Favas contadas?

José Horta Manzano

Quando foi anunciada, a provável nomeação de um dos bolsonarinhos para chefiar a representação diplomática mais importante do Brasil no exterior parecia boato. Ou ‘fake news’, como convém dizer hoje. Era tão fora de esquadro, que nem as carolas frequentadoras da capela dos Aflitos acreditaram.

O passar do tempo, que cicatriza feridas, serve também pra acostumar o homem a consentir com ideias que, ainda ontem, rechaçava. É o que se deduz da chamada de hoje do Estadão: o moço terá de completar uma tarefa antes de se mudar para o palacete de Washington. Está subentendido que a mudança está no papo, que são favas contadas. Será mesmo?

Chamada Estadão, 2 ago 2019

Não é tão garantido assim. Ainda tem ainda uma pedra no caminho. Ou o primeiro-filho contorna essa pedra, ou não passa. Refiro-me ao Senado da República. Como bem sabe o distinto leitor, os senadores são 81, três pra cada unidade federativa. Considerada a votação que receberam, são mais legítimos do que o próprio presidente da Republica. Enquanto doutor Bolsonaro recebeu em torno de 57 milhões de votos, o conjunto dos senadores foi eleito com mais de 100 milhões. Ou seja: aqueles 81 personagens representam a totalidade do eleitorado; estão lá pra defender todos os brasileiros.

Todo embaixador, antes de ser efetivado no cargo, tem de ser aprovado pela maioria dos senadores. Doutor Bolsonarinho, goste ou não, recém-casado ou não, filho de presidente ou não, fâ ardoroso de Trump ou não, respeitado fritador de hambúrguer ou não, ignorante de questões internacionais ou não, terá de passar pelo crivo dos sisudos senadores. Em votação secreta! Vamos ver se passa.

Os faltosos

José Horta Manzano

Voltemos ao voto secreto pelo qual suas excelências determinaram que lhes parecia perfeitamente compatível manter o mandato de um deputado federal, não obstante o fato de ele estar cumprindo pena de prisão de 13 anos.

O resultado da votação secreta só fez acrescentar pasmo à aberração. Se já era aberrante termos um deputado privado de seus direitos políticos(!), a confirmação da manutenção do mandato ― concedida a um colega criminoso e encarcerado ― polvilhou de pasmo uma situação já surreal.

Fim do voto secreto Crédito: Pelicano

Fim do voto secreto
Crédito: Pelicano

Os que compareceram à sessão da Câmara podem ainda escapar pela tangente. Dado que ninguém sabe como votaram, podem até jurar de pés juntos que se exprimiram em favor da cassação. Aliás, seria interessante fazer uma pesquisa e perguntar a cada um como votou. Muito poucos ousariam confessar que votaram pela manutenção do mandato.

A soma dos que se abstiveram com os que simplesmente faltaram à sessão dá mais de 100 eleitos. Para esses, não há perdão: o desprezo com que trataram a questão deu ganho de causa à maioria de espertalhões. É permitido inferir que fosse exatamente essa a intenção dos ausentes.

Cláudio Humberto publicou e Políbio Braga repercutiu a lista dos que, em cima do muro, não ousaram exprimir sua opinião, permitindo que o criminoso conservasse o mandato.

A lista inclui figurinhas carimbadas da política brasileira. Entre elas, Marco Feliciano, Romário, Gabriel Chalita, Renan Filho, Paulo Maluf (quem diria!), Jacqueline Roriz.

Leia atentamente a lista. Ela poderá ser-lhe útil na próxima eleição.

Receita do cruz-credo

José Horta Manzano

No passado, num tempo em que nosso País se esforçava por ser decente, a gente olhava a vida com outros óculos. Não falo do tempo de Matusalém, mas de apenas 15 ou 20 anos atrás. É pouco, mas… como parece distante!

O ser humano tinha então exatamente os mesmos defeitos que tem hoje. O egoísmo, a esperteza, a malícia, a ganância balizavam a vida de todos, ¿por qué nos vamos a engañar? A desonestidade convivia com a solidariedade, exatamente como hoje. Havia flores do pântano, assim como galhos podres podiam brotar de árvores sãs.

