Os problema é

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que sujeito no plural mandava o verbo para o plural. A gente tinha até um nome para esse fenômeno: concordância de número. Na língua árabe, a coisa vai mais longe. O verbo concorda com o sujeito não somente em número, mas também em gênero. Assim, ele escreve (yaktubu) e ela escreve (taktubu) têm formas diferentes. Para os povos árabes, cujos costumes fazem diferença rigorosa entre sexos, deve parecer natural. Para nós, é difícil assimilar.

No entanto, ainda distinguimos singular e plural. Mais cedo ou mais tarde, vai desaparecer, tenho certeza. Ainda virá o dia em que escreveremos «Os menino pega os peixe». E tudo bem. Mas ainda não chegamos lá. Por enquanto, diferentemente do que foi estampado na chamada de jornal abaixo, cargos na Esplanada são problema do presidente. Fato que, além de ser gramaticalmente adequado, me parece uma evidência: cabe ao dono da casa escolher seus ministros, assessores e empregados, pois não?

Chamada Estadão 4 ago 2017
clique para ampliar

Ao ver a imagem do impoluto senador ‒ que, por um triz, não se tornou presidente desta maltratada república ‒ imortalizado à frente de uma bandeira brasileira artisticamente desfraldada, veio-me uma interrogação. Vamos começar do começo.

Nossa Constituição, como a de todo país civilizado, estipula que figurões políticos ‒ parlamentares e chefe do executivo entre outros ‒ gozam de imunidade durante a vigência do respectivo mandato. Parece-me acertado. Mas atenção: imunidade não é sinônimo de impunidade. Significa apenas que não podem ser presos durante o mandato, a não ser quando apanhados em flagrante ao cometer crime inafiançável. Não obstante, suas excelências podem, sim, ser entregues à justiça para inquérito e julgamento. Para tanto, é preciso antes que o plenário da Câmara (ou do Senado) aprove a suspensão da imunidade.

Paralisado, o país assistiu dois dias atrás ‒ ao vivo e em cores ‒ à sessão em que a Câmara deliberava sobre a suspensão da imunidade do presidente do país. O resultado, todos conhecem: os parlamentares não concordaram com a entrega imediata do chefe do Executivo à justiça. Assim, ele ainda goza de ano e pouco de adiamento. Só poderá ser julgado depois de deixar o cargo.

Se a imunidade do presidente foi discutida e votada, por que razão não se fez o mesmo com doutor Neves, senador da República acusado de ter cometido crimes similares? É verdade que, como tenho de cuidar da vida e não passo o dia à escuta do que acontece no teatro e nos bastidores de Brasília, posso ter perdido um capítulo. Se algum leitor mais arguto puder me esclarecer, agradeço desde já.

Só queria saber por que doutor Temer teve de enfrentar o corredor polonês, suou frio, bambeou, quase caiu e acabou se segurando enquanto doutor Neves passou entre as gotas e saiu da chuva sem se molhar.

Abolição dos privilégios

José Horta Manzano

No dia 14 de julho de 1789, a prisão da Bastilha foi tomada por uma turba de cidadãos enfurecidos. O prédio sinistro costumava abrigar inimigos do rei, gente que lá podia ficar trancada por anos a fio, sem sombra de processo, dependendo unicamente da vontade pessoal do soberano. A liberação dos poucos prisioneiros ficou na história como o início da Revolução Francesa.

Tomada da Bastilha, 14 jul° 1789

Três semanas mais tarde, na noite de 4 de agosto, a Assembleia Constituinte, encarregada de lançar as bases do novo regime e de organizá-lo, decretou a abolição dos privilégios. A decisão marcou o fim do sistema feudal na França. A partir daquele dia, caíam por terra todos os privilégios pessoais, de família, de classe, de região, de cidade, de corporação ‒ todos eles característicos da estrutura feudal.

Uma análise feita hoje, passados dois séculos, mostra que a ordem feudal desapareceu, mas os privilégios ainda resistem. As leis que valem para uns mas não para outros continuam firmes e fortes. De fato, não são muito diferentes das que a Revolução imaginou banir. Persistem praticamente no mundo inteiro. Em qualquer parte, determinadas corporações e certas categorias de cidadãos são “mais iguais” que os demais.

No Brasil, assim como em outros rincões pouco esclarecidos, é particularmente visível a persistência do tratamento diferenciado que se dispensa a castas especiais, ainda que sejam acusadas de ter cometido crimes gravíssimos. Faz algumas semanas, senhor Cabral (antigo governador do Rio de Janeiro) e digníssima esposa foram acusados de uma enxurrada de crimes. Levados para o xilindró, tiveram direito a essas fotos que se tiram de bandidos, de uniforme de cadeia com régua escalonada ao fundo.

