Fenótipo

José Horta Manzano

Estava lendo artigo no Estadão sobre regulamentação de quotas para negros em concurso público do Judiciário. O procedimento ditado pelo Tribunal de Justiça paulista e sacramentado pelo Diário Oficial pulveriza a presunção de honestidade que se deve conferir a cada cidadão.

Raça 1A autodeclaração, que costumava fazer fé, já não vale. Numa negação de um dos princípios basilares de nosso Direito – aquele que determina que todo cidadão é inocente até que se prove o contrário –, o TJ decidiu que todo autodeclarante é suspeito de estar mentindo até que se prove que não está. Nenhuma autodeclaração será referendada antes de passar por verificação, fiscalização e aprovação por um comitê de peritos. Além de ofensiva, a norma é perigosa.

O IBGE, encarregado de manter em dia o arcabouço estatístico da população brasileira, aceita, sem discutir, a autodeclaração. As planilhas e tabelas do instituto servem de base para políticas públicas – matéria de grande importância. Se o IBGE dá crédito à declaração de cada cidadão, por que o TJ exigiria chancela de banca examinadora? Não faz sentido.

Raça 2A norma recém-editada toca em assunto pra lá de delicado. Quando li a palavra fenótipo, quase caí da cadeira. Na Europa, que assistiu ao holocausto dos judeus durante a Segunda Guerra, essa palavra está restrita à flora e à fauna. Jamais alguém ousaria usá-la para exprimir características de cidadãos.

O surgimento de «comitês» para julgar pertencimento racial de pessoas é imagem insuportável. Dá arrepio. No Velho Continente, é simplesmente inconcebível. A memória coletiva ainda carrega o pesadelo que começou, em 1933, com o desregramento inaugurado pelas leis racistas na Alemanha. Todo o mundo sabe como terminou.

Depois de certa idade…

Sylo Costa (*)

Meu saudoso pai, exemplo de sensibilidade, dizia sempre que “a felicidade está diretamente ligada à ignorância”. Não à ignorância da brutalidade, mas àquela ignorância do não saber. Papai era um cearense “retado”. Médico, formado na Bahia, terminou o curso com uma bolsa de estudos que lhe foi dada pelo Ministro da Educação Francisco Campos, que atendeu um pedido da turma de 1932, composta, de acordo com o convite de formatura em meu poder, por 73 formandos: 38 brancos, 17 negros, 14 baianos e quatro mulheres.

Panda albino

Coala albino

Bons tempos aqueles, em que não havia a perversidade da discriminação e podia-se brincar assim. Seu anel de grau foi presente dos colegas. Será que a sociedade em que vivemos comportaria esse modus vivendi? Hoje, quem chamar um negro de “negão” está discriminando o sujeito e pode ser processado na forma da lei, ou seja, aquilo que podia ser um tratamento carinhoso é crime hediondo. Pode-se xingar de fdp, ladrão, cavalo, égua etc. Mas bicha ou macaco é discriminação, e lá vai o perigoso criminoso para a cadeia.

Eu tinha dois amigos em Salinas que atendiam pelo nome de Negão. Um morreu, o outro está vivo e reside em São Francisco, lugar na barranca do Velho Chico, abençoado por Deus e bonito por natureza. Há muito não o vejo e não sei como chamá-lo quando o encontrar. Não que ele não entenda, mas outro “aragaço”(1) que, porventura, esteja por perto certamente vai reparar. O país está assim: um saco.

O Congresso Nacional, composto por homens, mulheres e muita gente boa, religiosos ou não, bichas e dissimulados, mensaleiros e ladrões comuns, está que é uma sensibilidade só… Agora, estão discutindo sobre maioridade. Uns querem que ladrõezinhos de 17 anos sejam tratados como “de menor”, outros mais pés no chão, não. Tanto faz bala 22 ou 38 para fazer defunto. Mas não.

