Só o FMI

José Horta Manzano

O FMI ‒ Fundo Monetário Internacional ‒, espécie de massagem cardíaca para países infartados, é a última esperança de economias naufragadas. Criado em 1944 no âmbito dos acordos de Bretton Woods, o fundo tem por objetivo regulamentar e equilibrar as relações financeiras internacionais. Na prática, é conhecido como pronto-socorro para países em dificuldade.

Nos anos 1970 e 1980, um Brasil economicamente enroscado mirava o Fundo com antipatia e temor. Volta e meia, vinha um alto representante de visita a Brasília dar diretivas sobre a condução da economia nacional, fato que irritava. Mas não havia outro jeito. Em matéria de finanças, o país precisava injeção na veia.

Chamada do inglês The Telegraph, 3 mar 2016

Chamada do inglês The Telegraph, 3 mar 2016

De lá pra cá, muita coisa aconteceu. A economia pouco a pouco absorveu o choque do petróleo que a tinha derrubado. As finanças melhoraram. Com o tempo, a presença de dignitários do FMI em Brasília foi rareando até que sumiu. Passamos todos a acreditar que o perigo estava esconjurado.

Semana passada, o jornal inglês The Telegraph traz alentado artigo assinado por A. Evans-Pritchard, analista de negócios globais. Para quem se lembra do sufoco financeiro dos anos 80 e da hiperinflação do anos 90, o título é assustador: «Only the IMF can now save Brazil»agora só o FMI pode salvar o Brasil. Cruz-credo, olhe aí o espantalho de novo! Como é que conseguimos retroceder tão rápido e tão fundo?

Chamada do argentino Diario Uno, 6 mar 2016

Chamada do argentino Diario Uno, 6 mar 2016

A estagnação da economia nacional anda assustando até nossos fornecedores. O Diario Uno de Mendoza (Argentina) dá sinais de que a crise brasileira já está batendo às portas daquela região, que supre nossa demanda de vinhos, azeitonas, maçãs e outros produtos agrícolas. Uma brisa de pânico já sopra no sopé dos Andes. Como superar a «histórica y cómoda brasildependencia» que sustenta boa parte da economia local?

O portal argentino iProfesional, voltado para temas econômicos e financeiros, vai ainda mais longe. «Um Brasil à deriva força Macri a favorecer os EUA como novo aliado estratégico» é o título de análise publicada hoje.

Chamada do argentino iProfesional, 6 mar 2016

Chamada do argentino iProfesional, 6 mar 2016

O mar não está pra peixe, como se dizia antigamente. Dona Dilma ou quem quer que presida o país nos próximos anos pode ir arregaçando as mangas. Despedaçar a economia foi fácil, fizeram isso com um pé nas costas. Reconstrui-la serão outros quinhentos.

A jararaca

Eliane Cantanhêde (*)

Lula caricatura 2Se o Instituto Lula recebeu R$ 20 milhões das empreiteiras da Lava a Jato e se o ex-presidente Lula ganhou R$ 10 milhões dessas mesmas empreiteiras por palestras, por que raios ele não comprou o sítio de Atibaia por R$ 1,5 milhão e reformou as áreas internas e a piscina por R$ 700 mil para desfrutar dele 111 vezes, guardar as 200 caixas do Alvorada, levar o barquinho da família e os pedalinhos dos netos?

E por que Lula não deu para Marisa Letícia o triplex do Guarujá, instalou aquele elevador chique, mobiliou a cozinha e os quartos, tudo de primeira? Dinheiro ele tinha, de sobra. Como diria o jornalista Carlos Marchi, ainda sobrariam uns bons trocados. Aliás, o que Lula fez com os R$ 10 milhões, mais o salário de oito anos de presidência, com cama, comida, roupa lavada e uísque de graça? Gastar com os filhos não foi, porque os meninos estão muito bem, obrigada.

De duas, uma: ou Lula é patologicamente pão-duro, desses que escondem o dinheiro debaixo do colchão para os amigos pagarem até o cafezinho, ou… a questão é de outra natureza: política. Apesar de milionário, ele precisava do mito do menino pobre de Garanhuns, que não tinha o que comer, perdeu um dedo nas fábricas e virou o eterno pobre dos pobres, que veio ao mundo salvar os desvalidos como ele próprio.

Lula caricatura 2aSó assim, mantendo a mítica do grande líder, do pastor de almas, do salvador da Pátria, Lula teria, mesmo acuado e ferido, poder para jogar milhares de ovelhas (ou feras) para confrontos de rua contra adversários, imprensa e o algoz Sérgio Moro, um juiz a serviço dos ricos e poderosos – ah, e do PSDB!

É assim que, aos 70 anos, Lula encarna até hoje o líder juvenil que incendiou os metalúrgicos paulistas, depois os sindicalistas de outros setores e por fim os intelectuais do País inteiro. Não pode se dar ao luxo de comprar com o próprio dinheiro um sítio, um triplex. Senão, como vai olhar a massa olho no olho, falar de igual para igual, jogar os pobres contra os ricos?

(…)

(*) Eliane Cantenhêde é jornalista. O texto é excerto de artigo publicado no Estadão de 6 mar 2016.

Projetos criminosos

José Horta Manzano

Não há acordo entre etimólogos quanto à origem do termo mafia. As duas hipóteses mais frequentemente aceitas ligam a palavra a uma raiz árabe. De fato, a Sicilia esteve, faz um milênio, sob domínio árabe. A ocupação durou dois séculos e deixou marcas na língua.

Especula-se que a palavra poderia derivar do árabe maha (pedreira) ou, quem sabe, de mahias (fanfarronice). Esta última suposição parece sensata. Associação de criminosos costuma reunir membros fanfarrões. O Brasil deste triste início de século já botou muito criminoso bravateiro sob a luz dos holofotes.

