Saudação para iniciados

José Horta Manzano

Como escrever ano novo? Com hífen ou não? Com maiúsculas ou não? Melhor perguntar a quem sabe. O mais prático, hoje em dia, é dar uma olhada nos dicionários. Todas as consultas que fiz foram online (ou em linha, como preferem em Portugal).

Os dicionários brasileiros recomendam que se escreva com letras minúsculas e com hífen. Ano-novo e ano-bom quase sempre aparecem como sinônimos perfeitos. Atenção: quase sempre não é sempre! Mas vamos deixar pra lá essas sutilezas.

Praticamente todos os dicionários brasileiros dão como significado:

o ano entrante
a passagem de 31 dez° para 1° janeiro
o próprio dia 1° janeiro

Feliz ano novo!

Já os dicionários portugueses não hifenizam a expressão. A tendência lusa é grafar ambas as palavras com inicial maiúscula: Ano Novo, assim como Ano Bom. Quanto ao significado, as acepções são sensivelmente as mesmas que no Brasil.

Então, vamos resumir. Se o distinto leitor for festejar o réveillon de 31 dez°, à meia-noite estará brindando ao ano-novo (com hífen) e desejando um feliz ano novo (sem hífen) a todos. Como se vê, o ano-novo é como peixe, altamente perecível. No dia seguinte, fede. Tem de ser jogado fora e substituído por ano novo.

Agora, que sabemos saudar corretamente, vamos lá. Desejo a todos bons festejos de ano-novo e um feliz ano novo.

Observação
Em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, ninguém dá atenção a essas sutilezas. Não se usa hífen. Maiúscula ou minúscula? Fica ao gosto do freguês, mas geralmente se vê com maiúsculas.

Dolce far niente

José Horta Manzano

Durante uma época, tive uma cabeleireira, moça jovem de 23 aninhos, sorridente, simpática e cheia de vida. Quando a gente está sentado na cadeira do salão, a conversa flui.

Um dia, não me lembro no meio de que assunto, me disse ela que seu maior sonho era… estar na aposentadoria. Surpreso, perguntei por quê. «É que aí eu podia fazer o que quisesse sem ter de trabalhar.»

Volta e meia, esse diálogo me volta à lembrança. Tento recordar os anseios que eram os meus aos 23 anos. Muito tempo passou, o que pode falsear a memória. Não me lembro, assim mesmo, de ter tido a mesma pressa de me aposentar. Tinha toda a vida pela frente, perspectiva animadora.

Chamada da Folha de São Paulo, 2 ago 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 2 ago 2016

Achei que minha cabeleireira fosse um caso especial, um ponto fora da curva, como se usa dizer hoje. Neste começo de agosto, encontrei mais um que mostra rezar pela mesma cartilha. Foi o estagiário que dá título às chamadas noturnas da edição online da Folha de São Paulo. A notícia fala de um funcionário contratado temporariamente para vigiar piscinas durante os Jogos Olímpicos ‒ emprego pro forma, só pra cumprir tabela. O funcionário não tem que fazer.

O texto da notícia não vai pela mesma linha, isto é, não glorifica o ócio remunerado. A chamada fica por conta de quem a escreveu que, é lícito supor, seja pessoa de pouca idade. Para esse jovem brasileiro, o melhor emprego do mundo é aquele em que não precisa trabalhar.

Dá pra entender por que é que o Brasil não se desenvolve? Parece que minha antiga cabeleireira não é o único ponto fora da curva. Há muitos outros.