Faltam prisões

José Horta Manzano

Ouve-se frequentemente que as prisões brasileiras não são suficientemente numerosas para acolher os condenados e que, portanto, é necessário construir mais e mais presídios.

Não gostaria que minha argumentação parecesse contorcionismo verbal, mas acredito que o conceito está mal formulado. Não é correto dizer que as prisões não sejam suficientes. Elas até que existem em quantidade razoável. Os criminosos é que são em demasia, eis a verdade.

Pra embasar o que disse, tomo um exemplo. Imaginemos um elevador com a tabuleta: «Capacidade: 5 pessoas ou 400kg». De repente, entram quatro pessoas e a geringonça se recusa a viajar. Ué, o que é que houve? A capacidade não é de cinco passageiros?

Sem dúvida, essa é a capacidade nominal de um elevador concebido para indivíduos pesando em média 80kg, pouco mais, pouco menos. Acontece que, nestes tempos de hambúrguer e pizza, muitos têm abusado. Por consequência, às vezes quatro pessoas bastam pra exceder a capacidade do elevador.

Onde está o problema? O elevador está com capacidade baixa? Não é bem assim. Os cidadãos é que estão superalimentados. A questão tem de ser enfrentada pelo lado certo. Em vez de aumentar a capacidade de carga do elevador, será mais ajuizado tomar medidas para reeducar a população e trazê-la de volta à moderação alimentar.

by Auguste Rodin (1840-1917), escultor francês

Como exemplo de medida interessante, lembremos que a França proibiu que distribuidores automáticos instalados em escolas ofereçam produtos altamente calóricos ou gordurosos, tais como batatas fritas e bebidas açucaradas. A medida, por si, não resolve o problema da obesidade juvenil. Mas já é um passo na boa direção.

Raciocínio análogo vale para as prisões. Construir mais e mais penitenciárias não resolve o problema da criminalidade que assola o país. A solução segue estrada de duas pistas paralelas.

A primeira é empenho redobrado na apuração cuidadosa de atos criminosos, no devido julgamento e na aplicação efetiva da sentença. A segunda é a implantação de amplo programa institucional de educação e de sensibilização da população. Tem de abarcar todos os habitantes do país ‒ do jardim da infância à idade adulta. Vai levar anos pra surtir efeito, mas não há outro jeito.

As metas são ambiciosas mas indispensáveis. Sem isso, estamos condenados a continuar curvados e de joelhos para o crime.

É pra lá ou pra cá?

José Horta Manzano

Pra cima ou pra baixo? Pra esquerda ou pra direita? Pra frente ou pra trás? O panorama político-econômico global é como uma quadrilha. Atenção! Estou falando daquelas de São João, não de malta de larápios.

Como toda dança de grupo, a quadrilha exige dos participantes boa coordenação. Nada de sair cada um pro seu lado pulando como lhe agrada. Se é hora de dar um passo à frente, todos têm de dá-lo ao mesmo tempo. Quando é hora do balancê, todos balançam igual. No tour, todos se põem a girar juntos.

Há gente graúda, em nosso País, que ainda não entendeu isso. Entre 23 e 24 de fevereiro, duas manchetes divergentes foram estampadas. Estão lá:

Interligne vertical 7«Brasil lança iniciativas para criar constrangimento aos EUA por espionagem na web»
Estadão, texto de Jamil Chade

«Brasil quer acelerar acordo do Mercosul com UE, diz Dilma a empresários»
Folha de São Paulo, artigo de Leandro Colón

Costumo dizer que não é possível ser e não ser ao mesmo tempo. Não se pode puxar a corda concomitantemente por uma ponta e pela outra, sob pena de ficar parado no mesmo lugar. E com risco de romper a corda ainda por cima.

Gemeos 1Dona Dilma, seus marqueteiros e seus ingênuos assessores costumam partilhar o planeta em «blocos», segundo sua conveniência. Enxergam um mundo dividido em agrupamentos estanques e acreditam que essa visão corresponda à realidade.

Enchem a boca para falar de um Brasil que «pertence»(sic) aos Brics, como se essa sigla ― inventada entre um hambúrguer e uma coca-cola por um «especialista» americano ― definisse a realidade.

O Planalto, manietado pelo primitivismo dos dirigentes do Mercosul, acredita numa forte oposição entre os EUA e a UE. Essa visão não corresponde à realidade. No fundo de cada europeu, os EUA continuam uma espécie de Terra Prometida.

Os habitantes do velho mundo enxergam a América do Norte como uma continuação da própria Europa. Tanto na visão dos europeus quanto na dos americanos, o mundo ocidental se restringe à Europa mais os Estados Unidos.

Assim como o atual governo brasileiro divide o povo tupiniquim entre «nós» e «eles», europeus e americanos enxergam um mundo bipolar. Europeus e americanos são o «nós». O resto é o «eles».

Gemeos 2A estratégia de «criar constrangimento» para os EUA e, ao mesmo tempo, acelerar acordos comerciais com a UE é esquizofrênica. Seria como afagar um irmão enquanto se pisa o pé do outro.

O vínculo entre Europa e Estados Unidos ― não necessariamente formalizado por tratados ― é visceral, entranhado, tipo unha e carne. Não se pode procurar aproximação com um deles enquanto se tenta «constranger» o outro.

Todo o mundo sabe que não convém semear zizânia entre dois amigos. Os marqueteiros do Planalto, infelizmente, não aprenderam a lição. Se o Itamaraty ― que já foi ajuizado e competente ― não estivesse sendo tão humilhado pelo atual governo, talvez até se animasse em dar um conselho. No estado atual de coisas, mais vale calar. Pra não levar bordoada.

Deixe estar, que um dia acaba. Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. A escolha é nossa.