Mafia 1Mafia não é exclusividade siciliana. Na própria Itália, há duas outras organizações de bandidos: a camorra em Nápoles e a ‘ndrangheta na Calabria. Associações desse jaez estão presentes também no Japão (yakuza), no México e na Colômbia (os cartéis), na Rússia, na Sérvia, na Tchetchênia, na Bulgária.

No Brasil, até vinte ou trinta anos atrás, não se tinha conhecimento de organismos estruturados para práticas criminosas. O avanço da tecnologia de comunicação, principalmente os telefones celulares, permitiu o aparecimento do PCC, do Comando Vermelho e de outros clubes da mesma natureza.

Nos primeiros tempos, a novidade limitou-se ao andar de baixo. A ascensão de elementos mal-intencionados ao nível federal favoreceu a instalação de sistema análogo no topo do poder. A inovação ainda não tem nome definido. Mensalão e petrolão definem apenas façanhas da organização. Permanecemos à espera de um termo abrangente. Logo virá.

Chamada da Folha de São Paulo, 5 março 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 5 março 2016

Alguns métodos são comuns a toda mafia: intimidação, coação, ameaça, cobrança de «pedágio», incêndio criminoso, queima de arquivo.

Interligne 18h

PS: Misterioso incêndio irrompeu ontem nas instalações de Pasadena, aquela refinaria adquirida pela Petrobrás em nebulosas transações.

O presidente que mudou o Brasil

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 março 2016

As coisas são como são e nem sempre como a gente gostaria que fossem. Escapulindo soberbamente ao contrôle do homem, o sol, a chuva, o vento, a seca, o frio e o calor sobrechegam como e onde se lhes dá na telha. Quando o destino decide tomar as rédeas, não há prece, novena ou reza braba capaz de afrontá-lo.

Todos gostaríamos de deixar para a posteridade um rastro marcante, simpático, admirado. Entre o querer e o poder, no entanto, o vão é difícil de atravessar. Nem todos conseguiremos ser lembrados com a alta estima que costumamos dedicar a nós mesmos.

Retrato 1Para o cidadão comum, ser lembrado com carinho pelos netos já está de bom tamanho. De toda maneira, estudiosos afirmam que, além da terceira geração, a memória dos que já se foram vai esmaecendo. Essa premissa não se aplica, naturalmente, a figuras públicas nem a grandes personagens que a história registrou. A memória desse seleto grupo de privilegiados será perpetuada em museus, estátuas, livros, nome de ruas e outras marcas de distinção.

Guilherme Tell e o filho

Guilherme Tell e o filho

Há casos de gente que entrou nesse clube por obra do acaso. A Guilherme Tell, personagem cuja existência não foi comprovada até hoje, bastou um golpe certeiro de alabarda para perenizar-se como herói nacional, nome de rua, efígie de moeda e até protagonista de ópera. Outra figura nebulosa cultuada há séculos é Joana d’Arc. A escassez de provas documentais dá margem a muita especulação sobre os atos e gestos que a jovem teria perpetrado nos tempos remotos da Guerra de Cem Anos. A despeito disso, é reverenciada na França como se mãe da nação fosse.

Há os que entraram nos livros de história de caso pensado, por esforço próprio. Um deles foi Gavrilo Princip, aquele jovem tresloucado que, ao tirar a vida do arquiduque Francisco Ferdinando, acabou acendendo o estopim da Primeira Guerra. Só que o criminoso entrou na galeria da fama andando de costas. Longe de ser glorificado, seu nome é amaldiçoado até hoje.

Charles de Gaulle

Charles de Gaulle

Em matéria de entrar na história com o pé direito, alguns campeões sobressaem. O general de Gaulle é caso exemplar. Inconformado com a rendição que seu país concedera ao inimigo em 1940, rebelou-se. Contra tudo e contra todos, persistiu na busca do que lhe parecia ser o melhor caminho para seus conterrâneos. Suas boas intenções e sua obstinação foram bem-sucedidas. Até hoje, é alvo de reconhecimento e de reverência dos concidadãos.

Casos há de personagens que deixaram marca controvertida. Mikhail Gorbachev é figura significativa. Divergindo da política dos antecessores, o dirigente fez o que pôde, de boa-fé, para aperfeiçoar o regime e as instituições. A roda do destino, no entanto, escapou-lhe das mãos. Seus atos precipitaram o desmonte do sistema comunista, resultado que não constava em seus planos. Boa parte dos conterrâneos guardam dele uma lembrança mitigada. Passado um quarto de século, veem nele o responsável pelo empanamento do antigo esplendor e pelo esfacelamento do império soviético.

Mikhail Gorbachev

Mikhail Gorbachev

Em 2003, ao assumir a presidência do Brasil, Luiz Inácio da Silva era depositário da confiança da maioria dos brasileiros. Seus primeiros tempos no exercício do poder pareciam avalizar as promessas de campanha. Num primeiro momento, não só os que lhe haviam dado o voto, mas também numerosos outros brasileiros passaram a botar fé no presidente e a enxergá-lo como aquele que imprimiria rota de ascensão a nossa República. Parecia evidente que nova era se estava iniciando e que o gigante enfim despertaria da dormência e se levantaria do berço esplêndido.

No entanto… o caminho mostrou não ser tão suave. Pedras foram surgindo que sacolejaram a carruagem. Por razões que o futuro se encarregará de esclarecer, a nova era iniciada por Lula e prorrogada por sua sucessora desandou. Hoje, atravancado por corrupção, roubalheira, compadrio, incompetência e degradação moral, o sonho virou pesadelo.

Lula discursoComo nunca antes neste país, a história se desenrola diante de nossos olhos, só não vê quem não quer. Mas os ciclos são inexoráveis ‒ daqui a um par de anos, passado este período de desvario, o Brasil há de se reerguer. É inimaginável que a podridão ora revelada continue a nos corroer as entranhas.

