Tarda mas não falha

José Horta Manzano

Doutor Antônio Delfim Netto, criado no modesto e industrial bairro paulistano do Cambuci, subiu muito na vida. Formou-se e doutorou-se em Economia. Antes de completar quarenta anos de idade, já era Ministro da Fazenda, posto que ocupou durante sete anos.

Esteve, ao lado do generalato que dirigia o país naqueles anos sombrios, entre os signatários do famigerado AI-5, aquele ‘golpe dentro do golpe’ que cassou de vez, por muitos anos, o que restava de liberdade ao povo brasileiro.

Em 1975, trocou o trono de ministro por uma poltrona de embaixador em Paris, onde foi titular do cargo por três anos. Eram os tempos do milagre econômico, quando o mote nacional era «ninguém segura este país». As embaixadas do Brasil eram centro de interesse de muita gente disposta a investir na emergente potência.

Chamada Rádio Jovem Pan – 9 março 2018
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O que aconteceu naquela época não saiu nos jornais. Era um tempo em que a censura comia brava, a democracia estava de férias e não havia Lava a Jato. Melhor valia calar. Assim mesmo, notícias corriam à boca pequena. Faz mais de quarenta anos, mas muita gente ainda há de se lembrar.

Em Paris, a embaixada do Brasil era conhecida como «l’ambassade dix pourcent» ‒ a embaixada dez por cento. Por coerência, o embaixador era dito «Monsieur dix pourcent» ‒ senhor dez por cento. Não há documentos que atestem irregularidades. Aliás, esse tipo de irregularidade não costuma deixar rastro escrito.

Afirmam ‒ sem provas! ‒ que todo contrato que tramitasse pela embaixada tinha de deixar um óbulo de dez por cento para a caixinha de Monsieur l’Ambassadeur. Sem dúvida, não deve passar de boato maldoso. Afinal, nada ficou provado.

 

Quem paga?

José Horta Manzano

«Governo terá que pagar 57 bilhões por pedaladas fiscais.»

Bicicleta 9Foi assim que a Folha de São Paulo deu a notícia. Como sabemos todos, «pedalada» é eufemismo inventado sabe-se lá por quem para evitar palavra que defina, de fato, o que aconteceu. Trapaça, pilantragem, embuste, vigarice, tramoia, trambique dariam o recado mais bem dado. Cada boi tem nome próprio e dispensa alcunha.

Dito isso, garanto-lhes que não é nesses termos que a informação apareceria em países nos quais a população é mais consciente. Quando se menciona «o governo», a grande massa dos brasileiros fica com a impressão de que esse tal de «governo» – pai de nós todos – vai bondosamente enfiar a mão no bolso e tirar de lá 57 bilhões pra resgatar seus pecados.

No Brasil, fica por isso mesmo. Lida a notícia, vira-se a página e passa-se a outro assunto. Em outras plagas, não seria tão simples. Poucos são, entre nossos conterrâneos, os que se dão conta de que a conta será paga por todos.

Chamada da Folha de São Paulo, 4 nov° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 4 nov° 2015

O governo, ao fazer mal seu trabalho, meteu o Estado brasileiro em maus lençóis. O prejuízo é nosso, de todos os brasileiros, do primeiro ao último. Caberá a cada um de nós contribuir para reparar o mal, para tapar o buraco cavado pela vigarice do Planalto.

Uns sentirão no bolso, outros sofrerão na fila do SUS. Há quem receberá formação escolar ainda mais precária que de costume. Serviços públicos funcionarão de forma ainda mais primitiva. O policiamento enfraquecido aumentará a insegurança de todos os cidadãos. Estradas ganharão mais buracos. A carestia vai se agravar. Todos pagarão.

Distraída, a grande imprensa ainda não se deu conta da força das palavras e do impacto das frases. Em vez de anunciar que «o governo» pagará bilhões, melhor seria afirmar:

«Brasileiros pagarão 57 bilhões por trambiques do governo.»

Sorry, mano

José Horta Manzano

«Computador do Planalto pôs elogios a Dilma em página da Wikipédia» ― é o título de matéria da Folha de São Paulo deste 28 de julho.

