Corregedores do passado

Percival Puggina (*)

Esses brasileiros são como filhos de novela, do tipo que rejeita a mãe. Embora o tempo presente os condene, veem-se como corregedores do passado. Incapazes perante o futuro, dedicam-se a amaldiçoar os que vieram antes. Obviamente, serão sucedidos por aqueles que os amaldiçoarão. O século 20, leitor amigo, jogou o Brasil num torvelinho de lamúrias e malquerenças, num imprescritível ajuste de infinitas contas.

Há alguns anos, conversando aqui em Porto Alegre com destacado empresário mexicano, num evento da ADCE, perguntei a ele sobre a situação dos astecas na contemporânea sociedade de seu país. Meu interlocutor era um homem alto, desempenado. Com sua tez avermelhada faria bom papel representando um índio do oeste norte-americano em filmes da década de 50. Olhou-me surpreso e respondeu com outra pergunta: «E eu tenho cara de espanhol?». Não, ele não tinha cara de espanhol, nem eu tinha mais perguntas a fazer. Fui. Serviu-me a lição e a tenho sempre em mente quando se fala sobre a questão do índio e do negro no Brasil.

Estimam os estudiosos, sabe-se lá como, que havia cerca de 3 milhões de índios por estas bandas, no ano do Descobrimento. Hoje restam 896 mil «puros», contados e recontados. Isso é bom ou ruim? O Brasil é um país por todos os motivos destinado à miscigenação. E o pequeno número de índios puros é, ainda assim, certamente maior do que o número de portugueses da gema. Percorre-se o Brasil e é visível, onde se vá, a existência de dezenas e dezenas de milhões de caboclos, cafuzos, mulatos. São empresários, acadêmicos, jornalistas, artistas, operários, agricultores, integrados à nação e expressando sua realidade social. Numa sessão do Congresso Nacional, em dia de votação importante, a câmera da tevê passeia sobre um plenário onde os pardos talvez formem a bancada majoritária, notadamente quando das regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste.

O governo da União, dominado por corregedores do passado, acaba de enviar ao Congresso uma lei determinando que todos os concursos públicos para provimento de cargos federais reservem 20% das vagas para negros e pardos. Com isso – suponho que pensem assim – está feita justiça. Um tipo de «justiça» sempre proposta para viger contra o direito alheio. Nunca com renúncia a qualquer direito de quem decide. Já tramita na Câmara, por exemplo, projeto que pretende criar cotas raciais nas eleições parlamentares. Não o aprovarão porque isso afeta as próprias reeleições. Será que o STF ou o CNJ aprovariam cotas nos concursos para a magistratura? E o governo? O governo, que propõe a lei, tem uma única e solitária ministra negra entre 40 pastas e secretarias com status de ministério.

O grande Chesterton dedica um capítulo de Os Hereges à questão das raças. Lá pelas tantas, escreve: «Todos os mais autênticos ingleses se aborreceriam ou escarneceriam abertamente se começássemos a falar sobre anglo-saxões. (…) A verdade disso tudo é muito simples. A nacionalidade existe, e nada neste mundo a relaciona a raça». E cita Timothy Healey: «Nacionalidade é algo pelo que as pessoas morrem». O Brasil, porém, vai deixando de ser a nação pela qual morreram tantos antepassados nossos para se tornar um amontoado de corpos sociais em conflito, sob a fraudulenta reengenharia social dos corregedores do passado. Está se oficializando como um país racista, onde a identidade fundamental passa a ser a cor da pele.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site www.puggina.org

O alvará

José Horta Manzano

Incêndio

Incêndio

Na Suíça, quando compra um imóvel usado, o novo dono é obrigado a mandar chamar ― à sua custa ― uma empresa de eletricidade para elaborar um laudo de conformidade. O técnico virá conferir se toda a instalação elétrica está em ordem. Em seguida, o novo dono receberá, pelo correio, o laudo e a conta. Isso vale tanto para imóveis comerciais como para casas, apartamentos e kitchenettes.

Na França, antes de pôr à venda seu imóvel, o particular cuida de chamar profissionais homologados para verificações. O número delas pode variar conforme a região do país. Se o imóvel tiver sido contruído antes dos anos 50, é necessário apresentar um laudo negativo de presença de chumbo na pintura das paredes internas. Até fins dos anos 1940 (até os anos 50 no Brasil), esse metal costumava fazer parte da composição das tintas. O contacto com o chumbo pode causar uma doença chamada saturnismo. Foi, aliás, o que matou Candido Portinari, grande pintor brasileiro. Na falta desse laudo, a venda do imóvel não será possível.

Ainda na França, outra exigência legal para pôr sua casa à venda é apresentar um laudo indicando a presença (ou a ausência) de amianto. Esse mineral fibroso foi, durante muitas décadas, utilizado principalmente na composição de telhas e de tubos (cimento-amianto). Dado que foram constatadas propriedades cancerígenas no pó de amianto, o material foi irremediavelmente banido do continente europeu. (Diga-se, a título de curiosidade mórbida, que seu uso ainda é autorizado no Brasil. Por quê? Pergunte ao bispo.) Na França, sem laudo, impossível vender o imóvel.