Assim, ninguém discorda: o ex-metalúrgico mudou o país e tem lugar reservado no panteão. Lula entrará nos futuros manuais escolares como um divisor de águas. Contudo, sua efígie ‒ a malgrado dele ‒ não será pintada com as tintas que ele havia sonhado. C’est la vie. As coisas são como são e nem sempre como a gente gostaria que fossem.

O quatro de março

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Dia 11 de setembro de 2001, o mundo assistiu, estupefato, ao orquestrado ataque terrorista desfechado contra os EUA. O distinto leitor seguramente há de se lembrar onde estava quando recebeu a notícia.

São momentos fortes que marcam muito. Na mesma gaveta da memória em que guardamos a notícia, amarzenamos também as circunstâncias que nos envolviam no momento em que tomamos conhecimento.

Para mim, o 4 de março de 2016 ficará numa gaveta muito especial. É o dia em que nosso guia foi apeado do pedestal. Ele «não está imune à investigação», como bem disse o juiz encarregado do caso. Disse e demonstrou, aliás.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

A prova de que o despacho do magistrado não eram palavras ao vento foi a condução coercitiva(*) do antigo presidente para fins de deposição. Se a Polícia Federal continuar sinceramente disposta a investigar, nosso guia já pode ir arrumando a malinha: há de passar umas férias junto com os companheiros. Tudo gente fina, como se sabe.

Como diz o outro, «no Brasil de hoje, a corrupção só não é encontrada onde não é procurada». Quem procura acha. Logo…

Interligne 18f

(*) No breve discurso que pronunciou neste marcante 4 de março, o presidente do PT, num lapsus linguæ revelador, substituiu a condução coercitiva por «detenção coercitiva». Discurso visionário.

Vem cá, baixinho!

José Horta Manzano

Lula a la català

Lula a la català

Não é a primeira vez, mas vale a pena voltar ao assunto. Razão dá-se a quem tem. Renovo meus parabéns à equipe encarregada de dar nome às operações de busca e apreensão da Polícia Federal. Dão mostra de imaginação fecunda e de saber abrangente ‒ artigo raro no Brasil atual.

Aletheia é o nome da 24ª fase da Operação Lava a Jato, que acaba de ser deflagrada. A palavra vem do grego αλήθεια, que se deve pronunciar alíthia, com acento tônico no . O th soa como no inglês think.

Lula alla romana

Lula alla romana

A operação poderia ter sido chamada “Vem cá, baixinho” ou “Apanhei-te, pilantra”. Preferiram Aletheia. Ponto pra eles.

Na linguagem de todos os dias, aletheia significa verdade. O conceito foi tomado emprestado pela filosofia, de modo especial por Martin Heidegger, pensador alemão que viveu de 1889 a 1976. A psicologia também costuma recorrer a essa palavra.

Mandado de detenção contra o ex-presidente Lula Chamada de La Libre Belgique, jornal belga de referência - 4 mar 2016

Mandado de detenção contra o ex-presidente Lula
Chamada de La Libre Belgique, jornal belga de referência – 4 mar 2016

Em 1889, Dom Pedro II foi destituído por golpe militar. Detido, foi despachado para a Europa no primeiro navio. Não teve de passar pelo vexame de enfrentar interrogatório policial.

Em 1930, Washington Luís Pereira de Souza foi destituído por golpe liderado por Getúlio Vargas. Detido, foi despachado para os Estados Unidos. Não teve de passar pelo vexame de enfrentar interrogatório policial.

Lula a la plancha

Lula a la plancha

O fato de nosso guia, presidente emérito do Brasil, ser levado coercitivamente (= à força) para enfrentar interrogatório policial é acontecimento nunca antes visto na história dessepaiz.

Há momentos em que a História se acelera. Estamos vivendo um deles.

Vale tudo

Cabeçalho 7José Horta Manzano

Dancing daysOs mais maduros hão de se lembrar dos tempos em que novelas como O Direito de Nascer, Pecado Capital ou Dancing Days eletrizavam o país e prendiam o povo em casa. Ninguém perdia um capítulo.

Em 1988, justamente na época das festas de Natal, falava-se menos em Papai Noel e muito mais no desenlace da novela Vale Tudo. Em conversas de elevador, de corredor e de botequim, a pergunta era sempre a mesma: quem matou Odete Reutemann?

Pecado capitalComo vivo fora e só vejo o Brasil de longe, desconheço qual seja a novela do momento. Ignoro se é boa e cativante como algumas do passado. No entanto, tenho certeza de que, por mais palpitante que seja, está sofrendo concorrência pesada.

Não, não me refiro a eventual programa cultural proposto por outro canal no mesmo horário ‒ antes fosse. Estou pensando no pipocar de notícias bizarras. Estes últimos anos, casos políticos tem-se transformado, com indesejável frequência, em casos de polícia. De dois dias pra cá, a colheita de notícias espantosas já dá pra compor um buquê. Veja só.

Interligne vertical 16 3KeO Supremo, em sessão solene, dá anuência para que o presidente da Câmara seja investigado como réu da Lava a Jato. Será o primeiro réu da operação a responder diretamente à corte maior.

A Justiça francesa informa que Paulo Maluf ‒ interventor no Estado de São Paulo na última ditadura ‒ foi condenado, à revelia, a três anos de prisão em regime fechado, a confiscação de 1,8 milhão de euros e a multa de 1,5 milhão de euros. A condenação é extensiva à esposa e ao filho.

A OAS, empreiteira gigante, admite o que negara até o dia anterior: financiou ilegalmente a campanha eleitoral de dona Dilma. Com vista a fugir à prisão, seu ex-presidente já está de caneta na mão para assinar acordo de delação.

O ministro da Justiça, considerado demasiado benevolente, é demitido e substituído por um promotor de quem o Planalto espera maior disposição para “controlar” a Polícia Federal.