Chamada Estadão, 1° abr 2017

Estes dias, uma juíza brasileira, de passagem por Paris, há de ter ficado de mau humor ao se dar conta de que a Prisão da Bastilha já não mais existe, tendo cedido lugar a uma praça urbana. Talvez despeitada pela descoberta, há de ter imaginado que a abolição dos privilégios não passava de lorota. Sem hesitar, despachou de Paris mesmo ‒ em atitude pouco usual. Decidiu em favor da soltura da digníssima esposa do governador encarcerado. A razão invocada é que a moça tem filho menor de 12 anos, que não pode ficar sem a presença diária e constante da mãe.

Este blogueiro é do tempo em que, na falta dos pais, crianças pobres iam para o orfanato e guris ricos, para o colégio interno. Quero crer que, ainda que o casal seja inocente das acusações de que é objeto, há de ter economizado o suficiente para evitar a Assistência Pública e mandar o filho para um bom internato. Afinal, o marido foi governador de um dos Estados mais importantes da União.

Inevitável e logicamente, vozes se alevantam lembrando que, se esta senhora pode, por que não as outras? Se toda prisioneira com filho menor de 12 anos tiver de ser solta pelo mesmo motivo, vai haver boa debandada dos presídios femininos. Afinal, privilégios foram abolidos ou não?

Nota etimológica
Privilégio é palavra que já veio formada da língua latina. Compõe-se de dois elementos.

Privus
Singular, só, particular, que basta a si mesmo;

Legem
Lei (da mesma raiz que ligar, legal, legítimo ‒ aquilo que obriga).

Diz-se privilégio, portanto, da lei privada, que vale somente para um indivíduo ou para pequeno grupo. Contrapõe-se ao direito comum.

Terrível

José Horta Manzano

Apesar da existência de (raros) excelentes profissionais, o Brasil apresenta lacunas no campo da tradução. Os bambas na área não são regra, mas exceção. Entre nós, não é fácil encontrar gente traquejada em línguas estrangeiras. Entrevejo diversas razões possíveis.

● deficiência crônica no ensino de línguas;

● isolamento voluntário do país, acentuado nos últimos 15 anos;

● sentimento difuso de que aprender língua não serve pra nada;

● interrupção do fluxo imigratório a partir dos anos 70;

● diminuto afluxo de turistas forasteiros, fato que não incita ao aprendizado de línguas;

● alastramento da preguiça macunaímica, já detectada por Mário de Andrade faz um século.

Chamada do Estadão, 28 fev° 2017

Chamada do Estadão, 28 fev° 2017

Provavelmente cada uma dessas razões contribui com um tijolinho para construir o muro que nos isola ‒ linguisticamente ‒ do resto do mundo. Aprende swahili, mongol ou tailandês quem tem especial interesse. São idiomas de difusão limitada. Já inglês, francês, alemão, espanhol são outra coisa.

Este blogueiro é do tempo em que, além da norma culta do Português, se aprendia latim, francês e inglês. Fosse um ou dois anos mais velho, teria tido grego também. Não sei como anda o currículo hoje, mas espero que o inglês continue a ser lecionado.

É interessante notar que, no auge da dominação da Inglaterra vitoriana, no século 19, a língua inglesa ainda não tinha alcançado a irradiação do francês, então dominante. Só depois do desfecho da Segunda Guerra, o mundo assistiu à vigorosa ascenção da língua de Shakespeare. E o fenômeno se amplia a cada dia. Quem pretender passear pela internet e beber no maior número de fontes tem de conhecer bem inglês. Do contrário, seu horizonte estará um bocado limitado.

O ensino de línguas estrangeiras ‒ com foco especial no inglês ‒ deveria ser preocupação constante das autoridades que cuidam da Educação básica no Brasil. Vale a pena refletir sobre melhora na formação de professores, intercâmbio internacional, reforço na carga horária. A pobreza da formação gera indigência na tradução, é uma evidência. Certas matérias jornalísticas parecem ter passado por tradução automática do google. Certas informações se deformam a ponto de não serem mais entendidas.

Chamada da Folha, 28 fev° 2017

Chamada da Folha, 28 fev° 2017

É certo que, pelos lados de Brasília, a coisa anda feia. Os grandes males nacionais são tão agudos que deixam outras deficiências em segundo plano. Mas uma coisa não impede a outra. Que a Lava a Jato siga seu curso: há quem cuide dela. Não há desculpa para deixar a Educação nacional ao deus-dará.

Observação linguística
Terrível deriva de terror. O étimo latino terreo significava propriamente ‘fazer tremer’. Terrível é o que dá medo, o que apavora, o que assusta, o que aterroriza.

