Blindagem de um companheiro

José Horta Manzano

A destituição de Dilma Rousseff resultou da conjugação de dois fatores deletérios. Por um lado, do desnudamento de uma enxurrada de corrupção que, embora suspeitada, nunca antes neste país havia sido exposta com tanta nitidez. Por outro, da desastrosa incompetência que empurrou a nação para o buraco em que se encontra hoje.

Isolado, um só desses fatores talvez não tivesse levado ao impeachment. Corrupção sempre houve, todos sempre souberam e sentiram. Como prova, as condenações do mensalão que, embora tendo exposto situação semelhante, não tinham levado à destituição do então presidente. A incompetência tampouco é novidade. Como prova, o governo Sarney que, apesar de desastroso, seguiu firme até o último dia.

dar-a-mao-2Destronada a presidente, sobrou a esperança de que, em face do estado calamitoso do país, o sucessor imprimisse novo rumo ao governo com visível guinada no bom sentido. Esperava-se um esforço para amenizar o assalto ao erário e um empenho na boa governança. Ansiava-se por um governo limpo, pelo menos na aparência.

Saiu estes dias a notícia de que o presidente promoveu um de seus assessores ao cargo de ministro de Estado. Até aí, nada de extraordinário. Acontece que o novel ministro é citado numa das delações da Operação Lava a Jato. Aí a coisa engrossou. Com razão, a grita tem-se alevantado.

Não é o momento de prejulgar. Nenhum de nós, nesta altura dos acontecimentos, tem condições de afirmar que o referido senhor seja culpado de algum crime. O problema é ético e ‒ esse, sim ‒ nos concerne e pode ser entendido por todos.

dar-a-mao-3Em países civilizados, quando um indivíduo ligado ao governo é enredado num escândalo, a primeira providência é afastá-lo das funções. Fica de molho até que se demonstre sua inocência. Ou sua culpa. Nosso presidente não tomou esse caminho. Três dias depois da divulgação da delação, o chefe do Executivo deu ao suspeito o cargo de ministro. Com isso, deu-lhe de quebra a blindagem do famigerado ‘foro privilegiado’, excrescência que, aliás, destoa do conceito republicano instaurado em 1889.

A constatação é frustrante e desanimadora: o ato de senhor Temer, embora legal, passa longe da ética. O favor feito ao companheiro consolida a ideia de que, no andar de cima, são todos iguais. O gesto confirma que os que nos dirigem não passam de um bando de confrades irmanados na proteção dos próprios interesses, longe dos anseios prementes do povo que paga seus salários e mordomias. Ainda não será desta vez que sairemos do buraco. É pena.

Salto para trás

José Horta Manzano

Atribuem ao grande Antônio Carlos Jobim a frase «O Brasil não é para principiantes». Que seja dele ou não, a ‘boutade’ exprime uma grande verdade. O distinto leitor que, há tantos anos, tem visto o país descendo a ladeira, não não faz parte dos «principiantes» aos quais Tom Jobim se referia. Assim sendo, conhece os comos e os porquês do descalabro atual.

No entanto, quem não vive a realidade nacional no dia a dia recebe informações fragmentárias. Certas notícias chegam, outras não. Quem vive em Terras de Santa Cruz conhece nome, sobrenome e, muitas vezes, ‘codinome’ de todas as figurinhas carimbadas que circulam pelos corredores do Planalto, do Congresso e do STF. Para quem vive fora, é diferente.

jornal-6O respeitado jornal «Le Monde», quotidiano francês de referência, cujas análises costumavam ser respeitadas como as do New York Times, começa a dar mostra de ter abandonado a isenção, sua marca registrada. Quanto trata dos problemas brasileiros, sabe-se lá por que, tem mostrado visão sistematicamente capenga. Insiste em apresentar uma versão parcial dos fatos, dando a seus leitores uma ideia distorcida de nossa realidade.

A edição datada de 8 dez° 2016 traz um surpreendente artigo que ilustra o que acabo de dizer. Começa pelo título: «Brésil: le grand bond en arrière» ‒ «Brasil: o grande salto para trás». Para que fique ainda mais claro, o subtítulo insiste que «desde a destituição de Dilma Rousseff, o governo de Michel Temer conduz uma política que combina conservadorismo, autoritarismo e corrupção». Pronto, o tom está dado.

Transcrevo abaixo os primeiros parágrafos do artigo. Vai no original, em seguida dou a tradução.

Interligne 18c

«Le mardi 29 novembre, le Sénat brésilien a voté en faveur d’un amendement constitutionnel (PEC-55) plafonnant pour 20 ans les dépenses publiques. Alors que les sénateurs votaient, une manifestation d’étudiants se déroulant sur l’esplanade du Congrès était violemment réprimée par la police militaire(1). Au même moment, les députés adoptaient une série de dix mesures anti-corruption, vidées de leur substance et perçues comme une manière de se protéger des investigations liées aux dédoublements de l’Affaire Petrobras et de contre-attaquer un pouvoir judiciaire prompt à théâtraliser son action, à outrepasser ses prérogatives et à bousculer l’équilibre entre les pouvoirs.

Une semaine plus tard, le Président du Sénat, Renan Calheiros (du Parti du mouvement démocratique brésilien, auquel appartient le président non-élu(2) Michel Temer) est mis en accusation et écarté de ses fonctions par un membre de la Cour suprême (STF). La décision «monocratique» est refusée par le comité directeur du Sénat. Cet ensemble de faits en dit long sur l’état de la démocratie au Brésil, ébranlée depuis le coup d’État parlementaire maquillé en processus d’impeachment.»