Jesus, Maria, Josef! ‒ como se exclamam os vienenses quando o espanto é grande. O panorama político atual merece, mais que a velha novela, o título Vale Tudo. A pergunta agora é: quantos capítulos ainda faltam para Odete Reutemann sair de cena?

Bilionários perdidos

José Horta Manzano

Com a voz trêmula de pesar, a mídia nacional anunciou ontem que, em um ano, o Brasil perdeu 23 bilionários. Meu Deus, que tristeza! Fiquei decepcionado e senti muita pena. A contabilidade é da revista Forbes.

É surpreendente constatar a que ponto a riqueza desperta curiosidade e interesse. Desde 1929, faz sucesso uma revista chamada Fortune que, como indica o nome, dirige holofotes para milionários. Em compensação, não se tem notícia da existência de nenhuma publicação chamada Misery. É compreensível. Fosse lançada, não passaria do primeiro número. No fundo, miséria não interessa a ninguém.

Banco 5Voltando ao problema dos bilionários «perdidos», é interessante observar como, sem se dar conta, a imprensa considera esses personagens como parte integrante do patrimônio nacional. Dizer que «o Brasil perdeu», francamente, é patético. Como até porta blindada de banco suíço sabe, dinheiro não tem cheiro nem pátria. O Brasil não ganhou nem perdeu nada, ora essa.

Jorge Paulo Lemann & esposa

Jorge Paulo Lemann & esposa

A maior fortuna
Segundo a revista americana, senhor Jorge Paulo Lemann aparece na 19ª posição. Nossa mídia anuncia, com indisfarçável orgulho, que ele é o brasileiro mais rico. Ainda que não se possa ter certeza, vamos dar de barato que seja realmente o mais abonado.

O que nossa mídia desconhece é que esse senhor, que se mudou definitivamente para a Suíça há dezessete anos, já nasceu com dupla cidadania. Filho de imigrante suíço, nasceu brasileiro pela lei do solo e suíço pela lei do sangue. Como se pode imaginar, a mídia suíça o inclui entre os ricaços do país. Na lista helvética, ocupa o terceiro lugar.

Fortunas ocultas
Conforme se vão desdobrando os capítulos da Operação Lava a Jato, bilionários desconhecidos vão sendo revelados. Já apareceu auxiliar do vice do sub devolvendo centenas de milhões pra salvar a pele. A gente fica aqui a cismar quantos mais haverá e… quantos bilhões possuirão.

Banco 2Fica a desagradável impressão de que a lista da Forbes mostra apenas pequena fração dos brasileiros afortunados, só a ponta do iceberg. Muitos outros deve haver. E hão de estar fazendo novena pra que ninguém descubra.

Problematizando a questão

Ruy Castro (*)

Livro 6Cenas de um provável futuro. A mãe repreende a filha de 11 anos por ela nunca lavar um copo depois de usá-lo, e ouve como resposta: “Mamãe, precisamos problematizar uma questão de gênero”. A garota quer dizer que não veio ao mundo para lavar copos. Enquanto isso, seu irmãozinho de oito anos pode ser reprovado na escola por ter fracassado na arguição sobre sublevações intestinas na África subsaariana. E o pai já pensa em contratar um professor particular de gê e tupi para o menino tirar o atraso na escola.

Esses são alguns dos itens dos currículos a ser aplicados pelo MEC com a iminente aprovação da “Base Nacional Comum Curricular”, uma reforma do ensino destinada a fazer do brasileiro um povo politicamente correto. No país dos novos comissários do pensamento, só interessam a herança ameríndia e africana, a luta das mulheres, os direitos das minorias e outros quesitos cuja importância ninguém discute, mas que os donos do poder julgam ser de sua exclusiva propriedade.

Livro 5Acusam-se os historiadores brasileiros, por exemplo, de nunca terem dado atenção suficiente à questão indígena e negra. Mas isso não é verdade. Há bibliotecas abarrotadas de livros sobre a África, o tráfico, a vida em cativeiro e como, contra todas as probabilidades, a cultura negra sobreviveu e se impôs junto à cultura “oficial” no Brasil. Os indígenas também têm vasta bibliografia, com destaque para os livros sobre as tribos da Guanabara –como o recente e monumental “O Rio Antes do Rio”, de Rafael Freitas da Silva, cuja dedicatória é reveladora: “Aos nossos gregos, os tupinambás”.

Mas não importa. O MEC decidiu que é preciso rever tudo, o que fará com que milhões de livros didáticos se vejam superados e multidões de professores tenham de se reciclar ou ser substituídos. O jeito é problematizar a questão.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Além da fronteira ‒ 2

José Horta Manzano

Tsunami 2Quando foi deflagrada a Operação Lava a Jato, muitos imaginaram que não passaria de solavanco passageiro, uma marolinha. Presumiu-se que seria respeitada a arraigada tradição nacional de inocentar criminosos de colarinho branco.

Para espanto do cidadão comum ‒ e para «estarrecimento» de figurões, não foi o que aconteceu. Gente graúda começou a ser molestada. Pencas de acusados, alguns de fina estirpe, foram parar no xadrez. Para angústia de muitos, a marolinha converteu-se em tsunami.

O território nacional é vasto. O problema é que, assim como fronteiras não detêm revoada de Aedes aegypti, tampouco barram tsunamis. Vagas ameaçadoras já estão transbordando.

O diário Perú21, um dos mais importantes do país vizinho, traz informação alarmante. O nome do presidente da república andina, Ollanta Humala, é citado nada menos que dez vezes en documentos exumados pela Lava a Jato.

Chamada do jornal Perú21, 24 fev° 2016

Chamada do jornal Perú21, 24 fev° 2016

Seu nome aparece em investigação de irregularidades perpetradas em obras de infraestrutura de bilhões de dólares levadas a cabo no Peru pela brasileira Odebrecht. A suspeita é de que desvios tenham gerado propinas milionárias, distribuídas naquele país.

