Ordem inversa traiçoeira

José Horta Manzano

Quando estamos numa roda de amigos ou papeando na cozinha de casa, temos todos o direito de soltar o verbo sem dar atenção especial à colocação dos pronomes, ao tempo verbal, a repetições e pleonasmos. Podemos “comer” um s de plural aqui, outro ali. Entre gente de casa, o clima é de liberou geral.

Quando se fala ou escreve «pra fora», ou seja, quando o que dizemos ou escrevemos é para uso externo e periga ir além do círculo mais chegado, a coisa muda de figura. Na categoria dos que escrevem «pra fora», estão, lá no topo, jornalistas e homens de imprensa. Nesse nível, um deslize em qualquer setor da gramática pode pegar mal, muito mal.

Continuo surpreso de constatar que diretores de redação ainda não se deram conta do estrago que pode causar ao jornal um erro bem na primeira página. No mínimo, deixa a impressão de desleixo. No pior dos casos, transpira ignorância.

Chamada Estadão, 17 dez° 2018

Na manchete de hoje, a ordem inversa dos termos levou o estagiário a trocar os pés pelas mãos. Não tendo entendido que o sujeito de aparecer era melhores jogadores, deixou o verbo no singular. Ficou esquisito.

No entanto, é fácil não errar. Em casos como esse aí, quando há dúvida, basta botar a frase na ordem direta, que tudo fica mais claro. «Em 2019, se melhores jogadores não aparecerem, os técnicos serão astros.» Assim, fica evidente que o sujeito no plural (melhores jogadores) exige verbo no plural (aparecerem).

O problema é que estagiários se têm comportado com crescente displicência, como se vivessem numa permanente roda de amigos. Aí, o espírito crítico afrouxa. É desastre à certa.

Escrita pedregosa ‒ 1

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 16 dez° 2017

Escritor, dramaturgo e poeta, o professor Ariano Suassuna não apreciaria nem um pouco a chamada que o estagiário ousou no Estadão online.

«Livro que Suassuna iniciou a escrita»? Definitivamente, não.

Mais adequado será dizer:

Livro com que Suassuna iniciou a escrita (…)

ou

Livro com o qual Suassuna iniciou a escrita (…)

Vale também fazer um esforço de imaginação e torcer a frase. Por exemplo:

Livro que lançou Suassuna

ou

Livro com que Suassuna deu início à obra.

Pra ir até o fim

O uso da preposição durante não cai bem na chamada. Durante exprime um tempo determinado, com começo, meio e fim. Por exemplo:

Leu durante a viagem. (= Enquanto durou a viagem, leu. Subentende-se que, terminada a viagem, parou de ler.)

Recebeu muitas visitas durante a convalescença. (= Enquanto durou a recuperação, recebeu muitas visitas. Fica implícito que, terminada a convalescença, as visitas cessaram.)

Dizer que «Suassuna iniciou a escrita durante os anos 1980» é afirmação desconcertante. Pode até levar a pensar que, finda a década, o autor abandonou a escrita.

Melhor mesmo será dizer que «Suassuna iniciou a escrita nos anos 1980». A sentença perderá ambiguidade e ganhará clareza.

Desmazelo

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 30 setembro 2017.

«Eu nasci naquela terra num ranchinho à beira-chão
Todo cheio de buraco, onde a lua faz clarão…»

Esses são versos da toada Tristezas do Jeca, composta por Angelino de Oliveira em 1918, faz exatos 99 anos. Com palavras simples, o autor captou uma faceta da realidade nacional de então. O ranchinho, plantado à beira-chão, exprimia a pobreza do habitante, cujas posses não tinham sido suficientes pra cavar um porão nem pra construir um sobrado.

A falta de dinheiro não é, em si, condenável. Cada um tem sua história. Os altos e baixos da vida explicam a condição financeira de cada um. Mas atenção: se pobreza não é defeito, desleixo é. Que o cidadão não tenha tido recursos para erguer um palacete, compreende-se. Já o fato de a casinha ‒ presumivelmente de sapé ‒ estar cheia de buraco mostra triste singularidade da alma nacional: o descaso.

