Ocultação de crime

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 22 jul° 2016

Chamada do Estadão, 22 jul° 2016

Na máfia, essa atitude é conhecida como omertà(*). Criminoso apanhado pela Justiça mente para cobrir e proteger um superior. Faz parte dos códigos da bandidagem.

Em terras civilizadas, isso se chama não denunciação de crime (ou ocultação de crime ou ainda obstrução de Justiça), ato que costuma ser reprimido e punido pela lei. Na hipótese mais benigna, será considerado fator agravante de outros crimes. Como reagirão os juízes de Curitiba?

(*) Nota linguística
Omertà é palavra presente em dialetos do sul da Itália, especialmente em napolitano. É a maneira local de dizer umiltà (= humildade). A Lei da Humildade é outro nome da Lei do Silêncio. Segundo ela, bandido não tem o direito, em nenhuma hipótese, de denunciar comparsa. É obrigado a calar-se, evitando, assim, que o companheiro seja apanhado pela Justiça.

Na mafia siciliana, na camorra napolitana e na ‘ndrangheta calabresa, quem entregar companheiro tem o destino selado: mais cedo ou mais tarde, será despachado desta para melhor.

Na organização criminosa que se apoderou de nosso andar de cima, porém, as regras são mais flexíveis: a Lei do Silêncio transformou-se na Lei do Salve-se Quem Puder. Afinal, o brasileiro é, antes de tudo, cordial. Ou não?

Projetos criminosos

José Horta Manzano

Não há acordo entre etimólogos quanto à origem do termo mafia. As duas hipóteses mais frequentemente aceitas ligam a palavra a uma raiz árabe. De fato, a Sicilia esteve, faz um milênio, sob domínio árabe. A ocupação durou dois séculos e deixou marcas na língua.

Especula-se que a palavra poderia derivar do árabe maha (pedreira) ou, quem sabe, de mahias (fanfarronice). Esta última suposição parece sensata. Associação de criminosos costuma reunir membros fanfarrões. O Brasil deste triste início de século já botou muito criminoso bravateiro sob a luz dos holofotes.

Mafia 1Mafia não é exclusividade siciliana. Na própria Itália, há duas outras organizações de bandidos: a camorra em Nápoles e a ‘ndrangheta na Calabria. Associações desse jaez estão presentes também no Japão (yakuza), no México e na Colômbia (os cartéis), na Rússia, na Sérvia, na Tchetchênia, na Bulgária.

No Brasil, até vinte ou trinta anos atrás, não se tinha conhecimento de organismos estruturados para práticas criminosas. O avanço da tecnologia de comunicação, principalmente os telefones celulares, permitiu o aparecimento do PCC, do Comando Vermelho e de outros clubes da mesma natureza.

Nos primeiros tempos, a novidade limitou-se ao andar de baixo. A ascensão de elementos mal-intencionados ao nível federal favoreceu a instalação de sistema análogo no topo do poder. A inovação ainda não tem nome definido. Mensalão e petrolão definem apenas façanhas da organização. Permanecemos à espera de um termo abrangente. Logo virá.

Chamada da Folha de São Paulo, 5 março 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 5 março 2016

Alguns métodos são comuns a toda mafia: intimidação, coação, ameaça, cobrança de «pedágio», incêndio criminoso, queima de arquivo.

Interligne 18h

PS: Misterioso incêndio irrompeu ontem nas instalações de Pasadena, aquela refinaria adquirida pela Petrobrás em nebulosas transações.

Ponte dos espiões

José Horta Manzano

Ponte 2Pense num filme de espionagem, daqueles que se passam na época da Guerra Fria. Numa manhã fria e brumosa, um espião americano, desmascarado em Moscou, ensaia os primeiros passos da travessia duma ponte sobre rio fronteiriço entre as duas Alemanhas. No mesmo momento, um espião soviético, capturado meses antes em Washington, faz o mesmo gesto em sentido contrário.

Avançam lentamente. Os caminhos se cruzam bem no meio da ponte. Sem se olhar nos olhos, cada qual continua reto até a margem oposta. «Pronto, elas por elas. Estamos quites» – suspiram aliviados os policiais e agentes que, armados até os dentes, tinham permanecido de cada lado da fronteira. Tudo correu bem. É o capítulo final de uma longa tratativa que se desenrolou nos bastidores, longe de toda publicidade.

Se o distinto leitor imagina que cenas como essa fazem parte de um passado poeirento e enterrado para sempre, convido-o a reconsiderar a questão. A imprensa italiana em peso afirma hoje que, sem a dramaticidade cinematográfica da travessia da ponte, nova troca de prisioneiros acaba de ocorrer.

Aeronave que transportou Pizzolato de SP a Brasília 23 out° 2015

Aeronave que transportou Pizzolato de SP a Brasília
23 out° 2015

A verdadeira história da extradição do mensaleiro Pizzolato, que acaba de chegar a Brasília para uma temporada na Papuda, é menos charmosa e bem menos jurídica do que se possa imaginar. Nosso mensaleiro interpreta o papel de um dos prisioneiros que atravessam a ponte. E quem é o outro?

Segundo a imprensa italiana, que deve ter seus fundamentos para afirmá-lo, a outra moeda da negociação chama-se Pasquale Scotti. É antigo membro da camorra (máfia napolitana), condenado à prisão perpétua por mais de 20 homicídios. Gente fina, como se vê. O bom moço estava no Brasil havia mais de 30 anos. Sob identidade falsa, vivia no Recife.