Embaraçado e inquieto, o presidente convocou, às 11h da noite, o embaixador do Brasil em Lima. A transcrição da conversa não foi publicada, mas tudo indica que señor Humala está à cata de esclarecimentos.

Tsunami 1O braço da PF brasileira, por mais longo que seja, não alcança além-fronteira. Portanto, o «japonês da Federal» não periga algemar o medalhão. Assim mesmo, pode-se apostar que, se as suspeitas forem investigadas como se deve, estará aberta uma caixinha de surpresas.

O Peru pode ser só o começo. Mais está por vir.

Prêmio Nobel

José Horta Manzano

Hoje parece inacreditável, mas Lula da Silva já foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz. No longínquo ano de 2003, o mundo tinha lançado olhar bondoso sobre o recém-eleito presidente do Brasil. Fora das fronteiras, muitos acreditaram na lisura e nas boas intenções dele e do bando que assumia as rédeas.

Medalha que acompanha o Prêmio Nobel

Medalha que acompanha o Prêmio Nobel

Indicações para o Prêmio Nobel costumam ser dadas por academias e por universidades do mundo todo. O instituto que cuida da escolha dos laureados está aberto a sugestões desde que venham de instituições de alto coturno.

Os nomes sugeridos não costumam ser divulgados. Assim mesmo, em 2003, a insistência de algum jornalista conseguiu arrancar do diretor do Instituto Nobel a informação de que havia 165 candidatos na categoria da Paz. Rumores insistentes davam a vitória de nosso guia como “muito provável”.

Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles

Passada esta dúzia de anos, os medalhões do respeitável instituto devem ajoelhar-se todos os dias, levantar as mãos pro céu e agradecer por terem escapado de saia pra lá de justa. Já imaginaram? Ver um nobelizado encontrar-se, doze anos mais tarde, na mira da Justiça por suspeita de crimes rasteiros ‒ cometidos justamente na época da outorga do prêmio? Ufa, de que sufoco se safaram!

A União Brasileira de Escritores acaba de sugerir oficialmente, para o Nobel de Literatura, o nome de Lygia Fagundes Telles, possivelmente a maior escritora brasileira viva. A veneranda senhora completará 93 anos em abril. A hora é agora.

Torço para que seja escolhida. Faço votos para que a quase catástrofe que teria sido a outorga do prêmio de 2003 ao demiurgo que nos governava não tenha deixado os dirigentes do Instituto Nobel ressabiados.

Marie Curie

Marie Curie

Lembro que cinco de nossos hermanos argentinos já foram agraciados, três dos quais em categoria científica. A pequena Irlanda já viu seis cidadãos subirem ao pódio. Treze cidadãos da diminuta Dinamarca já foram premiados. Índia, China, África do Sul e Rússia ‒ os outros integrantes do Brics ‒ já têm muitas dezenas de cidadãos no quadro de medalhas. O Brasil não tem unzinho.

Gostaria muito que Lygia recebesse a honraria. E sonho com o dia em que conterrâneos nossos começarão a ser brindados em categorias científicas. É capaz de demorar.

Interligne 18h

Para complementar
Marie Curie Skłodowska, cientista franco-polonesa, foi a primeira mulher a receber Prêmio Nobel. E veio para arrasar: ganhou duas vezes e em categorias diferentes! Em 1903, levou o prêmio de Física. Em 1911, arrebatou o de Química. Quem dá mais?

Nada mudou

José Horta Manzano

A história da política brasileira registra espantoso fato ocorrido faz mais de meio século. É o caso do senador Arnon de Mello, despachado para o xadrez em 1963. No dia 4 de dezembro daquele ano, no plenário da Câmara Alta, senhor Mello sacou da arma e desferiu três tiros em seu inimigo Silvestre Péricles, também senador.

Bandido 2Em razão da péssima pontaria do pistoleiro, o inimigo não foi atingido. Por desgraça, uma das balas perdidas tirou a vida de José Kairala, suplente de senador, que se apresentava para seu primeiro dia na função.

Os senadores não julgaram conveniente cassar o mandato do colega. Não lhes pareceu que entrar armado na Casa do Povo, atirar e matar um homem fosse motivo suficiente para decretar quebra de decoro parlamentar.

O cangaceiro, acusado de homicídio, foi preso. Poucos meses depois, absolvido pela justiça, voltou ao Senado e reassumiu imediatamente o mandato. Na caradura, cumpriu a missão até o último dia sem ser importunado.

Só para informação: Arnon de Mello, o que atirou num e matou outro, é o pai de Fernando Collor de Mello, o «caçador de marajás» que, trinta anos mais tarde, chegaria à presidência do país. Não caçou marajás nem senadores: foi cassado.

Interligne 18h

Senador pelo Mato Grosso do Sul, Delcídio Amaral foi preso em fins de novembro passado. A detenção deixou a República boquiaberta, não tanto por ter atingido pessoa de destaque, mas por estar o senador em pleno exercício do mandato, exatamente como tinha acontecido com senhor Mello meio século antes.

Revolver 2Desta vez, a prisão não ocorreu por crime de sangue, mas por delinquência ligada à corrupção. Assim mesmo ‒ ou talvez por isso mesmo ‒ assombrou a opinião pública. Não obstante, ninguém ousou criticar a medida, nem mesmo a alta cúpula do partido do senador.

No entanto, os fatos mostram que os cinquenta anos decorridos entre a prisão do senador de 1963 e a do senador de 2015 não modificaram as práticas bizarras em vigor no Senado da República. Assim como crime de sangue, tampouco crime de corrupção é motivo suficiente para determinar quebra de decoro. Delcídio Amaral continua dono do mandato.

Senado federal 1Por razões que, no momento em que escrevo, não estão claras, Amaral foi solto após menos de dois meses de cárcere. Uns dizem que teria concluído acordo de delação, outros dizem que não. Pouco importa. O que se constata, de certeza, é que, entre as restrições impostas ao ir e vir do investigado, não está a suspensão do mandato.

