Ressaca ‒ 2

José Horta Manzano

Apesar da queda da seleção brasileira, a Copa do Mundo não acabou. Ainda falta uma semana. O número de atores diminuiu, mas a festa continua assim mesmo.

Embarcada a equipe brasileira, começam a escapar algumas verdades pouco comentadas antes. Li estes dias que a obesa delegação de nosso país era composta por nada menos que 150 pessoas. Uma coisa que eu não sabia: jogadores da seleção têm direito a trazer amigos e familiares ‒ a viúva é rica e generosa. Os cartolas-mores se encarregam da logística, compreendendo alojamento e transporte.

Tempos atrás, meu trabalho incluiu viagens com longa permanência no exterior. Como é natural, nunca foi permitido levar parentes nem amigos, que não era hora de farra. O bom senso indica que trabalho é trabalho, e férias são férias. Não se deve confundir.

É provável que a leviandade com que os dirigentes futebolísticos brasileiros encaram competições internacionais explique a negligência dos jogadores quando atuam no gramado. Os jovens se amoldam ao espírito da casa. Além disso, a carga afetiva causada pela presença da família há de contribuir para a instabilidade emocional da meninada. Pode até estar na raiz dos ataques de choro convulso a cada derrota.

Como contraponto, tenho um exemplo edificante. Herr Andreas Granqvist, 33 aninhos, é o capitão da seleção sueca de futebol. Entre dois jogos desta Copa de 2018, tornou-se papai. Diante de fato tão importante, a direção da seleção concedeu-lhe o direito a um bate-volta até a Suécia pra conhecer o rebento. Pois imaginem que a recém-parida esposa foi taxativa: «Nem pensar numa coisa dessas! Faça seu trabalho até o fim, depois você volta». Obediente, o capitão continuou na Rússia até seu time ser despachado pra casa.

Assombroso, não é mesmo?

Yes, nós temos bananas!

José Horta Manzano

Você sabia?

A banana é, de longe, a fruta mais consumida no planeta. Em 2016, foram produzidas mais de 120 milhões de toneladas, uma enormidade. Fruta do pobre por excelência, está presente em todas as refeições de países da África Negra, onde o consumo por habitante atinge 200kg/ano ‒ um volume significativo. Os pratos da culinária africana costumam levar banana entre os ingredientes.

O Equador é o primeiro produtor, bem à frente dos demais. Supre um quarto do consumo mundial. O Brasil é grande produtor, mas praticamente não exporta. A razão é o persistente e incompreensível «custo Brasil». Empecilhos de logística aliados a lenta burocracia e pesada tributação fazem que a banana brasileira chegue ao porto com preço mais elevado que a dos demais exportadores.

Estes dias tornou-se público um acordo firmado em 2014 ‒ durante a gestão da doutora Dilma Rousseff ‒ entre o Brasil e o Equador. O pacto estipula que o Equador abrirá as portas para a importação de calçados brasileiros. Em contrapartida, o Brasil se compromete a liberar a importação de… bananas do Equador. Parece primeiro de abril, não? O Brasil importando banana!

Em 1938, Braguinha e Alberto Ribeiro lançaram, pela voz de Almirante, a marchinha «Yes, nós temos bananas!», sucesso no carnaval daquele ano. A música era paródia de uma divertida canção americana de 1923.

Que o Brasil não apareça entre os grandes exportadores de banana já é surpreendente. Dá pena ver que há condições, o clima ajuda, a terra está aí à vontade, mas a burocracia trava tudo ‒ uma lástima!

Agora, importar banana do Equador? Como é que é? Pois a marchinha não dizia que «temos bananas pra dar e vender»? O que é que aconteceu de lá pra cá? Parece que descemos ao ponto de não dar mais conta de produzir bananas para o mercado interno. Aonde vamos parar?

O aprendizado é longo

José Horta Manzano

Viagem de chefe de Estado ao estrangeiro não é algo banal. Por razões de segurança, importante preparação logística precede a visita. Tudo é estudado, pensado, inspecionado ‒ desde o alojamento onde o visitante vai-se hospedar até a comida que lhe será servida.

Um dos momentos mais observados, que fará certamente manchete na mídia, é a descida da escadaria do avião. Todo um ritual envolve a recepção. Não se deve descer escadaria de avião presidencial como quem descesse a escada de casa, indo do quarto para a sala.

Chegada de Michel Temer a Goa (Índia), 15 out° 2016

Chegada de Michel Temer a Goa (Índia), 15 out° 2016

Essa tropa que se vê na foto, descendo todos ao mesmo tempo como um bando de turistas, pega mal pra caramba. Mostra que nossos especialistas em cerimonial ainda não apreenderam certas sutilezas. Ou, pior, deixa claro que o andar de cima ainda não absorveu a lição.

Comportamentos que se podiam relevar num Lula ou numa Dilma são inadmissíveis numa equipe civilizada.

Observe o distinto leitor como fazem outros chefes de Estado. Além da esposa ‒ e, eventualmente, de membros da família ‒, ninguém mais desce a escada ao mesmo tempo. Primeiro, espera-se que o número um seja recebido. Só então, sai o resto da turma. Preste atenção.

Ainda não chegamos lá.

Não pode mesmo

José Horta Manzano

A pergunta que eu fazia em minha postagem Ameaça ou bravata?, de 5 jan° 2014, ganhou resposta: era bravata mesmo.

Avião 9Quem confirma é a própria Folha de São Paulo deste 7 jan° pela pluma de Mariana Barbosa. A ameaça proferida pela doutora chefe da Casa Civil não poderá ser executada. É inviável.

