Salto para trás

José Horta Manzano

Atribuem ao grande Antônio Carlos Jobim a frase «O Brasil não é para principiantes». Que seja dele ou não, a ‘boutade’ exprime uma grande verdade. O distinto leitor que, há tantos anos, tem visto o país descendo a ladeira, não não faz parte dos «principiantes» aos quais Tom Jobim se referia. Assim sendo, conhece os comos e os porquês do descalabro atual.

No entanto, quem não vive a realidade nacional no dia a dia recebe informações fragmentárias. Certas notícias chegam, outras não. Quem vive em Terras de Santa Cruz conhece nome, sobrenome e, muitas vezes, ‘codinome’ de todas as figurinhas carimbadas que circulam pelos corredores do Planalto, do Congresso e do STF. Para quem vive fora, é diferente.

jornal-6O respeitado jornal «Le Monde», quotidiano francês de referência, cujas análises costumavam ser respeitadas como as do New York Times, começa a dar mostra de ter abandonado a isenção, sua marca registrada. Quanto trata dos problemas brasileiros, sabe-se lá por que, tem mostrado visão sistematicamente capenga. Insiste em apresentar uma versão parcial dos fatos, dando a seus leitores uma ideia distorcida de nossa realidade.

A edição datada de 8 dez° 2016 traz um surpreendente artigo que ilustra o que acabo de dizer. Começa pelo título: «Brésil: le grand bond en arrière» ‒ «Brasil: o grande salto para trás». Para que fique ainda mais claro, o subtítulo insiste que «desde a destituição de Dilma Rousseff, o governo de Michel Temer conduz uma política que combina conservadorismo, autoritarismo e corrupção». Pronto, o tom está dado.

Transcrevo abaixo os primeiros parágrafos do artigo. Vai no original, em seguida dou a tradução.

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«Le mardi 29 novembre, le Sénat brésilien a voté en faveur d’un amendement constitutionnel (PEC-55) plafonnant pour 20 ans les dépenses publiques. Alors que les sénateurs votaient, une manifestation d’étudiants se déroulant sur l’esplanade du Congrès était violemment réprimée par la police militaire(1). Au même moment, les députés adoptaient une série de dix mesures anti-corruption, vidées de leur substance et perçues comme une manière de se protéger des investigations liées aux dédoublements de l’Affaire Petrobras et de contre-attaquer un pouvoir judiciaire prompt à théâtraliser son action, à outrepasser ses prérogatives et à bousculer l’équilibre entre les pouvoirs.

Une semaine plus tard, le Président du Sénat, Renan Calheiros (du Parti du mouvement démocratique brésilien, auquel appartient le président non-élu(2) Michel Temer) est mis en accusation et écarté de ses fonctions par un membre de la Cour suprême (STF). La décision «monocratique» est refusée par le comité directeur du Sénat. Cet ensemble de faits en dit long sur l’état de la démocratie au Brésil, ébranlée depuis le coup d’État parlementaire maquillé en processus d’impeachment.»

Chamada do jornal Le Monde, 8 dez° 2016

Chamada do jornal Le Monde, 8 dez° 2016

«Terça-feira 29 de nov°, o Senado brasileiro votou emenda constitucional limitando, por 20 anos, as despesas públicas. Enquanto os senadores votavam, uma manifestação de «estudantes» (as aspas são minhas) na esplanada do Congresso foi violentamente reprimida pela PM(1). No mesmo momento, os deputados adotavam um conjunto de dez medidas anticorrupção ‒ desfiguradas ‒ destinadas a protegê-los de investigações do escândalo Petrobrás e a contra-atacar um Judiciário prestes a ultrapassar teatralmente suas prerrogativas e a desestabilizar o equilíbrio entre os Poderes.

Uma semana depois, o presidente do Senado, Renan Calheiros (do PMDB, partido do presidente não-eleito(2) Michel Temer) torna-se réu e é afastado de suas funções por um membro do STF. A decisão «monocrática» é rejeitada pela mesa diretora do Senado. Esse conjunto de fatos traduz o estado da democracia no Brasil, abalada desde o golpe de Estado parlamentar disfarçado de processo de impeachment

Interligne 18c

É frustrante ver órgão respeitado da mídia internacional publicando esse tipo de análise lacunar e tendenciosa. Atravessamos um momento difícil, sim, mas ainda há esperança. Esse tipo de escrito, que reduz o Brasil a uma republiqueta de bananas, nos é altamente prejudicial. À leitura de artigos como esse, grandes investidores não se sentem encorajados a arriscar estabelecer-se num país tão primitivo.