O desastrado rapaz que trocou os envelopes na cerimônia de entrega dos prêmios cinematográficos não quis dizer que apavorava nem que assustava nem que amendrontava ninguém. Se o tradutor tivesse posto seus miolos a funcionar, teria encontrado termo melhor. Temos uma coleção de expressões para exprimir o sentimento do moço: confuso, mal, envergonhado, arrasado, vexado, desconfortável, desbaratado, destroçado, abatido, deprimido, destruído, frustrado, em pandarecos, acabrunhado, acabado.

Terrível? Francamente não. Terrível foi o erro. Não cabe ao responsável se «sentir terrível».

Coisa do Cartola

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que educação e boas maneiras se levavam de casa. De um malcriado, dizia-se que não tinha tido berço. A afirmação continha um bocado de exagero e um tantinho de maldade. O fato é que, com berço ou sem ele, era natural que as pessoas fossem aprendendo, ao longo da vida, regras básicas de convívio em sociedade.

Gente de origem humilde se esforçava para melhorar a aparência, o palavreado, os gestos, o comportamento. Ganhar dinheiro, fato naturalmente bem-vindo, não era o objetivo único da ascensão social. Eliminar toda grosseria também estava na mira.

cumprimento-1Para profissionais de maior prestígio, era importante, acima de tudo, mostrar-se à altura do cargo ocupado. Diretores, chefes, administradores, homens públicos, políticos procuravam ‒ às vezes desajeitadamente, é verdade ‒ mostrar-se à altura do cargo ocupado. Era importante que o comportamento não contrastasse com o título.

Os tempos mudaram. Fica a desagradável impressão de que a humanidade, pelo menos nesse aspecto, em vez de andar pra frente, deu um passo atrás. Coisas que se traziam «de berço» ou que se aprendiam com o tempo têm de ser ensinadas hoje à força. O fenômeno é internacional. Se duvidar, observe feitos e gestos de gente como o recém-eleito presidente dos EUA, homem cujo comportamento primitivo embasbaca.

Um certo senhor Cartola, recém-empossado presidente da Câmara de Vereadores de São Bernardo do Campo, nos entornos de São Paulo, sentiu que era chegada a hora de pôr ordem no desleixo. Acaba de apresentar um guia de boas maneiras destinado a vereadores e a funcionários da Casa. Não me cabe discutir mérito nem propriedade de cada tópico. Deixo essa tarefa para os eleitos municipais.

cumprimento-2Por minha parte, quero registrar surpresa com o fato em si. Que se ensinem rudimentos de boa conduta a pessoas simples, sem estudo e sem traquejo, me parece normal, natural e necessário. Afinal, ninguém nasceu sabendo. Na outra ponta, quando vejo que atualmente o beabá da civilidade tem de ser ensinado a eleitos de um município de quase um milhão de habitantes, fico pasmo.

Desde criança, aprendi que todo aperto de mão deve ser dado com firmeza e não com mão mole. Percebo que eleitos do povo não sabem disso ‒ razão pela qual o ensinamento faz parte do manual de senhor Cartola.

Bom, antes tarde que nunca. Vamos torcer para que, depois de ler o guia, nenhum vereador compareça à Câmara de bermuda e chinelo de dedo.

Interligne 28a

Para quem tiver curiosidade de conhecer alguns conselhos do manual, aqui está um florilégio:

Interligne 18c

Conselhos às mulheres
● Prefira batom e esmaltes claros, saias na altura do joelho. Cuidado com babados e rendas; nunca deixe roupas íntimas visíveis.

● Decotes e transparências devem ser abolidos.

● Não exagere no perfume.

● Prefira colônias frescas ou lavanda.

● Não use saltos altíssimos, roupa manchada, amassada ou com bainha malfeita, maquiagem excessiva, cabelos despenteados, unhas longas, meias desfiadas, bijuteria em excesso, roupas justas demais.

Interligne 18c

Conselhos aos homens
● Não use meias claras nem brancas com trajes escuros. A meia é uma extensão da calça e prolongamento do sapato.

● Nada de bermudas, calça caindo e camisa para fora da calça(sic).

● Não use perfumes fortes.

● Em clima quente, é ideal o uso de camisas sociais de mangas curtas ou compridas que combinem com a calça.

● Evite sandálias franciscanas.

● Evite gravata de bichinho, de crochê ou frouxa no colarinho.

● Barba deve ser feita todos os dias ou aparada regularmente.

Interligne 18c

Telefone 3Para cumprimentar
● Jamais cumprimente com a mão mole ou tocando somente nas pontas dos dedos. O aperto de mão deve ser firme com três sacudidas. A intenção não é estraçalhar a mão do outro. Sorria e olhe nos olhos da pessoa.

