Se fosse bananinha

José Horta Manzano

Um dos bolsonarinhos – aquele que é deputado e americanófilo – voltou a fazer estrepolias. Irresponsável, seguiu os passos de Donald Trump e soltou um tuíte envenenado acusando «a ditadura chinesa» de ter contaminado o mundo com o coronavírus. Não precisa dizer (mas não custa repetir) que a China é o maior parceiro comercial do Brasil. O bolsonarinho não sabe, mas os chineses são muito ciosos de sua reputação; um nadinha os deixa eriçados; mexer com os brios deles é dar paulada em vespeiro.

Minutos depois de emitido, o tuíte chegou aos ouvidos dos dirigentes de Pequim. Furiosos, determinaram que o embaixador da China em Brasília protestasse imediatamente e em tom duro. Isso feito, a mídia nacional repercutiu o bate-boca. A mídia chinesa também. Nessa altura, o bolsonarinho começou a se dar conta do estrago que havia provocado. Parece que o pai, doutor Bolsonaro, ficou uma vara (será que alguém ainda entende essa expressão?).

Horas mais tarde, doutor Mourão, nosso vice-presidente, ensinou que «se o sobrenome dele fosse Bananinha, não era problema nenhum». Embora não fosse essa a intenção de Mourão, Bananinha fez lembrar as bananas que nosso fino presidente andou atirando a seus admiradores outro dia. Excetuando a infeliz escolha de sobrenome, o general pôs o dedo na ferida.

Só que o problema não está no sobrenome, está no comportamento clânico dos Bolsonaros. Se essa peculiaridade já havia sido detectada antes da eleição, ficou patente depois que doutor Bolsonaro foi eleito. Já no dia da tomada de posse, o mundo foi brindado com estranho espetáculo de um dos bolsonarinhos aboletado no carro oficial, como se pré-adolescente mimado fosse.

De lá pra cá, entre a derrubada de ministros por capricho de um dos filhos, a quase nomeação de outro deles para capitanear nossa embaixada em Washington e o funcionamento de um ‘gabinete do ódio’ gerido por bolsonarinhos, ficou claro que, no topo do Executivo, as decisões seguem as conveniências do clã. Trocando em miúdos: somos, sim, (mal) governados por uma famiglia. Para nossa sorte, agem desengonçadamente, o que atenua o impacto das maldades.

Espertos, os chineses já se deram conta disso há muito tempo. Tivesse sido um outro deputado a ofender-lhes os brios, não teriam se abalado pra retrucar. Se se alevantaram indignados, foi justamente porque o deputado ofensor era integrante do clã – logo, vice-presidente informal do Brasil.

O general Mourão pôs o dedo na ferida, mas não afundou nem torceu (o dedo). Sua frase merece reparo. Se o rapaz se chamasse Bananinha, os chineses teriam ficado enfurecidos do mesmo jeito. O problema não é o sobrenome, mas o pertencimento ao clã que se instalou no Planalto.

A gente pensava que esses casos de Poder acaparado por famílias era coisa de pequeno país latino-americano ou de ditadura hereditária do tipo cubano ou norte-coreano. Pra nosso pasmo, assistimos a esse inquietante espetáculo em nossa terra. O rapaz pode até não se chamar Bananinha, mas isto aqui está começando a parecer uma republiqueta de bananas.

Great again

José Horta Manzano

Tem coisas que a gente não entende. Parece que essa gente que nos governa tem uns parafusos soltos. É verdade que não roubam tanto quanto os lulopetistas. (Pelo menos não se divulgou, até agora, nenhum assalto maior.) No entanto, são estranhos; tomam atitudes estrambóticas; dão tiro no pé, um atrás do outro.

Alguns meses atrás, deram de insultar autoridades estrangeiras, especialmente francesas. Esquecidos de que o desenvolvimento cultural do Brasil deve mais à França do que a qualquer outro país, insultaram a esposa do presidente Macron. E não foi lapso de um desavisado. Na brecha aberta pelo presidente, entraram o ministro da Economia e o ministro das Relações Exteriores(!). Coisa de adolescente maluquinho e descompromissado com a seriedade do cargo.

Faz alguns dias, vazou – por negligência ou intenção – um relatório sobre a segurança nacional, elaborado pelas autoridades militares cuja função maior é a defesa do território. Entre outras alucinações, pode-se ler que, no horizonte do próximo quinzênio, o maior inimigo potencial do Brasil é… a França. A França! Os que queimaram as pestanas pra chegar a essa conclusão são, com certeza, mais iluminados que nós outros.

Um enredo provável da catástrofe está explicitado no dito relatório. Segundo o documento, a França aglomeraria forças na Guiana Francesa, prontas a tomar posse dos cinco milhões e meio de quilômetros quadrados da Amazônia brasileira, área equivalente a dez vezes o território francês. De quebra, ocupando Belém, Manaus e todas a cidades e vilas da região. A legitimação internacional viria da ONU, pressionada pela França.

