Falam de nós – 21

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Para começar, a notícia chata
O diário El Observador e outros veículos de Montevidéu informam que o Ministério do Interior uruguaio está reforçando a segurança na fronteira com o Brasil. Para tanto, câmeras de vídeo estão sendo instaladas. Centenas de militares e de policiais também estão sendo mobilizados. As quatro províncias que têm fronteira seca com o Brasil estão incluídas na operação, que tem até nome: Programa Gavilán ‒ Operação Gavião.

O programa já foi posto em prática e testado, aparentemente com sucesso, durante a Copa de 2014 e os JOs de 2016. Além de controle reforçado nos postos de fronteira, o Uruguai organiza também blitzes de surpresa nas estradas. A fronteira com o Brasil é classificada como uma «perigosa peneira».

O temor dos hermanos tem três razões de ser. Em primeiro lugar, procuram reprimir a entrada de cocaína no país. Em seguida, têm a intenção de proteger seus fazendeiros contra furtos de gado que ocorrem com indesejável frequência.

A terceira razão ‒ a mais preocupante ‒ tem a ver com o crime organizado brasileiro. Depois do assalto de que foi vítima uma transportadora de valores em Ciudad del Este (Paraguai), ataque atribuído ao PCC brasileiro, os uruguaios andam ressabiados. Meia dúzia de cidades de certa importância estão coladas à fronteira brasileira e podem estar na mira dos bandidos. Melhor prevenir.

Para terminar, a notícia agradável
Em 2015, aos 18 anos de idade, o paulista Felipe Levtchenko embarcou para a França para um intercâmbio escolar previsto para alguns meses. Ao chegar, não conhecia nenhuma palavra de francês. Acolhido por uma família de Perpignan (sul do país), dedicou-se de corpo e alma ao aprendizado da língua e ao que lhe ensinavam na escola.

Os começos foram difíceis. A realidade do inverno assustou o moço habituado ao clima morno dos trópicos. Pra piorar, enfrentou as tribulações de viver num mundo em que todos falam uma língua desconhecida. No entanto, passado o primeiro momento de desalento, o mergulho total ajuda. Por bem ou por mal, acaba-se entendendo o que dizem os outros.

Para resumir a história, Felipe gostou da experiência e foi ficando. Decidiu ficar até o fim do ano escolar para enfrentar os exames do «bac», que corresponde a nosso Enem. Não conseguiu passar. Seu conhecimento de francês era insuficiente.

Insistente, o rapaz decidiu repetir o último ano da escola média. Estudou novamente toda a matéria e reforçou seu aprendizado de francês. Semana passada, tentou de novo o exame final. Conseguiu a inacreditável média de 19,26(*). A façanha foi noticiada por toda a imprensa regional.

Perfeitamente integrado, Felipe pretende continuar na França. Não vai cursar uma, mas duas faculdades ao mesmo tempo. E não é a escolinha da esquina não, senhor. Por um lado, vai inscrever-se na ultrafamosa «Sciences Po» (Ciências políticas), faculdade de cujos bancos saiu boa parte da elite dirigente francesa. Por outro lado, vai cursar nada menos que… a Sorbonne, uma das universidades mais prestigiosas do mundo! «Para não abandonar a matemática» ‒ diz o rapaz.

(*) Na França, a notação não é baseada no máximo de 10, como estamos acostumados. Vai de zero a 20. A média de 19,26 sobre 20 equivale portanto a 9,63 sobre 10 ‒ nota pra ninguém botar defeito. Quando se leva em conta que o moço não conhecia uma palavra da língua até dois anos atrás, é de tirar o chapéu.

Projetos criminosos

José Horta Manzano

Não há acordo entre etimólogos quanto à origem do termo mafia. As duas hipóteses mais frequentemente aceitas ligam a palavra a uma raiz árabe. De fato, a Sicilia esteve, faz um milênio, sob domínio árabe. A ocupação durou dois séculos e deixou marcas na língua.

Especula-se que a palavra poderia derivar do árabe maha (pedreira) ou, quem sabe, de mahias (fanfarronice). Esta última suposição parece sensata. Associação de criminosos costuma reunir membros fanfarrões. O Brasil deste triste início de século já botou muito criminoso bravateiro sob a luz dos holofotes.

Mafia 1Mafia não é exclusividade siciliana. Na própria Itália, há duas outras organizações de bandidos: a camorra em Nápoles e a ‘ndrangheta na Calabria. Associações desse jaez estão presentes também no Japão (yakuza), no México e na Colômbia (os cartéis), na Rússia, na Sérvia, na Tchetchênia, na Bulgária.

No Brasil, até vinte ou trinta anos atrás, não se tinha conhecimento de organismos estruturados para práticas criminosas. O avanço da tecnologia de comunicação, principalmente os telefones celulares, permitiu o aparecimento do PCC, do Comando Vermelho e de outros clubes da mesma natureza.

Nos primeiros tempos, a novidade limitou-se ao andar de baixo. A ascensão de elementos mal-intencionados ao nível federal favoreceu a instalação de sistema análogo no topo do poder. A inovação ainda não tem nome definido. Mensalão e petrolão definem apenas façanhas da organização. Permanecemos à espera de um termo abrangente. Logo virá.