Chamada do jornal Le Monde, 8 dez° 2016

Chamada do jornal Le Monde, 8 dez° 2016

«Terça-feira 29 de nov°, o Senado brasileiro votou emenda constitucional limitando, por 20 anos, as despesas públicas. Enquanto os senadores votavam, uma manifestação de «estudantes» (as aspas são minhas) na esplanada do Congresso foi violentamente reprimida pela PM(1). No mesmo momento, os deputados adotavam um conjunto de dez medidas anticorrupção ‒ desfiguradas ‒ destinadas a protegê-los de investigações do escândalo Petrobrás e a contra-atacar um Judiciário prestes a ultrapassar teatralmente suas prerrogativas e a desestabilizar o equilíbrio entre os Poderes.

Uma semana depois, o presidente do Senado, Renan Calheiros (do PMDB, partido do presidente não-eleito(2) Michel Temer) torna-se réu e é afastado de suas funções por um membro do STF. A decisão «monocrática» é rejeitada pela mesa diretora do Senado. Esse conjunto de fatos traduz o estado da democracia no Brasil, abalada desde o golpe de Estado parlamentar disfarçado de processo de impeachment

Interligne 18c

É frustrante ver órgão respeitado da mídia internacional publicando esse tipo de análise lacunar e tendenciosa. Atravessamos um momento difícil, sim, mas ainda há esperança. Esse tipo de escrito, que reduz o Brasil a uma republiqueta de bananas, nos é altamente prejudicial. À leitura de artigos como esse, grandes investidores não se sentem encorajados a arriscar estabelecer-se num país tão primitivo.

Ninguém ignora que nosso país está longe de ser perfeito, mas está na hora de o governo federal tomar iniciativas enérgicas para dizer ao mundo que, apesar dos pesares, muito está sendo feito para sair do buraco em que nos metemos.

by Paul Colin (1892-1985), artista francês

by Paul Colin (1892-1985), artista francês

(1) Ao sublinhar que Michel Temer é presidente “não-eleito“,  o artigo desinforma. Dilma Rousseff e Michel Temer formavam uma chapa eleitoral. Os 54 milhões de votos foram dados aos dois, não somente a ela. Houve tempos, no Brasil, em que se votava separadamente para presidente e para vice-presidente. Faz tempo que não é mais assim. Todos os que sufragaram a doutora também votaram no doutor.

(2) PM (= Polícia Militar) é expressão corriqueira no Brasil. Contrapõe-se a Polícia Civil. Em francês, não é assim. A informação que o artigo dá aos franceses é maliciosa. A Polícia Militar brasileira deve ser traduzida simplesmente por Police ou Gendarmerie. À Polícia Civil brasileira, corresponde a Police Judiciaire francesa.

Dado que, na França, a expressão «Police militaire» não designa nenhum corpo policial corriqueiro, traz à imagem o exército. No texto, o autor dramatizou voluntariamente a situação. A ouvidos franceses, soa como se o exército tivesse sido chamado para reprimir inocentes «estudantes». Com tanques e brucutus.

Saia justa

José Horta Manzano

A morte de Fidel Castro, ocorrida quando o «lider máximo» já estava com 90 anos e enfermo havia uma década, não surpreendeu. Entristeceu alguns, alegrou outros, mas a Terra não vai deixar de girar por causa disso.

De toda maneira, quando se atinge idade canônica, o que tinha de ser feito está feito. Não há mais nada a acrescentar, nem para o lado do bem nem para o lado do mal.

Quanto ao legado do bondoso velhinho de Cuba, não são necessárias muitas palavras: basta observar o dia a dia do povo da ilha, que deixa patente a herança de quase 60 anos de castrismo. Como diz o outro, pior não fica.

che-guevara-1Foi-se o comandante mas deixou uma saia justa para os mandatários do mundo. Quando morre um personagem importante ‒ especialmente tão longevo ‒, chefes de Estado ou de governo afluem para assistir aos funerais. É o costume. No entanto, no caso do velho e impiedoso homem forte de Cuba, a presença de personalidades causa embaraço.

De fato, os que forem estarão dando uma espécie de aval à política dos Castros. Já os que deixarem de ir vão marcar certa distância dos métodos da «revolución» e dar mostra de desaprovar o estilo cubano de governar. Ao não comparecer, estarão enfraquecendo sua posição como parceiro preferencial da nova política comercial que está despontando na ilha. Que fazer?

No momento em que escrevo, alguns chefes de Estado ou de governo já definiram posição. Vamos ver como está a lista.

Os que apenas mandarão representante:
● François Hollande (França)
● Shinzo Abe (Japão)
● Johann Schneider-Ammann (Suíça)
● Theresa May (Reino Unido)
● Vladimir Putin (Rússia)
● Felipe VI (Espanha)
● Justin Trudeau (Canadá)
● Michelle Bachelet (Chile)
● Mauricio Macri (Argentina)
● Narendra Modi (Índia)
● Hassan Rohani (Irã)
● Xi Jinping (China)
● Michael O’Higgins (Irlanda)
● Kim Jong-un (Coreia do Norte)

Que se note a curiosa ausência de dirigentes ideologicamente próximos do regime cubano, como o da Rússia, o da China, o do Irã e o da Coreia do Norte. Barack Obama (EUA) ainda não divulgou decisão oficial, mas deu sinais de não ter intenção de comparecer.

havana-1

Do lado dos que confirmaram presença, estão alguns incontornáveis:
● Nicolás Maduro (Venezuela)
● Evo Morales (Bolívia)
● Daniel Ortega (Nicarágua)
● Rafael Correa (Equador)

Robert Mugabe, presidente do Zimbábue, que está entre os dirigentes malvistos no mundo civilizado, vai estar presente. O ditador Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial, também. Jacob Zuma, da África do Sul, fortemente contestado em seu país, é outro que deverá assistir às cerimônias.