Incêndio

Incêndio

Na Suíça, todo proprietário é obrigado ― por lei ― a contratar seguro contra incêndio que cubra o valor de seu imóvel, seja ele particular ou comercial. Goste ou não goste, pouco importa: a lei manda. E não é só. Todo inquilino também é obrigado a fazer seguro para cobrir seus pertences contra incêndio. Móveis, tapetes, computador, quadros, toda essa tralha entra na conta. É obrigação que todos têm e que todos respeitam.

O valor do seguro é automaticamente adaptado a cada ano. A cada 5 anos, a seguradora manda um novo formulário a cada cliente. O papel já traz uma lista dos objetos que se encontram normalmente numa casa. Ao segurado resta preencher os valores e devolver o papel à companhia. Esta adaptará o valor do seguro à nova composição do mobiliário.

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Leio hoje na Folha de São Paulo que o Alvará(*) de Funcionamento do grande auditório que se incendiou ontem na capital do Estado estava vencido fazia… 20 anos! O recinto costumava concentrar perto de 2000 pessoas para certos eventos. O alvará ― que certifica o cumprimento das normas de segurança exigidas de lugares onde se apinha muita gente ― tem de ser renovado anualmente.

Incêndio

Incêndio

Isso significa que o Memorial atravessou o mandato dos prefeitos Paulo Maluf, Celso Pitta, Régis de Oliveira, Marta Suplicy, José Serra, Gilberto Kassab e Fernando Haddad sem que nenhum deles se preocupasse com a segurança dos visitantes. Nem eles, nem seus numerosos secretários, assessores e funcionários.

Ei! Tome cuidado você aí, que anda de metrô e utiliza outros serviços públicos dessa megalópole tão orgulhosa de contar com uma batelada de helicópteros. Deus o livre, mas nunca se sabe: um deles pode perfeitamente cair em cima de sua cabeça.

A propósito, de quando datará o último alvará(*) de funcionamento do Teatro Municipal? E do Hospital das Clínicas? E o do Hospital do Servidor Público? E o do Hospital Municipal? Melhor nem perguntar.

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(*) Alvará, segundo os dicionários, provém do árabe hispânico al-baráâ, com o significado de recibo. Não fica claro se a raiz baráâ deu também origem a baralho. Não me parece impossível.
Laudos técnicos não foram feitos para baralhar a vida de ninguém, antes, para preservá-las. Nem todos entenderam isso.

V como Velocidade

José Horta Manzano

Sigismeno é boa gente, mas meio bobão. Embora seja muito aplicado, atencioso e curioso, a compreensão de certas coisas lhe escapa. Para compensar, o que lhe falta de cultura sobra-lhe de boa vontade. É um tipo agradável.

Hoje, logo de manhã, leu uma chamada do Estadão online que lhe deu nó nos miolos. A manchete associa o nome de Ayrton Senna ― o símbolo de um Brasil veloz e triunfante ― a um reles congestionamento de tráfego, símbolo de um Brasil lento e descrente.

Eu lhe expliquei que, assim que o glorioso campeão de velocidade sobre quatro rodas desapareceu num trágico acidente, seu nome havia sido dado à antiga Rodovia dos Trabalhadores. A intenção, naturalmente, era ligar o nome do corredor a uma estrada por onde se costumava transitar em alta velocidade.

Sigismeno, que não sabia disso, olhou-me muito espantado. Ele me perguntou por que tinham «desomenageado» (não reparem, Sigismeno inventa neologismos de vez em quando) todos os trabalhadores para homenagear um só. Quis saber se uma só figura podia ser mais importante que todos os outros reunidos. Fiquei sem saber responder.

Chamada do Estadão de 29 nov° 2013

Chamada do Estadão de 29 nov° 2013

Refletindo um pouco mais sobre o caso, concluí que realmente não faz sentido, numa cidade que se expande a cada dia, dar preferência a desnomear logradouros tradicionais para honrar novos ídolos. Teria sido tão mais simples dar o nome do campeão a, digamos, um novo bairro. Um bairro inteiro!

Além de não desonrar todos os trabalhadores do Brasil, traria vantagem adicional: afastaria o vexame de ligar o nome de Senna ao de um congestionamento de tráfego.

É comum e compreensível banir estátuas e homenagens a heróis caídos em desgraça. Na antiga União Soviética, estátuas de Stalin desapareceram. Naquele país, até uma cidade mudou de nome: Leningrado recuperou seu primitivo nome de São Petersburgo. No Iraque, a imensa escultura representando Saddam foi posta abaixo. Na própria cidade de São Paulo, logo em seguida à implantação do regime republicano, a Rua da Imperatriz virou 15 de novembro, enquanto a Rua do Príncipe tornou-se Quintino Bocaiuva.

Já faz quase 20 anos que a estrada mudou de nome. Mas só hoje Sigismeno se deu conta disso. Ficou deveras chocado com a confiscação do nome antigo, perpetrada em detrimento de todos os trabalhadores. Há de ser para confirmar a tradicional máxima: rei morto, rei posto. Mesmo assim, não faz sentido. Trabalhador nunca foi rei no Brasil.

Se Sigismeno chegar a alguma conclusão, eu lhe conto.

Frase do dia — 49

Dirceu girar, girar e acabar virando gerente administrativo de um hotel que era justamente de Sérgio Naya, deputado que foi cassado e preso, é a realidade esbarrando na ficção. Ok, a vida dá voltas, mas não precisava tanto. As perguntas são as mais maliciosas: vai cuidar do «lobby»? Vai para a «lavanderia»? Ou vai carregar as «malas»?