Chamada da Folha de São Paulo, 5 março 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 5 março 2016

Alguns métodos são comuns a toda mafia: intimidação, coação, ameaça, cobrança de «pedágio», incêndio criminoso, queima de arquivo.

Interligne 18h

PS: Misterioso incêndio irrompeu ontem nas instalações de Pasadena, aquela refinaria adquirida pela Petrobrás em nebulosas transações.

PCC

José Horta Manzano

O jornal francês Libération publicou uma reportagem daquelas que incomodam.

Começa dizendo que, a dois meses da «Copa das copas», a maior cidade do País é obrigada a conviver com uma organização de narcotraficantes que, de tão poderosa, está em condições de paralisar as instituições a qualquer momento. Está falando do PCC, como você já imaginou.

Crédito: Nacho Doce, Reuters

Crédito: Nacho Doce, Reuters

Em seguida, dá um apanhado das origens e da atualidade da «principal organização criminosa» do país. Faz uma radiografia da quadrilha e cita os seguintes números:

Interligne vertical 101993: ano de criação do bando

190 mil: total de detentos no Estado de São Paulo

46 anos: idade do chefe da gangue

37 milhões de euros: receita anual do PCC, o que permite que seja incluído no grupo das 1150 maiores empresas brasileiras

200 euros: contribuição mensal paga por todo membro, ainda que esteja em liberdade

11’500: número total de membros da organização

1’800: membros atualmente em liberdade na cidade de São Paulo. É mais que o dobro do efetivo da Rota, a polícia de elite. Esses são os tarefeiros, os que executam as ordens do chefe.

Para ler o original, clique aqui e também aqui.

Inadequação vocabular ― 3

José Horta Manzano

Não se passa uma semana sem que voltem às manchetes as barbaridades perpetradas por quadrilhas criminosas cujos membros podem ou não estar detrás das grades. Ainda ontem, 5 de dez°, a Folha de São Paulo publica uma horripilante reportagem de Josmar Jozino sobre as últimas façanhas dos facínoras.

O PCC, assim como outras quadrilhas, vem sendo designado como facção. Facção, embora esteja na moda, não é a melhor palavra. Ao contrário: tem origem nobre e heroica, diametralmente oposta ao que queremos exprimir quando nos referimos à máfia carcerária tupiniquim. Em matéria de indivíduos que se associam a fim de cometer crimes, nossa língua ― sabe Deus por que ― é riquíssima.

Jornalistas, repórteres, escritores, autoridades, locutores deveriam banir o suave facção. Para designar essa gente, a escolha de expressões mais adequadas é vasta. Vejamos:

corja, bando, súcia, alcateia, choldra, turba, horda, caterva, cainçalha, malta, farândula, canzoada, canalha, récova, quadrilha, mamparra, gangue, cáfila, magote, leva, troça, ralé, cainçada, escória, gentalha, escumalha, matilha, chusma, rebotalho.

Então, quem se habilita?

O blogue agradece à fiel leitora e seguidora Wilma. Atenta, ela notou que faltava rebotalho. Já acrescentei.

¿ Por qué no te callas ?

José Horta Manzano

O povo brasileiro pode sentir-se protegido. Big Brother cares for you ― lá no andar de cima, os figurões cuidam de você.

Prisioneiro

Prisioneiro

Já faz quase uma semana que o clima político-policial anda agitado em consequência da revelação que o Estadão fez sobre o crime dito organizado. Falo das investigações e das provas trazidas pelo Ministério Público do Estado de São Paulo sobre a gangue autodenominada PCC.

Matilhas criminosas costumam prosperar lá onde o Estado estiver ausente. As máfias do sul da Itália, da Rússia, da região balcânica têm-se valido desses desvãos para progredir. Nosso país tem uma classe política que muito fala e pouco faz. Os discursos, os pronunciamentos, os anúncios, os comícios apontam todos para um futuro radioso de felicidade geral. Na prática, a teoria tem sido outra.

Preocupados mais com politicagem do que com política, nossos governantes vivem dentro de uma bolha confortável que os isola do dia a dia da nação. Absorvidos por permanentes manobras visando à manutenção de seu próprio poder, desconectam-se da tarefa para a qual foram eleitos. A administração é abandonada a assessores e auxiliares que, incompetentes, vão empurrando com a barriga.

O resultado está aí. O governador do Estado mais importante do País fica sabendo pelos jornais que sua eliminação vem sendo planejada por uma súcia de presidiários.

Criminosos com contabilidade e Conselho de Administração

Criminosos com contabilidade e Conselho de Administração

A presidência da República acaba de anunciar que, dentro em breve, o Brasil estará em condições de tornar seguras as mensagens emitidas por brasileiros. Paradoxalmente, essas mesmas autoridades, tão lestas a reorganizar o fluxo da comunicação entre gente comum, são incapazes de coibir o uso de telefones celulares nas prisões. É paradoxal. Haja descaso!

¿ Por qué no te callas ?

¿ Por qué no te callas ?

Para coroar, vem agora o ministro da Justiça em pessoa declarar que considera inaceitável «a atuação e a dimensão» (sic) da corja de prisioneiros. É de perguntar que atuação ele esperava da malta. E qual seria a dimensão «aceitável».

*

Há horas em que é melhor fechar a boca para não dizer besteira.