Paranoias presidenciais

José Horta Manzano

Estes dias, doutor Bolsonaro botou as manguinhas de fora. Falou muito e… acabou dizendo alguma coisa. O mais impactante foi quando confessou dormir com arma de fogo ao lado da cama, pronto a enfrentar assombração e assaltante. Encafifado com os serviços de segurança palacianos, comporta-se como todos os que se sentem perseguidos.

Todo governante autoritário tem esse traço de personalidade: mania de perseguição. Paranoia, se preferirem. Nosso presidente ainda não teve tempo de imprimir rumo autoritário a sua gestão. Talvez nunca tenha a ocasião de fazê-lo, o que será melhor pra todos. Assim mesmo, o costume do revólver na cabeceira é revelador. Só falta contratar um provador de comida ‒ aquele que experimenta a refeição que lhe será servida, só pra ter certeza de que não está envenenada.

Além desse pronunciamento, doutor Bolsonaro deu outro, profundo e importante para o futuro do país. Referiu-se a embaixadores do Brasil lotados em postos importantes no exterior. Já se sabia que nosso presidente não é grande admirador da diplomacia. Ficamos agora sabendo que, além de não ser admirador, ele pouco entende do ramo. Não parece ter ideia precisa da função dos que representam o Estado brasileiro no exterior.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O presidente declarou não estar satisfeito com a atuação de vários desses profissionais porque não estariam defendendo com eficiência a reputação do chefe de Estado. Ele se queixa da péssima imagem de que goza no exterior e considera que compete aos diplomatas limparem a má fama. O presidente não se dá conta de que o pessoal diplomático tem mais que fazer do que louvar a figura do chefe. Tampouco se dá conta de que é ele próprio o único responsável pela péssima reputação de que goza no exterior. Não se deve atribuir a terceiros a culpa por nossos erros.

O presidente tem a intenção de afastar uma dúzia de embaixadores importantes e botar, no lugar deles, um grupo de profissionais (que ele julga) afinados com o pensamento do governo atual, mais aptos a apagar incêndios ateados pelo próprio chefe.

Melhor faria o presidente se prevenisse em vez de remediar. No lugar de chamar bombeiros, seria mais simples evitar acender o fogaréu. Mas ‒ que fazer? ‒ há gente que ataca os problemas pelo lado errado.

Antes que seja tarde

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 julho 2018.

A história é antiguinha, mas vale a pena recordar. É possível até que os mais jovens nunca tenham ouvido. Corria o ano de 1987. Jânio Quadros, então prefeito de São Paulo, concedia entrevista coletiva. A certa altura, uma jovem repórter dirige-se, atabalhoada, ao prefeito e faz-lhe uma pergunta. Mas comete o imperdoável: trata o septuagenário por você. Com tarimba de raposa política, Jânio lança, fulminante: «Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora, não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite.» Eram tempos em que toda palavra tinha peso e valor. Em política, não se arremessava verbo pela janela.

Menos susceptíveis que o velho Jânio, governantes, parlamentares e magistrados falam hoje pelos cotovelos. Sem se preocupar com o peso das próprias palavras, proferem barbaridades. Dão entrevistas ad nauseam. Quem fala muito, sabe-se, dá bom-dia a cavalo. No cenário político brasileiro, é o que se vê dia sim, outro também. Em setembro de 2010, no auge da campanha eleitoral, Lula da Silva e Dilma Rousseff martelavam o nós x eles. Estavam inquietos com as sondagens. A roubalheira comia solta na Petrobrás, embora o escândalo ainda não tivesse estourado. O mensalão, por seu lado, já estava na praça e lançava uma sombra sobre a continuidade do projeto de poder. Era preciso a todo custo garantir a perenidade do esquema lulopetista.

Em Campinas, na tarde de 18 de setembro, Lula da Silva subiu ao palanque da pupila, então candidata. Deitaram ambos falatório violento. Com palavras agressivas, criticaram a imprensa, a oposição, os jornalistas. Vociferaram, ameaçaram, ridicularizaram os opositores, desclassificaram os que não pensavam como eles. Pouco ‒ quase nada ‒ foi dito sobre propostas de governo. O propósito maior era demolir tudo e todos que estivessem do outro lado da imaginária linha do nós x eles. Lá pelas tantas, Lula da Silva ousou: «Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública!». Um atrevimento! Era a confirmação explícita do totalitarismo embutido na ideologia lulopetista, ancorada na verdade revelada e única. Deu no que deu. A República quase foi pro espaço. Felizmente, socorridos pela absoluta incapacidade da presidente, conseguimos estancar a obstinada rapina e a bolivarização do Estado brasileiro.

