Ai, meu plural!

José Horta Manzano

Chamada d’O Globo, 25 jan° 2018

Se um milhão já é muito, dezessete “milhão” é muito mais. Convém mandar pro plural. Assim, ó: US$ 17,9 milhões. Fica melhor e os guatemaltecos agradecerão.

Nota encucada
A Odebrecht pagar pelos ilícitos que cometeu é digno de aplauso. Mas e os que receberam o suborno? Estão perdoados? Não devolvem os “milhão” não?

Compra por impulso

José Horta Manzano

Quando Marco Polo partiu de Veneza, lá pelo fim do século 13, para uma viagem de um quarto de século até Pequim, já fazia tempo que a lábia e a manha eram qualidades primordiais de todo mercador. Valiam tanto ou mais que a mercadoria.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Pra começar, a duração das viagens: Pequim, Astracã e Samarcanda estão a algumas horas de avião, venha o viajante de onde vier. Especiarias, brocados, peças de seda, essências odorantes deixaram de ser os artigos mais procurados. Poucos gastariam anos numa jornada de 25 mil quilômetros para voltar carregados de bugigangas.

Não há o que faça desaparecer certos cacoetes, no entanto. Por mais que passem os séculos, tanto mais eficiente será o vendedor quanto melhor for seu traquejo em manejar as artes da persuasão. É a alma do negócio. Quanto aos compradores, bem, nem todos são imunes a uma boa conversa. Estão aí dezenas de variações do tradicional «conto do vigário» pra não me deixar mentir.

Atenção: longe de mim a intenção de acusar todo vendedor de ser aprendiz de estelionatário! O nó da questão está no fato de que, por credulidade contumaz ou enlevo passageiro, muito cidadão de boa-fé compra hoje e se arrepende amanhã. Arrependimento é bom e aconselhado por toda religião. Só tem um senão: livros sagrados recomendam reparar o mal feito a outrem. Arrepender-se de uma compra não se enquadra no preceito.

Seja como for, o fato existe e há que enfrentá-lo. Muita gente lamenta hoje a compra feita ontem. Quer devolver. Mas… e o comerciante como é que fica? A partir de que momento uma compra passa a ser definitiva e incontestável?

Desconheço os meandros da realidade brasileira, mas posso certificar que muitos países regulamentaram, há tempos, as situações em que uma compra pode ser posteriormente renegada. Na Suíça, por exemplo, a regra é simples. Caso o vendedor tenha abordado o candidato à compra fora do estabelecimento comercial, ou seja, na rua, numa feira ou batendo à porta de surpresa, pode-se invocar a figura da compra por impulso, quando a venda se consuma num momento de enlevo daquele que pagou ou que assinou o contrato. Se assim tiver acontecido, o comprador tem o direito de arrepender-se e desfazer o negócio. Para tanto, conforme as circunstâncias, a lei lhe concede prazo de até sete dias.

Já quando o comprador se dirige, por livre e espontânea vontade, ao estabelecimento do vendedor ‒ loja, barraquinha, banca, armazém ‒ desaparece a noção de «compra por impulso». Tendo procurado o vendedor por iniciativa própria, o comprador, ainda que impulsivo, não poderá legalmente se arrepender da compra.

No Brasil, está na pauta estes dias a possível concessão do direito ao arrependimento a compradores de passagem aérea por internet. Vinte e quatro horas serão concedidas ao futuro viajante para desfazer o negócio. Não estou de acordo com a proposta e digo por quê.

Ao entrar no site internet do vendedor, o indivíduo age exatamente como os antigos quando transpunham a porta de entrada de uma loja: visitavam um estabelecimento comercial. Que comprem ou não, pouco importa. A realidade é que a visita espontânea à loja virtual elimina a característica de impulsividade. Entrou, estudou, refletiu, clicou e confirmou, pronto! Está sacramentada a venda. Não pode haver volta. Há que considerar os direitos de ambas as partes contratantes. Se o comprador tem direitos, o vendedor também os tem.

Se ao brasileiro falta firmeza nas opiniões, iniciativas como essa só fazem reforçar espíritos hesitantes. Sem nos dar conta, estamos construindo nosso próprio Big Brother.

Perguntar não ofende ‒ 2

José Horta Manzano

Cento e vinte dias foram concedidos ao impoluto ex-presidente senhor Lula da Silva e à imaculada ex-presidente doutora Dilma Rousseff para nos devolverem parte do que nos roubaram. A medida diz respeito aos presentes que os mandatários receberam de visitantes estrangeiros e que, com a sem-cerimônia que os caracteriza, adicionaram a seu patrimônio pessoal e carregaram na mudança.

A lei é clara. Ela estipula que presentes recebidos por ocasião de encontros internacionais tem de ser incorporado ao patrimônio do povo brasileiro. Ao apropriar-se desses bens ‒ alguns dos quais, de ouro e prata, são pra lá de valiosos ‒, nossos cândidos ex-mandatários cometeram o crime de apropriar-se do que não lhes pertencia. A vítima dos mãos-leves do Planalto não foi o palácio: foram os 200 milhões de brasileiros.

Crédito: Revista Isto É

Crédito: Revista Isto É

O valor venal, comparado à rapina generalizada que a lava a jato tem revelado, até que é baixo. Por seu lado, o fato de a apropriação indébita trazer dano a todos os brasileiros dá imenso peso ao crime.

Fica no ar a pergunta:
Por que 120 dias de prazo? Por que não exigir devolução imediata?

Pergunta complementar:
Este blogueiro é do tempo em que toda apropriação indébita ‒ furto, roubo & assemelhados ‒ rendia processo e, a critério do juiz, dava cadeia. Como é que fica neste caso? Fica por isso mesmo?

Rapidinha 25

José Horta Manzano

Serviço pos-vendaServiço pós-venda
O Estadão nos informa que, em livro que acaba de sair do prelo, um jornalista britânico lança suspeita sobre a lisura da escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A acusação é de que membros do Comitê Internacional Olímpico tenham sido subornados. Em resumo: os Jogos foram comprados.

Fica no ar uma pergunta: pode devolver?

Para transações de compra concluídas, todo código de consumidores costuma estipular prazo de carência durante o qual o comprador tem direito a devolver a mercadoria que não lhe agradou ou que não serviu.

Cada dia fica mais claro que esses Jogos não são remédio, antes, agravam o mal do paciente. Portanto, nada mais justo que registrar reclamação junto ao Serviço Pós-Venda do Comitê Olímpico, mandar os Jogos de volta e pedir reembolso. Ou não?