Eliane Cantanhêde, in Folha de São Paulo, 28 nov° 2013

Rapidinha 8

José Horta Manzano

Nem bem aconteceu, o impressionante acidente ocorrido esta tarde nas obras do estádio Itaquerão já repercutiu em todos os sites de informação da Europa.

Alguns simplesmente deram a notícia. Já outros aproveitaram a deixa para reiterar, de maneira nem sempre discreta, suas críticas ao modo como vem sendo preparada a Copa-14.

O site britânico UK.Eurosport, de modo especial, botou no papel o receio ― que é de todos, no fundo ― de que a organização da Copa seja problemática.

Se você quiser dar uma olhada, estão aqui:

UK Eurosport, Reino Unido

Tages Anzeiger, Suíça

La Gazzetta dello Sport, Itália

20 minutes, França

Süddeutsche Zeitung, Alemanha

Judiciarização

José Horta Manzano

O jeitinho brasileiro, antes decantado em prosa e verso, era ostentado por nós todos como prova de tolerância. Com muito orgulho. Uma expressão concentrava o espírito de nosso povo. Dar um jeito, em sua acepção tradicional, significava chegar ao melhor resultado utilizando os recursos que tínhamos à mão.

Imaginem uma oficina mecânica, um automóvel enguiçado, o proprietário sem saber o que fazer, a peça sobressalente em falta, o mecânico coçando a cabeça. «Vamos dar um jeitinho», dizia o profissional. A expressão conjugava boa-vontade, esforço e astúcia. No dia seguinte, o dono podia vir buscar o carro.

Dava-se um jeito para superar situações difíceis, quando faltavam os recursos básicos. O brasileiro, assim como aceitava a substituição de uma peça faltante por outra qualquer, acolhia com filosofia os desconfortos e os incômodos que a vida lhe trazia a cada momento.

Hoje em dia, o termo jeitinho mudou de registro. Deixou de significar o fato de encontrar solução em momento adverso. Dar jeitinho, hoje, começa a fazer parte da lista de sinônimos de corrupção. A locução entrou para o campo semântico das expressões feias, politicamente incorretas, ainda que amplamente difundidas.

Jogo de cintura

Jogo de cintura

Parlamentares dão um jeito de contornar o regulamento da Casa para fazer passar projetos que vêm ao encontro de seus interesses. Dão também um jeito de barrar a votação daqueloutra lei que não lhes convém. Darão um jeito de encobrir malfeitos, encontrarão um jeitinho de proteger algum de seus pares que haja delinquido.

O velho jeitinho se desnaturou. A proverbial tolerância do brasileiro também está escorrendo pelo ralo. Se ontem entendíamos que certos acontecimentos eram obra do acaso, hoje tendemos a procurar um culpado para toda e qualquer ocorrência. Figurões tentam encobrir seus crimes atribuindo a culpa à mídia que haverá caricaturado os fatos. Se um raio incendeia um bosque, há que encontrar o culpado, aquele que deveria ter sustado as forças da natureza.

A desnaturação do jeitinho faz que o homem se sinta paralisado diante de situações um pouco mais complicadas que o habitual. Quando desaparece a capacidade de resolver problemas com os meios que se tem à disposição, resta a reclamação, a ira, a contestação e, em última instância, a judiciarização da sociedade. Incapazes de dar solução a problemas do dia a dia, os cidadão têm de apelar para a autoridade judicial para resolver os inevitáveis pequenos atritos cotidianos.

Faz uma semana, a cidade de São Paulo teve um dia de tempestade tropical, daquelas às quais os paulistas estão acostumados desde os tempos do Padre Anchieta, faz meio milênio. A chuva forte derrubou uma árvore, que acabou bloqueando a entrada de uma casa. Ninguém mais pôde entrar nem sair da residência. Os moradores tiveram de batalhar por doze horas até que a prefeitura enviasse um destacamento de profissionais para desobstruir o portão.

Em outros tempos, vizinhos e amigos teriam sido acionados para dar uma mão aos habitantes. Teriam dado um jeitinho. Infelizmente, hoje já não é assim. Nossa sociedade progrediu, a distribuição das tarefas está mais definida que 50 anos atrás. Isso é bom. O lado ruim da história é que o jeitinho amigo está-se perdendo. A noção de solidariedade entre membros de uma comunidade ― que, admitamos, nunca foi muito forte entre nós ― está-se esgarçando a olhos vistos. Em vez de tentar ajudar, hoje chamamos o resgate.

Folha de São Paulo, 21 nov° 2013

Folha de São Paulo, 21 nov° 2013

Mais sintomático ainda dos caminhos preocupantes escolhidos pela sociedade moderna são os comentários formulados pelos leitores da notícia. Um deles preconiza um pedido de ressarcimento por danos morais. Outro vai mais longe e aventa a hipótese de se qualificar o acontecido como cárcere privado ― com suas previsíveis consequências penais.

Temos aí um problemão. Carros continuarão a enguiçar, raios e árvores continuarão a cair. A judiciarização de acontecimentos corriqueiros vai tornar a vida dos brasileiros mais difícil do que já é. Um pouco de bom-senso não faria mal a ninguém.