● Tapinha nas costas e beijinhos devem ser evitados, a menos que haja grande intimidade.

Interligne 18c

Ao telefone
● Procure atender no máximo até o terceiro toque. Quando o interlocutor estende demais a conversa, uma saída educada é interromper e dizer que alguém está chamando e que é necessário desligar.

● Não tussa, não espirre nem assoe o nariz quando estiver ao telefone.

O calvário é nosso

José Horta Manzano

Sabe aqueles dias em que, ao ligar o computador, você leva um susto logo de cara? Pois hoje aconteceu.

Veja a chamada estampada pelo venerando Estadão:

Chamada do Estadão, 3 nov° 2016 clique para ampliar

Chamada do Estadão, 3 nov° 2016
clique para ampliar

Este blogueiro é do tempo em que, para indicar o passado, se costumava usar o verbo haver: há dois dias, há quinze minutos, há um ano.

Ao ir-se, a doutora há de ter levado consigo a “Pátria Educadora”.

Perguntar não ofende ‒ 2

José Horta Manzano

Cento e vinte dias foram concedidos ao impoluto ex-presidente senhor Lula da Silva e à imaculada ex-presidente doutora Dilma Rousseff para nos devolverem parte do que nos roubaram. A medida diz respeito aos presentes que os mandatários receberam de visitantes estrangeiros e que, com a sem-cerimônia que os caracteriza, adicionaram a seu patrimônio pessoal e carregaram na mudança.

A lei é clara. Ela estipula que presentes recebidos por ocasião de encontros internacionais tem de ser incorporado ao patrimônio do povo brasileiro. Ao apropriar-se desses bens ‒ alguns dos quais, de ouro e prata, são pra lá de valiosos ‒, nossos cândidos ex-mandatários cometeram o crime de apropriar-se do que não lhes pertencia. A vítima dos mãos-leves do Planalto não foi o palácio: foram os 200 milhões de brasileiros.

Crédito: Revista Isto É

Crédito: Revista Isto É

O valor venal, comparado à rapina generalizada que a lava a jato tem revelado, até que é baixo. Por seu lado, o fato de a apropriação indébita trazer dano a todos os brasileiros dá imenso peso ao crime.

Fica no ar a pergunta:
Por que 120 dias de prazo? Por que não exigir devolução imediata?

Pergunta complementar:
Este blogueiro é do tempo em que toda apropriação indébita ‒ furto, roubo & assemelhados ‒ rendia processo e, a critério do juiz, dava cadeia. Como é que fica neste caso? Fica por isso mesmo?

Os coxinha

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que ascensão social não rimava necessariamente com geladeira em casa nem se restringia a adquirir bens de consumo. Gente fina sabia se comportar. Quem não sabia fazia questão de imitar a boa postura e o falar que lhe pareciam corretos. Palavrão e palavreado chulo, nem pensar: eram reservados pra discussão de boteco.

As pessoas de poucas letras procuravam se esmerar. Conheci gente simplesinha que, num fenômeno que gramáticos chamam de hipercorreção, pronunciavam «galfo» em vez de garfo. Era na intenção de não fazer feio. Em resumo, a evolução não devia se limitar ao aumento do saldo bancário ‒ devia atingir diferentes facetas.

Faz uns meses, o Brasil inteiro tomou conhecimento de conversa telefônica entre dona Marisa Lula da Silva e um dos filhos. O palavreado não era edificante. Entendo que a família Lula da Silva tenha origem humilde. Isso não é defeito nem doença ‒ tem remédio e tem cura.

Marisa Leticia 1O fragmento de diálogo deixou claro que os mais de trinta anos de ascensão social não foram suficientes para elevar o nível de compostura da família. Terão certamente adquirido geladeira e talvez tenham até dispensado o pinguim que costumava morar em cima. Mais que isso, dizem as más línguas que têm apartamento na praia, sítio com pedalinhos e até algumas dezenas de milhões encafuados por aí.

Quanto ao palavreado entre mãe e filho, é consternador. Não se bonificou com a ascensão da família. Meus distintos leitores com certeza ficaram chocados. Durante os oito anos(!) em que foi primeira-dama do país, aquela senhora permaneceu enclausurada em inexplicável mudez. Hoje, entende-se por quê. Foi melhor assim.

De ex-primeira-dama flagrada soltando palavrão, seria de esperar que se envergonhasse e se escondesse debaixo da cama até baixar a poeira. Com o tempo, tudo se esquece. Espantosamente, não é o que se viu. A referida senhora teve a petulância de pleitear, junto à União, indenização por danos morais. Reclama trezentos mil reais.