Estranha República a nossa. Em países civilizados, por mera suspeita de haver cometido algum «malfeito», qualquer eleito do povo é rejeitado por seus pares que, para eliminar toda suspeita de cumplicidade, o forçam à demissão. Entre nós, a vida segue numa boa.

Daqui a meio século, quem sabe, os eleitores e seus representantes se horrorizarão com a aberração a que estamos assistindo hoje. Quem viver verá.

Interligne 18h

Post scriptum:

Chamada d'O Globo, 21 fev° 2016

Chamada d’O Globo, 21 fev° 2016

Mal de raiz

José Horta Manzano

Tudo indica que o risco oferecido pelo Brasil a investidores ‒ nacionais ou estrangeiros ‒ se esteja agravando. Importante agência de classificação acaba de rever sua apreciação. Considerando que a situação das finanças nacionais se deterioraram de alguns meses para cá, o instituto rebaixou a nota brasileira a um patamar mais próximo do fundo do poço.

Assalto 9Isso é mau porque importantes capitais ‒ cruciais para um país de baixa poupança interna ‒ tendem a migrar para outras plagas. Toda a mídia nacional captou o perigo. De ontem para hoje, o rebaixo da nota foi a manchete mais saliente em todos os jornais brasileiros.

Na imprensa estrangeira, no entanto, outro fato nacional ocupa espaço maior: o assassinato de turista argentina em Copacabana. Em inglês, francês, alemão, italiano ou espanhol, a notícia deu volta ao mundo.

O fato em si já é alarmante e comovente. Era uma turista estrangeira, pessoa de recursos limitados, cuja grande aspiração era conhecer o Rio. Enfrentou viagem de onze horas de ônibus desde sua recuada província argentina até São Paulo. Mais uma hora de ponte aérea e o antigo desejo se tornou realidade.

Chamada do argentino Clarín, 18 fev° 2016

Chamada do argentino Clarín, 18 fev° 2016

O sonho, no entanto, virou pesadelo quando energúmenos, no que se supõe fosse tentativa de assalto, trucidaram a moça a facadas. Estava a poucos metros do hotel Copacabana Palace, emblema da acolhida de nível internacional que o Brasil costumava oferecer.

Situação financeira evolui. Basta os analistas enxergarem uma luzinha no fim do túnel para que a nota de avaliação retorne a níveis mais comportados. O mundo das finanças sobe e desce, é gangorra cíclica, nenhum país tem garantia contra sobressaltos.

Assalto 5Já as incivilidades, a violência e a criminalidade não são cíclicas ‒ muito pelo contrário. São permanentes, constantes, progressivas, crescentes. Criam raízes cada dia mais profundas e resistentes sem que ninguém dê grande importância.

Brasileiros se desassossegam com a coincidência de epidemia de zika com os Jogos Olímpicos deste ano. Não é a melhor combinação de fatores, concordo. No entanto, há que lançar visão mais ampla.

Num futuro próximo, vacina terá sido encontrada contra essa doença. E o problema estará resolvido. Bem mais difícil será, desgraçadamente, encontrar vacina contra a criminalidade. É problema mais profundo que não se resolve botando grade e cadeado na frente de casa.

Muito processo pra pouco tribunal

José Horta Manzano

Folheando The Irish Times, quotidiano de Dublin, encontrei artigo sobre um certo Mr. Lynn, cidadão irlandês que escapou à polícia de seu país e se homiziou no Brasil. Sua extradição por crime de estelionato foi solicitada.

O homem havia montado um império financeiro. Ao vê-lo ruir, botou as pernas pra correr. Como por acaso, achou que o Brasil era o melhor país para se acoitar. (Ô fama que temos!…) Antes do desmoronamento da empresa, Mr. Lynn há de ter salvado algumas libras. A prova é que, assim que foi pedida sua extradição, contratou bons advogados.

Tribunal 1Como costuma acontecer no Brasil quando operam advogados espertos, o processo se arrasta há anos. Todas as chicanas e todos os expedientes dilatórios foram acionados. O STF deferiu em favor da extradição, mas o time de defensores se prepara a contestar a decisão. Por consequência, o ponto final não será inscrito senão daqui a alguns meses.

Confiante, o Irish Times diz que, segundo as estatísticas, as chances de a decisão ser revertida são praticamente nulas. Nos últimos quarenta anos, 76 decisões de extradição tomadas pelo STF foram contestadas. Em nenhum desses casos, a decisão foi reformada. O jornal se lamenta da lentidão de nosso tribunal supremo. E atribui o ritmo de tartaruga à inacreditável quantidade de processos que chegam à corte maior: 50 mil por ano.

TribunalNão precisa ser jurista nem perito no assunto pra se dar conta de que algo não está batendo. Não é aceitável que os onze ministros do STF, aos quais incumbe esmiuçar e julgar casos que envolvem o interesse nacional, tenham de cuidar de divórcios litigiosos e de brigas de condôminos. É incabível que os que julgam mensalão e petrolão tenham de se ocupar de briga de bar.

Cinquenta mil processos distribuídos a onze ministros dá perto de cinco mil por cabeça. Descontando férias forenses, férias escolares, feriados nacionais e faltas justificadas, a coisa aperta ainda mais. É ingênuo imaginar que os magistrados-mores deem conta, pessoalmente, desse volume. Isso nos deixa a desagradável impressão de que, na verdade, os casos são destrinchados, analisados e julgados por uma equipe de juristas anônimos. Os ministros só apõem o jamegão ao pé da última lauda. Que fazer pra corrigir a distorção?

STFA França, por exemplo, põe filtros e barreiras para afunilar o acesso à corte maior. Antes da aceitação do recurso, uma comissão estatuirá se ele é recebível ou não. Se não for, o percurso termina ali. Para desencorajar o acesso à corte suprema, a França exige ainda que a defesa seja entregue a advogados especialmente acreditados junto àquele tribunal. São defensores homologados, que praticam tarifas elevadas, o que obriga o cidadão a pensar duas vezes antes de entrar com recurso.