Embora a expressão não estivesse na moda, todos faziam questão de que seu pirão fosse servido primeiro. Os demais, que se lixassem. E assim continua. O Brasil, terra parida na violência e na predação, continua ignorando o amanhã. Vamos aproveitar o momento presente, que, amanhã, Deus proverá ― essa a base de nossa cultura nacional. Sinto grande mal-estar ao constatar esse estado de coisas, mas é a verdade e não há como escapar dela.

Em nosso País ainda não conseguimos fundar um sentimento de pertença. Nosso povo não consegue se aperceber que faz parte de uma sociedade. E que essa sociedade, como todo agrupamento, tem objetivos comuns para os quais todos temos de colaborar (co + laborar, ou seja, trabalhar juntos). Continuamos a enxergar a vida como os primeiros aventureiros que aqui aportaram. Cada um por si e salve-se quem puder.

Mas… se tudo sempre foi praticamente igual, de onde vem essa sensação de que as coisas hoje pioraram, que o ar está cada vez menos respirável?

Há um componente novo, a melar o jogo e envenenar o relacionamento entre os 200 milhões de membros desta sociedade: a desfaçatez. A caradura, a sem-vergonhice, a falta de pejo, a impudência, o descaramento, o cinismo. Usem o nome que preferirem. É esse o elemento perturbador.

Como as demais qualidades e os demais defeitos humanos, essa característica existe desde sempre. O que variou, estes últimos anos, é sua intensidade. As indelicadezas, as incivilidades, as barbaridades políticas, os atentados contra o bom-senso, os desmandos, os roubos, os assaltos, os arrastões ocorrem hoje na cara de pau, à luz do dia, sem que o autor do malfeito sinta o menor constrangimento. «Fiz, e daí? Vai encarar?» ― é o escárnio que paira no ar.

Deputado criminoso by Dida Sampaio/AE

Deputado criminoso
by Dida Sampaio/AE

A imprensa desta quinta-feira informa que a Câmara Federal se reuniu ontem para uma importante decisão. Cada deputado tinha de pronunciar-se sobre a manutenção ou não do mandato de um de seus pares ― atualmente na cadeia, cumprindo condenação de 13 anos de privação de liberdade.

Dos 513 deputados que compõem a Câmara, apenas 45% votaram a favor da cassação do mandato do criminoso. Menos da metade dos eleitos do povo! Um assombro!

Quanto aos demais, 131 (26% do total), não vendo problema em ter um representante do povo condenado e cumprindo pena na cadeia, exprimiram desejo de que o colega continuasse a fazer parte do cenáculo. Hão de ter avaliado que os malfeitos praticados pelo comparsa ― perdão! companheiro ― eram compatíveis com seus próprios atos. Portanto, perfeitamente aceitáveis.

Para completar a conta, 149 eleitos (29% do total) lavaram as mãos. Abstiveram-se de votar ou simplesmente gazetearam. Esses senhores ― quase um terço do total ― não obstante o fato de serem regiamente remunerados com nosso dinheiro, passaram por cima do fato de terem sido eleitos para representar nosso sofrido povo. Preferiram deixar na mão de outros uma decisão capital. Não tenho nada que ver com isso…

A atitude de Pôncio Pilatos, ao lavar simbolicamente as mãos, foi menos contundente. Diferentemente de suas excelências, o governador romano era mero funcionário nomeado, não tinha sido eleito para representar povo nenhum.

No Brasil, alguns decênios atrás, por muito menos, faziam-se revoluções. Hoje, é mais complicado. Mas a desfaçatez tem-se alastrado tanto que estamos chegando a um ponto de ruptura. Os brasileiros não são todos ovinos. Se faltasse uma prova, ela veio com os movimentos de junho 2013.

Que o andar de cima tome cuidado. O pote está até aqui de indignação. Qualquer dia destes, uma incúria como essa (inútil) absolvição pode ser entendida como afronta. Pode ser a gota d’água.