Até o momento, o único mandatário europeu a ter confirmado presença é Alex Tsipras, da Grécia.

Em atitude coerente com a atual visão política do Planalto, Michel Temer já designou representante. Despachou dois ministros para marcar presença. Faz sentido.

Alguns dos que citei devem estar-se sentindo incomodados pelo falecimento do «lider máximo». Está-lhes custando tremenda saia justa.

Metido com quê?

José Horta Manzano

Para não dizer besteira, só há um jeito: calar a boca. Só não erra quem não faz. No recentíssimo episódio do pedido de demissão de senhor Geddel Vieira Lima, Michel Temer concedeu entrevista a Eliane Cantanhêde, do Estadão.

2016-1125-01-estadaoEm tweet, a jornalista relata comentário do presidente: «Novo ministro tem de ser alguém que não esteja metido com nada.»

Ah, melhor teria feito o presidente se tivesse ficado quieto. O importante, na fala presidencial, não é o que foi dito, mas o que ficou implícito.

Ao afirmar que o substituto não deve estar «metido com nada», admitiu que senhor Geddel estava metido com alguma coisa. Com que será?

Frase do dia — 321

«Surpreendentemente, não houve nota oficial depois dos encontros de Michel Temer com o imperador Akihiro e com o primeiro-ministro Shinzo Abe, em Tóquio. O secretário-geral do Itamaraty, Marcos Galvão, descobriu na última hora que o texto acordado entre os dois países continha uma casca de banana: o apoio aos japoneses na disputa pelo Mar da China. Isso criaria sérios problemas com os chineses, maiores parceiros comerciais do Brasil. A nota foi parar no lixo.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 11 nov° 2016.

Carta aberta ao chanceler

Excelentíssimo Senhor José Serra,

Antes de mais nada, permita-me congratular-me com Vossa Excelência pela direção auspiciosa que a diplomacia brasileira assumiu sob seu comando. Foi guinada importante, verdadeira recondução do comboio a trilhos que nunca deveriam ter sido abandonados.

Pela mídia, fiquei sabendo das mais recentes notícias sobre o posicionamento firme do Brasil em face do sinistro espetáculo que se vem desenrolando na vizinha Venezuela. Regozijo-me pelo discurso incisivo pronunciado dia 1° de novembro por nossa embaixadora junto à ONU.

escrita-5Em certos momentos, o veludo dos códigos diplomáticos tem de ser posto de molho. Há horas em que é preciso arregaçar as mangas, mostrar os músculos e deixar clara a posição do país. Foi o que fez nossa embaixadora, por certo sob orientação de Vossa Excelência. O discurso da representante brasileira não podia ser mais explícito ao pedir às autoridades venezuelanas que garantam o total exercício dos direitos constitucionais e que tomem medidas para realizar o referendo revogatório sem demora, de forma clara, transparente e imparcial. Foi pronunciamento límpido e cristalino.

Em resposta, a chanceler da Venezuela ‒ homóloga de Vossa Excelência ‒ declarou que «não reconhece o governo de Michel Temer». Mas não parou por aí. Afirmou que «houve um golpe de Estado no Brasil» e concluiu o ultraje asseverando que «esse governo golpista é formado por um grupo de corruptos.»

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

Nos tempos em que ofensa se lavava com sangue, tal invectiva constituiria um casus belli, razão suficiente para retrucar com armas. Felizmente, os costumes se suavizaram, mas certos insultos não podem passar em branco. Os brasileiros esperam de Vossa Excelência uma reação à altura do orgulho ferido. É insuportável ter de ouvir desaforos da representante oficial de um Estado. De um vizinho ainda por cima. Dizer que não reconhece nosso governo golpista ultrapassa todo limite.

Se a República Bolivariana não reconhece nosso governo, não temos outro caminho senão deixar de reconhecer o deles. A partir daí, a consequência inevitável é uma só: o rompimento de relações diplomáticas. Temos a obrigação de ensinar a nossos vizinhos ignorantes com quantos paus se faz uma canoa em Pindorama. Sinto pena pelo infeliz povo do outro lado da fronteira, mas, infelizmente, os medalhões bolivarianos não entendem outra linguagem que não seja a da força bruta.

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

A hora é agora. A querela não pode ficar no nível de bate-boca entre comadres. Torcemos para que Vossa Excelência não esmoreça e tome a atitude drástica que a situação está a exigir. Amanhã, passada a tempestade, o próprio povo venezuelano lhe agradecerá.

Respeitosamente,

José Horta Manzano

O aprendizado é longo

José Horta Manzano

Viagem de chefe de Estado ao estrangeiro não é algo banal. Por razões de segurança, importante preparação logística precede a visita. Tudo é estudado, pensado, inspecionado ‒ desde o alojamento onde o visitante vai-se hospedar até a comida que lhe será servida.

Um dos momentos mais observados, que fará certamente manchete na mídia, é a descida da escadaria do avião. Todo um ritual envolve a recepção. Não se deve descer escadaria de avião presidencial como quem descesse a escada de casa, indo do quarto para a sala.

