Das duas, uma

José Horta Manzano

Não vi as imagens, mas li que doutor Bolsonaro andou de novo fazendo das suas. Foi ontem, por ocasião das manifestações que ele ajudou a convocar, e que serviam a dois propósitos: louvação do próprio convocador (o presidente) e execração dos ‘inimigos’ (que é como extremistas primitivos enxergm todos os que não pensam como eles).

Segundo o Estadão, doutor Bolsonaro teve contacto direto com 272 pessoas, manuseou 128 celulares alheios, apertou a mão de 140 pessoas! Nestes tempos de pandemia e confinamento, é atitude nojenta. Estamos acostumados às extravagâncias do capitão, mas ontem ele subiu mais um degrau da escada da estupidez.

Das duas, uma
Primeira suposição. Doutor Bolsonaro, apesar de usar máscara cirúrgica na última ‘laive’ que fez para seu clube, não acredita na ameaça do coronavírus. Continua certo de que é «invenção da grande mídia». Se assim for, está dando prova de viver num universo paralelo. O terrível exemplo que ele está dando tem o poder de contaminar meio Brasil. Os mais humildes, que viram as imagens, vão se dizer: «Ué, se ele pode, eu também». E a porteira estará aberta para a contaminação exponencial do povo brasileiro.

Segunda suposição. Doutor Bolsonaro sabe que está infectado. Não divulgou porque é contrário a seus interesses. Mesmo sabendo que está potencialmente contagioso, teve contacto voluntário com centenas de pessoas. Se assim for, temos na chefia do Executivo um perigoso delinquente que não merece o trono em que está sentado.

Viagem astral educativa

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ultimamente tenho tido experiências astrais muito impressionantes. Claro que eu poderia chamá-las de sonhos mas algo me diz que são mais do que isso. Os indícios são muitos. Em primeiro lugar, viajo por lugares totalmente desconhecidos mas que, nem por isso, podem ser descritos como menos realistas do que os que conheço. Nesses lugares, encontro pessoas que também ignoro. Algumas, mesmo assim, conversam comigo como se fôssemos velhos amigos.

by Antonio Carbona, desenhista francês

by Antonio Carbona, desenhista francês

Outras vezes o cenário e os eventos ocorridos durante essas viagens são surrealistas. Já sonhei, por exemplo, com um enorme gato flutuando pelos céus como se fosse uma pipa feita de papel-arroz, enquanto minha mãe, já falecida, pilotava um pequeno avião e me dizia que eu precisava esperar um pouco porque ela estava se desviando dos obstáculos. De outra, experimentei a angustiante sensação de estar subindo a pé uma ladeira impossível de ser escalada sem o uso de cordas e ganchos. Sentia a textura do asfalto, o cheiro, o calor do meu corpo e podia visualizar outras pessoas a meu lado, inclusive uma criança, transpirando na mesma tentativa. Já visitei em sonho a “Escola do Não Ver”, aparentemente localizada em um país do Oriente, onde humanos e animais de várias espécies se destruíam, alinhadas em blocos.

Há poucas semanas, acordei me sentindo muito cansada e me ouvi dizendo a mim mesma: “É claro que você está cansada. Afinal, você foi visitar o mundo dos mortos”. Arrepiada, rejeitei a ideia não só por não ter restado nenhum sinal de minha passagem por outro universo mas também porque me desagrada a possibilidade. Já tive experiências de contato astral com pessoas mortas e elas me deixaram uma sensação de inutilidade da tentativa de comunicação, já que nada novo me foi revelado ou acrescentado ao que eu já sabia.

Tive inclusive, desde minha infância, experiências premonitórias. No dia em que minha avó morreu, acordei assustada e olhei em volta do quarto procurando pelas razões da minha angústia. Em frente à minha cama havia uma cadeira dessas antigas, de braço e espaldar alto. Minha avó estava sentada nela e me sorria, tamborilando levemente com os dedos no braço da cadeira, como era seu hábito, como se me dissesse: “Relaxe, está tudo bem, eu estou bem”. Foi uma sensação tão doce e pacificadora que tudo me pareceu normal e eu voltei a dormir.

Sonho 1Agora vem a experiência mais perturbadora a que chamo de educativa. Há poucos dias, acordei com uma palavra na mente: “exegese”. Só isso, mais nada. Nenhuma imagem, nenhuma sensação física, nenhuma explicação. Intrigada, levantei da cama, peguei o dicionário e procurei aflita o significado. Não me lembrava dele, embora já conhecesse a palavra. Também não conseguia recordar do momento em que tinha visto essa palavra pela última vez – e era isso o que mais me intrigava. No dia anterior ela certamente não tinha frequentado meu cérebro. Reproduzo a seguir o texto do dicionário, antes de continuar navegando pelo tema das viagens astrais: “Comentário ou dissertação para esclarecimento ou minuciosa interpretação de um texto ou de uma palavra [aplica-se de modo especial em relação à Bíblia, à gramática, às leis]. Por extensão, explicação ou interpretação de obra literária ou artística, de um sonho, etc.”

Quase enfartei. Traduzindo, minha viagem astral me propunha um desafio: antes de se deixar enredar em imagens, sons, odores, sensações corpóreas e quejandos, é preciso enfocar as possíveis interpretações para os eventos que percorrem seu universo mental. Bingo! Tal qual um Freud redivivo, eu me via às voltas não com a interpretação de sonhos mas sim com a interpretação de viagens astrais. Meu espírito – ou minha alma, se preferirem – estava sedento de novas experiências, novos conceitos, novos temas. Ansiava por estabelecer contato com pessoas e seres que ainda não faziam parte do meu círculo de relações, estava carente de frequentar outros universos. Em resumo, tudo funcionava como uma espécie de compensação para a chatice e mesmice de minha vida cotidiana, daí o cansaço.

Sonho 2As interpretações religiosas do catolicismo e do espiritismo não se aplicavam às minhas sensações e, por isso, não convenciam. As interpretações da psicologia mecanicista sobre restos diurnos também eram frágeis demais para permitir o descortinamento do meu universo mental. Se não se tratava de nenhum surto psicótico nem de possessão demoníaca, era preciso buscar novas ilações.

Lembrei-me de repente de um verso de Fernando Pessoa: “De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?” E, na sequência, dizia ele: “porque a alma humana é um abismo”. É isso, concluo agradecida. Não há exegese conhecida para os desvarios da minha alma e, ainda assim, como é bom me lançar nesse abismo de peito aberto e sem rede de segurança!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.