Oito anos se passaram desde a irada agitação de Campinas. Comícios como os do tempo de Jânio Quadros, com palanque, faixa, banda de música e alto-falante, estão rareando. Plugado e antenado, o mundo de hoje não se anima a permanecer horas de pé na praça a ouvir falatório seja de quem for. É muito mais cômodo ficar no sofá da sala. A informação chega do mesmo jeito e ainda pode ser sopesada, comentada e compartilhada. Como os demais candidatos às presidenciais deste ano, Jair Bolsonaro aderiu à modernidade: manifesta-se por tuítes. Na busca por alianças, tem encontrado certa resistência. São poucas as legendas dispostas a apoiá-lo, o que periga reduzir-lhe o tempo de exposição na tevê. Agastado com a reticência partidária, doutor Bolsonaro atreveu-se outro dia num tuíte: «Nosso partido é o povo!» Frisson garantido.

Ao repreender a jornalista atrevida, Jânio Quadros mostrou-se autoritário. Mas o pito se restringia a preservar sua esfera privada contra irrupções, nada mais. Já a amostra de autoritarismo revelada tanto pela arenga de Lula da Silva quanto pelo tuíte de Bolsonaro dá arrepio. Os dois pronunciamentos são irmãos gêmeos. O vão que separa o «nós somos a opinião pública» do «nosso partido é o povo» é tão apertado que não deixa passar nem uma folha de papel de seda. Ambas as falas testemunham pura e perigosa prepotência, que transborda da esfera privada para derramar-se sobre o entorno. Desvario será confiar as chaves da República a personagem imbuído de visão absolutista.

Nesse particular, esquerda e direita se confundem. Guinada autoritária, venha ela de que bordo político vier, está fadada a terminar em desastre. O Brasil e o mundo já assistiram a esse filme. Não convém dizer que Lula da Silva e Jair Bolsonaro sejam farinha do mesmo saco. No entanto, ainda que sejam farinhas diferentes, desaguam no mesmo pão. Populismo autoritário nunca dá certo. E costuma acabar mal.

Reflexões sobre o poder e a tirania

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Muito tempo atrás, li um interessantíssimo artigo sobre o poder, escrito por um psicanalista argentino ‒ do qual, infelizmente, não lembro o nome – cujas considerações nunca me saíram da cabeça.

Nele, o ponto de partida para a análise era a observação de que, na maioria das línguas latinas, diz-se que um partido, grupo ou indivíduo detém o poder. E, comentava ele na sequência, basta consultar um dicionário qualquer para constatar que o principal significado do verbo deter é o de fazer parar, paralisar, interromper, sustar, bloquear, impedir. Depois de analisar as implicações psicanalíticas do desejo de tolher o outro, finalizava o artigo se perguntando se todo poder é espúrio, na própria medida que se propõe a impedir, total ou parcialmente, que outros segmentos sociais expressem sua autoridade.

Algum tempo depois da leitura, me dei conta de que também na língua inglesa o fenômeno ocorre. Seja através do verbo ‘to hold’ [que se traduz por ‘manter’, ‘deter’], seja através da frase jocosa que aparecia em uma plaqueta em cima da mesa de um presidente dos Estados Unidos: ‘The buck stops here’ [que, numa tradução literal, significa ‘o bastão para aqui’].

Hoje, pensando sobre a surpreendente aproximação entre o presidente dos Estados Unidos e o ditador norte-coreano, bem como nas inquietantes candidaturas à presidência do Brasil para as eleições de outubro próximo, essa coincidência linguística me voltou à lembrança.

Harry S. Truman (1884-1972) foi presidente dos EUA

Poder e força não são sinônimos, assim como autoridade e autoritarismo não coincidem. É inegável, porém, que nos círculos políticos de lá e de cá, muitos se esforçam por seduzir a plateia, tentando fazer crer que há plena sobreposição desses conceitos. Insanidade ou ilusionismo, tanto faz. O mais apavorante é que a bravata encontra eco na doentia sociedade do século 21: um número crescente de cidadãos vem demandando poder cada vez mais absoluto para seus representantes. Estamos, sem dúvida, diante de uma mistura perversa de machismo, conservadorismo, militarismo e egocentrismo.