Chegada de Michel Temer a Goa (Índia), 15 out° 2016

Chegada de Michel Temer a Goa (Índia), 15 out° 2016

Essa tropa que se vê na foto, descendo todos ao mesmo tempo como um bando de turistas, pega mal pra caramba. Mostra que nossos especialistas em cerimonial ainda não apreenderam certas sutilezas. Ou, pior, deixa claro que o andar de cima ainda não absorveu a lição.

Comportamentos que se podiam relevar num Lula ou numa Dilma são inadmissíveis numa equipe civilizada.

Observe o distinto leitor como fazem outros chefes de Estado. Além da esposa ‒ e, eventualmente, de membros da família ‒, ninguém mais desce a escada ao mesmo tempo. Primeiro, espera-se que o número um seja recebido. Só então, sai o resto da turma. Preste atenção.

Ainda não chegamos lá.

Posição de ocasião

Dora Kramer (*)

De volta à oposição, os deputados ditos de esquerda comportaram-se como se os últimos anos não tivessem existido. A proposta aprovada em primeiro turno na Câmara com os exatos 355 votos esperados pelo governo de Michel Temer, conceitualmente é bastante semelhante à Lei de Responsabilidade Fiscal criada no governo Fernando Henrique Cardoso 16 anos atrás e quase em tudo igual à proposta feita pelos então ministros Antonio Palocci e Paulo Bernardo há dez anos como forma de consertar as contas.

Dilma 17Na época, Dilma ganhou a parada qualificando a sugestão como “rudimentar”. Lula poderia ter bancado a posição de Palocci e Bernardo, como fez FH em relação a Pedro Malan, mas preferiu avalizar a posição da ministra-chefe de sua Casa Civil, em via de assumir a candidatura à Presidência da República. O restante da história é sobejamente conhecido e hoje reconhecido passo essencial do PT na direção do abismo administrativo.

(*) Dora Kramer é jornalista, analista política e escritora. O texto acima foi extraído de artigo publicado no Estadão de 12 out° 2016.

Antipático por antipático

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 24 set° 2016

Diversos ramos da fé cristã reconhecem o estado de graça, condição extraordinária em que o seguidor fiel faz jus a uma ajuda sobrenatural que lhe permite, caso faleça, escapar à danação eterna. Quer tenha alcançado a graça por fé, por merecimento ou por outra razão qualquer, o devoto será premiado com a benevolência do Juiz Supremo. Estado de graça não é permanente: tem começo, meio e fim.

Em alguns países ‒ França, Alemanha e, em certa medida, Estados Unidos ‒ a expressão indica, por analogia, o período durante o qual a opinião pública tende a ser favorável a figurão político que acaba de ser alçado a importante posto de comando. Embora a duração exata fuja ao rigor científico, é geralmente aceito que o período se prolonga por cem dias, pouco mais ou menos. São quinze semanas durante as quais o governante beneficia de trégua relativa. Por um momento, todos se retêm na expectativa do que virá.

anjo-6Em abril de 2016, na sequência do afastamento provisório de Dilma Rousseff, doutor Michel Temer assumiu interinamente a presidência da República. Nos meses que se sucederam, vivemos um momento bizarro, com dois presidentes de direito. Uma ainda era, mas já não portava a faixa nem exercia o cargo. O outro já exercia o cargo ainda que não portasse a faixa. Nenhum dos dois era presidente pra valer.

Durante quatro meses e meio, o país viveu num compasso de espera, período em que os brasileiros ‒ gente cordial, como se sabe ‒ sobreviveram à custa de verdadeira paciência de Jó. A situação, tensa, não atava nem desatava. Tivemos de esperar até o derradeiro dia de agosto para conhecer o veredicto: o presidente provisório tomava posse do cargo e substituía definitivamente a antiga titular. Tanto os que simpatizavam com a anterior quanto os que preferem o atual hão de ter sentido alívio. A situação se desanuviou e a realidade, seja ela qual for, mais vale conhecê-la.

A contar da entronização, doutor Temer, pelo menos em teoria, entrou em período de graça. Atravessamos agora um tempo em que, excetuando-se algum resmungo aqui e ali, o país suspende a respiração. Estamos todos ansiosos pra saber a que veio o homem, se é manso ou bravio, se é incisivo ou frouxo, se dá mostras de ação ou, antes, de enrolação.

A relativa trégua de que goza o novo presidente é tênue e, grosso modo, vai até o fim do ano. Toda decisão mais encorpada tende a ser mais bem aceita pelo distinto público se for tomada neste período. Doutor Temer tem uma vantagem adicional sobre os que o precederam: já deixou claro que não se candidatará à reeleição. Se mantiver a decisão, essa firmeza de propósitos tende a eliminar toda suspeita de medida eleitoreira. Ninguém jamais poderá acusá-lo de ter agido para angariar votos.

Se o presidente for, como parece, bem-intencionado ‒ e se estiver disposto a deixar marca duradoura no avanço civilizatório do país ‒, há reformas urgentes na fila, todas esperando por alguém que dê mais importância ao futuro do Brasil do que davam os populistas. Algumas medidas são pouco simpáticas, outras francamente antipáticas. Para um homem que já viveu três quartos de século e que tenciona deixar um país melhor do que aquele que encontrou, tanto faz. Antipático por antipático, que seja proveitoso para os brasileiros de amanhã.

by Fernando de Castro Lopes (1957-), desenhista carioca

by Fernando de Castro Lopes (1957-), desenhista carioca

Já faz lustros que se sabe que o atual sistema de Previdência Social é uma bomba-relógio. Sucessivos governos fizeram-se de desentendidos, empurraram com a barriga e preferiram deixar a solução para o sucessor. O Brasil pensante espera que doutor Temer, que pouco tem a perder, não aja como os antecessores. Se conseguir adaptar o sistema à realidade atual do país, terá enriquecido a própria biografia.