Os desocupados de ongs, direitos humanos e outros modismos enchem o saco de qualquer um. Ô paiseco de… deixa prá lá. Se eu não estivesse com “idade avançada”, me mudaria para qualquer outro lugar onde não houvesse petistas de todas as espécies e padrecos comunistas disfarçados de intelectuais pregando aos incautos…

Cavalo albino

Cavalo albino

Agora, para completar o rol de sensibilidades de que estamos possuídos, alguns legisladores, pessoas que se dizem normais, querem tornar “crime hediondo” qualquer manifestação que expresse simpatia ou desejo pela volta dos militares, ou seja, mais ou menos o que acontece na Alemanha, onde não se pode, por outras razões, discutir sobre o Holocausto. Nossa liberdade de expressão está condicionada ao modismo desses brasileirinhos sensíveis que têm medo de polícia e de lobisomem…

Um dos sentimentos que mais me maltrata é a decepção, e eu vivo hoje, como brasileiro, decepcionado com a vida, não a minha vida, mas a vida vivida no Brasil, o que me faz lembrar um salinense ranzinza que, cerrando os dentes, dizia: “Ô Sylo, qué sabê? Se lugá fô lugá, isso aqui num é um lugá”. Também acho…

(*) Sylo Costa é homem político mineiro. Assina coluna semanal no jornal O Tempo.

(1) No norte de Minas Gerais, dá-se o nome de aragaço aos albinos.

Primarismo intelectual e moral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A teoria darwiniana de evolução das espécies veio a público há mais de 150 anos, ou mais especificamente há 155 anos, se considerada a data da primeira edição do livro A Origem das Espécies (1859).

Desde os primeiros dias da divulgação de suas ideias, Charles Darwin enfrentou forte polêmica, uma vez que seu conceito de que o homem descende diretamente dos macacos contrariava a versão religiosa de criação divina vigente na época.

Macaco 1Por décadas e até séculos, muitas pessoas se engalfinharam na tentativa de comprovar o predomínio de uma dessas visões. A briga, no entanto, não estava amparada apenas no confronto entre ciência e fé. Deve ter sido um duro golpe no ego de muita gente saber-se descendente de um animal “inferior” – isto é, que ainda anda em quatro patas, vive em árvores e se alimenta de frutos, faz ruídos estranhos que se assemelham a uma risada, movimenta-se de forma trôpega quando de pé, agitando os membros superiores como se estivesse se coçando.

Na tentativa de se livrar dessas imagens mentais que desabonam nossos ancestrais, pouca gente deve ter-se perguntado o porquê da preferência da espécie por bananas. Terá sido por sua forma, por seu interior macio, por ser um fruto fácil de descascar ou por seu sabor? Pouco importa, o mais provável é que por todas essas razões em conjunto, além de uma provável maior disponibilidade das bananas na região em que os primatas habitavam. Que região era essa? O continente africano.

Daí começam a surgir outras ilações. Além de sermos forçados a engolir a ideia de que somos macacos “pelados”, ainda temos de suportar a hipótese de sermos oriundos de um ambiente de negros? Melhor voltarmos para o conceito de descendência divina.

Mas uma pergunta se impõe: qual é a referência usada para dizermos que somos descendentes de um deus? O deus muçulmano? O católico? O judeu? Trata-se de um deus único ou, na verdade, há muitos deuses e deusas, como se acreditava na Grécia e na Roma antiga? Haverá uma hierarquia de deuses ou, se muitos há, conviverão eles em harmonia?

Penso no Olimpo, com Zeus no topo da pirâmide e uma miríade de outros deuses e deusas abaixo dele, cada um especializado em uma função: agricultura, o lar, a caça, etc. Depois meu pensamento vagueia pelas religiões como as conhecemos nos dias de hoje. Levo um susto ao constatar que a esmagadora maioria dessas religiões é monoteísta. Mais um susto ao me dar conta de que as únicas politeístas que sobrevivem são, em sua esmagadora maioria, de origem africana. Lá vêm os pretos de novo, faça-me o favor! Pior, os deuses africanos – os orixás – têm características demasiado humanas. São temperamentais, manipuladores, sedutores, comprazem-se na luxúria, gostam de se comunicar através das danças, dos cantos, das bebidas e das comidas, não lidam com os conceitos de pecado e culpa. Em suma, são primitivos mesmo.

Einstein 1Meu pensamento volta-se agora para Fernando Pessoa: “Sem a loucura, que é o homem mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?”. Concluo em definitivo: moldados em barro ou crias diversificadas de macacos, nada nos retira o título de “bestas”.