Se já não chegou lá, a expressão «dar um jeitinho» está em via de se tornar palavrão. Por indecente ― ou por inútil ― periga vir a ser proscrita dos dicionários. Se Ary Barroso ainda vivo fosse, talvez hesitasse em cantar «meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro». Entre um Brasil a cada dia menos brasileiro e um afrodescendente de pele clara que não sabe mais dar jeitinho… a coisa vai mal.

Como disse?

José Horta Manzano

A mesma verdade pode ser apresentada de várias maneiras. Tanto se pode dourar a pílula quanto enegrecer o quadro. Há truques do tempo dos sumérios que, espantosamente, ainda funcionam. Enganam incautos e até especialistas.

Interrogação 2

Como é que é?

O Ministério da Educação acaba de trazer a público estatísticas sobre o desempenho dos que se submeteram ao exame dito Enem. Os números são apresentados de maneira ambígua, confusa. Não ficou claro se a imprecisão é voluntária.

Pelo que a mídia veiculou, ficou a impressão de que as notas dos melhores concorrentes oriundos da escola pública são superiores à média das notas dos concorrentes vindos da instrução particular. É tão fora de esquadro, que tenho dúvida em acreditar que a afirmação do MEC tenha sido exatamente essa.

Se assim for, trata-se de um truísmo, uma verdade evidente, daquelas que nem vale a pena mencionar. Se invertermos os termos da equação, o resultado será idêntico: as notas dos melhores concorrentes oriundos da instrução particular são superiores à média das notas dos concorrentes vindos da instrução pública.

Um outro exemplo de truísmo acaba de me ocorrer: estudos tendem a demonstrar que a média das temperaturas de Moscou no inverno tendem a ser mais baixas que as de Fortaleza no verão. E precisa lá fazer estudo de meteorologia para chegar a essa conclusão? É mais ou menos isso que o MEC está dizendo.

Não posso acreditar que o Ministério da Educação nos asseste enormidades como essa. Devo ter entendido mal. Caso algum distinto leitor possa jogar alguma luz, o blogueiro antecipadamente agradece.

Inadequação vocabular ― 2

José Horta Manzano

Não sei se terá sido por arrogância ou por simples ignorância. Provavelmente terá sido desleixo ― composição química em que cuja fórmula entram presunção e incultura. Conto-lhes logo mais abaixo.

O STF não tem intenção deixar o trabalho pela metade. Condenar e prender os culpados é uma coisa. Outra é recuperar a enxurrada de dinheiro roubado. Seguindo por essa trilha, o Supremo enviou ao Banco do Brasil uma cópia integral da Ação Penal n° 470, o processo do mensalão. Insta ao BB que faça o necessário para reaver os 74 milhões surrupiados e descaminhados.

Dicionário

Dicionário

Recebida a cópia do processo, o departamento jurídico do banco emitiu comunicado oficial contendo a seguinte frase: «Informamos que o BB ainda avalia (sic) o acórdão do STF».

Ora, faça-me o favor! Acórdão é decisão de justiça. Decisões de justiça ― mormente quando emanadas do STF ― não são feitas para serem «avaliadas», mas para serem cumpridas. Ponto e basta.

Se o departamento jurídico do BB, que a gente imagina importante, populoso e bem treinado, tivesse tido o cuidado de dar uma olhadela em qualquer dicionário, teria visto que o verbo avaliar transmite a ideia de estimar o valor, estimar a qualidade, apreciar o mérito de alguém ou de algo.

Pretender estimar o mérito do julgamento do mensalão antes de acatá-lo é pura arrogância. Ou ignorância. Ou os dois.

Sinal de importância

José Horta Manzano

Ai, ai, ai, dona Dilma deve estar morrendo de inveja. Segundo o site alemão de notícias Focus online, Angela Merkel teve seu telefone celular grampeado pelos serviços secretos de pelo menos 5 países. A informação foi repercutida por numerosos sites informativos, entre os quais Market Watch, braço de The Wall Street Journal.

Cinco países! Isso é que é prestígio(*). Pelas informações que o site publicou em 24 de novembro, os EUA, a Rússia, a China, o Reino Unido e até a enigmática Coreia do Norte andaram bisbilhotando as conversas da Bundeskanzlerin, a chefe do governo alemão.

Frau Angela Merkel

Frau Angela Merkel

Nossa presidente deve estar-se sentindo desconsiderada. Um único e solitário país apareceu no radar da contraespionagem tupiniquim. E, assim mesmo, porque um certo senhor Snowden andou delatando. Se assim não fosse, nosso radar estaria mostrando céu sereno.

Se o esperneio, o dinheiro e o esforço que nosso governo costuma despender para forjar uma imagem de Brasil-potência fossem utilizados de maneira mais judiciosa, nosso país estaria no bom caminho para escapar de sua condição de nação periférica.

Infelizmente, nossos mandachuvas ainda não entenderam que a construção de uma casa tem de começar pelos alicerces, não pelo telhado. Saco vazio não para em pé. Investir em infraestrutura e instrução pública é o único caminho. Fora daí, não há salvação, gostem ou não gostem.

(*) Compreendo mal o porquê de a imprensa, ao fazer esses anúncios, conjugar o verbo no passado. «Foi espionado», «espionaram» e que tais. Como assim? Acabou? Espionagem internacional é página virada? Como diz o outro: «me engana, que eu gosto».