É o mundo de ponta-cabeça. O maltratado cidadão brasileiro, chocado e machucado pelo palavreado chulo da ex-primeira-dama, é conclamado a abrir a carteira para indenizá-la. É caso paradoxal em que o ofendido é obrigado a ressarcir o ofensor.

Observação
A Advocacia-Geral da União acaba de dar parecer contrário ao pleito da ex-primeira-dama.

Golpe parlamentar e judicial

José Horta Manzano

Assim que senhor Temer assumiu o trono, correu a notícia de que o número de estrangeiros contratados pelo sistema Mais Médicos ia diminuir em prol do aumento da quantidade de médicos brasileiros. Foi a conta. O regime cubano, grande beneficiário do esquema, entrou em pânico. A gerontocracia caribenha teve chilique coletivo. Por intermédio de sua irrelevante diplomacia, Cuba entrou em guerra aberta contra o Brasil.

Para nós, que observamos de longe, as armações estão ficando cada dia mais claras. Os bondosos irmãos Castro e os áulicos que os rodeiam tinham sido premiados com a sorte grande nos anos em que o PT mandava. Tiraram a barriga da miséria com nosso dinheiro.

A modernização do porto de Mariel e a importação de multidões de médicos semiescravos são os pontos mais estridentes, mas ninguém pode garantir que o iceberg não seja mais profundo. Debaixo do angu, pode haver mais carne. A perspectiva de as torneirinhas brasileiras se fecharem angustia os donos de Cuba.

Porto de Mariel, Cuba

Porto de Mariel, Cuba

Rapidinho, Havana preparou indignada mensagem denunciando o «golpe de Estado parlamentar e judicial»(1) em curso no Brasil. Desajeitada e pouco afeita a sutilezas diplomáticas, a cúpula cubana despachou a mensagem a Deus e todo o mundo.

Todas as agências da ONU tiveram direito a um exemplar. A Cruz Vermelha, O Comissariado para Refugiados, a Organização Mundial da Saúde, O Programa da ONU para o Meio Ambiente, a Secretaria para Mudanças Climáticas ‒ todas essas organizações estão entre os destinatários. Até a Organização da Conferência Islâmica(!) e membros do alto escalão do governo suíço receberam o documento. Discreto como de costume, o Vaticano não confirma recebimento.

Ninguém acredita seriamente que o esperneio dê algum resultado prático. É verdade que admistração cubana anda se aproximando dos EUA. É de crer que as benesses oferecidas pelo império não chegam aos pés do que o Brasil petista costumava oferecer.

Interligne 18c

(1) A nota não deixa claro o que venha a ser um golpe adjetivado como parlamentar E judicial. Este blogueiro é do tempo em que golpes de Estado não costumavam ser previamente votados pelo Legislativo, muito menos autorizados pelo Judiciário. Os tempos mudam.

(2) Em tempos normais, o insulto orquestrado por Havana renderia imediato corte de relações diplomáticas entre o Brasil e Cuba. Mais uma vez, está dada a prova de que, decididamente, não vivemos tempos normais.

Uótisápi

Telefone 3José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que telefone servia para telefonar. Li ontem que um dos integrantes da equipe que venceu o Campeonato Mundial de Futebol de 1970 declara ser proprietário de um burrofone ‒ em bem-humorada contraposição ao smartphone.

Jamais ganhei campeonato, nem mesmo de bolinha de gude. Ainda assim, me solidarizo com o simpático futebolista. Persisto na antiga convicção de que telefone serve para telefonar, mais nada.

Não adotar modernidades não significa necessariamente menosprezá-las. Acredito que, para a maioria dos viventes, celular no bolso seja objeto tão importante quanto era um pente Flamengo para os jovens de cinquenta anos atrás. In-dis-pen-sá-vel, no duro.

Pente 1O uso do aplicativo uótisápi ‒ nome cuja grafia já está devidamente aportuguesada para WhatsApp ‒ está suspenso no Brasil. A decisão monocrática foi tomada ontem por obscuro juiz sergipano.

Como não sou usuário, a decisão não me alcança diretamente. Mas não deixa de despertar questões importantes, quase filosóficas. Fico imaginando se, por absurda hipótese, na era pré-celular, quando a rede telefônica era o único meio de comunicação imediata, alguém ousasse tirá-la do ar, nem que fosse por 24 horas.

Celular 4Daria quebra-quebra e até tanques nas ruas, como se usava na época. Decisões de Justiça costumavam ser mais ponderadas, mormente em matéria importante e abrangente como a comunicação entre cidadãos.