Tive, faz algumas décadas, um colega de trabalho português. Vivíamos ambos fora do país, situação propícia para diálogo entre expatriados. Ele, que não conhecia o Brasil, me narrava traços típicos de sua terra. Uma vez me contou que, no seu país, quando algo se estragava ‒ se avariava, dizia ele ‒, ninguém se preocupava em consertar. Acabava ficando por isso mesmo. Podia ser objeto, imóvel, rodovia ou o que fosse, o destino era o mesmo: quebrou, fica quebrado.

by Oscar Pereira da Silva (1867-1939), artista fluminense

Não visitei a terra do moço por tempo suficiente para confirmar o que me dizia. Assim mesmo, os comentários me soaram familiares. Entre as múltiplas características que fazem que o Brasil seja o que é, está o desmazelo, traço incontornável da personalidade nacional. Pode chamar de incúria, de leviandade, de descautela, de imprudência, de superficialidade, de ligeireza. São todos parentes e dão todos, bem ou mal, o mesmo recado.

Mês passado, o norte do país foi palco de dois acidentes com embarcações, que resultaram em dezenas de mortos e feridos. Só ficamos sabendo porque o número de vítimas foi elevado. Não fosse isso, nem teria saído na mídia. Relatório de 2016 da Marinha confirma que, no Brasil, sete em cada dez acidentes náuticos são fruto de negligência. Deixam centenas de vítimas.

Ano após ano, nas esburacadas estradas do país, dezenas de milhares de cidadãos se estropiam ou perdem a vida por desleixo. Se não for por incúria da autoridade, que descura a manutenção, será pela imprudência do motorista, que hipoteca sua vida e a dos passageiros em manobras arriscadas.

As eleições gerais de 2018 estão aí, na virada da esquina. No entanto, nem parece que, daqui a um ano, estaremos escolhendo presidente, governadores, deputados, senadores. As regras ainda não estão definidas, fato que não dá insônia a ninguém. Fala-se vaga e molemente em «reforma política» sem que fique claro em que consiste e quando entrará em vigor. Isso tampouco parece estar no centro das preocupações.

No Brasil, faz mais de trinta anos que se adota a hora de verão. Apreciada ou não, tornou-se prática costumeira. Cidadãos com menos de 40 anos não se lembram do tempo em que a hora não mudava. No momento em que comecei a escrever este artigo, a pouco mais de duas semanas do avanço dos ponteiros, as autoridades não tinham ainda definido se a prática seria mantida este ano. Como é que é? Suas Excelências imaginam que a mudança se resume a um torcer de dedos para acertar o relógio da sala? Não é bem assim.

A mudança de hora afeta o funcionamento de companhias aéreas, de aeroportos, de linhas de ônibus ‒ em resumo: de todo transporte sujeito a horário. Incide sobre comunicações e relações internacionais. Alarmes e relógios de ponto têm de ser ajustados. Grandes relógios públicos instalados em torre de igreja têm de ser acertados, o que requer programação rigorosa do trabalho de especialistas. Horário de pessoal hospitalar e policial tem de ser organizado com boa antecedência. Como é possível que mudança tão significativa permaneça no estágio do «vamos ver» a duas semanas da data fatídica?

Agora, ao terminar de escrever o artigo, consulto a internet e constato que teremos, sim, hora de verão este ano. O descaso nacional atravanca até a vida de articulistas. Mas deixe estar, que até para desmazelo há limites. Se buracos num ranchinho à beira-chão são poéticos, buracos na estrada são mortais. E legislação hesitante trava o andamento do país.

PS
Alguns dos recibos de aluguel exibidos por Lula ao juiz Moro mencionam datas fantasiosas, num excelente exemplo do desmazelo que entulha nosso futuro.

Desinfetante

José Horta Manzano

Faz tempo, ouvi a história ‒ verdadeira ‒ do indivíduo que, ao juntar os anexos da declaração de renda, se distraiu e acabou incluindo o extrato de uma conta não-declarada que mantinha no exterior. Dá pra imaginar as consequências.

Leio hoje que acaba de surgir do nada o áudio de uma conversa mantida entre aquele moço de nome simplório e sobrenome pio e um então procurador da República. Pelo áudio, o procurador orientava o futuro delator nas artes de bem delatar, exatamente como advogado aconselha cliente sobre como se comportar na sala do tribunal. A peça teria sido anexada «por equívoco».

Que o cidadão que citei antes, aquele da conta secreta, possa ter trocado os pés pelas mãos e deixado escapar uma folha de papel no meio da pilha de documentos fiscais é plausível. Afinal, o homem, além de não ser especialista em declarações ao fisco, trabalhava sozinho, sem assistência nem conselho de advogado ou procurador.