Frase do dia — 48

«Era o mensalão que vinha à tona. Lula, pego de surpresa, declarou: “Fui traído”. Ou seja, admitiu que a denúncia era verdadeira, mas ele ignorava a falcatrua.»

Ferreira Gullar em sua coluna da Folha de São Paulo de 24 nov° 2013

Miscelânea de humor

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

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by Carlos A. da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos A. da Costa Amorim, desenhista carioca

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Histórias para ler antes de dormir by Ubiratan N. Borges Porto, desenhista paraense

Histórias para ler antes de dormir
by Ubiratan N. Borges Porto, desenhista paraense

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by Dennis Casarine, desenhista paulista

by Dennis Casarine, desenhista paulista

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by Luís Fernando Cazo, desenhista paulista

by Luís Fernando Cazo, desenhista paulista

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by Patrick Chappatte, desenhista suíço

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

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by Marco Jacobsen, desenhista paulista

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

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by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

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by Marco Aurélio C. de Carvalho, desenhista gaúcho

by Marco Aurélio C. de Carvalho, desenhista gaúcho

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Não custa ser prudente... by Augusto F. Bier, desenhista gaúcho

Não custa ser prudente, tchê!
by Augusto F. Bier, desenhista gaúcho

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by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

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by Pepe Angonoa, desenhista argentino

by Pepe Angonoa, desenhista argentino

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by Marco Jacobsen, desenhista paulista

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

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by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

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Para respeitar o sistema de quotas by João Bosco, desenhista paraense

Para respeitar o sistema de quotas
by João Bosco, desenhista paraense

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by Clovis Lima, desenhista fluminense

by Clovis Lima, desenhista fluminense

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22 nov° 1963 by Patrick Chappatte, desenhista suíço

Dallas, 22 nov° 1963
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

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Frase do dia — 47

«Funcionou o que deveria funcionar. O STF julgou e a Justiça determinou a prisão. Cumpra-se a lei.»

Olívio Dutra, ex-ministro do governo do Lula, ex-governador do RS e um dos fundadores do PT, num lampo de independência e de bom-senso raro entre seus correligionários.
A informação sobre a opinião de Dutra sobre o mensalão foi publicada por Jimmy Azevedo no Jornal do Comércio de Porto Alegre.

Herdeiros de Caramuru

Percival Puggina (*)

«Agora tem o Brasil das mulheres e o Brasil dos homens até nos discursos das autoridades,
o Brasil dos negros, o Brasil dos brancos e o Brasil dos pardos,
o Brasil dos héteros e o Brasil dos gays, o Brasil dos evangélicos e o Brasil dos católicos,
Brasil com bolsa família e Brasil sem bolsa família e nem sei mais quantas categorias,
tudo dividido direitinho e entremeado de animosidades,
todo mundo agora dispõe de várias categorias para odiar!
A depender do caso, o sujeito está mais para uma delas do que para essa conversa de Brasil,
esquece esse negócio de Brasil, não tem mais nada disso! »
João Ubaldo Ribeiro

O fato é que Cabral não tocou direto para as Índias. Tivesse seguido o riscado, o Brasil de hoje seria o paraíso tropical com que sonham alguns ambientalistas, antropólogos e militantes de qualquer tese que possa gerar encrenca. Os índios do mato continuariam disputando território a flechadas com os do litoral, que índio também gosta de praia, e os portugueses, sem quaisquer remorsos, comeriam seu bacalhau no Campo dos Cebolas. Mas os navegadores lusitanos (assim como os espanhóis) eram abelhudos e iniciaram seu turismo pelos sete mares. Os primeiros descobriram o Brasil e os segundos descobriram tudo ao redor do Brasil.

Bem feito, quem mandou? Agora temos que conviver com leituras da história que nos levaram à situação descrita por João Ubaldo Ribeiro. Segundo elas, até o século 15, o zoneamento era perfeito – brancos na Europa, negros na África, índios na América e amarelos na Ásia. Cada macaco no seu galho. No entanto, graças à bisbilhotice ibérica, estamos nós, herdeiros de Caramuru, com contas imensas a pagar porque os justiceiros da história adoram acertos e indenizações promovidos com os bens alheios. Entre elas, a conta dos índios. Como é fácil fazer justiça expropriando os outros!

O princípio segundo o qual o Brasil era dos índios e deles foi tomado pelos portugueses ganhou sensível impulso com os preceitos do artigo 231 da Constituição de 1988. Mas se o princípio estivesse correto e se quaisquer direitos originais de posse pudessem ser invocados, não sei se alguém, no mundo de hoje, ficaria onde está. Não me refiro sequer aos primeiros fluxos migratórios através dos milênios. Refiro-me às mais recentes e incontáveis invasões e guerras de conquista que marcam a história dos povos. E note-se que as guerras de conquista não geravam indenizações aos vencidos, mas espólios aos vencedores.