Chamo por Einstein em minha defesa: “Só há duas coisas que não têm limites: a estupidez humana e o infinito. Mas ainda não tenho certeza quanto ao último”.

Desanimo, hesito, descreio de mim mesma. Desculpem-me divagar tanto. É que hoje de manhã li uma notícia acachapante no site do UOL: “Estudo mostra que macacos aprendem matemática”. Já eu…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Herdeiros de Caramuru

Percival Puggina (*)

«Agora tem o Brasil das mulheres e o Brasil dos homens até nos discursos das autoridades,
o Brasil dos negros, o Brasil dos brancos e o Brasil dos pardos,
o Brasil dos héteros e o Brasil dos gays, o Brasil dos evangélicos e o Brasil dos católicos,
Brasil com bolsa família e Brasil sem bolsa família e nem sei mais quantas categorias,
tudo dividido direitinho e entremeado de animosidades,
todo mundo agora dispõe de várias categorias para odiar!
A depender do caso, o sujeito está mais para uma delas do que para essa conversa de Brasil,
esquece esse negócio de Brasil, não tem mais nada disso! »
João Ubaldo Ribeiro

O fato é que Cabral não tocou direto para as Índias. Tivesse seguido o riscado, o Brasil de hoje seria o paraíso tropical com que sonham alguns ambientalistas, antropólogos e militantes de qualquer tese que possa gerar encrenca. Os índios do mato continuariam disputando território a flechadas com os do litoral, que índio também gosta de praia, e os portugueses, sem quaisquer remorsos, comeriam seu bacalhau no Campo dos Cebolas. Mas os navegadores lusitanos (assim como os espanhóis) eram abelhudos e iniciaram seu turismo pelos sete mares. Os primeiros descobriram o Brasil e os segundos descobriram tudo ao redor do Brasil.

Bem feito, quem mandou? Agora temos que conviver com leituras da história que nos levaram à situação descrita por João Ubaldo Ribeiro. Segundo elas, até o século 15, o zoneamento era perfeito – brancos na Europa, negros na África, índios na América e amarelos na Ásia. Cada macaco no seu galho. No entanto, graças à bisbilhotice ibérica, estamos nós, herdeiros de Caramuru, com contas imensas a pagar porque os justiceiros da história adoram acertos e indenizações promovidos com os bens alheios. Entre elas, a conta dos índios. Como é fácil fazer justiça expropriando os outros!

O princípio segundo o qual o Brasil era dos índios e deles foi tomado pelos portugueses ganhou sensível impulso com os preceitos do artigo 231 da Constituição de 1988. Mas se o princípio estivesse correto e se quaisquer direitos originais de posse pudessem ser invocados, não sei se alguém, no mundo de hoje, ficaria onde está. Não me refiro sequer aos primeiros fluxos migratórios através dos milênios. Refiro-me às mais recentes e incontáveis invasões e guerras de conquista que marcam a história dos povos. E note-se que as guerras de conquista não geravam indenizações aos vencidos, mas espólios aos vencedores.

Faço estas observações diante do que está em curso em nosso país com os processos de demarcação de terras indígenas. É o próprio Estado brasileiro, através de suas agências, reclamando por extensões mais do que latifundiárias e jogando nas estradas e na miséria legiões de produtores e suas famílias. É o braço do Estado gerando novas hostilidades no ambiente rural do país (como se já não bastassem as estripulias do MST). Índios e não índios merecem ser tratados com igual dignidade. Mas não se pode fazer justiça criando injustiça, nem se pode cuidar do país entregando o país. Não existem outras “nações” dentro da nação brasileira. E é exatamente isso que está em curso, sob pressão de uma difusa mas ativa conspiração internacional, conjugada com o CIMI e a FUNAI, que quer o Brasil e os brasileiros longe da Amazônia, por exemplo.

Índio não é bicho para ser preservado na idade da pedra lascada, como cobaia de antropólogos, num apartheid que desrespeita o natural processo evolutivo. Ou armazenado, como garrafa de vinho, numerado e rotulado, com designação de origem controlada.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site www.puggina.org