Resta entender as razões que levam a esse estado de espírito e tentar encontrar um meio de nos livrarmos dele. Tenho cá minhas hipóteses. Quem viajou para Marte nas últimas férias pode ainda não ter percebido o explosivo crescimento dos movimentos de ‘empoderamento’ (eta palavrinha feia, sô!) das minorias. Os assim chamados “millennials” parecem ter embarcado de corpo e alma num comportamento experimentalista, sem precedentes na história. Seu mote é o de ‘se permitir’ viver toda sorte de experiências, sejam elas nobres, como engajar-se em trabalhos sociais voluntários, ou cruéis, como traficar drogas ou matar moradores de rua. É a relativização absoluta dos valores morais e éticos.

Não é preciso ter pós-graduação em psicologia ou psiquiatria para entender que isso provoca profundo desconforto e angústia em quem não se permite afrontar o próprio código de valores. Daí a secretamente desejar contar com um líder tirânico que se mostre capaz de calar em definitivo os que lutam por essas “liberdades” incômodas é só um passo.

No quesito, somos campeões. Basta lembrar das polêmicas que frequentaram o noticiário nos últimos meses: cura gay, escola sem partido, intervenção militar já, não à descriminalização do aborto e das drogas, manutenção do ensino religioso em escolas infantis públicas, militarização da segurança pública, desqualificação do conceito contemporâneo de família, desqualificação dos crimes de racismo em favor do enquadramento como simples injúria racial, e por aí vai. O inferno – não o céu ‒ é o limite para a ânsia de controle dos divergentes.

Uma chamada que encontrei por estes dias na internet chamou minha atenção por explicitar com humor esse fenômeno, ainda que, no original, se referisse apenas a um ministro do STF famoso por libertar corruptos: “Na septicemia, escolhe o lado das bactérias”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Inconformados com a democracia

Editorial do Estadão, 7 nov° 2016

Um verdadeiro democrata é aquele que sabe ganhar e sabe perder uma eleição. Os caciques petistas, praticamente desde a fundação de seu partido, já demonstraram inúmeras vezes que não sabem nem uma coisa nem outra.

Quando vencem, atiram-se às mais repugnantes práticas políticas para se manter no poder e destruir a oposição; quando perdem, dedicam-se não a fazer oposição, mas a sabotar o País, na presunção de que, quanto pior a crise, maiores serão suas chances de retomar o poder, que julgam lhes pertencer por direito e por determinação histórica.

estrela-quebrada-1Depois da derrota eleitoral sofrida na disputa pelas prefeituras, o PT, se fosse mesmo democrata como alardeia, deveria ter reconhecido seus erros e deflagrado um processo de reformulação de suas práticas, amplamente rejeitadas pelos eleitores.

No entanto, a natureza autoritária desse partido mais uma vez se revela: surrados impiedosamente nas urnas depois que os brasileiros se deram conta de suas patranhas, os petistas partiram para a negação da política partidária, apelando para a violência e para o desrespeito ao Estado de Direito como forma de mascarar a realidade que lhes é hoje tão madrasta.

Frase do dia — 315

«O impeachment de Dilma e a desmoralização do PT funcionam como chance de ouro para o restabelecimento da racionalidade política e administrativa no País.

Mais importante ainda, o ocaso da era lulopetista restitui aos brasileiros a própria democracia ‒ imperfeita, incompleta e carente de reformas, mas certamente preferível aos sonhos autoritários de Lula, de Dilma e da tigrada.»

Editorial do Estadão, 4 set° 2016.

Efeito Orloff

José Horta Manzano

Até algumas décadas atrás, os brasileiros se sentiam um tanto complexados com relação aos argentinos. Bem antes de nós, nossos vizinhos deram mostra de se aproximar da civilização.

Não conheceram a escravidão. Alcançaram a independência antes de nós. Receberam importante fluxo migratório antes do Brasil. Sabe-se que o PIB per capita argentino era o quarto do planeta cem anos atrás.

