Problematizando a questão

Ruy Castro (*)

Livro 6Cenas de um provável futuro. A mãe repreende a filha de 11 anos por ela nunca lavar um copo depois de usá-lo, e ouve como resposta: “Mamãe, precisamos problematizar uma questão de gênero”. A garota quer dizer que não veio ao mundo para lavar copos. Enquanto isso, seu irmãozinho de oito anos pode ser reprovado na escola por ter fracassado na arguição sobre sublevações intestinas na África subsaariana. E o pai já pensa em contratar um professor particular de gê e tupi para o menino tirar o atraso na escola.

Esses são alguns dos itens dos currículos a ser aplicados pelo MEC com a iminente aprovação da “Base Nacional Comum Curricular”, uma reforma do ensino destinada a fazer do brasileiro um povo politicamente correto. No país dos novos comissários do pensamento, só interessam a herança ameríndia e africana, a luta das mulheres, os direitos das minorias e outros quesitos cuja importância ninguém discute, mas que os donos do poder julgam ser de sua exclusiva propriedade.

Livro 5Acusam-se os historiadores brasileiros, por exemplo, de nunca terem dado atenção suficiente à questão indígena e negra. Mas isso não é verdade. Há bibliotecas abarrotadas de livros sobre a África, o tráfico, a vida em cativeiro e como, contra todas as probabilidades, a cultura negra sobreviveu e se impôs junto à cultura “oficial” no Brasil. Os indígenas também têm vasta bibliografia, com destaque para os livros sobre as tribos da Guanabara –como o recente e monumental “O Rio Antes do Rio”, de Rafael Freitas da Silva, cuja dedicatória é reveladora: “Aos nossos gregos, os tupinambás”.

Mas não importa. O MEC decidiu que é preciso rever tudo, o que fará com que milhões de livros didáticos se vejam superados e multidões de professores tenham de se reciclar ou ser substituídos. O jeito é problematizar a questão.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

De gatos e pássaros

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 dez° 2014

«Quando non c‘è il gatto, i topi ballano» – quando o gato não está, os ratos fazem a festa. Aprendi esse provérbio, faz muitos anos, com um velho comandante da Marinha italiana. Havia lutado nas duas Grandes Guerras e, naquela altura, já estava reformado. Dono de aguçado senso de humor, quando lhe perguntavam sobre a guerra, costumava retrucar com um meio sorriso: «Qual delas? A que ganhamos ou a que perdemos?» É que tinha combatido tanto no primeiro conflito mundial – que seu país havia vencido – quanto no segundo, que terminou no desastre que conhecemos.

Fiat ElbaAdaptando o ditado à atualidade brasileira, é forçoso admitir que os gatos andam meio distraídos. Também, pudera: com a avalanche de notícias assombrosas que o saqueio à Petrobrás tem provocado, a realidade fica distorcida e a mente, atordoada. Diz-se que, quando uma pessoa morre de acidente, é um drama; quando meia dúzia perecem, é uma tragédia; quando dez mil perdem a vida, é estatística. A espoliação da estatal está nesse patamar.

Como se sabe, cada novo escândalo relega o anterior ao esquecimento. O assalto à petroleira é de tal magnitude que chega a ofuscar fatos que, em tempos normais, teriam subido à ribalta. Vão longe os tempos em que o velho Adhemar de Barros amargou processo criminal por ter-se apoderado de uma urna marajoara, pote de barro pertencente ao patrimônio coletivo. E aquele antigo presidente, então, atropelado por um Fiat Elba? Bons tempos…

Bruja 4A comilança anda inflacionada. Hoje, figurão que se contentar com propina abaixo de dez milhões faz papel de bocó. Nem o «sub do sub» – parodiando o linguajar peculiar de antigo presidente – se vende por menos. Enquanto isso…

… enquanto isso, os ratos estão fazendo a festa. Sorrateira, a obra de desconstrução nacional continua. Vai-se comendo pelas bordas, que é para não dar na vista. A grande mídia, fascinada pela inacreditável feira de indecência que povoa o andar de cima, não tem tempo (nem ânimo) de se ater a miudezas.

Bruja 3Em pleno período eleitoral, um deputado fez arrepiante revelação ao plenário da Assembleia Legislativa de Goiás. Denunciou a perniciosidade de um «kit folclórico» distribuído a aluninhos de 6 anos da rede escolar pública de Goiânia. Segundo o deputado, o material ostenta a (outrora) prestigiosa chancela do MEC. Um mês e meio depois, a acusação foi repercutida na Câmara Federal – sinal evidente de que a queixa não havia surtido efeito.