Faço estas observações diante do que está em curso em nosso país com os processos de demarcação de terras indígenas. É o próprio Estado brasileiro, através de suas agências, reclamando por extensões mais do que latifundiárias e jogando nas estradas e na miséria legiões de produtores e suas famílias. É o braço do Estado gerando novas hostilidades no ambiente rural do país (como se já não bastassem as estripulias do MST). Índios e não índios merecem ser tratados com igual dignidade. Mas não se pode fazer justiça criando injustiça, nem se pode cuidar do país entregando o país. Não existem outras “nações” dentro da nação brasileira. E é exatamente isso que está em curso, sob pressão de uma difusa mas ativa conspiração internacional, conjugada com o CIMI e a FUNAI, que quer o Brasil e os brasileiros longe da Amazônia, por exemplo.

Índio não é bicho para ser preservado na idade da pedra lascada, como cobaia de antropólogos, num apartheid que desrespeita o natural processo evolutivo. Ou armazenado, como garrafa de vinho, numerado e rotulado, com designação de origem controlada.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site www.puggina.org

Lá também, quem diria, como cá

José Horta Manzano

Em dezembro do ano passado, publiquei uma postagem sobre o autoexílio do astro de teatro e cinema Gérard Depardieu. A intenção era dar-lhes uma ideia da voracidade do fisco francês. O nível de imposição na França está atingindo píncaros. O povo se sente espoliado, exatamente como em terras tupiniquins. Não se passa um mês sem que surja um novo imposto.

Não é à toa que a popularidade de Monsieur Hollande, o presidente da República, desceu a 20%, o nível mais baixo já registrado desde que esse índice é aferido. Tanto no caso francês quanto no brasileiro, essas coisas não acontecem da noite pro dia. Anos de má governança levaram a essa situação.

Há também um problema filosófico por detrás. Dependendo da cultura e das tradições de cada país, o olhar que se lança sobre o enriquecimento individual pode variar. Em países de cultura anglo-saxônica, a riqueza pessoal é valorizada. O cidadão que «chegou lá» se orgulha disso e faz questão de que todos saibam. Já no universo latino, fortunas pessoais são vistas com certa desconfiança. Melhor esconder, que não é de bom-tom alardear seu próprio sucesso.

De onde virá essa tendência? Decorrerá do protestantismo de uns oposto ao catolicismo de outros? Se assim fosse, como explicar que no mundo árabe, na China e no Extremo Oriente não exista esse pudor cercando o enriquecimento pessoal? É uma vasta questão. Convém deixar o debate para especialistas.

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Estes dias circula na internet uma frase de Gerard Depardieu, aquele que se mudou para a Bélgica para fugir aos impostos confiscatórios franceses. Ela vai logo aqui abaixo. Não estivesse assinada pelo conhecido ator, bem que poderia aplicar-se a um país muito conhecido nosso. Você deve imaginar qual é.

Gérard Depardieu 3

A frase é de Depardieu. A tradução fica por minha conta.

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Interligne vertical 12«Aqueles que, como os senhores Hollande, Ayrault, Sapin(1) e tantos outros, são sustentados pelo dinheiro público do nascimento até a morte,

aqueles que são praticamente dispensados de pagar encargos sociais,

aqueles que gozam de um sistema de aposentadoria reservado à sua categoria,

aqueles que têm direito de fazer investimentos financeiros sem pagar imposto,

aqueles que jamais investiram um centavo numa empresa, mas aplicaram tudo em residências de férias

devem, no mínimo, ter a honestidade de jamais pronunciar a palavra Igualdade(2).

Tampouco devem exigir dos outros, ainda que esses outros tenham enriquecido, solidariedade maior do que a que se impõem a si mesmos.»

(1) Respectivamente: presidente da República Francesa, Primeiro-Ministro e Ministro do Trabalho.
(2) Igualdade é a segunda palavra da divisa nacional: Liberté, Égalité, Fraternité

Pelo buraco

José Horta Manzano

Até não faz muito tempo, representantes das altas esferas enchiam a boca para afirmar que havíamos chegado ao Primeiro Mundo. Que nos tínhamos tornado grande potência. Que o atendimento médico estava próximo da perfeição. Que as rodas de um mágico trem-bala estariam silvando antes da Copa-14. Que o Rio São Francisco, tripartido, já estaria por estas alturas mitigando a sede de desolados ermos nordestinos. Houve até quem acreditasse.

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Havia um cômico brasileiro, cujo nome agora me escapa ― poderia bem ser Jô Soares, mas não posso garantir ― que, tempos atrás, recitava o bordão: «Ah, mas isso aí foi o antes, depois houve o durante, agora estamos no depois!». Pois é, os devaneios megalomaníacos do Planalto eram o antes. O durante já está passando. Estamos chegando ao depois. O que restou do sonho não é lá flor que se cheire.

Semideuses na cadeia. Parlamentares algemados. Escândalos federais, estaduais e municipais se sucedendo feito cachoeira. Dólar que sobe, real que desce, inflação que assusta, criminalidade que se banaliza.

Interlagos ― Cuidado, buraco na pista! Crédito: Eduardo Knapp, Folhapress

Interlagos ― Cuidado, buraco na pista!
Crédito: Eduardo Knapp, Folhapress

A Folha de São Paulo deste 21 de novembro traz uma inacreditável informação, indigna de um país que está às portas de organizar eventos planetários como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. A pista de Interlagos, que deve ser palco, daqui a 3 dias, da última corrida desta temporada da prestigiosa Fórmula 1, apresenta um buraco no asfalto. Não acredita? Pois leia a reportagem e veja a foto. A panela tem 15 centímetros de diâmetro, mas, segundo os organizadores do evento, não interfere na corrida(!). Fico aqui imaginando um daqueles bólidos, lançado a 300km/h, que, desgovernado, caia na panela. É melhor não pensar no que pode acontecer.

