o incentivo de toda a sua prolífica e engalanada família. Maldição! Que eu saiba, minha mãe nunca deu muita bola para o bambu.

É… pensando bem, deixa a minha mãe sem homenagem mesmo. Vou ter de avisar a Dona Diva que o almoço de domingo vai ser sem medalha.​

(*) David Coimbra é colunista do jornal gaúcho Zero Hora.

Crise de vocações

José Horta Manzano

Você sabia?

Rivaz, o menor município suíço Superfície: 0,3 km2

Rivaz, o menor município suíço
Superfície: 0,3 km2

«Procuram-se candidatos a vereador» – é anúncio que poderia ser feito na Suíça. E não é garantido que surtisse efeito. Nesse particular, o país atravessa verdadeira crise de vocações. Poucos são os que se dispõem a seguir carreira política.

Também, pudera. Boas estimativas indicam que o país conta com 150 mil eleitos(!), número elevado para uma população total de 8 milhões. Trocando em miúdos, um em cada 50 cidadãos exerce cargo eletivo. Parece uma orgia de dinheiro público desperdiçado, não é? Pois já verá o distinto leitor que a realidade é um bocado diferente.

Território escarpado, árido, sem riqueza mineral, de agricultura problemática, a Suíça atraiu pouca cobiça no passado. Até o advento de Napoleão – cujo objetivo era controlar a Europa inteira– ninguém tinha espichado olhos gananciosos para este rincão encarapitado nos Alpes.

Corippo, o município menos habitado População: 18 pessoas

Corippo, o município menos habitado
População: 18 pessoas

Assim, a Suíça nunca viveu sob a lei de um monarca. É formada por territórios, ditos cantões, que se foram agregando ao longo dos séculos. Cada um dos cantões é composto por municípios. Na maioria dos casos, o território municipal é exíguo – herança da divisão medieval em paróquias.

A contagem de 1° jan° 2015 deu um total de 2324 municípios. Com o passar do tempo, o número deles vem caindo em consequência de fusões. Dá pra entender. Os tempos modernos exigem especialização. A infraestrutura e os equipamentos de que a prefeitura é responsável precisam ser planejados e geridos por gente do ramo. Municípios muito pequenos não têm massa crítica para enfrentar esses desafios.

De uns 20 anos pra cá, as fusões têm-se acelerado e o número de municípios tem diminuído. Veja a progressão:

Interligne vertical 14Ano    Total municípios
1990        3021
1995        2975
2000        2899
2005        2763
2010        2596
2015        2324

A população média de cada município não chega a 3000 pessoas. Assim mesmo, o Poder Executivo de todos os municípios segue o sistema colegial: é composto de pelo menos três eleitos. São assistidos por um conselho municipal cujos membros também são eleitos. Essa massa de gente deve custar os olhos da cara, não?

Pois é aí que reside a grande diferença entre os costumes helvéticos e os nossos. No Brasil, prefeito e vereadores são assalariados, vivem disso. Não é o que acontece na Suíça.

Sessão do Conselho Municipal

Sessão do Conselho Municipal

Somente municípios muito grandes remuneram seus eleitos e exigem deles dedicação integral. Municípios pequenos – que são a esmagadora maioria – limitam-se a dar indenização simbólica de alguns milhares de francos por ano. Em alguns casos, vereador e prefeito nem dinheiro recebem: devem contentar-se com algumas garrafas de vinho no Natal. Há ainda minúsculos municípios cujos eleitos têm de se contentar com um «muito obrigado».

Na Suíça, só faz política quem se interessa sinceramente pela gestão da coisa pública. Carreira política está mais para apostolado que para investimento. Já no Brasil…

O Egito antigo e nós

José Horta Manzano

Futebol 1

O portal noticioso francês RTL comenta o fechamento temporário do estádio dito Arena Pantanal, inaugurado em Cuiabá um mês antes da Copa 2014. O complexo esportivo será interditado ao público para dar lugar a «intervenção de emergência», necessária para sanar «diversos problemas de construção».

Frise-se que o estádio foi entregue 6 meses atrás. Acolheu 4 (quatro) jogos do Campeonato do Mundo, entre eles um imperdível Nigéria x Bósnia. A construção da ‘arena’ custou módicos 254 milhões de dólares, que equivalem, ao câmbio atual, a 660 milhões de reais.