Sabe-se que o Brasil é bonito por natureza e que o brasileiro é desleixado por compulsão. Assim mesmo, pretenderem nos fazer crer que um áudio tenha pulado de uma pasta para outra «por equívoco» já é pedir demais. Esse bando de ladrões que nos esbulham há décadas dispõem das melhores bancas de advogados do país. São treinados por gente ultraespecializada. Os dossiês são preparados por peritos. Não é razoável ‒ pra não dizer que é impossível ‒ que uma peça qualquer tenha sido anexada “por engano”.

Como dizia minha avó, debaixo do angu tem carne. Aí tem coisa. Há tentativa clara de blindar A para complicar a vida de B. Ou vice-versa, quem sabe? Ao fim e ao cabo, sobra pra todos. Os estilhaços da bomba acabam atingindo culpados e inocentes ‒ se é que há inocentes. O quadro político se torna cada dia mais embaçado em Brasília. Creolina(*) neles!

Nota
Diferentemente do que poderia parecer, creolina não é palavra politicamente incorreta. Não tem nenhum parentesco com crioulo. É antiga marca de desinfetante hoje praticamente em desuso. Exala cheiro forte e característico. O termo deriva de creosoto, variedade de alcatrão destilado.

Se a creolina falhar, só Deus pode salvar.

Três em um

José Horta Manzano

Estou acostumado a dar uma passada d’olhos na imprensa internacional. Posso garantir-lhes que, fora de nosso país, erros gramaticais são raros e excepcionais. Que se trate de regência, de sintaxe ou simplesmente de datilografia ‒ perdão! de digitação ‒, a raridade é a mesma.

Dizem que o desleixo com que costumamos nos comportar no Brasil é herança do colonizador. Se assim for, constato que a herança frutificou. Em vez de regredir, o desmazelo parece aumentar a cada dia. O filho saiu melhor que o pai.

Até o Estadão, que, afinal de contas, é o jornal brasileiro de referência, reverenciado no mundo todo, tem-se deixado levar pela negligência. E logo na primeira página! A impressão que fica é de que as chamadas ‒ que são justamente as palavras mais lidas do veículo ‒ ficam por conta de estagiários ou de gente que não tem suficiente domínio da norma culta.

Na edição de 1° de agosto, três escorregões coexistiam na página principal da edição online. Ao mesmo tempo, sim, senhores. Aqui estão:

Chamada Estadão, 1° ago 2017

Conselho prorroga mais 1 ano da Lava Jato
Eta, frase torturada! Prorroga-se algo por determinado tempo. Deveriam ter posto «Conselho prorroga Lava a Jato por um ano».

Chamada Estadão, 1° ago 2017

Béndine tentou dissuadir Ferreirinha a depor
Aqui também, a regência foi pro beleléu. Dissuade-se alguém de (fazer) algo. Teria sido melhor: «Béndine tentou dissuadir Ferreirinha de depor».

Chamada Estadão, 1° ago 2017

Neymar viaja à Barcelona
Essa é primitiva. Salvo as exceções, que não chegam a meia dúzia (Cairo, Porto, Rio de Janeiro, Recife, Crato), nome de cidade não aceita artigo. Ninguém mora na Barcelona, nem trabalha na Florianópolis, nem pretende estudar na Paris. Sem artigo, sobra somente a preposição. Naturalmente, não ocorre crase. Melhor seria: «Neymar viaja a Barcelona».

Água mole em pedra dura… Vamos em frente. Quem sabe, um dia ainda chegamos lá.

Feriado bolivarianista

José Horta Manzano

Petroleo 1Desde que o desvario bolivarianista deu início ao desmonte da Venezuela, nossos infelizes vizinhos passaram a viver sob perfusão.

Médicos, remédios e espiões vieram de Cuba. Do Brasil, veio esteio político e não seria espantoso se fosse um dia revelado que até auxílio financeiro tenha sido providenciado com nosso dinheiro público. A Rússia forneceu aviões e armamento.

Bem ou mal, o país foi levando, embalado por bravatas e amordaçado por repressão e cerceamento. Mas as coisas mudam com o tempo. No caso particular da república bolivariana, a evolução foi brutal. O barateamento do preço do petróleo, única fonte de renda do país, arruinou as finanças. Fanfarronices deixaram de sustentar ilusões.

A Rússia, que também tira da exportação de petróleo boa parte de seu sustento, também sofreu. Seu desempenho como padrinho da Venezuela apequenou-se.

Cuba, como se sabe, foi convidada pelo Grande Irmão do Norte a voltar a fazer parte da comunidade das Américas. Os bondosos irmãos Castro, que esperavam por isso havia meio século, não se fizeram rogar. Entre Venezuela e EUA, não hesitaram.