Ninguém ignora que nosso país está longe de ser perfeito, mas está na hora de o governo federal tomar iniciativas enérgicas para dizer ao mundo que, apesar dos pesares, muito está sendo feito para sair do buraco em que nos metemos.

by Paul Colin (1892-1985), artista francês

by Paul Colin (1892-1985), artista francês

(1) Ao sublinhar que Michel Temer é presidente “não-eleito“,  o artigo desinforma. Dilma Rousseff e Michel Temer formavam uma chapa eleitoral. Os 54 milhões de votos foram dados aos dois, não somente a ela. Houve tempos, no Brasil, em que se votava separadamente para presidente e para vice-presidente. Faz tempo que não é mais assim. Todos os que sufragaram a doutora também votaram no doutor.

(2) PM (= Polícia Militar) é expressão corriqueira no Brasil. Contrapõe-se a Polícia Civil. Em francês, não é assim. A informação que o artigo dá aos franceses é maliciosa. A Polícia Militar brasileira deve ser traduzida simplesmente por Police ou Gendarmerie. À Polícia Civil brasileira, corresponde a Police Judiciaire francesa.

Dado que, na França, a expressão «Police militaire» não designa nenhum corpo policial corriqueiro, traz à imagem o exército. No texto, o autor dramatizou voluntariamente a situação. A ouvidos franceses, soa como se o exército tivesse sido chamado para reprimir inocentes «estudantes». Com tanques e brucutus.

3 pensamentos sobre “Salto para trás

  1. A análise do Le Monde é inspirada e idêntica à dos petistas, batem na tecla do golpe, da ameaça de uma ditadura, da ruína econômica do país e muito mais, o que deixa qualquer pessoa esgotada.
    Não podemos negar, porém, que os Poderes da República andam contribuindo e alimentando o vesgo dos petistas. Ao mesmo tempo, um Renan Calheiros é combustão para que a análise do Le Monde sinta-se respaldada.

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    • Tem razão, distinta Maria José, tem razão. Senhor Calheiros, com suas façanhas, contribui para alimentar a imagem de que tudo sempre foi assim e sempre será, seja qual for o governo, sejam quais forem os personagens. Manda quem pode, independentemente da lei.

      Razão a mais, justamente, para que doutor Temer e assessores instaurem uma campanha de informação destinada não só a governos estrangeiros, mas principalmente à mídia internacional.

      Que não se atenham a mandar «cartilhas» por email a organizações internacionais, como tem feito o Partido dos Trabalhadores. Trabalhadores? Hmmm…

      Que se montem duas tropas de choque. A primeira deve percorrer mundo, dar palestras, explicar, demonstrar, convencer. Falarão a empreendedores, a governantes, a investidores, a gente que decide.

      Os outros ficarão em Brasília e receberão jornalistas e articulistas que virão ‒ a convite do governo brasileiro ‒ para verificar in loco a realidade nacional. Ciceroneados pela comitiva de recepção, visitarão e inspecionarão gentes e lugares que lhes deem melhor compreensão da situação atual e do que está sendo feito para melhorar.

      Sem isso, perigamos descer, no imaginário europeu, a nível de país africano.

      Observação:
      Nessa história toda, o mais difícil será compor equipes poliglotas. Na França, quem quiser ser ouvido tem de falar francês. Em países de língua espanhola, idem. Na Itália, igual. Para os outros, inglês basta. Mas que seja inglês fluente, que é pra não fazer feio.

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  2. Era exatamente isso o que eu ia dizer: infelizmente, não foi só a imprensa estrangeira que se deixou contaminar pelo discurso do “nós x eles”. Por aqui, também é fácil encontrar análises “científicas” da democracia brasileira de mesmo quilate. Para mim, o que fica implícito na análise do Le Monde é que os corruptos permanecem no poder e são os mesmos que capitanearam o processo de impeachment (um fato inegável). Por que será que eles não mencionaram a mãozinha que Renan deu para implementar o “golpe”? Outro detalhe relevante, como explicou ontem um jurista, é que todas as decisões sobre liminares são necessariamente monocráticas – um único juiz é sorteado para dar seu parecer, o qual será posteriormente referendado ou não pelo Pleno do STF. Agora, o que não aparece em nenhum texto sobre a decisão colegiada do STF é que chamar de “missão de pacificação” e “preservação da respeitabilidade das instituições republicanas” a manutenção de Renan à testa do Senado é realmente coisa de republiqueta de bananas.

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