Na área política, o presidencialismo à brasileira tem mostrado sinais de esgotamento. A profusão de partidos ‒ dezenas deles com representação no Congresso ‒ tem sido mais favorável à corrupção do que ao bem comum. A ausência de voto distrital, além de encarecer campanhas eleitorais, contribui para o divórcio entre eleitor e eleito. Representantes não sabem quem os elegeu e eleitores não sabem quem os representa. Vivemos uma paródia de regime representativo.

O país sofre de muitas mazelas. Não se pode atacar todas de uma vez. Se se dispuser a corrigir distorções da Previdência e a implantar o voto distrital, doutor Temer já pode ir reservando lugar de honra nos livros de História. Só tem uma coisa: tem de agir rápido, senão babau. O tempo lhe é contado.

Protesto bolivariano

José Horta Manzano

Quando Brasil, Argentina e Paraguai decidiram não aceitar que a presidência temporária do Mercosul fosse entregue à Venezuela de Nicolás Maduro, o governo uruguaio titubeou. Montevidéu, que detinha naquele momento a presidência do bloco, sentiu-se incomodado com a batata quente que lhe queimava as mãos. Sua primeira reação foi livrar-se dela.

Depois de alguns dias e de muita conversa de bastidores, convenceu-se de que não valia a pena arrumar encrenca com os sócios. Ficou, então, acertado que a Venezuela, atualmente sem condições de assumir a direção do clube, será mantida afastada da presidência.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Voto vencido, o Uruguai aderiu à solução alinhavada de última hora: a direção do bloco será assegurada de forma colegial pelos quatro membros fundadores.

temer-4Foi decisão equilibrada. A vida segue, à espera de que o maltratado povo venezuelano consiga reencontrar o rumo da civilização. O governo uruguaio rendeu-se à evidência: não adianta dar murro em ponta de faca. Em casos assim, o maior prejudicado é sempre o esmurrador.

É consternador constatar que os países ditos «bolivarianos» continuem insistindo em ignorar o bom senso. Depois de passar anos acumpliciados com o desastrado governo brasileiro dos últimos treze anos, não conseguem entender que a destituição de nossa antiga presidente é definitiva, que não há volta possível e que os antigos conchavos entre “compañeros” são página virada.

Como adolescentes birrentos, meia dúzia deles decidiram boicotar ostensivamente o discurso pronunciado por doutor Temer na abertura da Assembleia da ONU deste ano. Dois deles, mais discretos ‒ ou, quem sabe, mais atemorizados ‒ preferiram esconder-se no banheiro antes de nosso presidente subir ao púlpito. Outros quatro optaram pelo desaforo frontal: retiraram-se do recinto assim que o doutor começou a falar.

Que pretendem? Serão adeptos do «Volta, Dilma»? Que ganham com isso? Imaginam que a desfeita lhes trará algum benefício? Ficam no ar as perguntas.

Evo Morales, by Pablo Lobato, desenhista argentino

Evo Morales,
by Pablo Lobato, desenhista argentino

Seja qual for a desvairada intenção de Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia & companhia, o certo é que deram ponto sem nó. Amanhã, o mundo terá esquecido a atitude birrenta. Mas o ofendido, o Brasil, não há de perdoar tão cedo o desaforo.

Os ofensores ‒ a infeliz Venezuela em primeiro lugar ‒ perigam precisar do amparo brasileiro. Com a atitude petulante, acabam de cuspir no prato em que talvez tenham de comer amanhã. Não faz sentido cultivar desavenças.

Mais uma vez, está dada a prova de que a estupidez humana não tem limites.

A condessa descalça

José Horta Manzano

Muito se tem falado e escrito sobre o par de sapatos que Michel Temer decidiu comprar na China. Dez em cada dez comentaristas põem o enfoque no fato de as importações de calçados chineses ter balançado o coreto dos fabricantes brasileiros. Têm razão, pegou mal pra caramba, mas não é tudo.

Kruchov 2Quando o assunto é ou tudo o que lhe diz respeito, precisa tomar cuidado. Em todas as civilizações ‒ numas mais, noutras menos ‒ os pés carregam conotação simbólica negativa. Dar um chute ou uma rasteira em alguém, entre nós, é desaforo pesado. No mundo árabe, homem não cruza as pernas ao sentar justamente pra não apontar o pé para o vizinho, gesto considerado agressivo.

Todos se lembrarão daquele jornalista que atirou um sapato no presidente Bush quando de uma coletiva no Iraque, ofensa feroz. Os muito antigos talvez se lembrem do folclórico Nikita Kruchev, mandatário da finada URSS, quando discursou na tribuna da ONU em 1960. Iracundo, tirou o sapato do pé, brandiu-o diante de centenas de espectadores boquiabertos e bateu repetidas vezes no púlpito. Sapatos, por natureza, pisam poeira e cocô. Botas lembram invasão militar. São objetos a manipular com precaução.

Temer 3A imagem de nosso presidente descalço experimentando sapato em plena cúpula do G20 é patética. Se foi aconselhado a fazê-lo, talvez para mostrar que é homem simples e comum, terá sido muito mal orientado. Proponho ao distinto leitor imaginar Mister Obama, Frau Merkel, Monsieur Hollande ou Gaspadin Putin fazendo a mesma coisa. Inconcebível, não?

