Bomba em Paris!

José Horta Manzano

Faz tempo que a cidade de Paris não é bombardeada. A última vez que bombas caíram do céu foi no ano de 1944, três quartos de século atrás. Desde que o último avião bombardeiro se afastou, a cidade sossegou e o solo está bom pra caminhar. Certo?

Não é tão certo assim. As guerras que sacudiram a Europa no século 20 deixaram marcas que se fazem sentir até nossos dias. Entre outras regiões castigadas, o norte da França, a Bélgica, a Holanda, o sul da Inglaterra e a totalidade do território alemão foram alvo de bombardeio pesado e frequente tanto na Primeira quanto na Segunda Guerra.

Estimativas indicam que, na guerra de 1914-1918, um bilhão(!) de obuses (granadas explosivas atiradas por boca de canhão) riscaram o céu da Europa. Sem contar bombas lançadas por avião que, naquela época, não eram muitas. Já durante a guerra de 1939-1945, a quantidade de projéteis foi superior.

Dependendo da fonte, sabe-se que entre 1% e 30% das bombas não explodiram. Artefatos mais leves, que ficaram à flor da terra, foram facilmente encontrados e desativados nos primeiros anos do pós-guerra. Já as bombas pesadas que não explodiram afundaram metros abaixo da superfície e sumiram de vista. Boa parte delas está lá até hoje, bem abaixo dos pés do caminhante distraído. Volta e meia, quando se cava um pouco mais fundo, dá-se de cara com uma delas.

A cidade de Paris nunca recebeu bombardeio pesado, o que faz que seja relativamente raro encontrar bomba não detonada no solo do município. Assim mesmo, às vezes, acontece. Foi o caso em meados de fevereiro deste ano. Ao escavar para implantar os alicerces de nova construção, os operários encontraram uma bomba americana, provavelmente jogada por avião britânico em abril de 1944, quando da batalha pela liberação da cidade.

Num domingo, os habitantes de 600 lares ‒ cerca de 1800 pessoas ‒ foram evacuados para permitir a entrada em ação de especialistas desminadores. Em seguida, segue-se o protocolo padrão previsto para casos similares. O artefato é transportado com o maior cuidado e assentado no fundo dum poço de 4 metros de profundidade. Uma coluna de areia vem tapar o buraco e sacos de areia são dispostos em volta. A bomba é então detonada com segurança, longe de região habitada.

Bomba em Paris impressiona, mas não é frequente. Por seu lado, o território alemão está com o subsolo coalhado de artefatos perigosamente explosivos. A persistir o ritmo em que bombas, minas e outros artefatos não detonados são encontrados em território europeu, estima-se que o terreno só estará totalmente livre de perigo daqui a 700 anos. Se nenhuma guerra sobrevier daqui até lá, naturalmente.