Pólen & covid

José Horta Manzano

Você sabia?

Em regiões de clima mais frio, a vegetação descansa no inverno. Com a chegada da primavera, cada espécie vai despertando, lançando brotos e flores. Com as flores, vêm os pólens, cuja função é fecundar outras plantas da mesma espécie, num fenômeno chamado polinização.

Para o caso de flores ornamentais, a natureza dispõe das abelhas que, ao colher o néctar de uma flor, levam pólen grudado às patinhas. Esse pólen acabará sendo depositado em outra flor, fecundando-a. Essa é a função das abelhas: a polinização.

Para o caso de árvores – que também botam flores e dependem de polinização –, quem se encarrega de transportar o pozinho é o vento.

Enquanto pólen de flor ornamental é mais pesado e dificilmente levado pelo vento, o de árvore é fininho, levinho, às vezes invisível. Voa pelo ar. Em organismos mais sensíveis, costuma provocar a febre do feno, uma rinite alérgica – doença respiratória que causa grande desconforto.

A National Academy of Sciences (EUA) publicou recentemente um vasto estudo coapresentado por uma penca de cientistas originários de uma dúzia de países. Ele trata da interferência entre pólens e covid-19, visto que os dois causam afecção respiratória. O trabalho, muito completo, baseou-se nos dados de 130 estações de medição de pólen, situadas em 31 países do Hemisfério Norte.

O estudo é longo e altamente técnico, mas o que interessa saber é que a ação dos pólens é realmente fator agravante da covid. A abundância de pólen no ar resulta em significativo aumento das taxas de infecção. Não se tem absoluta certeza do mecanismo, mas o fato é este: mais pólen, mais covid.

Que eu saiba, não existem no Brasil estações destinadas a medir a quantidade de pólen no ar. Se as árvores de clima temperado se fecundam por meio de pólen lançado ao ar, quero crer que árvores tropicais sigam o mesmo caminho. A diferença é que, dado que nosso inverno não é tão marcado, as árvores não soltam o pólen todas ao mesmo tempo. Como resultado, nosso ar contém pólens de modo constante.

Talvez um dia alguma instituição que tiver escapado à atual sanha obscurantista consiga fazer um estudo sobre a interferência dos pólens tropicais na infecção por coronavírus. Enquanto nossa civilização não atinge esse estágio, distinto leitor, a melhor arma é a máscara. Para pessoas sensíveis ao pólen, são recomendadas máscaras mais especiais ainda: aquelas que protegem contra micropartículas.

Ao fugir de aglomeração, evita-se contaminação pelo bafo alheio. Mas não se evita respirar os pólens que, invisíveis, dançam por todos os ares em busca de uma árvore amiga. A única maneira de escapar aos dois – ao bafo e ao pólen – é usando máscara. Não é má ideia usá-la o tempo todo que se passa fora de casa, seja num baile clandestino, seja passeando no bosque.

Árvores públicas e privadas

José Horta Manzano

A confusão entre o público e o privado continua fazendo miséria no Brasil. Em 1500, era coisa natural, combinava com o espírito da época. Navegantes e corsários tomavam posse de terras incógnitas em nome d’el rei. De acordo com os princípios absolutistas vigentes, cada rei era dono de seu país com direito a governá-lo como bem entendesse, sem Constituição, sem deputados, sem senadores. (Cá entre nós, muita gente sonha com um país livre de deputados e senadores, mas essa já é uma outra história.)

Nestes cinco séculos, muita coisa mudou. El rei se foi. Depois de Rousseau, de Voltaire e dos demais iluministas do século 18, o mundo começou a distinguir entre o que é de todos e o que é de cada um. Certas regiões do planeta, especialmente a Europa e as colônias britânicas da América, aprenderam rápido a lição. Outros rincões tiveram um pouco mais de dificuldade. E há até países ‒ como o nosso ‒ onde a noção não foi inteiramente apreendida até hoje.

A dificuldade que temos em distinguir o público do privado é traço marcante da alma nacional. Volta e meia, tropeça-se em algum exemplo. Novos loteamentos clandestinos ‒ implantados em terra alheia ‒ surgem a cada semana. Vereadores, prefeitos, deputados e outros figurões se servem do bem público como se deles fosse. Ligações clandestinas de água ou de energia elétrica roubam o que é de todos para uso particular. São fatos tão corriqueiros que ninguém mais se surpreende.

Até gente bem-intencionada escorrega, às vezes, na hora de discernir entre propriedade privada e coletiva. Faz alguns dias, o prefeito da maior cidade do país pediu urgência na aprovação de lei sobre poda ou remoção de árvore. Falamos de árvores plantadas no espaço público, em calçadas, praças ou parques. A ideia é permitir que cidadãos tomem a seu encargo a poda e a manutenção de árvores que pertencem à comunidade.

Em primeira análise, a ideia até parece liberal e útil. Já que o município não tem condições de arcar com a manutenção do bem público, por que não empurrar o fardo ao próprio cidadão? No meu entender, data venia, é decisão equivocada. Pra começar, reforça a confusão entre o público e o privado, uma de nossas mazelas. Em seguida, exime a prefeitura de todo problema que possa advir de poda malfeita. Se o trabalho danificar irremediavelmente a árvore, como é que fica? Se, durante a obra, a queda de um galho ferir um passante, de quem é a culpa? E se um cabo for seccionado por descuido e o infeliz operário morrer eletrocutado? Há dúzias de situações imprevistas que dariam margem a intermináveis enfrentamentos judiciais.

Como dizem os franceses, «ne mélangeons pas les torchons et les serviettes» ‒ não misturemos panos de chão com panos de prato. Ou «cada ‘quar’ com seu cada ‘quar’», como dizemos nós outros. Cada um é obrigado a cuidar do que é seu. Particulares tomam conta das árvores que lhes pertencem. E o poder público cuida das árvores plantadas em terreno público.

Atenção: cuidar não é só podar! Como todo ser vivo, árvore nasce, cresce, envelhece e morre. E também adoece. Plantar e abandonar não basta. À administração municipal cabe contratar botanistas, fitologistas, parasitologistas, jardineiros e lenhadores para supervisionar a vegetação que orna o domínio público. É incompreensível que cada chuva derrube árvores que, doentes, já deveriam ter sido abatidas bem antes. É pra isso (também) que servem nossos impostos.

Novilíngua – 2

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que árvores se plantavam. Aparentemente, hoje se instalam. Há de ser consequência do desmatamento desenfreado.

A seringueira

Luiza Soares (*)

«Uma árvore caiu ontem, inexplicavelmente, na Praça da República. Disse um botânico que a espécie à qual ela pertencia não costuma cair daquela forma, em pé, raiz arrancada do chão, sem cupins, sem doença aparente, sem motivo nenhum.

Arvore 2Era uma seringueira de sessenta anos que viu o Brasil decair e apodrecer. Quem sabe não aguentou tanta tristeza e… fim.»

Capturado do Blog da Wilma, 20 jun 2015.