Não se consegue disfarçar a realidade por muito tempo. Infelizmente, nosso País não está conseguindo sustentar a imagem de grande potência que tentou projetar. Os fatos se encarregam de desmentir bravatas e desfazer ilusões.

Do jeito que a coisa vai, ninguém pode garantir que o Brasil continue a fazer parte do circuito mundial da Fórmula 1. Nossa homologação periga escorrer pelo buraco. Uma eliminação seria vergonhosa.

Quem tem telhado de vidro…

José Horta Manzano

Anos atrás, quando autoridades italianas indicaram à PF que um certo Signor Battisti, foragido da Justiça daquele país, se encontrava vivendo ilegalmente no Brasil, nossa polícia não perdeu tempo: surpreendeu o indivíduo no Rio de Janeiro e o conduziu algemado a Brasília. Naquele momento, ninguém sabia, mas a ação espetaculosa não era mais que a primeira página de uma interminável novela. A lenga-lenga, recheada de altos e baixos, durou vários anos, envolveu advogados, parlamentares, a PF, o Ministério da Justiça, o STF, a presidência da República. Ninguém pode afirmar que tenhamos chegado ao ponto final. Não é impossível que o epílogo ainda esteja por escrever.

Tarso Genro, governador do RS by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

Tarso Genro, governador do RS
by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

Saíram todos chamuscados daquele execrável episódio. O prisioneiro, depois de viver encarcerado durante anos, em meio a incertezas, está marcado para o resto da vida ― onde quer que vá, será reconhecido e olhado com certa reserva. O ministro da Justiça da época, ao conceder asilo ao foragido, foi forçado a alegar que desconfiava da Justiça italiana, numa atitude arrogante que pegou muito mal. O STF, que empurrou a decisão final para a presidência da República, desagradou a muita gente. A decisão do presidente da República ― tornada pública no apagar das luzes do mandato ― que confirmou o asilo ao estrangeiro ornou a novela com fecho de ouro. As autoridades italianas devem ter saído enfurecidas, o que é compreensível.

Os anos passaram e o mundo girou. O processo do mensalão está chegando ao fim e cada condenado executa a pirueta que lhe parece mais conveniente. Uns dizem que não têm nada que ver com a história, que estavam de passagem. Outros alegam que foram julgados pela imprensa ― como se o julgamento não tivesse sido público e transmitido ao vivo por rádios e tevês. Há até guerrilheiros que, embora tenham empunhado armas e participado de guerrilha na selva, hoje derramam lágrimas que destoam da bravura que outrora exibiam.

by Dalcio Machado, desenhista paulista

by Dalcio Machado, desenhista paulista

Um dos condenados, talvez mais realista que os demais, não acreditou em Papai Noel. Perspicaz, deu-se conta, bem antes dos outros, de que o desfecho poderia não ocorrer em meio a gargalhadas em volta de uma pizza. Preparou minuciosamente sua fuga do País. Não está claro se Signor Pizzolato solicitou emissão de seu passaporte italiano antes do escândalo do mensalão. Pouco importa. O que importa é que, aos olhos da Itália, ele é um cidadão do país peninsular igual a todos os outros. Todo Estado civilizado costuma zelar por seus súditos.

Algum tempo atrás, as autoridades judiciais brasileiras exigiram, como medida de precaução, que todos os réus da Ação Penal 470 consignassem seu passaporte. Signor Pizzolato fez mais que os outros: entregou dois, o brasileiro e o italiano. Fechadas, como de costume, sobre si mesmas e pouco afeitas a práticas internacionais, as autoridades de Brasília foram dormir tranquilas. Um homem sem passaporte não pode viajar, devem ter pensado.

Se o olhar de nossas sumidades fosse um pouco além de seu próprio umbigo, saberiam que um cidadão estrangeiro cujo passaporte tiver sido confiscado pode solicitar um novo, desde que não esteja sendo procurado pela polícia de seu próprio país. Era exatamente o caso de Signor Pizzolato. Bastou-lhe comparecer a um consulado italiano e requerer um novo passaporte.

Alberto Alpino, desenhista capixaba

by Alberto Alpino, desenhista capixaba

Imaginam muitos que o fujão tenha passado por peripécias semelhantes às do senador boliviano que viajou clandestinamente de La Paz até o Mato Grosso. Pois eu não vejo a coisa assim. Não tenho como provar, mas tudo me diz que, ao deixar definitivamente sua cobertura em Copacabana, o réu fugido já levava no bolso o documento que lhe permitiria viajar para onde quisesse. Atravessar a fronteira entre o Brasil e qualquer um de seus vizinhos é moleza. Em numerosas cidades de fronteira, no Rio Grande por exemplo, a divisa entre dois países é representada por uma avenida. Atravessada a rua, é fácil chegar a Buenos Aires, de onde partem diariamente voos para Roma e para Milão. Elementar, meu caro Watson.

