Tweet censurado

José Horta Manzano

Assim que foi anunciada a doença de Donald Trump, a empresa Twitter previu que alguns aproveitariam a ocasião para exprimir desejo de ver o presidente num caixão. Antes que acontecesse, foram logo avisando que bloqueariam a conta de quem tuitasse sua esperança de ver Trump morto pela covid.

Poucas horas mais tarde, ao se darem conta de que teriam de bloquear a conta de pelo menos metade dos usuários, explicaram que não era bem assim. Os tuítes macabros seriam apagados, mas a suspensão da conta só se faria “em alguns casos”.

Nos tempos de antigamente, isso não acontecia. Quando a comunicação ia por carta, telex ou fax, a gente escrevia o que bem entendia. Tirando algum caso (raro) de criminosa invasão de privacidade, ninguém lia as mensagens. A gente podia dizer o que quisesse sem receio de censura.

Ah, esse progresso! Como se vê, progredir é irmão gêmeo de regredir. Quando um aparece, o outro nunca está muito longe.

Tweet ‒ Nuclear
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Etimologia
Em latim, o verbo gradi significa andar, caminhar. Em português, temos alguns descendentes em linha direta: grau, degrau, graduar, gradual. Com adição de prefixos, formaram-se numerosos filhotes:

Progredir
Andar para a frente

Regredir
Andar para trás

Transgredir
Caminhar para além de um determinado ponto. Transpor determinada meta.

Agredir
Na origem, tinha o inocente significado de andar em direção a um ponto ou a alguém. Com o tempo, passou a significar atacar, investir.

Há outros cognatos: degradar, retrogradar, egresso, progresso, regresso, ingresso.

Interessante será notar que o Congresso, sempre pronto a dar um passinho à frente e outro pra trás, é membro legítimo da família.

Saia justa

José Horta Manzano

A morte de Fidel Castro, ocorrida quando o «lider máximo» já estava com 90 anos e enfermo havia uma década, não surpreendeu. Entristeceu alguns, alegrou outros, mas a Terra não vai deixar de girar por causa disso.

De toda maneira, quando se atinge idade canônica, o que tinha de ser feito está feito. Não há mais nada a acrescentar, nem para o lado do bem nem para o lado do mal.

Quanto ao legado do bondoso velhinho de Cuba, não são necessárias muitas palavras: basta observar o dia a dia do povo da ilha, que deixa patente a herança de quase 60 anos de castrismo. Como diz o outro, pior não fica.

che-guevara-1Foi-se o comandante mas deixou uma saia justa para os mandatários do mundo. Quando morre um personagem importante ‒ especialmente tão longevo ‒, chefes de Estado ou de governo afluem para assistir aos funerais. É o costume. No entanto, no caso do velho e impiedoso homem forte de Cuba, a presença de personalidades causa embaraço.

De fato, os que forem estarão dando uma espécie de aval à política dos Castros. Já os que deixarem de ir vão marcar certa distância dos métodos da «revolución» e dar mostra de desaprovar o estilo cubano de governar. Ao não comparecer, estarão enfraquecendo sua posição como parceiro preferencial da nova política comercial que está despontando na ilha. Que fazer?

No momento em que escrevo, alguns chefes de Estado ou de governo já definiram posição. Vamos ver como está a lista.

Os que apenas mandarão representante:
● François Hollande (França)
● Shinzo Abe (Japão)
● Johann Schneider-Ammann (Suíça)
● Theresa May (Reino Unido)
● Vladimir Putin (Rússia)
● Felipe VI (Espanha)
● Justin Trudeau (Canadá)
● Michelle Bachelet (Chile)
● Mauricio Macri (Argentina)
● Narendra Modi (Índia)
● Hassan Rohani (Irã)
● Xi Jinping (China)
● Michael O’Higgins (Irlanda)
● Kim Jong-un (Coreia do Norte)

Que se note a curiosa ausência de dirigentes ideologicamente próximos do regime cubano, como o da Rússia, o da China, o do Irã e o da Coreia do Norte. Barack Obama (EUA) ainda não divulgou decisão oficial, mas deu sinais de não ter intenção de comparecer.

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Do lado dos que confirmaram presença, estão alguns incontornáveis:
● Nicolás Maduro (Venezuela)
● Evo Morales (Bolívia)
● Daniel Ortega (Nicarágua)
● Rafael Correa (Equador)

Robert Mugabe, presidente do Zimbábue, que está entre os dirigentes malvistos no mundo civilizado, vai estar presente. O ditador Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial, também. Jacob Zuma, da África do Sul, fortemente contestado em seu país, é outro que deverá assistir às cerimônias.

Até o momento, o único mandatário europeu a ter confirmado presença é Alex Tsipras, da Grécia.

Em atitude coerente com a atual visão política do Planalto, Michel Temer já designou representante. Despachou dois ministros para marcar presença. Faz sentido.

Alguns dos que citei devem estar-se sentindo incomodados pelo falecimento do «lider máximo». Está-lhes custando tremenda saia justa.

Rapidinha 7

José Horta Manzano

«Mais preocupado com a morte, brasileiro investe em auxílio funeral» ― diz o título chamativo do artigo de Yolanda Fordelone publicado no Estadão deste 1° de novembro.

