A dura semeadura

José Horta Manzano

Em artigo publicado esta semana, o diário espanhol El Pais deu conta do terrível calvário que o povo venezuelano está sofrendo em decorrência da corrupção generalizada que assola o país. A situação é inimaginável. A vida de nossos infelizes vizinhos do norte se está dissolvendo numa implacável geleia geral.

Um caminhão que percorre os 800km que vão de Táchira a Caracas com uma carga de 3000kg de bananas chega ao destino com 300kg a menos. É a regra e já faz parte da rotina. Postos de polícia cobram «pedágio» de todos os caminhões que trafegam. Todos têm de pagar o dízimo.

Um mês atrás, produtores de queijo do Estado de Apure passaram duas noites num cárcere por se terem recusado a entregar dez por cento da carga que levavam. O confisco generalizado conta com o apoio de policiais e de prefeitos municipais, todos alinhados com o tiranete Maduro. A mercadoria sequestrada será vendida no mercado negro a peso de ouro.

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

A situação, grave e revoltante, desanima os agricultores. Os que costumavam cultivar para vender desistem e acabam plantando para sobreviver. A produção encolhe a olhos vistos. Faltam sementes. Faltam insumos. O assalto generalizado gera escassez e provoca violenta subida dos preços, alimentando a já descontrolada inflação.

Quinze anos atrás, a produção agrícola da Venezuela cobria 70% das necessidades da população. Em 2017, a produção nacional mal deu pra suprir 25% do consumo.

A vida no Brasil, ainda que nos pareça dura, é verdadeiro paraíso aos olhos de um venezuelano. Nossa corrupção, que corrói o fruto do trabalho de todos, é menos visível. Na Venezuela, esse tipo de criminalidade é escancarado, onipresente. O baque é mais violento. Como se sabe, violência gera violência, num círculo infernal.

Os infelizes vizinhos que fogem do país para refugiar-se em Roraima têm fome. Por maiores que sejam nossos problemas, passar fome, para nós outros, é inconcebível.

Quando se assiste a esse drama, dá um tremendo alívio. Se não tivéssemos afastado do governo o lulopetismo ‒ cujo chefe chegou a dizer um dia que «a Venezuela tem democracia em excesso» ‒, poderíamos estar na mesma situação.

Escapamos! Deus é brasileiro.

Projetos criminosos

José Horta Manzano

Não há acordo entre etimólogos quanto à origem do termo mafia. As duas hipóteses mais frequentemente aceitas ligam a palavra a uma raiz árabe. De fato, a Sicilia esteve, faz um milênio, sob domínio árabe. A ocupação durou dois séculos e deixou marcas na língua.

Especula-se que a palavra poderia derivar do árabe maha (pedreira) ou, quem sabe, de mahias (fanfarronice). Esta última suposição parece sensata. Associação de criminosos costuma reunir membros fanfarrões. O Brasil deste triste início de século já botou muito criminoso bravateiro sob a luz dos holofotes.

Mafia 1Mafia não é exclusividade siciliana. Na própria Itália, há duas outras organizações de bandidos: a camorra em Nápoles e a ‘ndrangheta na Calabria. Associações desse jaez estão presentes também no Japão (yakuza), no México e na Colômbia (os cartéis), na Rússia, na Sérvia, na Tchetchênia, na Bulgária.

No Brasil, até vinte ou trinta anos atrás, não se tinha conhecimento de organismos estruturados para práticas criminosas. O avanço da tecnologia de comunicação, principalmente os telefones celulares, permitiu o aparecimento do PCC, do Comando Vermelho e de outros clubes da mesma natureza.

Nos primeiros tempos, a novidade limitou-se ao andar de baixo. A ascensão de elementos mal-intencionados ao nível federal favoreceu a instalação de sistema análogo no topo do poder. A inovação ainda não tem nome definido. Mensalão e petrolão definem apenas façanhas da organização. Permanecemos à espera de um termo abrangente. Logo virá.

Chamada da Folha de São Paulo, 5 março 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 5 março 2016

Alguns métodos são comuns a toda mafia: intimidação, coação, ameaça, cobrança de «pedágio», incêndio criminoso, queima de arquivo.

Interligne 18h

PS: Misterioso incêndio irrompeu ontem nas instalações de Pasadena, aquela refinaria adquirida pela Petrobrás em nebulosas transações.

Miscelânea 06

José Horta Manzano

Autostrada italiana 1935

Autostrada italiana 1935

Proporcional
A Itália reclama para si a invenção da estrada de rodagem ― em seu conceito moderno, entenda-se. Na Europa, foram realmente os primeiros, já nos anos 1920, a se darem conta da necessidade de construir estradas exclusivas para veículos automotores. Entre rebanhos de cabras, carroças de feno, carros de boi, bicicletas e pedestres, os automóveis tinham crescente dificuldade em se locomover nas estradas de então.

