Tripudiar

José Horta Manzano

Não há consenso sobre a origem do termo tripúdio. A corrente mais forte acredita que a palavra se componha de dois elementos: tri (do latim tres = três) + pud (do latim pes,pedis = pé). Teria origem em antiga dança festiva, organizada em regozijo por vitória conquistada. Era marcada com batidas de pé em compasso ternário, o que explica a presença do ‘tri’. Além disso, já foi proposta a hipótese de o verbo alemão atual trippeln (=trotar) ser descendente do tripúdio. O verbo trepar, presente nos falares ibéricos, é visto por alguns como membro da mesma família. Mas não há consenso.

Em português atual, a palavra tripúdio e o correspondente verbo tripudiar são muito raramente usados no sentido próprio de dançar saltitando ou sapateando. O uso mais frequente é no sentido figurado, com o significado bastante sádico de alegrar-se com a derrota do adversário ou com a desgraça de alguém, aproveitando a ocasião para debochar do infeliz. É verdadeiro sapateado em cima do caixão, imagem evocada por Noel Rosa, num momento de masoquismo, ao implorar pra ser tripudiado(*). O sentido de tripúdio é próximo do da palavra alemã Schadenfreude, que exprime a alegria que alguém sente com a desgraça alheia.

By R. Paschoal, ilustrador

Em entrevista a uma jornalista, doutor Bolsonaro tripudiou. Querendo fazer graça, veio com a conversa de que o embaixador do Brasil em Washington «tem que ser filho de alguém, então por que não pode ser meu?». O presidente debochou dos demais candidatos que, embora infinitamente mais bem qualificados para o cargo, não são filhos do presidente. Debochou da frustração dos que foram abandonados pelo caminho.

Pra piorar, disse, com todas as letras, que o embaixador é «um cartão de visitas» do Brasil. Não é. Embaixador é trabalhador da sombra. Há pouca gente capaz de se lembrar do nome dos três últimos ocupantes da chefia de nossa embaixada em Washington, a mais importante de todas. Embaixador, antes de ser ‘cartão de visitas’, é alto-funcionário, tarimbado, flexível quando é preciso, firme quando tem de sê-lo, profundo conhecedor do movimento contínuo entre as potências do planeta, a par das idas e vindas do mercado mundial. Tem de dispor de sólida formação em línguas, relações internacionais, macroeconomia, problemas brasileiros, cenário de trocas econômicas internacionais (exportação e importação de cada país). É muita coisa pra um inexperiente ‘filho de presidente’.

Enquanto doutor Bolsonaro tripudia, quem perde mesmo é o Brasil. Mas ele não está nem aí. Beneficiou o filho, que era o que interessava.

(*)Fita amarela
Noel Rosa
(…)
Se existe alma, se há outra encarnação
eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Aqui na gravação original de 1933 por Francisco Alves e Mário Reis

Um pensamento sobre “Tripudiar

  1. Pingback: Um é pouco, dois é bom, tres não seria demais – José Horta Manzano | Caetano de Campos

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s