Fica a nítida impressão de que o mundo evoluiu e a lei tem dificuldade em correr atrás. Seja qual for o motivo da suspensão, o caminho não pode ser a punição a todos os usuários. Leve-se em conta que o aplicativo é utilizado não só para conversa de namorado, mas também em correspondência comercial.

O Brasil, já fragilizado por ruinosa rapina e insuportável desastre administrativo, não precisava de mais essa. É urgente que se regulamente o alcance de decisões judiciárias dessa magnitude. Os meios de comunicação mudaram e a legislação tem de levar esse fato novo em consideração.

Petrolõezinhos

Pavao 1José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que, na hora de pôr diminutivos no plural, as regras eram outras.

Primeiro, a gente punha o substantivo no plural. Só então, eliminava o s e acrescentava o sufixo ‒ geralmente zinho, às vezes zito ou zico. Ficava assim:

   pavão → pavões → pavõezinhos

   cão → cães → cãezinhos

   capitão → capitães → capitãezinhos

   caminhão → caminhões → caminhõezinhos

   coração → corações → coraçõezinhos

   arpão → arpões → arpõezinhos

   avião → aviões → aviõezinhos

   jaquetão → jaquetões → jaquetõezinhos

   petrolão → petrolões → petrolõezinhos

As coisas mudam e a língua evolui. A tendência atual é a inversão das regras. Primeiro, acrescenta-se o sufixo (zinho); em seguida, vai tudo junto para o plural. Está aí a chamada do sério Estadão, que não me deixa mentir.

Chamada do Estadão, 22 abr 2016

Chamada do Estadão, 22 abr 2016

Fica estranho, mas… que fazer? Ninguém segura o progresso.

A galinha do vizinho

José Horta Manzano

Assim como possuir não é sinônimo perfeito de ter, o verbo colocar tampouco é sinônimo perfeito de pôr. Cada macaco no seu galho.

Ovo 2Colocar tem muitas acepções. Quando significa pôr em algum lugar, carrega uma nuance de arranjar, ajeitar, acomodar, dispor de uma certa maneira. Colocar flores num vaso, colocar bibelôs numa prateleira, colocar vírgulas numa frase, colocar os convidados em volta da mesa ‒ são usos que soam bem.

Muito se tem falado da rápida propagação do mosquito Aedes aegypti. O mosquito ‒ especialmente a mosquita, segundo nossa presidente ‒ garante a reprodução da espécie por meio de ovos. Como outros insetos, aliás.

É surpreendente ver e ouvir com frequência que a fêmea pode colocar ovos. Este blogueiro é do tempo em que mosquitos ‒ especialmente mosquitasbotavam ovos. Quem tiver antipatia por esse verbo, pode usar pôr, que funciona do mesmo jeito. Colocar, francamente, não é a melhor opção. Pode desagradar à mosquita.

Vivemos numa democracia. Nada impede que a mosquita, depois de botar seus ovinhos, os coloque noutro lugar, dispostos em ordem de tamanho, por exemplo. Não há, porém, notícia de que proceda assim.

Interligne 28a

de Minas 247, 26 fev° 2016

da Folha de São Paulo, 26 fev° 2016

Interligne 28a

d'O Globo, 26 fev° 2016

d’O Globo, 26 fev° 2016

Interligne 28a

da Folha de São Paulo, 26 fev° 2016

de Minas 247, 26 fev° 2016

Interligne 28a

Jogo dos sete erros

José Horta Manzano

Segunda-feira de Carnaval. Na redação do jornal, saíram todos: chefe, subchefe, vice-chefe, auxiliar do chefe. Nem o pretendente a chefe ficou. Sobrou para os estagiários.

Jacques, gaúcho trilegal e leitor fiel do blogue, costuma prestar atenção ao que lê na mídia. Ficou ‘estarrecido’ ‒ como costuma dizer aquela em quem vocês estão pensando ‒ com o que encontrou. A edição gaúcha do G1 traz uma coleção de fazer inveja.

Alguns são modismos, outros são imprecisões, outros, ainda, erros primários. A Pátria Educadora continua arreganhando os dentes. Cariados.

Interligne 28a

2016-0208-04 G1 RSEstado (da Federação) pede letra maiúscula.

Interligne 28a

2016-0208-03 G1 RSFazer foto? Soa esquisito. Este blogueiro é do tempo em que ninguém “fazia” foto. Foto se tirava.

Interligne 28a2016-0208-02 G1 RSÉ irritante ver o verbo seguir usado como sinônimo de continuar. Seguir sugere algum movimento: seguir em frente, seguir alguém, seguir um desfile. No presente caso, o barco está imóvel debaixo d’água há dez dias. Seguir não serve. Substitua-se por continua, permanece, está, perdura, mantém-se.