Chamada do portal Entorno Inteligente, 7 abr 2016

Chamada do portal Entorno Inteligente, 7 abr 2016

Quanto ao Brasil, a cúpula política está preocupada em salvar a própria pele e escapar à prisão. Sobra pouco tempo para pensar em socorrer hermanos em dificuldade.

O resultado está aí: o país vizinho está à míngua, cada vez mais devagar, quase parando. A última novidade, não fosse trágica, seria quase engraçada: as semanas venezuelanas ganharam mais um dia de folga. A partir de agora, as sextas-feiras passam a ser dias feriados. Farão companhia aos sábados e aos domingos. Está instituída a semana de quatro dias.

Vela 1Fosse prodigalidade de um Estado rico, seria até novidade bem-vinda. Mas não é. A razão da paralisação do país três dias por semana é a escassez de energia elétrica e de água. Quando se sabe que a Venezuela está entre os maiores produtores de petróleo do planeta, tem-se a medida do descalabro criado por iluminados governantes.

Quatro fontes são as principais responsáveis pela produção de eletricidade: o petróleo, a energia nuclear, o carvão e a energia hidroelétrica. Na Venezuela, o petróleo é abundante. Mas requer investimento em infraestrutura de refino e de transmissão, fatores descurados estes últimos anos. O resultado está aí: com matéria prima para dar e vender, nossos vizinhos são obrigados a deixar de trabalhar e a espantar, com luz de vela, a escuridão.

Bravatas e desleixo costumam ter efeito desastroso.

Novilíngua – 3

José Horta Manzano

Foto publicada pelo Estadão, 14 dez° 2015

Foto publicada pelo Estadão, 14 dez° 2015

Este blogueiro é do tempo em que se tomava mais cuidado ao traduzir despachos chegados do estrangeiro.

Quanto aos vegetais comestíveis fotografados, faz oitocentos anos que têm nome genérico em nossa língua.

Quanto à metrópole indiana, foi batizada com nome próprio pelos primeiros portugueses que lá desembarcaram quinhentos anos atrás.

Revista e melhorada, a legenda da foto fica assim: “Vendedor de legumes espera por clientes em sua barraca num mercado de Bombaim, na Índia.”

Frouxidão

José Horta Manzano

Não se pode esperar que todos os habitantes do planeta tenham o mesmo nível de conhecimento e de habilidade. A diversidade é uma riqueza da espécie humana. Quem não sabe construir um muro chama um pedreiro que entenda do assunto. Quem não leva jeito para redigir uma petição solicita o serviço de um advogado capaz. Quem não consegue cortar as unhas do pé vai a um pedicuro apto a executar o serviço.

Placa com erro 2

De Sul a Norte, não há quem se importe
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Esses exemplos parecem evidentes, não é? Estou chovendo no molhado, não parece? O que eu disse salta aos olhos de qualquer indivíduo medianamente inteligente, não? Pois fique sabendo, caro leitor, que ainda há gente que não entendeu a mensagem. E gente graúda, daqueles que fazem parte do restrito clube de otoridades.

Na organização da «Copa das copas» ― segundo o slogan dernier cri bolado pelo marketing planáltico ― a acolhida ao turista estrangeiro tem recebido especial atenção.

Placa com erro 3

Estádio da Fonte Nova, Bahia
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Sabemos todos que, em cada cidade-sede, linha especial de metrô foi inaugurada ligando o aeroporto ao centro. Dezenas de terminais aéreos foram criados, e os existentes, modernizados. Policiais, agentes e pessoal voluntário seguiram curso intensivo de língua estrangeira ― são hoje praticamente todos bilíngues. A criminalidade baixou a níveis nunca vistos. Até novenas e trezenas têm sido dedicadas a Santa Bárbara para que evite tempestades. Enfim, o turista estrangeiro voltará para casa com a impressão de ter passado uma temporada no paraíso.

Infelizmente, um grãozinho de areia anda perturbando o funcionamento da máquina. É coisa pouca, mas vistosa e capaz de estragar o todo. Autoridades encarregadas de providenciar placas informativas em língua estrangeira se distraíram: encomendaram o serviço a tradutores incompetentes. O resultado tem sido desastroso.

Placa com erro 4

Cariado de preferência
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Já no ano passado, a inauguração de um estádio baiano foi objeto de zombaria por parte da imprensa nacional e internacional. O erro era tão monstruoso que ofuscou a notícia principal, que deveria ser a abertura da praça de esportes. Uma imensa placa dizia «Saída» e, mui educadamente, traduzia para o inglês. Nossa saída tornava-se «entrace»(sic). Entrance, em inglês, é a entrada. E se escreve entrance, não entrace.