Pé 1Aceitar a função de chefe de Estado implica vergar-se ao ritual que acompanha o cargo. Em campanha eleitoral, candidato tem de comer pastel de feira e buchada de bode, ainda que não lhe apeteçam. Outras funções têm outras exigências. De um chefe de Estado em aparição pública, espera-se atitude respeitosa, sorriso permanente, moderação, recato. E pés calçados, se faz favor.

Ninguém espera que um homem dê conta, sozinho, de segurar as rédeas do país. É capital cercar-se de assessores competentes. Vamos torcer para que, em assuntos cruciais, senhor Temer recorra a gente mais esclarecida.

Crédito: Marc Ferrez

Crédito: Marc Ferrez

Nota 1
O simbolismo do calçado é universal e antigo. No Brasil, no tempo da escravidão, enquanto homens livres usavam sapatos, escravos não tinham esse direito. Ainda que se vestissem com relativa decência, andavam descalços.

Nota 2
A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados já se manifestou. Pela voz de seu presidente, prometeu levar um par de sapatos brasileiros ao presidente.

Nota 3
Não sei se os hábitos brasileiros terão evoluído, mas nos países do centro e do norte da Europa sapatarias não têm mais funcionários para ajoelhar e calçar clientes. Cada um se serve, experimenta sozinho e paga na saída. Calçadeiras estão à disposição. Balconistas apenas servem para responder a perguntas ou para ir buscar tamanho maior ou menor dos modelos expostos.

Nota 4
O título deste artigo faz referência a filme homônimo de 1954, dirigido por Joseph Mankiewicz e estrelado por Ava Gardner e Humphrey Bogart.

Mesóclise

Temer promete implementar o programa
Mesóclise Para Todos

Enternecido por finalmente desfrutar da regência da Pátria, o ex-vice-presidente Michel Temer resgatou o espírito republicano de discursar na norma culta.

Recitou:

“Outrora sob a égide do laquê paralisante
Apaziguei águas turvas sibilantes.
Agora que provi a redistribuição dos louros
Procurar-me-ão os profetas dos bons agouros.”

Discurso 4Em seguida, com o intuito de provar que não abandonará os programas sociais, anunciou a criação do Mesóclise para Todos.

Antes que fosse interrompido por outrem, o ex-vice-presidente apresentou outras propostas: “Em vez de médicos cubanos, importarei 30 mil linguistas lusitanos especialistas em pentâmetros iâmbicos”.

Logo depois, vazou um novo áudio no WhatsApp em que promete implementar o programa Minha Trova, Minha Lida. A esse, seguir-se-á o Mais Sinédoques.

Para saciar a fome da base aliada, divulgou as matrizes do Bolsa Matilha.

(*) Do Piauí Herald, blogue do Estadão, 12 maio 2016

O retrato

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 abril 2016

Faz ano e meio. Assim que Dilma Rousseff conquistou, pela segunda vez, vitória nas urnas, utilizei este espaço para dar-lhe meus parabéns. Aproveitei para pedir-lhe que não perseverasse na tática de alargar brechas entre classes de cidadãos, estranho método inaugurado por seu predecessor. Sugeri que não exacerbasse antagonismos e que pusesse fim à retórica do «nós» contra «eles».

A bem da verdade, é de constatar que o recurso ao antagonismo entre categorias de brasileiros se atenuou no discurso presidencial. O mérito é menos da presidente e mais do deslocamento da imaginária linha de fratura. O encorpamento do campo adverso acendeu luz vermelha no Planalto e deixou claro que era melhor botar a metáfora de molho.

Manif 3Dá tristeza, contudo, perceber que, antes mesmo que Dilma Rousseff assumisse o cargo maior, o mal já estava feito e a ferida, aberta. Nem nos tempos em que nosso povo se debateu sob feroz ditadura ‒ varguista ou militar ‒ hostilidades e ressentimentos entre cidadãos foram tão palpáveis. Se o objetivo tático dos que ora nos governam era segmentar e categorizar o povo, podem gabar-se de ter atingido o intento. Para seu desalento, no entanto, a parcela que os apoia vem-se apoucando a cada dia. O chavão do tiro que saiu pela culatra se aplica.

Ao ritmo em que avança a carroça, o caminho se estreita e o horizonte se fecha. Prever o futuro, como diz o outro, não é tarefa fácil. Tudo indica, no entanto, que os humores do Congresso se preparam a abreviar o mandato de Dilma. Se assim for, a ordem constitucional dispõe que Michel Temer ocupe o trono vacante. Missão espinhosa.

Numa primeira análise, tirando a honra de ganhar retrato na galeria de presidentes, o encargo será áspero. As finanças vão mal, a economia vai pior, a inflação come solta, o desemprego cresce, o PIB encolhe, a confiança na classe política esfarelou-se. O regime político de países vizinhos, antes considerados parceiros preferenciais, dá sinais de esgotamento. Na comparação internacional, o Brasil desaponta. Com tantas goteiras no teto, como impedir a inundação da casa?

Dilma e TemerChavão por chavão, aqui cabe outro: há que fazer das tripas coração. Paradoxalmente, é menos complicado erguer sobre escombros do que consertar um buraco aqui, uma avaria acolá. Com o país do jeito que está, não sobra alternativa, há que refundá-lo. Michel Temer, senhor de vasta experiência em coisas da política, tem o estofo necessário para a tarefa e dispensa palpites. Assim mesmo, deixo aqui algumas reflexões.