Ponte 1Foi capturado pela Polícia Federal em maio. Informada pela Interpol, a Itália logo pediu extradição do cidadão. O que se segue não foi publicado, mas pode ser imaginado. Autoridades italianas e brasileiras concluíram acordo na base do «eu te mando este, você me devolve aquele».

De fato, o STF autorizou a extradição de signor Scotti no dia 20 de outubro. Dois dias depois, a Itália entregou signor Pizzolato a agentes da PF brasileira. Baita coincidência, né não? Parece que a imprensa italiana sabe do que está falando.

Os detalhes da troca de prisioneiros estão na Agência Brasil (em português) e no jornal turinês La Repubblica (em italiano).

Com ditadura é mais fácil

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 maio 2013

«L’important dans la vie ce n’est point le triomphe, mais le combat.
L’essentiel n’est pas d’avoir vaincu, mais de s’être bien battu.»

O importante na vida não é o triunfo, mas o combate.
O essencial não é vencer, mas lutar bem.

Interligne 3c

Que me perdoem pela longa citação. É a famosa máxima ― geralmente mencionada truncada ― do barão Pierre de Coubertin, aquele que, 120 anos atrás, ressuscitou os Jogos Olímpicos. Achei importante citá-la na íntegra.

Quando o barão pronunciou essas palavras, todos fingiram acreditar. Mas elas seguem um raciocínio contrário à natureza humana. Não tivessem nossos antepassados vencido, e não estaríamos nós aqui. É importante lutar, mas vencer é o objetivo natural de toda contenda. Ninguém compete pelo simples prazer de renhir. Dizem alguns biógrafos, aliás, que nem o próprio barão acreditava na frase que havia pronunciado.

Há mentiras e meias-verdades em que a gente faz que acredita. Nem que seja só para evitar discussão. Um antigo presidente de nossa República, quando ainda exercia o cargo, disse certa feita que a Venezuela padecia de excesso de democracia. Todos fizeram cara de acreditar. Pra que discutir?

François Hollande, quando ainda candidato à presidência da França, garantiu que consertaria a economia do país já no primeiro ano de mandato. Alguns eleitores acreditaram, outros só fizeram cara. O homem foi eleito. Um ano depois, a economia continua a mergulhar num abismo que parece não ter fim, enquanto a taxa de desemprego sobe à estratosfera. Estes dias, Monsieur Hollande voltou a prometer que, daqui para o fim do ano, sem falta, estará tudo dominado e o país terá entrado nos eixos. Agora, vai. A gente faz que acredita. Pra que discutir?

No Brasil, ao término de um processo conhecido como mensalão, alguns figurões de alto coturno foram considerados culpados e, ato contínuo, condenados por crimes vários. Curiosamente, alguns dos anjos caídos ― justamente os que mais alto se situavam na hierarquia ― continuam a jurar não ter jamais cometido os crimes pelos quais foram sentenciados. Alegam ter sido vítimas de uma farsa grotesca e garantem que uma corte internacional de arbitragem reconhecerá a iniquidade da condenação. Todos fazemos de conta que acreditamos. Pra que discutir?

De vez em quando, um medalhão nos surpreende com alguma declaração fora de esquadro. Semana passada, por exemplo, o secretário-geral da Fifa nos brindou com uma pérola. Em tom de queixa contra a burocracia brasileira, afirmou que «um nível mais baixo de democracia é preferível para organizar uma Copa do Mundo». Trocando em miúdos, o mandarim insinuou que, na hora de preparar um campeonato mundial, nada se compara a uma boa ditadura.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

O secretário-geral tem tudo para se sentir blindado. No ano passado, depois de fazer um de seus desastrados pronunciamentos, foi declarado persona non grata pelo Ministro dos Esportes do Brasil. Sabe-se lá por que milagre, o incêndio foi apagado rapidinho e o episódio foi esquecido. Monsieur Valcke voltou a ser persona grata em nossas terras.

De novo incensado, sentiu-se livre para reclamar da quantidade de interlocutores com os quais é obrigado a dialogar no Brasil. Gostaria de ter uma só pessoa com quem conversar. Se essa pessoa for o mandachuva maior, melhor ainda.

O secretário-geral mostrou-se nostálgico da Copa de 1978, aquela que serviu de vitrina para os ditadores argentinos mostrarem ao mundo a excelência do regime. Na época, naturalmente ninguém mencionou o lado sombrio e as dezenas de milhares de desaparecidos.

Para coroar, o figurão não se privou de formular votos para que a Copa seguinte, a da Rússia, seja mais do seu feitio. Chegou ao despudor de mencionar o nome de Putin. Mostrou-se seguro de que o tsar de todas as Rússias ainda estará firme no poder, e de que, com ele, o diálogo será mais fluido. Ninguém duvida.

O relacionamento entre a Fifa e o governo brasileiro é complicado, difícil de delinear. O que parece nem sempre é. A riquíssima Fifa é organização notoriamente corrupta. A elite política brasileira também está habituada a lidar com muito dinheiro e não costuma mostrar especial empenho em coibir a corrupção por estas bandas.Copa 14 logo 2

Mas cada turma tem seus métodos, seu jeito de operar. Mal comparando, costurar um acordo entre a Fifa e os governantes brasileiros é tentar conciliar, digamos, capos da Máfia siciliana com chefes da Camorra napolitana. Para chegar lá, precisa ter boa vontade e paciência. Muita paciência.

Nosso consolo é que, no fim, o esporte vencerá. Afinal, o importante é competir. Pra que discutir?