Estes dias, foi a vez do respeitado metrô paulistano. Botaram placas em francês e em italiano para sugerir ao estrangeiro que procure um funcionário da companhia caso deseje obter informações. Por óbvia, a placa, a meu ver, é desnecessária. A quem mais se dirigiria o turista se não a um agente da empresa?

Seja como for, se placa há, que esteja bem escrita. E não está. Tanto a versão francesa quanto a italiana apresentam erros de grafia e de lógica. A frase escrita na língua de Molière soa, a ouvidos franceses, mais ou menos como se estivesse escrito: «Por informação, pergunta um emprego». Precisa um certo esforço para entender.

A versão italiana é ainda mais intrigante. Do jeito que está, sugere, com sabor dialetal, que o incauto leitor procure obter informações junto a um indivíduo cariado. Bom, ter cárie é sinal de que ainda sobra algum dente. É sempre melhor que ter de procurar um desdentado…

Duas palavras para resumir o problema: fracasso total. De otoridades incultas, displicentes, desleixadas e descompromissadas com a seriedade, não se poderia esperar mais que isso. Procuraram um pedreiro incapaz, e o muro periga desabar.

E não se esqueça de que o conceptor, o tradutor, o grafista, o pintor e o batedor de prego foram pagos com nosso dinheiro. Sem contar alguma eventual propininha aqui e ali, que ninguém é de ferro.

A Copa é nossa!

O desleixo

No Brasil, o desleixo é marca nacional. Poucos povos serão tão negligentes quanto o nosso. Para quem passou a vida em terras de Pindorama, o que digo pode parecer um exagero. No entanto, aqueles que tiveram ocasião de viver alguns anos fora do País hão de se dar conta da veracidade de minha afirmação.

O tristemente conhecido «jeitinho» brasileiro é caminho obrigatório para paliar consequências e efeitos colaterais do desmazelo nacional. Tem-se muitas vezes de apelar para soluções não convencionais ― às vezes até ilegais ― para compensar falhas de planejamento. Em resumo: aquele que tinha sido pago para planejar não fez sua parte direito; esse desleixo deu origem a um mau funcionamento da coisa planejada; o problema terá de ser resolvido, em caráter de urgência, por meio de um jeitinho qualquer.

Nosso País funciona à base de remendos. O descaso faz a vida parecer uma colcha de retalhos. Para dar um exemplo atual, todos sabemos que o País não tem infraestrutura decente para acolher Copas do Mundo. Mas todos ― a começar pelas autoridades maiores ― fecham um olho, fazem de conta que acreditam que tudo está em ordem, e vamos que vamos. Na última hora, se o milagre não acontecer, inventaremos um remendo, uma solução temporária.

Enquanto isso, o erário, fruto do trabalho suado dos brasileiros, continua sangrando. O que escapa ao assalto das quadrilhas de mandachuvas oficiais acaba escorrendo pelo ralo da incúria. Os remendos e os emplastros de última hora saem muito caro.

Qual é a solução? Só há um caminho: conscientizar a população para o problema. Para chegar lá, é preciso alargar a capacidade do povo de entender as falhas que se repetem cronicamente. Só a elevação do nível geral de instrução permitirá chegar lá.

É demorado? Um pouco, sim. Não se preenche em uma semana o vazio deixado pelo descaso de meio milênio. No entanto, vai bastar uma fagulha inicial, que terá de partir, necessariamente, da Autoridade central. Em seguida, acreditem: uma coisa puxa a outra. A universalização e, principalmente, a valorização do ensino tende a alargar as mentes. Profissões Pere Noeltécnicas, hoje desprezadas, também têm de ser valorizadas. Não há por que considerar que um artesão que trabalha com suas mãos vale menos que um intelectual que trabalha com seu cérebro.

No Brasil atual, o título parece ter mais importância que a formação do titulado. Qualquer dia lhes falo da formação profissional na Europa e na Suíça, em particular. Um povo pouco instruído tende a perpetuar esse secular desleixo. E, pior que isso, a porta continua escancarada para oportunistas de todo gênero: gurus, homens providenciais e autodeclarados salvadores da pátria.

Um povo pouco instruído vai continuar acreditando em Papai Noël. Combina com esta época do ano. No debería serlo, pero así nos están saliendo las cosas. Desgraciadamente.