O atual vice-presidente, caso assuma a chefia do Executivo, terá chegado lá sem ter recebido um voto sequer. Longe de sombrear sua gestão, essa particularidade lhe confere amplitude de ação. Dado que não fez promessas, não poderá ser acusado de trair eleitores ‒ uma vantagem e tanto! A situação do Brasil desceu a um estado tal de degradação que qualquer ação que não se assemelhe a manobra para escapar da Justiça só poderá ser benfazeja. O alívio que a maioria do povo sentirá ao se dar conta de que o pesadelo terminou há de traduzir-se em simpatia ‒ e até em certa condescendência ‒ para com o novo mandatário.

Será um mandato curto, pouco mais de dois anos. Se senhor Temer quiser deixar marca positiva e relevante na história do país, terá de agir rápido. Para começar, tem de alinhavar um ministério com titulares capazes e de ficha limpa. Dividir por dois o número de ministros será medida apreciada.

Surfando na onda que clama por um Brasil decente, o chefe do Executivo deveria engajar pleno esforço na implantação do parlamentarismo. A hora é agora, que não dá mais pra esperar. Nosso regime presidencialista simplesmente se exauriu, mostrou seus limites, está gasto até a lona. Não tem remédio.

Galeria de presidentes da República

Galeria de presidentes da República

Outra reforma importante, sem a qual o parlamentarismo não funcionará, é a instauração do voto distrital puro, majoritário, com deputados eleitos em dois turnos. É a única maneira de aproximar representantes de representados. Cada eleitor conhecerá o deputado que o representa. Um benefício extra virá no bojo do voto distrital: a diminuição radical do número de partidos e a extinção das legendas de aluguel. Não é coisa pouca.

Essas são as grandes medidas, complicadas para governante eleito, mas ao alcance de um presidente sem voto, que nada prometeu. Claro está que senhor Temer pode optar pela facilidade e deixar tudo como está. Nesse caso, sua biografia desertará os livros de história e sua memória se resumirá a um retrato na galeria.

Latim de botequim

José Horta Manzano

Caesar 1Este blogueiro é do tempo em que ainda se aprendia latim na escola. Aprendia é modo de dizer.  A língua era ensinada, mas aprender, que é bom, eram outros quinhentos. A matéria era um espantalho para muitos de nós. Um belo dia, seu ensino passou a ser considerado supérfluo, e a língua foi abolida do currículo. É pena. Fácil, não era. Mas tinha lá sua utilidade.

Faz uns dias, o vice-presidente de nossa República enviou carta à mandatária-mor. Embora digam que o figurão tem estatura de estadista, o tom da missiva está longe de demonstrá-lo. A ladainha de reclamações pessoais é constrangedora. Apesar do tom de funcionário chorão, o texto começa justamente com uma frase na língua de Cícero. Não se sabe se dona Dilma entendeu ou se teve de se socorrer junto a assessores. Pouco importa.

A frase latina que senhor Temer deitou no papel é:

Interligne vertical 14Verba volant, scripta manent.
Palavras voam, escritos ficam.

Um pouco alterada, a frase é conhecida de todos os que um dia já arriscaram uma fezinha na Paratodos, o Jogo do Bicho. O mote da contravenção mais difundida, conhecida e tolerada é justamente: “vale o escrito”.

Data venia, tenho de botar reparo na citação do vice-presidente. É verdade que alguns conceitos foram poupados pela passagem dos dois milênios que nos separam do auge do Império Romano. Outros, no entanto, envelheceram. A máxima citada é daquelas que precisam ser adaptadas aos novos tempos. A versão 2.0 deverá ser algo como:

Interligne vertical 14Scripta manent, sed igne delebuntur. Verba volant, sed nube captabuntur.
Os escritos ficam, mas serão destruídos pelo fogo. As palavras voam, mas serão aprisionadas por uma nuvem (=cloud).

Interligne 18f

PS: Nas aulas do velho professor Biral, que dava o melhor de si para nos iniciar nos mistérios da língua latina, nem sempre fui o aluno mais atento. Para o caso de o mestre, na nuvem de onde hoje nos espia, torcer o nariz para minha tradução, peço-lhe desculpas antecipadamente.

O pote de mágoa

José Horta Manzano

Temer 2Fez furor hoje a carta que senhor Temer enviou a dona Dilma. O fato dá que pensar. Antes de prosseguir, quero deixar claro que não jogo no time de nenhum dos dois. Para mim, ambos – como dizia minha avó – são do tipo que não fede nem cheira.

Senhor Temer afirma que a carta é pessoal. O fato de ter permitido seu vazamento à imprensa desmente toda intenção de discrição. Fica claro que, longe de ser pessoal, a missiva visa o grande público.

Senhor Temer assevera que o desabafo já devia ter sido feito há tempos. Então, por que esperou? E por que, diabos, se decidiu justamente agora?

Carta 1Senhor Temer fala em lealdade, qualidade que não combina com a política. Os atores do andar de cima são movidos a manobras, golpes, traições, conchavos, propinas, troca de favores, conciliábulos, conspirações, conluios, acordos. Lealdade, francamente, é conceito desconhecido.

Senhor Temer menciona, entre outros protestos, o fato de apaniguados seus terem sido maltratados por dona Dilma. Num ato falho, o vice desvela o fundo do pensamento: queixa-se de a presidente ter-se recusado a ratificar seu nepotismo explícito.