Segundo a Agência Câmara de Notícias, que divulga a denúncia do parlamentar federal, a cartilha dá receitas de magia negra, notadamente um desconcertante «feitiço para transformar criança em passarinho». O «kit» insta os pequeninos a reunir penas de pássaro preto, água benta e alpiste. Prescreve que as penas sejam arrancadas do pássaro vivo enquanto estiver cantando. Em seguida, penas, água benta e alpiste devem ser misturados num caldeirão. Enquanto mexe, a criança deve repetir a fórmula mágica «passarinho quer pousar, não deu, quebrou a coluna».

Brujo 1Chocado, distinto leitor? Eu também. É estarrecedor, como diria nossa presidente, um verdadeiro atentado. Não atino qual possa ser o objetivo dos preclaros autores dessa insídia. Permita-me duvidar que a «receita» tenha sido inserida na cartilha unicamente para divertir os pequeninos.

Num primeiro escorregão, o livrinho incita à crueldade contra animais, prática abjecta, condenada no mundo civilizado. Na contramão do decoro ecológico, patrocina a extinção de toda uma família de aves, como se a diversidade biológica fosse assunto de somenos. Pior: abre caminho para que um pequerrucho imaginoso, julgando-se transformado em ave, se atire pela janela. (O alvo são crianças de seis aninhos!) Para coroar, ao associar água benta a práticas de feitiçaria, o «kit» lança dardo envenenado a um símbolo da religião mais praticada no País. Em outros tempos, tal sacrilégio levaria os autores à fogueira.

Rato 2Não tenho a ingenuidade de imaginar que a água benta tenha entrado na receita por descuido. Estará aí a ponta do fio que, emaranhado, deu esse novelo bizarro? De alguns anos para cá, os fatos têm mostrado que o inimaginável se tornou corriqueiro no Brasil. Donde se pode inferir que o intuito tenha sido assestar mais um preciso golpe de picareta na desconstrução do que nos resta de princípios decentes. A marcha em direção à Idade Média segue galharda.

A grande mídia não se alvoroçou. A Igreja não se manifestou. Sociedades protetoras de animais não se agitaram. Devo estar eu fazendo papel de bocó. Quer saber? Que os ratos façam a festa.

 

Lição de feitiçaria

José Horta Manzano

Você sabia?

Interligne vertical 10Feitiço para transformar criança em passarinho

Ingredientes:
Penas de pássaro preto, água benta e uma colher de alpiste.

Antídoto:
O feitiço dura apenas uma hora e não há antídoto para ele. Melhor esperar passar o tempo.

Modo de fazer:
Arranque as penas do pássaro preto enquanto ele estiver cantando. Use um pequeno caldeirão para misturar a pena, um pouco de água benta e uma colher de alpiste. Enquanto mexe, repita: “passarinho quer pousar, não deu, quebrou a coluna”.

Passarinho 4Estarrecido, distinto leitor? Também eu fiquei.

Acha que essa lição de crueldade é delírio de minha imaginação satânica? Está enganado.

Acredita que seja tradução mambembe de secular lenda mongol? Continua enganado.

Pois saiba que essa receita – abominável excrescência de imaginação primitiva e doentia – é parte integrante de um kit chancelado pelo Ministério da Educação. O material está sendo distribuído a crianças de seis, sete anos.

A denúncia, feita em plena campanha eleitoral, não recebeu atenção da grande mídia. Quem a lançou foi um deputado goiano, ao saber que a cartilha estava sendo distribuída aos aluninhos da rede municipal de Goiânia. O parlamentar pronunciou-se no dia 26 de agosto em sessão plenária da Assembleia de Goiás.

É inconcebível. O MEC – órgão da administração federal encarregado da política nacional de educação de nossos pequerruchos – que ensina as crianças a fazer e a se livrar de feitiçaria! Foge ao entendimento o fato de, num país onde se salvam pinguins e araras, outros pássaros estarem sendo condenados a ser depenados vivos, “enquanto cantam”. Sugestão emanada do MEC, dependência direta da presidência da República!

Passarinho 3Sabemos todos que o Brasil vem descendo a ladeira, mas, sinceramente, não imaginava que a regressão tivesse chegado a tal ponto. Se bem que há coerência: o MEC ensina hoje aos pequeninos o caminho da feitiçaria para que, amanhã, estejam preparados para conviver com a magia de nossa inefável ‘contabilidade criativa’.

Segundo Fábio Sousa, o deputado que revelou a prática, esse kit não é o primeiro nem o único. «Existe uma cartilha que conta a história de um bebê que mata a família com uma faca» – informa o parlamentar. E acrescenta que material de ensino do MEC inclui «diadema com chifres, chapéu de bruxa, peruca, unhas de mentira, cálice de caveira».