ComputadorOs autores do artigo vão mais longe, descem aos tim-tins e dão nome aos bois. Informam que 11 (onze!) computadores do governo federal, em irrefutável desvio de suas funções republicanas, dedicaram-se a eliminar referências desairosas a membros da nomenklatura. No lugar de menções desagradáveis, os computadores inseriram louvação.

A blindagem tem a presidente por objeto principal, mas não só. Um certo senhor Padilha, candidato a governar o maior estado da federação, também teve seu currículo, digamos, adocicado. A história não faz alusão a outros beneficiários da trapaça, mas o bom senso impele a imaginar que os dois não sejam os únicos.

Curioso é o artigo relatar que «computadores» do Planalto tenham feito isto ou aquilo, como se máquinas decidissem por si o que convém e o que não convém a determinados figurões.

Dona Dilma disse uma vez que, atrás de cada criança, havia sempre uma figura oculta ― um cachorro, no imaginário presidencial. Pois eu digo, sem demagogia, que, atrás de um computador, há sempre ser(es) humano(s) que o manipulam. É incontestável.

Computador 2Portanto, digamos as coisas como são. Uma penca de funcionários ― pagos com nosso dinheiro ― estão incumbidos de reescrever a história, apagando menções embaraçosas e substituindo-as por referências enaltecedoras. Para chegar a seus fins, utilizam computadores pagos com nosso dinheiro, abrigados em palácio custeado com nossos impostos. Até a conta da eletricidade que faz funcionar as simpáticas máquinas de dourar pílula é paga com dinheiro do nosso bolso.

E agora, que a falcatrua foi desvendada, fica tudo por isso mesmo? Ministério Público, OAB, Congresso, onde estais que não respondeis?

Tremei, porteiros! Tremei, moças do café! Tremei, contínuos, bedéis e faxineiros! Se a notícia chegar ao jornal televisivo, não vai ter jeito: um de vocês terá de pagar pelo malfeito. Sorry, mano.

Uns de menos, outros de mais

José Horta Manzano

Os brasileiros de boa vontade se comoveram com a triste sorte dos médicos cubanos arrolados no programa Mais Médicos ― aquele que visa a aumentar o número de profissionais sem lhes garantir o apoio de infraestrutura condizente.

Os infelizes caribenhos são tratados como raça à parte, tratamento que combina com o regime de apartheid, de divisão do povo em estratos, que nossas autoridades vêm tentando nos impingir. A distorção entre a remuneração dos médicos comuns e a dos cubanos é chocante. Enquanto os comuns recebem remuneração decente, os cubanos, encurralados em regime de pão e água, têm de resignar-se a sofrer confisco de 80% a 90% do salário.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Mas toda moeda tem duas faces. De um lado, estão os cubanos, desapossados, por seu próprio governo, do fruto de trabalho suado. No outro extremo, estão alguns espertinhos que descobriram caminho pouco ortodoxo para engordar seus ganhos. Explico.

A província argentina de Misiones, cuja capital é Posadas, faz fronteira com o Paraná e com Santa Catarina. O lado brasileiro é mais densamente povoado que a província vizinha. Uma vez anunciado, o Mais Médicos despertou interesse em bom número de profissionais argentinos. Muitos se apresentaram e estão hoje empregados no Brasil, onde recebem os 10 mil reais como todos os outros ― à exceção dos azarados cubanos.

Até aí, nada de excepcional. O caldo começa a engrossar agora. Maurice Closs, governador da Província de Misiones, acaba de vir a público denunciar uma fraude perpetrada por uma vintena de médicos argentinos.Mais médicos

São profissionais que, contratados pelo Brasil no bojo do Mais Médicos, encontraram um jeito original de continuar a receber salário de médico contratado pela Saúde Pública argentina. Conseguiram falso atestado médico e pediram a seu governo licença para tratamento de saúde. Conseguiram. Além do salário brasileiro, recebem, sem trabalhar, mais o equivalente a 5 mil reais.

Das duas dezenas de profissionais argentinos contratados pelo Brasil naquela região, dezesseis estão-se valendo do mesmo estratagema. Os problemas de saúde alegados são, em maioria, de ordem psíquica. A constatação de que, numa pequena província, tantos médicos estavam com problemas mentais despertou a curiosidade das autoridades. E a tramoia foi descoberta.