Em 1924, foi inaugurada a primeira dessas novas vias, a Milano-Laghi, 84 quilômetros entre Milão e a região dos lagos lombardos. As características principais desse novo tipo de estrada já estavam lá: duas pistas duplas separadas por um canteiro central, proibição de circulação a todo veículo não motorizado, cobrança de uma taxa de passagem ― o pedágio.

Hoje a Itália conta com 6500km dessas estradas exclusivas, enquanto a França tem 9600km e a Alemanha, 11700km. A rede suíça totaliza 1400km. Os italianos dizem autostrada. Em alemão, é Autobahn. Os franceses conhecem como autoroute. Já os espanhóis preferem autopista. Em Portugal, também dizem auto-estrada. No Brasil, não há um nome específico. Fala-se em estrada duplicada, em rodovia com pedágio. Acredito que autoestrada ou via expressa pudesse ser uma boa tradução. Quem tiver melhor ideia, que se manifeste.

Via expressa atual

Via expressa moderna

Quase cem anos depois da abertura da primeira autostrada europeia, o Estadão nos informa que, neste sábado 27, a rodovia SP-340 «ganha»(sic) pedágio por trecho. É realmente um ganho! A cobrança da taxa de circulação passa a ser proporcional à distância percorrida. Isso sempre pareceu evidente para os europeus, desde os pioneiros de 100 anos atrás. Mas não aos responsáveis brasileiros.

Antes tarde que nunca.Interligne 18b

Suplentes
Artigo de Victor Vieira publicado neste 27 de julho volta ao assunto dos suplentes de senador. Dentre os 81 titulares, 16 são suplentes, criaturas sem voto, escolhidas por dedaço entre os familiares ou conhecidos dos senadores. Isso significa que 20% dos representantes dos Estados não foram eleitos pelo povo, um inconcebível absurdo.

Para o caso de impedimento de um senador, há somente duas soluções viáveis:
1) Deixar vaga a cadeira até que o titular retorne ou, no caso de não retornar, até a próxima eleição.
2) Organizar nova eleição no Estado representado pelo senador.

Que se aproveite a onda das reformas que apontam por aí e que se tome uma decisão. O que não podemos é continuar com esse sistema clânico, descendente direto do conceito medieval das capitanias hereditárias. Um senador não pode «terceirizar» seu cargo. O eleito é ele e não um de seus familiares, homens de confiança ou… capangas.

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A vantagem de Maria
A notícia fala dos problemas judiciários de Dominique Strauss-Kahn, ex-futuro candidato à presidência da França. Não me cabe aqui tomar partido. Eles, que são brancos, que se entendam.

O que me surpreende é o desaparecimento de uma palavra de nossa língua. Não li todos os avisos mortuários dos últimos 50 anos, portanto não sei quando ela faleceu. O fato é que sumiu de circulação.

O artigo conta que DSK está sendo processado pelo crime de proxenetismo. Em seguida, o jornalista sente-se obrigado a explicar, com meia dúzia de palavras, o que vem a ser essa palavra.

É aí que sinto a falta que fazem as palavras falecidas. Antigamente, dizia-se lenocínio. E todos sabiam o que era, não precisava maiores explicações. Quando proxenetismo entrou na língua portuguesa, já fazia alguns séculos que se dizia lenocínio.

Está aí uma substituição inútil e trabalhosa. Esquece-se a palavra antiga, elege-se uma nova. E, a cada vez que aparece, tem de ser acompanhada de sua definição.

Como dizia o outro: ― que vantagem Maria leva?Interligne 18b

Bandeiras queimadas by Miguel Schincariol, AFP

Bandeiras queimadas
by Miguel Schincariol, AFP

La gloria en llamas
Nos anos 60, na véspera da inauguração de uma exposição espanhola em Milão, na Itália, houve uma passeata de protesto. Os manifestantes reclamavam contra o regime franquista que regia a Espanha já fazia mais de 25 anos. No auge dos protestos, atearam fogo a bandeiras espanholas.

Indignado com o que acabava de acontecer, um jornalista espanhol, hoje já falecido, usou de toda a sua verve para escrever um inflamado artigo que fez história no jornalismo ibérico. Foi lá que, referindo-se à bandeira, utilizou a expressão «la gloria en llamas», a glória em chamas. E o artigo terminava prevenindo aqueles «que se divertem brincando com fogo».

Nesta sexta-feira, irresponsáveis se divertiram queimando a bandeira brasileira e a paulista. A bandeira é o símbolo maior de um país. Atear fogo a ela equivale a ofender todo um povo. É insulto de gravidade extrema, como se tivessem cuspido na cara de todos nós. A bandeira não é símbolo da presidente, nem do congresso, nem da prefeitura. É a representação de todos os brasileiros. Quero crer que os iconoclastas sejam brasileiros também. Assim, terá sido a primeira vez que vejo manifestantes ofendendo a si próprios. Nonsense total.

Nestes tempos de visita papal, cabe lembrar o sempre atual versículo 23:34 do Evangelho de Lucas: «Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem».

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