Em outras terras, uma revelação desse calibre derrubaria imediatamente o ministro da Educação. Mas Brasil é Brasil. E vamos em frente, que “nóis é mais nóis”.

O apocalipse ensombreia a civilização brasileira.

Interligne 18bFontes:
Revolta Brasil
Portal do Meio Ambiente
Portal Ucho
Lorotas políticas & verdades efêmeras

Como disse?

José Horta Manzano

A mesma verdade pode ser apresentada de várias maneiras. Tanto se pode dourar a pílula quanto enegrecer o quadro. Há truques do tempo dos sumérios que, espantosamente, ainda funcionam. Enganam incautos e até especialistas.

Interrogação 2

Como é que é?

O Ministério da Educação acaba de trazer a público estatísticas sobre o desempenho dos que se submeteram ao exame dito Enem. Os números são apresentados de maneira ambígua, confusa. Não ficou claro se a imprecisão é voluntária.

Pelo que a mídia veiculou, ficou a impressão de que as notas dos melhores concorrentes oriundos da escola pública são superiores à média das notas dos concorrentes vindos da instrução particular. É tão fora de esquadro, que tenho dúvida em acreditar que a afirmação do MEC tenha sido exatamente essa.

Se assim for, trata-se de um truísmo, uma verdade evidente, daquelas que nem vale a pena mencionar. Se invertermos os termos da equação, o resultado será idêntico: as notas dos melhores concorrentes oriundos da instrução particular são superiores à média das notas dos concorrentes vindos da instrução pública.

Um outro exemplo de truísmo acaba de me ocorrer: estudos tendem a demonstrar que a média das temperaturas de Moscou no inverno tendem a ser mais baixas que as de Fortaleza no verão. E precisa lá fazer estudo de meteorologia para chegar a essa conclusão? É mais ou menos isso que o MEC está dizendo.

Não posso acreditar que o Ministério da Educação nos asseste enormidades como essa. Devo ter entendido mal. Caso algum distinto leitor possa jogar alguma luz, o blogueiro antecipadamente agradece.

Bolsa de estudos

José Horta Manzano

A notícia parece boa. Vem de um fórum nacional organizado por uma certa Undime ― União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, braço do MEC.

Não tenho certeza de que o termo fórum tenha sido uma escolha feliz para designar o evento. Podiam ter usado encontro, simpósio, congresso, conferência, seminário, reunião. Fórum tem carga ideológica. Enfim, talvez tenha sido exatamente essa a intenção. Afinal, há que manter sintonia com o Zeitgeist, l’esprit du temps.

O fórum anuncia o plano do Ministério da Educação de conceder bolsas a estudantes da escola média que demonstrem interesse em seguir carreira científica. Uma questão de proteger a fruta ainda verde, antes que caia da árvore ou seja devorada pelos vermes. Aplaudi de pé.

De fato, o nó do atraso brasileiro está na falta de instrução, estamos todos cansados de saber. Portanto, toda e qualquer iniciativa que puder desempacar nossa juventude só pode ser bem-vinda.

Mas nada é perfeito. Quando a esmola é muita, o santo desconfia ― costumava dizer minha avó. Aliás, de uma reunião autodenominada fórum, pode-se esperar tudo.Praia

A surpresa demora, mas chega no finzinho da reportagem. Está lá explicado que o fórum se estende por 4 dias (de terça a sexta) num complexo hoteleiro très chic da Costa do Sauípe. Além de chique, o encontro é grandioso: congrega o impressionante total de 1’100 (mil e cem) participantes.

O repórter do Estadão assume que viajou a convite da Undime. Não diz o que estava incluído nesse «convite». Seria um simples aviso ou um pacote com viagem e estada pagas? Dado que repórteres não costumam esperar convite para cobrir eventos e deles dar notícia, é lícito deduzir que, neste caso, o chamamento tenha incluído o pacote completo, embrulhado e entregue em casa.

Na mesma linha de pensamento, é igualmente lícito deduzir que outros cidadãos tenham sido agraciados com o mesmo mimo. Quantos terão sido os felizardos convidados para uma temporada na Côte d’Azur baiana à custa do dinheiro suado dos contribuintes?

Os valores andam um bocado distorcidos no Brasil. Gastam-se cachoeiras de dinheiro em marketing para anunciar pacotes de boas intenções. Pouco importa que os anúncios venham ou não a ser seguidos de efeito. O alvo não é necessariamente esse.

Não é difícil entender o objetivo real: cativar a classe média, que, com valentia, continua resistindo aos charmes inconsequentes dos novos tempos.