O ministro argentino da Saúde Pública, indignado com essa mostra de desonestidade e de falta de ética, promete tomar providências.

Malfeitos estrangeiros

José Horta Manzano

Às vezes a gente imagina que a corrupção é um mal exclusivamente brasileiro, que absurdos só acontecem em terra tupiniquim, que a malandragem é especificidade nacional.

É apenas meia verdade. Se é fato notório que corrupção, absurdos e malandragem correm soltos em nossas terras e fazem parte da paisagem, não é verdade que o Brasil seja o único lugar do planeta onde essas práticas são corriqueiras.Bola futebol

Sabemos todos que a próxima Copa do Mundo terá lugar em nosso País. Sabemos todos que irregularidades ― para usar um termo eufemístico ― têm ocorrido e que muitas mais ocorrerão nos meses que nos separam do evento.

É razoável imaginar que as edições do campeonato mundial de futebol hospedadas pela Alemanha, pela Coreia, pelo Japão não tenham sido manchadas por trambiques. Se os houve, foram menos escancarados.

Já de uns tempos para cá, parece que a Fifa resolveu tirar a máscara. Não bastasse a escolha da África do Sul e do Brasil, a Rússia está escalada para abrigar a edição seguinte.

O imenso país, que se estende do Báltico ao Pacífico, tem espaço, tem população, tem tradição futebolística. Não é por esse lado que se poderá criticar a escolha. O que atrapalha um pouco o quadro é o fato de a Rússia nunca ter conhecido um governo democrático.

Desde os tempos de Ivan, o Terrível, o território tem sido controlado com mão de ferro. De monarquia feroz, passaram a ditadura comunista. Seguiu-se um governo autoritário que ainda subsiste. A candidatura da Rússia não foi, portanto, apresentada por legítimos representantes do povo, mas pela nomenklatura. É verdade, não se usa mais esse termo, mas a realidade não mudou muito por aquelas bandas. As castas dirigentes ainda hão de continuar sobrevoando o populacho por um bom tempo.

Não é absurdo imaginar que algum mimo tenha sido oferecido aos integrantes do comitê que escolheu a Rússia. Dado que não é costume assinar recibo quando se recebem agrados desse jaez, ficaremos sem saber.
Camelo

Mas o que vem depois é bem pior. Os dirigentes da Fifa decidiram que a edição seguinte, a de 2022, vai-se realizar no Catar. O nome se escreve meio esquisito. Quem preferir, que use Qatar ou até Katar, que fica mais exótico.

Poucos já visitaram esse país, mas os meios de informação de que dispomos atualmente nos deixam a par de muita coisa. Não precisa ser nenhum especialista para saber que o Catar não tem tradição futebolística. Uma rápida pesquisa nos ensina que a superfície do país é de 11 mil km2, a metade de Sergipe, o menor estado brasileiro. Da população total de menos de dois milhões de almas, metade está concentrada na capital. As duas maiores cidades abrigam 80% dos habitantes.

Mas há pior ainda. O clima é desértico, sem árvores, sem vegetação. Para completar, a média das temperaturas diurnas em junho/julho, justamente quando a Copa será disputada, é de amenos 41°, 42°. Atenção: falo de média. Um dia mais abafado pode empurrar o mercúrio até os 48° ou 50°. Esses valores são, naturalmente, medidos à sombra. Mas nenhum visitante será obrigado a ficar à sombra.

Trinta e duas equipes participarão. Jogarão 64 partidas. Como é que vão se arranjar com as sedes? Todos os jogos no mesmo estádio? Ou novas arenas serão edificadas no deserto? Cá entre nós, nunca o termo «arena» terá sido tão bem utilizado. Em italiano e em espanhol, significa areia.

Dado que é impossível que esses detalhes tenham escapado aos nobres dirigentes do futebol mundial, alguma razão oculta tem de estar por detrás da designação desse micropaís. O fato é que a Fifa, inflexível, mantém sua escolha.

Como diziam os mineiros de antigamente, «debaixo do angu tem carne».

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Nota: Pode-se entrever um pedacinho da carne escondida debaixo do angu por este artigo. Decididamente, está instituído o programa Bolsa-futebol.