Interligne 28a2016-0208-07 G1 RSComo todo nome próprio, Carnaval, que é nome de festa, pede inicial maiúscula.

Interligne 28a2016-0208-01 G1 RSNão contente com o sumiço do til, o escriba transformou o feriado numa ferida. Uma grande ferida. Um feridão!

Interligne 28a2016-0208-05 G1 RSNuma curta chamada, três reparos.
Primeiro: não se ateia fogo em, ateia-se fogo a.
Segundo: o cobrador não foi ferido após o assalto, mas no assalto.
Terceiro: dizer que o suspeito fugiu com o dinheiro é exagerar no politicamente correto. Não se pode dizer assaltante? Ou será que tem de esperar que o processo transite em julgado?

Interligne 28a2016-0208-06 G1 RSPronto, aqui está a cereja em cima do bolo. O termo óculos, redução da expressão par de óculos, é plural. Sempre. Os linguistas chamam a esse fenômeno pluralia tantum. Não se assuste. Diga os óculos, meus óculos, seus óculos. Vai acertar.

Interligne 28a

Novilíngua – 3

José Horta Manzano

Foto publicada pelo Estadão, 14 dez° 2015

Foto publicada pelo Estadão, 14 dez° 2015

Este blogueiro é do tempo em que se tomava mais cuidado ao traduzir despachos chegados do estrangeiro.

Quanto aos vegetais comestíveis fotografados, faz oitocentos anos que têm nome genérico em nossa língua.

Quanto à metrópole indiana, foi batizada com nome próprio pelos primeiros portugueses que lá desembarcaram quinhentos anos atrás.

Revista e melhorada, a legenda da foto fica assim: “Vendedor de legumes espera por clientes em sua barraca num mercado de Bombaim, na Índia.”

Latim de botequim

José Horta Manzano

Caesar 1Este blogueiro é do tempo em que ainda se aprendia latim na escola. Aprendia é modo de dizer.  A língua era ensinada, mas aprender, que é bom, eram outros quinhentos. A matéria era um espantalho para muitos de nós. Um belo dia, seu ensino passou a ser considerado supérfluo, e a língua foi abolida do currículo. É pena. Fácil, não era. Mas tinha lá sua utilidade.

Faz uns dias, o vice-presidente de nossa República enviou carta à mandatária-mor. Embora digam que o figurão tem estatura de estadista, o tom da missiva está longe de demonstrá-lo. A ladainha de reclamações pessoais é constrangedora. Apesar do tom de funcionário chorão, o texto começa justamente com uma frase na língua de Cícero. Não se sabe se dona Dilma entendeu ou se teve de se socorrer junto a assessores. Pouco importa.

A frase latina que senhor Temer deitou no papel é:

Interligne vertical 14Verba volant, scripta manent.
Palavras voam, escritos ficam.

Um pouco alterada, a frase é conhecida de todos os que um dia já arriscaram uma fezinha na Paratodos, o Jogo do Bicho. O mote da contravenção mais difundida, conhecida e tolerada é justamente: “vale o escrito”.

Data venia, tenho de botar reparo na citação do vice-presidente. É verdade que alguns conceitos foram poupados pela passagem dos dois milênios que nos separam do auge do Império Romano. Outros, no entanto, envelheceram. A máxima citada é daquelas que precisam ser adaptadas aos novos tempos. A versão 2.0 deverá ser algo como:

Interligne vertical 14Scripta manent, sed igne delebuntur. Verba volant, sed nube captabuntur.
Os escritos ficam, mas serão destruídos pelo fogo. As palavras voam, mas serão aprisionadas por uma nuvem (=cloud).

Interligne 18f

PS: Nas aulas do velho professor Biral, que dava o melhor de si para nos iniciar nos mistérios da língua latina, nem sempre fui o aluno mais atento. Para o caso de o mestre, na nuvem de onde hoje nos espia, torcer o nariz para minha tradução, peço-lhe desculpas antecipadamente.

Novilíngua – 2

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que árvores se plantavam. Aparentemente, hoje se instalam. Há de ser consequência do desmatamento desenfreado.

Pedaladas

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que o termo pedalada lembrava passeio de bicicleta. Pra girar as rodas, a gente dava pedaladas na Monark ou na Caloi. Hoje em dia, pedalada não se dá, se faz. E o significado mudou.

Lula boné 1Nestes tempos estranhos, o sentido da palavra tem evoluído. Não evoca mais as rodas da magrelinha. A imagem que vem é de barbeiragens financeiras cometidas conscientemente por dona Dilma. Parece que é crime. Se for, mais dia menos dia a presidente terá de responder por ele. Quem viver, verá.