Em épocas normais, episódios caóticos acontecem no transporte aéreo brasileiro com afligente frequência. Para o período da Copa do Mundo de Futebol, anuncia-se um pandemônio, termo a ser entendido no sentido etimológico originário: todos os demônios estarão soltos. Preços escorchantes, superlotação, desrespeito a horários, desencaminhamento de bagagem, menosprezo aos viajantes.

Para remediar o sufoco que já aponta no horizonte, a ministra ameaçou pedir ajuda temporária a companhias aéreas estrangeiras. Na falta de lei que legitime essa surpreendente decisão, a doutora aventou a hipótese de se costurar uma medida provisória ad hoc.

Em outras palavras, seria (mais) uma solução improvisada às carreiras para consertar o que foi negligenciado pelas eminências que planificaram o evento.

O artigo da Folha confirma que uma abertura, ainda que temporária, do mercado interno nacional a empresas de fora contraria tratados e convênios, abrindo um «precedente perigoso». Seria uma leviandade passível de pesadas consequências. Além disso, ainda que o governo impusesse na valentona o desrespeito ao uso internacional, não haveria tempo hábil para pôr em prática a solução meia-sola.

Avião 8Era, portanto, pura bravata da ministra. Ou, pior, ignorância. Ameaças fazem parte do arsenal de todo governo. São expedientes legítimos. Mas precisa saber fazer uso delas. Faltou sutileza a sua excelência. Ela foi direta demais, específica demais ― e acabou perdendo a face.

Quem ajoelhou tem de rezar. Não saindo nem uma ave-maria, a sanção deveria ir até à destituição da dignitária. É o que aconteceria em países mais civilizados, onde um papelão dessa magnitude não passaria em branco.

Mas, sabe como é que é, na nossa terra tem disso não. Ministros são colaboradores de confiança ― de confiança! ― do presidente da República. Cabe a ele nomeá-los e demiti-los. Se a mandatária-mor está satisfeita, vamos deixar como está. E vamos pra frente, que atrás vem gente.

PS: Se alguém se interessar pelo artigo da Folha ― bem fundamentado e com infográfico ― que clique aqui.

A infraestrutura

José Horta Manzano

«Carregado com 37 toneladas de soja, o sete eixos de placas HKE 0878, dirigido por Sonildo Alves de Souza, de 40 anos, saiu da Fazenda São Luis, em Ipiranga do Norte, no Mato Grosso, na sexta-feira, dia 8. O motorista atravessou quase 2 mil quilômetros, numa viagem de quatro dias, até chegar ao Porto de Santos, litoral de São Paulo, no começo da noite de segunda-feira. Mas chegar é uma coisa; entregar a encomenda, é outra. Sonildo teve de esperar 31 horas na fila de caminhões para descarregar no terminal de granéis da T-Grão, na Avenida Silo do Porto de Santos.

No final da tarde de terça-feira, 20 horas depois da chegada à Baixada Santista, o cargueiro servia de sombra para a rede do motorista, estacionado perto da Praça Guilherme Aralhe, onde fica a empresa T-Grão Cargo – Terminal de Granéis, endereço final da soja do cerrado. “Antes da meia-noite não descarrega”, previa Sonildo, atirado na rede, já conformado com a longa espera na fila dos caminhões.»

Esses são os dois primeiros parágrafos do artigo de autoria de Pablo Pereira, publicado pelo Estadão online de 17 de março. Para quem se interessar em continuar a leitura, fica aqui o endereço.

Caminhão 2

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Faz alguns anos que se fala nas vantagens que traria a implantação de um trem-bala no trecho Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro. Pode até ser. Por meu lado, acredito que os trinta ou quarenta bilhões que teremos de desembolsar para essa obra faraônica seriam bem mais úteis se empregados para ressuscitar nossas antigas ferrovias.

Se a Europa pode dar-se ao luxo de calcar sua logística majoritariamente em transporte ferroviário, por que não poderíamos nós? Trem é poderoso, forte, seguro, não poluente, confiável. Uma só composição pode transportar carga equivalente à de dezenas de caminhões. Dos grandes. Trem não tem medo de chuva, barro, tempestade, vento.

Se nem os Estados Unidos, sempre na ponta do progresso tecnológico, abandonaram suas ferrovias, por que devemos nós banir as nossas?Caminhão 1

Segundo a canadense Michelle Lalande-Dery, autora do livro La suite des idées (Les Editions Lucange, Québec, Canadá), a via férrea apresenta vantagens consideráveis. Algumas estão elencadas abaixo:

A ferrovia é o meio de transporte ecológico do futuro, movido a energia limpa.

O transporte de frete por trem consome 1/3 da energia necessária para transportar o mesmo peso por estrada.

Um trem pode transportar uma tonelada de mercadoria por uma distância de 169km com um litro de combustível.

No caso de locomotivas movidas a diesel, o reservatório tem capacidade para 15’000 litros. A maior parte dos trens pode percorrer mais de 1600km sem precisar reabastecer.Caminhão 3

Numa distância de 1 km, um caminhão consome 13 vezes mais energia que um trem para transportar uma tonelada de frete.

Uma via férrea de um único par de trilhos equivale a uma via expressa de 14 pistas paralelas.

Um comboio de 200 vagões transporta tanto quanto 400 carretas rodoviárias.

Acrescentar um único trem de frete à rede equivale a retirar da circulação até 280 caminhões.

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