Fica a impressão de que os autores do enredo têm assistido demais a telefilmes de série B, daqueles em que o herói branco, alto, forte e loiro consegue – com meia dúzia de capangas – tomar de assalto uma inteira republiqueta de mestiços. E dizer que o relatório ‘vazado’ emana do Ministério da Defesa da República do Brasil. É desconcertante.

“Persiste o curto-circuito entre Paris e Brasília”
Les Echos (equivalente a nosso Valor Econômico)

Antes que o bom senso escoe de todo pelo ralo da ignorância, recomenda-se que os iluminados que vazaram o ridículo relatório se lembrem de que Brasil e França estão compromissados num negócio bilionário, em andamento há vários anos, envolvendo a compra de 4 submarinos da classe Scorpène. Um deles, o Riachuelo, já foi entregue. Faltam 3, todos eles já batizados: o Humaitá, o Tonelero e o Angostura. A França fornece; o Brasil compra.

Não convém acusar de «pior inimigo do Brasil» justamente aquele país de quem se está comprando sofisticado material militar. A repercussão desse assunto na França foi abominável. O gênio militar brasileiro está sendo motivo de zombaria.

Imagino que, por detrás dessa enormidade, esteja a paranoia de doutor Bolsonaro. Esse desequilíbrio de personalidade de nosso presidente está custando caro ao país. Quando o doutor se for, teremos de encontrar um presidente equilibrado, com parafusos ajustados, disposto a «Make Brasil great again – Fazer o Brasil voltar a ser grande». Ou, pelo menos, “parar de se apequenar”.

Ex aurea etiam sede in paludem rana resilit
Até de um trono dourado, a rã pula sempre de volta ao pântano
Máxima latina

República ou republiqueta?

José Horta Manzano

De 24 a 30 de setembro, terão lugar os trabalhos da Assembleia Geral da ONU, encontro que marca o início dos trabalhos do período 2019-2020. Como manda uma regra não escrita – mas respeitada todos os anos –, o Brasil tem a honra e o privilégio de ser o primeiro na lista de oradores.

Visto que todo país pode se inscrever, a lista de discursantes é longa, com dezenas e dezenas de chefes de Estado, chefes de governo, chefes de delegação. Doutor Bolsonaro vai ser o primeirão. Vai encontrar uma plateia cujos ouvidos ainda guardam o frescor de quem saiu da cama pouco tempo antes. É uma oportunidade e tanto.

Ser o primeiro orador é oportunidade única. Imperdível, como diria o outro. Ele vai falar antes de Trump, antes de Macron, antes de Putin, antes de Xi Jinping. Como é fácil imaginar, o primeiro discurso é ouvido com mais atenção do que o décimo sétimo ou o trigésimo terceiro.

O momento é solene. Neste anos recentes, o discurso do presidente do Brasil tem saído pasteurizado, sem grande relevo, sem força. Ninguém se lembra do que disse Michel Temer, nem do teor das palavras da doutora. Quanto ao Lula, então, sua fala ficou prisioneira da espessa bruma do passado.

Que dirá doutor Bolsonaro? Esperamos todos que ele já chegue com discurso pronto, escrito no papel, com letra bem grande. É a melhor maneira de prevenir que nos envergonhe proferindo torrente de bobagens. Imaginem o que seria se ele soltasse uma daquelas falas proibidas pra menores, daquelas que terminam invariavelmente com um ‘talquei’?

Dizem que ele anda preocupado com a sabatina que o bolsonarinho deve enfrentar no Senado antes de assumir a embaixada de Washington. Receia que o filho leve bomba no exame. (Essa era a expressão que se usava, nos tempos de antigamente, pra dizer que alguém foi reprovado.) Não quer que os dirigentes presentes à assembleia o enxerguem como incapaz de obter maioria no Senado. Considera que seria uma vergonha.

No meu entender, doutor Bolsonaro está equivocado. Nas democracias, descompasso entre o Executivo e o Legislativo é coisa corriqueira. Essas rusgas só são dramáticas em regimes autoritários. Se o parlamento chinês, por exemplo, desautorizasse Xi Jinping, seria o fim do mundo. No nosso tipo de regime, não tem grande importância. O próprio Trump encontra resistência, a toda hora, na Casa de Representantes.

Muito mais grave que desentendimento entre poderes é a própria nomeação do filho. Toda a imprensa mundial terá dado a notícia. O presidente do Brasil subirá ao púlpito no papel caricato daquele personagem de republiqueta de banana que distribui, entre parentes, cargos importantes e bem remunerados.

Não adianta. Se, no momento do discurso, a nomeação do filho já tiver sido confirmada pelo Senado, doutor Bolsonaro não será enxergado como presidente de uma República decente, mas como chefe de clã. Será visto com bigode e chapelão tipo sombrero. Ainda que apareça com a cara habitual.