Agora é que chega a hora de a porca torcer o rabinho. A malandragem demonstrada pelo Planalto no caso Battisti ainda é muito recente. Os personagens estão vivos e na ativa, todos se lembram. Esperar grande empenho por parte de Roma é ilusão. O fato de o Brasil dar guarida a um condenado por envolvimento em quatro assassinatos pegou muito, muito mal na Itália. Será praticamente impossível reaver o cidadão italiano Pizzolato, cuja ficha, em terra itálica, está limpa.

Os italianos, que residam na Itália ou no estrangeiro, estão inscritos no registro do município onde vivem ou ao qual estão ligados. Esse banco de dados leva o nome de anágrafe. As autoridades italianas sabem perfeitamente onde vive Signor Pizzolato. Daí a transmitir a informação às autoridades de Brasília são outros quinhentos. Quem tem telhado de vidro…

História e cultura da África

José Horta Manzano

Quem já não esboçou um sorriso ao ouvir a velha frase «Brasil, capital Buenos Aires»? É como a gente zombava do desconhecimento quase total que estrangeiros tinham do Brasil.

Hoje já é folclore. Pessoalmente, nunca pilhei ninguém trocando Brasília por Buenos Aires. Mais comum ― embora as coisas venham mudando lentamente estes últimos 20 anos ― era a crença de que nossa língua era o espanhol. Muitos, no exterior, ainda imaginam que assim seja. A maioria, no entanto, já se deu conta de que falamos uma outra língua, derivada do português, aqui na Europa geralmente chamada de brasileiro.

No Brasil destes últimos tempos, tornou-se politicamente correto ― obrigatório, eu diria ― classificar nossa população em raças. Ooops, corrijo-me. Falar em raças é um exagero. Nossa população está sendo forçada a se separar em duas facções. De um lado, brancos, orientais e mulatos muito claros. De outro, pretos, mulatos escuros, índios, e qualquer indivíduo visivelmente mestiço. Meus leitores são gente esclarecida. Mas não se pode dizer o mesmo do grosso da população de Pindorama. A grande massa silenciosa certamente não se está dando conta do balaio de gatos que estamos tecendo.

África ― principais famílias linguísticas

África ― principais famílias linguísticas

Muitos países, especialmente aqueles que têm problemas pesados provocados pela convivência forçada de raças, etnias ou religiões diferentes, sempre nos invejaram. Podiam até não saber distinguir entre Brasília e Buenos Aires, mas sempre acreditaram que o Brasil era um país tolerante, sem conflitos raciais, sem briga com vizinhos, sem tensões religiosas. E era mesmo.

Não estou perto de me conformar com o estrago que os atuais ocupantes dos cargos de mando estão causando a nosso País. Posso até acreditar que haja uma dose de boa intenção na cabeça de alguns. Se bem que… tendo mais a crer que essas medidas proativas sejam fruto de meros cálculos eleitoreiros. Enfim seja lá qual for a razão, estamos inventando um problema novo, artificial. Dá muita pena. Já temos dores de cabeça suficientes. Não faz falta fabricar pontos de conflito entre categorias de habitantes.

Toda clivagem é potencial fonte de atritos. Zelite e povão, politicos e eleitores, «nós» e «eles», patrões e empregados, citadinos e camponeses, com-teto e sem-teto, automobilistas e pedestres, empregados e desempregados, trabalhadores com carteira assinada e trabalhadores sem carteira assinada, assalariados e autônomos, cristãos tradicionais e neopentecostais, com-terra e sem-terra. Já temos antagonismos suficientes, não fazia falta criar mais um.

Era só o que faltava: o Brasil tornar-se um país cujos cidadãos se distinguem uns dos outros por critérios raciais… O fim do mundo deve estar próximo.

Li nos jornais que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ― excelente iniciativa que não existia no meu tempo, diga-se de passagem ― incluiu um número elevado de perguntas sobre a história e a cultura da África.

Não quero entrar aqui na polêmica sobre se o número de questões é baixo, médio ou alto. O que me atrapalha é outra coisa. As autoridades brasileiras encarregadas da Instrução Pública parecem estar seguindo o mesmo caminho que desorienta europeus e americanos. Não faz sentido falar em «cultura da África».

África ― religiões principais

África ― religiões principais

O continente africano conta com superfície quase 4 vezes superior à do Brasil, é povoado por mais de um bilhão (yes!) de habitantes, distribuídos por 52 países independentes. Entre línguas e dialetos, mais de 2000 falares são recenseados no continente. As diferenças culturais e religiosas são muito acentuadas. Há árabes e tuaregues maometanos. Há pretos maometanos também. Há egípcios cristãos, assim como há pretos cristãos. Há negros animistas e há brancos protestantes. Há pretos evangélicos. Em alguns países se fala árabe. Em outros, o francês o inglês ou o português é língua oficial ― o que não impede que seus habitantes utilizem dezenas de línguas diferentes. A África do Sul, sozinha, tem 11 línguas oficiais!

«Cultura da África» é expressão redutora. Seria como pretender contar a «História da Ásia». Não faz sentido. Desconfio que a intenção das autoridades brasileiras encarregadas da Educação Pública não seja exatamente ensinar geopolítica nem História a nossos jovens. Eu não duvido que, por detrás dessa bondade, se esconda um cálculo indecente de fidelização de eleitores pelo viés da valorização do orgulho racial.

É claro que posso me enganar. Mas seria mais prudente não brincar com fogo.