Em pelo menos dois trechos da carta aberta, senhor Temer deixa claro que dona Dilma e ele são as «duas maiores autoridades do país». Ao mesmo tempo, queixa-se de que «o governo» tenciona provocar cisão no PMDB. Ninguém pode ser e não ser ao mesmo tempo. O missivista precisa, de uma vez por todas, assumir seu posto. Ou faz parte do «governo» ou não.

Dilma Lula TemerAo final, fica uma pergunta intrigante. O vice-presidente confessa ter-se sentido figura decorativa durante os quatro anos do primeiro mandato. A pergunta é: por que, raios, aceitou candidatar-se de novo?

Uma derradeira consideração. Descontente e frustrado que está, carregar o fardo imposto pelo cargo deve ser-lhe insuportável. Em vez de continuar guardando mágoa em pote, o caminho mais adequado para senhor Temer seria a renúncia. Por que não se decide? Será por abnegado espírito público?

A faixa presidencial

José Horta Manzano

Você sabia?

Pelo rodar da carroça, senhor Michel Temer pode ir encomendando o terno da posse. Parece ser questão de (pouco) tempo. O rebaixamento da nota de confiança na economia do País é golpe duro e vem em hora delicada. Desconfiança dos financistas internacionais é o pior que poderia acontecer neste momento.

Faixa presidencialOs grandes investidores institucionais – fundos de pensão, fundos de ações, cestos de investimento – têm como regra seguir a orientação das agências de avaliação de risco. Estatuto de fundo sério proíbe expressamente que se arrisque dinheiro em países mal avaliados. Portanto, não é questão de simpatia. O Brasil continua bonito por natureza, mas será desprezado, que as regras têm de ser seguidas.

Os personagens políticos brasileiros, tão flexíveis, estão-se tornando todos oposicionistas, já repararam? Até nosso guia anda vociferando mais que chefe de oposição. Com a água batendo na cintura, ninguém quer saber de prestar solidariedade à atual mandatária. Tem gente que nem se aproxima mais dela, com medo de aparecer a seu lado em alguma foto furtiva.

Getúlio Vargas

Getúlio Vargas

Arthur Bernardes

Arthur Bernardes

Ah, que senhor Temer aproveite e mande também preparar a faixa presidencial, símbolo do cargo! Aquele pedaço de tecido aformoseia e vai bem em qualquer um – desde que o portador saiba usar.

Instituída no Brasil pelo marechal Hermes da Fonseca, a faixa já é centenária. Tirando um retoque aqui, outro ali, o desenho pouco se alterou desde a criação. O que se tem alterado, isso sim, é a maneira de vesti-la.

Fernando Collor foi o último a paramentar-se com a faixa sobre a camisa, mas debaixo do paletó – como se vinha usando fazia 80 anos. Depois dele, sabe-se lá por que razão, os presidentes passaram a portar o adereço por cima do paletó. Fica mais visível, é verdade, mas abala a solenidade dos raros momentos em que se costuma usá-la. Afinal, não é faixa de concurso de miss.

Sabia o distinto leitor que, se calhar de Michel Temer assumir o trono, será o primeiro presidente paulista desde Rodrigues Alves, que deixou o Catete em 1906, faz mais de um século, num tempo em que ainda não se usava a faixa?

Juscelino Kubitschek

Juscelino Kubitschek

Depois disso, o único paulista a ocupar a presidência o fez de forma interina e efêmera: foi Ranieri Mazzili, em duas ocasiões: 1961 e 1964. No total, só presidiu a nação por um mês. Em caso de vacância do cargo, o presidente do Congresso assume provisoriamente, eis por que o homem foi parar lá.

Vamos ver se senhor Temer, dono de certo senso de elegância, vai pensar em vestir a faixa condignamente. Se o destino decidir guindá-lo ao cargo maior, naturalmente.

Interligne 18hEcharpe 1

Origem do símbolo
A faixa, como símbolo de poder, surgiu na Europa em meados do século XIX. Foi adotada em dezenas de países, tanto na Europa quanto na África e na América. Na França, é atributo de prefeitos, não do presidente. Os alcaides a vestem em cerimônias oficiais, principalmente quando celebram casamentos. É sempre usada por cima do paletó.

Confissão arrependida

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 24 ago 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 24 ago 2015

Este blogueiro é do tempo em que honestidade era qualidade absoluta, sem qualificativo. O sujeito era honesto ou não era. Ponto e basta.

O vice-presidente de nossa maltratada República nos ensina que é possível ser honesto de menos e honesto demais. Parece arrependido de ter exagerado na dose.

A que ponto chegamos! Pobre País onde honestidade se confunde com ingenuidade.

Carta-renúncia

Cláudio Humberto (*)

Apesar de ter declarado que “suporta a pressão”, a presidente Dilma já teria preparado uma carta-renúncia. Fontes do Palácio do Planalto garantem que a redação da carta não foi um ato solitário, como é comum nesses casos. Dilma teria contado com a ajuda de dois de seus ministros mais próximos: Aloizio Mercadante (Casa Civil) e José Eduardo Cardozo (Justiça) – apesar de ambos serem contrários à ideia.

Panelaço 3Confirmada a renúncia de Dilma, o vice-presidente Michel Temer assumiria imediatamente o comando do Executivo.

Além da renúncia, há outras hipóteses para a saída de Dilma: representação da oposição por crime financeiro e ação na Justiça Eleitoral.

Se prosperar a representação da oposição na Procuradoria-Geral da República por crimes financeiros, Dilma poderia ser cassada.

Já a ação eleitoral por financiamento ilegal de campanha pode culminar no cancelamento do registro da chapa. Assim, cairiam Dilma e Temer.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.