Bandeira Brasil ArgentinaEm 1913, Buenos Aires inaugurou sua primeira linha de metrô – apenas doze anos depois de Paris! O de São Paulo só viria 60 anos mais tarde. A mesma defasagem ocorreu na imprensa especializada. A primeira revista dedicada ao público feminino apareceu na Argentina em 1922. As brasileiras tiveram de esperar quarenta anos para folhear o primeiro similar nacional.

Parafraseando o bordão criado pelo marqueteiro de uma indústria de bebidas, costuma-se dizer que o Brasil é a Argentina amanhã. Em claro: mudanças acontecem primeiro na Argentina, para, em seguida, contaminar o Brasil. Não há prova científica disso, mas a afirmação está longe de ser absurda.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Considerando as declarações do candidato recém-eleito para a presidência do país vizinho, é bom torcer para o efeito Orloff voltar a funcionar desta vez. O homem tem características importantes. Já atinge o trono presidencial na qualidade de multimilionário. Ele não precisa do cargo para enriquecer: já tem dinheiro saindo pelo ladrão. Lembremos que nenhum de nossos presidentes era imensamente rico ao chegar à presidência. Eu disse ao chegar.

Mais que isso, o mandatário dá mostras de ter mente arejada, sem ranço de defuntas ideologias nem sombra de autoritarismo. Entendeu que país rico e desenvolvido dá maiores chances aos cidadãos. Numa demonstração da importância que dedica ao relacionamento entre nossos países, comprometeu-se a brindar o Brasil com sua primeira viagem oficial depois de eleito.

Chamada jornal La Nación, 23 nov° 2015

Chamada jornal La Nación, 23 nov° 2015

Posicionou-se firmemente contra as arbitrariedades cometidas pelos mandachuvas da maltratada Venezuela. Recebeu a mulher de señor Leopoldo López, opositor venezuelano, condenado a mais de 12 anos de cadeia em processo de cartas marcadas.

Declarou que pedirá a exclusão da Venezuela do Mercosul em virtude das agressões à democracia cometidas pelo governo bolivariano. Tem intenção de acelerar o entrosamento do bloco e de pressionar para que cheguemos a acordos comerciais com a Europa, com os EUA e com os países andinos. Um programa de dar vertigem!

Mercosul 4Vivemos um momento peculiar, com uma Argentina de cabeça erguida e aberta ao mundo, uma Venezuela em adiantado processo de decomposição, uma República Cubana em via de reintegrar a confraria dos bons amigos dos EUA, uma China em franca desaceleração. Temos excelentes chances de sacudir a poeira, tirar os pés do atraso e seguir o caminho que o mandatário do país hermano nos convida a trilhar.

Durmam tranquilos, cidadãos. O efeito Orloff logo vai-se fazer sentir.

Qui nome qué?

José Horta Manzano

Urna 7Uma das afiliadas ao Partido Comunista do Brasil, atualmente cumprindo mandato de deputada federal, está cotada para dirigir o Ministério da Cultura. Nada menos que isso.

A moça já foi prefeita de Olinda. Sua maior qualidade – salientada pelo Estadão – é ser próxima de ambas as cabeças da hidra bicéfala que encarna nosso Executivo. Trocando em miúdos: é vista com bons olhos por dona Dilma e por nosso guia.

Das dezenas de siglas que compõem a aquarela de nosso sistema partidário, o(s) partido(s) comunista(s) são, em teoria, os que contam com alicerce ideológico mais profundo. Em teoria, continuam aferrados à doutrina que, posta em prática por Lênin, terminou no desastre que vimos.

Manif 10Na ideologia comunista, «cultura» é termo dúbio, perigoso, ambíguo – um quase tabuísmo. Cultura é bom na medida que se encaixa nas diretrizes do partidão. Nada de arte degenerada, nada de peças, espetáculos, livros, novelas ou filmes que possam trazer embutida alguma crítica ao regime. Nem a mais leve desviação será tolerada. A censura é fortemente recomendada.

Que nosso Ministério do Esporte tenha estado, estes últimos anos, nas mãos de um nostálgico do paraíso soviético é compreensível. A exaltação da excelência física foi (e continua sendo) característica de regimes autoritários. Em competições olímpicas, a antiga União Soviética era páreo duro. É verdade que, no Brasil, a gestão do ministro comunista foi pífia. A culpa há de ter sido dos loiros de olhos azuis. Que fazer?