Dividindo o gasto total pelos quatro jogos que o estádio acolheu, chega-se ao veredicto: cada um dos encontros custou ao contribuinte brasileiro 165 milhões de reais. Sem contar o que vai ser gasto no «conserto». Não foi divulgada a porcentagem de superfaturamento incluída nesse valor.

Futebol 4O portal informa que o próprio governo do Estado de Mato Grosso reconhece que o futuro do campo de futebol está comprometido, dado que a previsão de receitas está longe de cobrir os custos de manutenção. É obra deficitária, como todos já sabiam.

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Para fechar o artigo, uma última flechada. Fica-se sabendo que, para amortizar os 470 milhões de euros (1,3 bi de reais) investidos no estádio Mané Garrincha, de Brasília, serão necessários mil anos.

O distinto leitor e eu não temos nada que ver com o peixe. Mas pode ter certeza: os tataranetos dos tataranetos de nossos tataranetos nos amaldiçoarão.

Daqui a um milênio, se a humanidade ainda estiver povoando este planeta, nossa era será descrita como civilização atrasada, que gastava recursos construindo monumentos de concreto em vez de cuidar da saúde e da educação do povo. Exatamente como enxergamos o Egito antigo ou as monarquias absolutistas. No fundo, pouca coisa mudou de lá pra cá.

Ameaça

Coruja 1«Enquanto a população do Distrito Federal sofre com a precariedade da segurança pública e com o crescimentos dos índices de criminalidade, esta semana a Polícia Militar foi acionada para cumprir missão de emergência: capturar uma coruja que estava à espreita, nos jardins do Palácio da Alvorada, residência oficial de Dilma.

Alguém, no Alvorada, considerou ameaçadora a presença do animal-símbolo da sabedoria.»

Extraído do Diário do Poder, 24 jan° 2015.

A internet é inocente

Dad Squarisi (*)

Internet 1Mais de meio milhão de zeros no Enem? A notícia surpreendeu. Não pela nota mas pela quantidade de reprovados. Explicações caíram do céu e saltaram do inferno. Entre elas, a falta de familiaridade com o tema, a fuga do tema, a incompreensão do tema. Muitos responsabilizaram a internet pela calamidade. A rede teria o poder de deseducar. Quem escrevia deixou de escrever. Será?

Jornais, revistas, sites, blogues estão ao alcance de um toque. Ninguém precisa ir à banca comprar a informação. Cartas viraram lembranças de tempos idos e vividos. Deram vez a mensagens eletrônicas que vão e vêm em segundos. O Google relegou ao esquecimento enciclopédias que até há pouco enchiam as estantes de orgulho.

Internet 2Em bom português: mudamos o suporte, mas continuamos a ler e a escrever. Em vez de papel, a tela. Culpar o suporte pelo fracasso da moçada é baratear o problema. O buraco é mais embaixo. Lê mal e escreve mal quem nunca aprendeu a ler bem e a escrever bem. O retrato exibido pelo Enem é obra da escola. Não entender o tema constitui problema de leitura. Não conseguir desenvolvê-lo, de escrita.

Crédito: Jesús Díaz, Gizmodo.com

Crédito: Jesús Díaz, Gizmodo.com

Criança é curiosa. Adora aprender. Estimula-se com desafios. Enfrenta embates. Mas… cadê? Encontra salas de aula do século 19, professores sem compromisso, material didático modernoso que, sem foco e não raras vezes com erros grosseiros, confunde em vez de ensinar. Com internet ou sem internet, o resultado não muda. Sem o domínio das habilidades de leitura e escrita – fruto de estudo, disciplina e treino – esperar nota azul nesse cenário é ignorância, má-fé ou ingenuidade.

Somos poliglotas na nossa língua. “Não falamos português”, ensinou Saramago. “Falamos línguas em português.” A mãe de todas elas – a norma culta – abre o caminho da liberdade. Com trânsito nas possibilidades do idioma, torna-se possível escolher. Gírias, regionalismos, estrangeirismos, abreviaturas, internetês & cia. ilimitada têm vez no universo da comunicação. Usá-los no contexto correto pressupõe conhecimento – o saber que a escola sonega aos brasileiros.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.