Alguma coisa tem de ser feita no Brasil também. Não é aceitável atulhar o STF com processos menores. Nem extradição de criminosos merece ser submetida à corte maior. Não se trata de negar justiça a quem a solicita, mas de encaminhar cada caso ao tribunal adequado.

Nome de rua

José Horta Manzano

Decisão sensata foi tomada pelo governador do Maranhão. Cumprindo promessa de campanha, regulamentou a atribuição de nome a logradouros públicos.

decreto, assinado no começo deste ano, aplica-se a todo o Estado e proíbe emprestar nome de pessoa viva a bem público de qualquer natureza. A interdição abrange ruas, praças, avenidas, viadutos, becos, esplanadas, bulevares, caminhos, estradas, rodovias. Atinge também prédios públicos, estações rodoviárias, escolas, hospitais públicos & assemelhados.

Placa 16É verdade que a invasão de nomes ligados ao clã de José Ribamar, dito Sarney, tornou-se escandalosa no simpático Estado nordestino. Convenhamos: vaidade e autoincensamento têm limite, sob risco de chegarmos ao ridículo de autocracias de segunda linha, como a Coreia do Norte ou o Haiti dos Duvalier.

Placa 15O decreto se estende a figuras ligadas à mais recente ditadura militar, aquela que finou em 1985. Dado que o governador é afiliado ao Partido Comunista, a rebarba é compreensível. Mais difícil é compreender por que razão nomes que evocam outras ditaduras mais antigas não são contemplados pela proibição. Ditadura por ditadura, se Castelo Branco & companhia estão banidos, Getúlio Vargas & confrades também deveriam estar. Afinal, sob ambos os regimes, o partidão esteve fora da lei.

Passando por cima do rancor seletivo, a decisão é digna de aplauso e tem direito a ser espichada além das divisas maranhenses. A interdição merece ser objeto de lei federal, de abrangência nacional.

Placa 3Dependesse de mim, iria até mais longe. Mesmo entre os mortos, nem todos fizeram por merecer figurar em placa de rua. Melhor mesmo seria excluir nome de gente. Tem muito nome mais interessante pra ser utilizado. Animais, rios, países, poemas, nomes abstratos, frutas, profissões e ofícios, flores, acidentes geográficos, árvores estão à disposição.

Em Lisboa, temos a Rua das Janelas Verdes; no Porto, a Rua da Palma; em São Paulo, a Rua dos Trilhos; no Recife, a Rua da Aurora; no Rio, a Rua da Quitanda. As opções são infinitas, todas muito simpáticas.

A exceção ficaria por conta de algumas dezenas de figuras excepcionais, daquelas que realmente deram notável contribuição à nação ‒ com a condição de que tenham falecido há pelo menos meio século.

Placa 1A decisão, caso a caso, seria responsabilidade de um conselho ad hoc ‒ criado para esse fim. Seria composto de uma ou duas dezenas de personalidades de bom senso, representando amplo espectro da cultura nacional.

Para evitar criar mais um cabide de emprego, o comitê não se reuniria mais que uma ou duas vezes por ano para deliberar sobre os casos pendentes. Cada componente receberia não mais que um jetom simbólico. E basta.

Sonhar custa barato.

Castro em Paris

José Horta Manzano

Quando veio a público, a notícia da construção do porto de Mariel (Cuba), financiada pelo BNDES, levantou muita poeira. Afinal, o custo da obra atingia a cifra respeitável de um bilhão de dólares. Pior que isso, parte do investimento estava sendo feita a fundo perdido, ou seja, era um presente do Brasil. Frise-se que o verdadeiro financiador, o contribuinte brasileiro, nunca foi consultado.

À época, muitos denunciaram a impropriedade da ajuda. Com tantos problemas internos, não tinha cabimento destinar todos aqueles milhões ao desenvolvimento de um país estrangeiro em detrimento das incontáveis necessidades de nosso próprio povo.

Porto de Mariel, Cuba

Porto de Mariel, Cuba

Imaginou-se que a decisão do governo brasileiro só podia decorrer da simpatia de nossos dirigentes pelo regime dos bondosos irmãos Castro. O tempo passou, o assunto saiu de foco e tudo acabou ficando por isso mesmo.

Depois que a operação Lava a Jato revelou a cascata de escândalos que conhecemos todos, vale lançar um olhar atualizado ao caso do financiamento de Mariel. Não é descabido cogitar sobre o verdadeiro propósito do “presente” oferecido à ilha caribenha.

Se a Petrobrás, que fica ali na esquina, foi espoliada na surdina, quem garante que os milhões despachados à ilha distante não terão servido a finalidades menos confessáveis? Quem pode afiançar que a bolada não terá ido parar em cofres que nada têm a ver com o porto cubano? Fica no ar a pergunta. Um dia ‒ talvez nem demore muito ‒ saberemos a verdade.

François Hollande 9Señor Raúl Castro, primeiro-irmão e dirigente atual da República de Cuba está em Paris. É a primeira visita oficial de um presidente cubano à França desde que os Castros tomaram o poder, 55 anos atrás. O anúncio da abolição do embargo comercial aguçou o apetite de muita gente.

Se a intenção do Brasil, ao contribuir precocemente para o desenvolvimento da ilha, tivesse sido de estar entre os primeiros beneficiários da abertura que se anuncia, a manobra teria sido pouco eficaz. Cuba prefere, naturalmente, relacionar-se com quem tem mais dinheiro e melhor tecnologia. É natural.

No entanto, se a hipótese que levantei estiver correta, os que nos dirigem já terão recebido seu quinhão. Com isso, devem estar satisfeitos. Eles, com certeza. O Estado brasileiro, nem tanto.