Já entregar as rédeas da cultura nacional a um membro de carteirinha do partidão parece-me temeridade. Se a ministra se encasquetar em impor o pensamento único, pode dar um angu danado. A não ser…

… a não ser que as siglas já não signifiquem mais nada. Pensando bem, acho que é isso mesmo.

Partido 1Faz tempo que o Partido dos Trabalhadores abandonou os trabalhadores para dar prioridade aos milionários. O Partido Progressista, bem mais conservador do que seu nome indica, congrega alguns dos milionários mais contestados do país: o Maluf à frente de todos. E por aí vai.

Desconfio que o partido comunista não fuja à regra. De comunista, só tem o nome. Essa insignificância da denominação de fachada de nossos partidos me lembra historinha antiga.

Interligne vertical 7Ao pedir ao cliente que escolhesse a cor da mercadoria, o caipira perguntou:
«Di qui cô qué?»

E o freguês:
«Di caqué cô.»

Vale transpor ao sistema político brasileiro. Na hora de escolher o nome do partido, fica assim:

Interligne vertical 7«Qui nome vai?»
«Caqué um, uai!»

Proponho que o nome de agremiações políticas seja abolido. Que se passe a conhecê-las unicamente pelo número. É mais que suficiente. Sou do 37. Só voto no 59. Prefiro o 83. Que tal?

Frase do dia — 202

«Não há razão para temor em relação ao amanhã. A divisão das urnas é o mais eficaz antídoto contra o autoritarismo.»

Gaudêncio Torquato, professor e consultor político, em artigo publicado no Estadão de 2 nov° 2014.

Frase do dia – 25

«A cada gesto de intransigência, intolerância e autoritarismo, o ministro Joaquim Barbosa assenta um tijolo no mausoléu de sua suposta candidatura presidencial.»

José Roberto de Toledo, in Estadão 19 ago 2013

Cuidado com o cadinho!

Cadinho imageJosé Horta Manzano

Terá sido a mornidão, o mormaço, a malemolência tropical? Terá sido o fato de os primeiros estrangeiros que aportaram em nosso País terem vindo sem companhia feminina? Terá sido porque o português, em matéria de cama, é menos complicado que outros europeus?

Acho que ninguém pode afirmar ― qualquer resposta clara e definitiva seria mera conjectura. O fato é que, diferentemente da esmagadora maioria dos países colonizados por europeus, o nosso transformou-se num verdadeiro país miscigenado. Pouquíssimas são as nações com população composta de aportes raciais tão imbricados quanto o Brasil.

A colonização europeia na África não produziu miscigenação. Nem na Austrália, nem na Índia, nem na Nova Zelândia, nem na Indonésia. Se algum vestígio de mistura racial há nas antigas colônias espanholas, é coisa pouca ― com a notável exceção de Cuba. Na América do Norte, pretos e brancos constituem, até hoje, comunidades apartadas, que se toleram.

No Brasil, tutto andava secondo l’antichissima regola del mondo, como canta o segundo ato da Turandot. Seguindo seu destino, o País trilhava o caminho de uma mistura racial cada vez mais acelerada. Eis senão quando… alguns luminares se instalaram no poder e decidiram intervir no cadinho.

Os neorracistas ― que preferem a denominação mais suave de racialistas ― houveram por bem forçar um Congresso dócil a legislar sobre preferências raciais. É humilhante para uma parte da população. Se você for um pouco mais moreno e estiver cursando uma faculdade, todos imaginarão que entrou pelo sistema de quotas, ainda que não seja verdade. Ninguém ousará lhe fazer a pergunta diretamente, cada um imaginará o que bem entender. A partir de agora, os brasileiros são classificados segundo critérios raciais, decisão que seria considerada indecente até poucos anos atrás.

A Química tem suas leis. E leis são feitas para serem respeitadas. Há que dar tempo ao tempo. Aprendizes de feiticeiro andam tentando manipular o cadinho intempestivamente, para acelerar a reação.

Não vai dar certo. O feitiço periga virar contra o feiticeiro. Não se eliminam preconceitos por decreto.

NOTA: Este texto foi inspirado num artigo de Cláudia Collucci, publicado pela Folha de SP online neste 23/12/2012. Siga o link.