Falar em morte, funeral e enterro incomoda. São coisas que a gente acredita que vão acontecer a todos, menos a nós mesmos. Vira essa boca pra lá, dá azar, não presta, para de chamar desgraça! São os comentários mais comuns quando se aborda esse assunto. E, no entanto…

… no entanto, todos sabemos que a única certeza que temos ― a única mesmo! ― é de que seremos levados embora um dia. Quanto ao resto, a gente pode querer, esperar, torcer, imaginar, mas certeza, que é bom, não temos.

Que o brasileiro atual se preocupe em tomar disposições concernentes a seu próprio funeral é excelente notícia. Não se deve ligá-la ao aumento da criminalidade, que uma coisa não tem nada que ver com a outra. Com ou sem crime, todos acabamos morrendo um dia.

A boa notícia, em meu entender, é que a preocupação com funeral e sucessão é muito positiva. Dá pelo menos duas importantes indicações.

Véu de luto

Véu de luto

1) Demonstra a tomada de consciência de que o inevitável vai acontecer, queiramos ou não. É impossível evitar. À diferença de aventureiros do passado, que acreditavam na existência da fonte da eterna juventude, vamo-nos conformando com a realidade.

2) Dá sinal claro de que o brasileiro, pouco a pouco, toma consciência de ser responsável por si mesmo. O modo de vida paternalista, imerso no qual temos vivido há centenas de anos, vai-se esgarçando. Esperamos cada vez menos dessa entidade meio nebulosa que chamamos «governo» e aceitamos o fato de que o artífice de nosso destino somos nós mesmos.

A meu ver, mormente por arranhar a ingenuidade e a credulidade tradicionais do brasileiro, essa evolução vai no bom sentido.

O medo da morte

José Horta Manzano

Assim que o primeiro estalo de civilização atingiu os contemporâneos de Lucy, o homem se habituou a dar sumiço no cadáver de seus mortos. Desde então, nenhum povo costuma derrogar a essa prática.

Até poucos séculos atrás, não incomodava a ninguém que águas usadas, transformadas em fedido esgoto, escorressem a céu aberto. No entanto, ninguém jamais admitiu ter de alargar o passo para evitar pisar em cadáveres insepultos. A barreira entre vivos e mortos tem de ser física, forte, visível, intransponível. Alguns recorrem à cremação, mas a maioria prefere enterrar seus defuntos. Naturalmente, sem esquecer de instalar algo pesado por cima.

Esse «algo pesado» com que se cobrem as sepulturas é revelador de um pavor ancestral de que o falecido possa voltar, seja para cobrar dívidas deixadas em aberto, seja para agarrar algum vivente e arrastá-lo inexoravelmente para as trevas.

Na ausência de espiritualismo elevado, o homem primitivo cobria as sepulturas de pedras pesadas. Não era simbólico: era pra valer. Garantia que o finado, caso resolvesse retornar para buscar alguém, não tivesse força suficiente para levantar-se da cova. As lápides de mármore ou granito que, ainda hoje, povoam cemitérios daqui e de alhures são reminiscências desse pavor de ser puxado para os infernos.

O respeito à vontade dos mortos continua sendo a regra em nossa sociedade. As determinações daquele que se foi costumam ser rigorosamente respeitadas, ainda que se situem fora do âmbito da obrigação legal. Vocês já repararam que todo morto «vira santo»? Frase do tipo: «Ah, Fulano era tão bom, homem bom tava ali, sô» são as mais ouvidas em velórios.

Oscar Niemeyer faleceu faz alguns dias

Porta de cemitério

Porta de cemitério

. Falou-se muito dele quando da construção de Brasília, nos anos 50. Depois, pouco a pouco, sua figura foi-se esvaecendo na poeira das décadas. Sem desaparecer de todo, menções à sua obra escassearam. Não fosse a provecta idade do arquiteto, pouca atenção mereceria da mídia.

Como costuma acontecer com todos os viventes, Niemeyer faleceu. De repente, o Brasil descobriu que abrigava, sem saber, um semideus. Todos os jornais, revistas e blogues se desdobraram em elogios. Algumas poucas vozes arriscaram timidamente a argumentar que o finado também tinha seus defeitinhos. Foram caladas pelo clamor indignado da maioria.

Barbara Gancia, apresentada como «mito vivo do jornalismo tapuia», contou, em sua coluna da Folha, um episódio relacionado ao arquiteto. Não é que o artigo seja ofensivo, simplesmente ele diz as coisas como aconteceram. Deixa nas entrelinhas, no entanto, a impressão de que nosso gênio nacional às vezes podia também se enganar.

A coluna da jornalista foi bombardeada com uma verdadeira avalanche de comentários revoltados, alguns francamente ofensivos. Pode haver outras razões, mas, a meu ver, o pavor ancestral que a morte nos causa está patente nessas demonstrações de repulsa. Não se deve falar mal dos mortos. Nunca se sabe, podem até se ofender e vir puxar nosso pé de noite. Cruz-credo!

Mas o tempo é remédio para tudo. Passado o luto, o medo diminui. Alguns anos depois, talvez sentindo que o perigo já passou, o homem volta a enxergar seus mortos como realmente foram, com suas qualidades e seus defeitos.

E a vida continua.