Falam de nós – 17

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Não é só no Brasil que as investigações de corrupção estão sendo avidamente acompanhadas pela plateia. Uns mais, outros menos, todos os países dão notícia do desenrolar de cada capítulo.

Interessante é notar que, no Brasil, o receio de arrumar encrenca vem impondo à mídia um certo recato na escolha do palavreado. Quando o santo nome de nosso guia está envolvido, calçam-se luvas e usam-se pinças para tratar do assunto.

Jornais preferem pôr verbos no condicional ‒ «teria feito», «haveria estado», «teria sido». Abusa-se de fórmulas como «supostamente», «hipoteticamente», «por suposição».

by Henriqe de Brito, caricaturista

by Henrique de Brito, caricaturista

Para relatar a mais recente encrenca em que nosso guia (& esposa) estão metidos, a imprensa nacional preferiu expressões do tipo «estão sendo investigados por envolvimento na compra de um apartamento».

Já a mídia internacional comporta-se diferentemente. Sem sentir a mesma pressão, costuma dar a notícia com palavras cruas, sem floreios e sem firulas. Dei um passeio pelas manchetes planetárias e deixo aqui o resultado da colheita.

Nenhum veículo fez rodeios em torno do assunto. Foram todos direto ao ponto. Dizem todos qual é a acusação pela qual o antigo presidente (& esposa) estão sendo investigados:

Interligne vertical 17aAlemão: Geldwäsche (lavagem de dinheiro)

Inglês: money-laundering (lavagem de dinheiro)

Italiano: lavaggio di denaro (lavagem de dinheiro)

Francês: blanchiment d’argent (branqueamento de dinheiro)

Espanhol: lavado de dinero (lavagem de dinheiro)

Turco: yolsuzlukla (corrupção).

Como se vê, dependendo de quem chama, o boi tem outro nome. Mas é sempre o mesmo boi.

A carapuça serviu

Medo 1José Horta Manzano

Às vezes a gente joga verde pra colher maduro. Falo daquelas insinuações que se lançam ao ar, como quem não quer nada, só pra ver o que acontece. Às vezes, tudo passa despercebido; outra vezes, atinge-se o alvo.

Com toda a pompa e todo o estrondo que o momento requer, a Polícia Federal disparou mais uma fase da operação de caça aos assaltantes de colarinho branco. Visava a pôr em pratos limpos o imbróglio que tem por núcleo um apartamento de alto luxo no Guarujá (SP).

Alguns cidadãos foram presos, outros levados a depor. Em nenhum momento, o nome de nosso guia foi mencionado ‒ nem entre os presos nem entre os convocados. Em princípio, o demiurgo nada tem a temer ‒ desde que não esteja ocultando algum esqueleto dentro do armário, naturalmente.

Chamada do Estadão, 29 jan° 2016

Chamada do Estadão, 29 jan° 2016

No entanto, a cúpula do Partido dos Trabalhadores está alvoroçada. Sem que o presidente de honra tenha sido acusado do que quer que seja, já anunciaram estar preparando ato para defendê-lo. Não faz sentido.

Devem defender-se aqueles que são acusados. Quem arquiteta defesa prévia, antes de qualquer acusação, mostra que tem algo a temer. O anúncio público de que defesa está sendo preparada mostra que a carapuça serviu.

Traducción, por favor!

José Horta Manzano

Dilma 15Nem a eloquência nem a clareza são atributos do discurso de dona Dilma. Até aí, nenhuma novidade: todos já nos demos conta. Há ocasiões, no entanto, em que a governante consegue se superar.

Ontem, em visita ao compañero Rafael Correa, presidente do Equador, a senhora Rousseff declarou que «o Brasil não consegue restabelecer condições sustentáveis de crescimento nesse novo contexto internacional sem o crescimento dos demais países da América Latina».

Sem dúvida, a frase é pomposa. ‘Condições sustentáveis’ e ‘contexto internacional’ são termos à la mode. Tirando os penduricalhos e trocando em miúdos, a fala presidencial permite várias interpretações.

Dilma e Correa1) O Brasil só cresce se os vizinhos crescerem primeiro.
Denota pirraça. Lembra conversa de namorado do tipo «só vou se você for». Pega mal.

2) O Brasil só cresce se os vizinhos ajudarem.
Denota fraqueza e dependência. Equivale a: ‘se vocês não me derem uma força, não consigo andar com minhas próprias pernas’. Pega pior ainda.

3) O Brasil tem tentado crescer, mas vocês estão nos atrapalhando.
Denota arrogância. Corresponde a acusar os vizinhos de fazer corpo mole. Além de pegar mal, ofende.

O distinto leitor pode torcer, rodear, revirar, enrolar, inverter a frase ‒ o sentido continua absconso. Não é de espantar, que já estamos habituados.

Da próxima vez, vale incluir na comitiva presidencial um intérprete simultâneo.

A adega do Lula

Cláudio Humberto (*)

Lula caricatura 2Na reta final do governo, as visitas do Lula ao exterior foram marcadas por ligações do Planalto às embaixadas do Brasil informando que o então presidente “esperava receber de presente” algumas caixas de vinhos especiais, cuja lista era em seguida enviada.

Embaixadores do Brasil naquela ocasião afirmaram à coluna, pedindo anonimato, que recebiam o “pedido” do Planalto como um ultimato. Outros diplomatas interpretaram o pedido como uma “oportunidade de agradecer” pelo posto que ocupavam no exterior.

Lula deixou o Alvorada com 1.403.417 itens transportados em 11 caminhões da Granero no trajeto de Brasília a São Bernardo (SP). Um dos veículos, climatizado, levou espantoso acervo de vinhos. Dona Marisa pediu à Granero “cuidado redobrado” com a adega do Lula.

A oposição planeja, este ano, esmiuçar a formação da adega do Lula, considerada como uma das mais valiosas de todo o País.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.