Dirigindo-se a plateia amestrada, um Lula que, apesar de viver vida abastada, continua se esforçando para parecer igual aos excluídos, enfiou mais uma vez no cocuruto o boné do MST. Expedientes malandros como esse eram conhecidos já nos tempos do velho Jânio Quadros, mas ainda tem gente que se deixa embalar.

Em 2003, ao fazer o gesto pela primeira vez, nosso guia desencadeou um bafafá. Cidadãos mais conscientes consideraram a atitude imprópria para presidente de país sério. De lá pra cá, o figurão perpetrou impropriedades bem maiores que aquela. Tantas fez que hoje os brasileiros, blasés, não prestam mais atenção.

Estes últimos meses, com o desenrolar veloz e imprevisível dos acontecimentos, o Lula anda mais desnorteado que cego em tiroteio. Perdeu os anéis, quis salvar os dedos. Perdeu os dedos, está tentando salvar as mãos. Seu horizonte anda um bocado nevoento para quem já sonhou abocanhar um Nobel da Paz para, em seguida, terminar presidente do Banco Mundial.

Bicicleta 8Na cerimônia de ontem, sem muito que dizer, o demiurgo aventurou-se por terreno minado. Falou das «pedaladas» que dona Dilma «fez». Contou não ter lido o processo, fato que não surpreendeu ninguém. Assim mesmo, garantiu que a afilhada cometeu esses «malfeitos» para poder continuar pagando programas de distribuição de dinheiro que ele mesmo havia instituído.

Ora, analisemos. Nos tempos em que o Lula era presidente, não foi preciso «pedalar» pra distribuir aos mais necessitados. A partir do momento em que o cumprimento de programas passou a exigir que leis fiscais fossem infringidas, das duas uma: que se mudassem as leis ou que se extinguissem os programas. Nenhum dos dois foi feito.

Blabla 2Qual é o resumo da opereta? Duas considerações se impõem. A primeira é a confissão – involuntária mas evidente – de que a pupila realmente «fez» pedaladas, ou seja, infringiu a lei.

A segunda consideração remete a meu post de ontem – A lei? Ora, a lei… A fala do Lula reforça a ideia de que leis e regras valem para os outros, não para si mesmo. O demiurgo pode falar mais que outros, se agitar mais que outros, ousar mais que outros, ser mais vaidoso que outros, ser menos culto que outros, ser mais ingênuo que outros mas, no fundo… é um político do mesmo padrão que todos os outros. A lei? Ora, a lei…

Confissão arrependida

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 24 ago 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 24 ago 2015

Este blogueiro é do tempo em que honestidade era qualidade absoluta, sem qualificativo. O sujeito era honesto ou não era. Ponto e basta.

O vice-presidente de nossa maltratada República nos ensina que é possível ser honesto de menos e honesto demais. Parece arrependido de ter exagerado na dose.

A que ponto chegamos! Pobre País onde honestidade se confunde com ingenuidade.

Novilíngua – 1

Chamada do jornal O Globo, 12 ago 2015

Chamada do jornal O Globo, 12 ago 2015

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que esse exercício de equilibrismo era acrobacia circense e se chamava andar na corda bamba.

Agora, promovido a esporte, é natural que receba nome estrangeiro. Nem todos entendem, mas fica muito mais “sexy”. Ou não?

Bravata, ministrinho e padrinho

José Horta Manzano

Bravata
O deputado Cunha, presidente da Câmara, desafiou o Judiciário. Disse que concorda em ser chamado para acareação com seus acusadores. Pura bravata: a Justiça, quando determina confronto entre indivíduos, dispensa consentimento do acusado. Se for convocado, tem de ir. Caso não se apresente, sujeita-se a ser conduzido manu militari.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Afundemos juntos
A valentia do deputado bravateiro durou uma frase só. Na sequência, apelou para o velho abraço de afogados. Sugeriu às autoridades judiciárias que, caso o chamem para acareação, que aproveitem o embalo para chamar também dona Dilma e alguns de seus ministros. Vamos todos juntos!

Ministrinho
Segundo o deputado, um dos que deviam ser chamados para acareação é um ministro de Estado chamado “Edinho”. Este blogueiro é do tempo em que diminutivos serviam de apelido pra criança. Ministro Edinho? Tira a seriedade do cargo.

Pirulito 1Defesa do padrinho
Dona Dilma pediu a seus ministros que saiam em «defesa pública» do Lula. No âmbito privado, é compreensível ditar a auxiliares o caminho a seguir. Deixar vazar esse tipo de determinação pega mal. Fica a impressão de que nosso guia e seus advogados são incapazes, sozinhos, de assumir a defesa.