Conheceu, papudo?

José Horta Manzano

Foguete chinês

Foguete chinês

Herton Escobar nos anuncia, em seu blogue alojado no Estadão, que um lançamento de satélite brasileiro fracassou. Tratava-se de projeto desenvolvido em conjunto com a China. O veículo espacial foi lançado esta segunda-feira do Centro Espacial de Taiyuan, naquele país. Diferentemente dos fogos Caramuru, o lançamento deu chabu. Tudo indica que o tempo, o esforço, o dinheiro foram desperdiçados. E a credibilidade levou um golpe.

Mais quelle idée! ― diriam os franceses. Que ideia mais maluca essa de se associar a chineses para esse tipo de aventura. Ideologia pode ter sua utilidade num palanque, mas, na hora de gastar nosso dinheiro, nossos mandachuvas deveriam ser mais escrupulosos. Duzentos e setenta milhões de reais! Como é bom ser irresponsável com o dinheiro alheio…

Até os parafusos que mantêm unidas as placas da fuselagem de qualquer nave espacial sabem que os chineses não são detentores de tecnologia de ponta em matéria de exploração espacial. Nem os indianos, nem os brasileiros, nem os sudaneses. Os três grandes são os EUA, a Rússia e a França. Países importantes como Alemanha, Itália, Canadá, quando têm de lançar seus satélites, recorrem a um dos grandes. Não vão arriscar seu dinheiro com principiantes.

Por que essa reticência brasileira em recorrer a quem tem conhecimento no ramo? Se foi por economia, aprenderam ― com nosso dinheiro! ― que o barato sai caro. (Nossos avós já sabiam disso.)

Foguete chinês

Foguete chinês

Talvez tenha sido por medo de que americanos, russos ou franceses pudessem inserir no satélite um cavalo de troia para coletar informações sensíveis. E quem é que garante que os chineses não terão feito igualzinho?

Quem quer serviço benfeito procura o melhor fornecedor. Considerando que o atual governo brasileiro está a anos-luz de qualquer afinidade ideológica com o governo chinês, a razão para terem escolhido um fornecedor de segunda categoria terá sido demonstrar uma certa soberba. Foi para mostrar aos loiros de olhos azuis que não precisamos deles, dado que os de zoinhos puxados nos dão uma força. Conheceu, papudo?

Não deu certo.

Bilhete Único

José Horta Manzano

Você sabia?

Confesso que não sabia o que era Bilhete Único. Já devo ter lido, aqui e ali, essa expressão ― nova para mim ―, mas nunca lhe dei grande atenção.

Ao ler um texto de Elio Gáspari, publicado na Folha de São Paulo, entendi. Na cidade de São Paulo, Bilhete Único é o nome que se dá ao documento que prova que o usuário do transporte público já pagou adiantado o valor devido para um mês inteiro. É o que se poderia chamar assinatura mensal. Escolheram esse nome ― não vamos reclamar.

Ônibus urbano como suporte publicitário

Ônibus urbano como suporte publicitário

Gáspari explica que a assinatura custa 140 reais por mês. Diz também que 65% dos viajantes ganham até 1147 reais. Na falta de outro dado, tomemos esses 1147 como salário médio dos usuários. Portanto, o transporte representa 12,2% do salário de cada um. É uma pedrada!

Vamos ousar comparar com o que acontece na Suíça. A assinatura mensal que permite utilizar todas as linhas de ônibus da cidade de Genebra ― segunda aglomeração do país ― custa 73 francos(1). Para estudantes é mais barato, mas vamos ficar com esse número mesmo.

Segundo as estatísticas disponíveis, o salário mediano(2) ― considerando todas as idades e todas as profissões ― é de 5979 francos. É fácil fazer as contas. A assinatura mensal do transporte público genebrino equivale a 1,2% do salário médio.

Portanto, um usuário paulistano tem de desembolsar proporcionalmente dez vezes mais(!) que um suíço para o transporte urbano.

Alguém vê alguma distorção?

Interligne 23

(1) Ao câmbio atual, equivale a aproximadamente 200 reais.
(2) Significa que 50% dos assalariados ganham mais que isso, enquanto 50% ganham menos.

Cotas raciais no comércio exterior

Percival Puggina (*)

Se existe uma parte do planeta onde bate com mais vigor o generoso coração de Lula e Dilma, esse lugar é a África Negra. Imagino ser por isso que existam cotas raciais para o comércio exterior brasileiro. Volta e meia – às vezes nem meia volta se completa – e lá estão nossos presidentes petistas na África Subsaariana, cada um a seu turno, perdoando dívidas milionárias que aqueles países têm para com o Brasil. A conta já passa de US$ 2 bilhões. Não por acaso são, em parte, débitos de governos ditatoriais, sanguinários, genocidas, que lidam com as finanças locais em regime de partilha. Vai um pouco para o interesse público e o restante para contas familiares em bancos estrangeiros.

Um deles, o senhor Omar al-Bashir, já leva 24 anos no cargo de presidente do Sudão. Tem dois mandados internacionais de prisão e, segundo um promotor do Tribunal Penal Internacional, acumula US$ 9 bilhões de recursos próprios em paraísos fiscais. Outro, o senhor Teodoro Obiang, que comanda a Guiné-Equatorial, adquiriu em 2010 um apartamento na Av. Vieira Souto, no Rio de Janeiro, naquela que foi até então a maior transação da história da cidade envolvendo um imóvel residencial. O pequeno refúgio carioca do ditador é um tríplex com 2 mil metros quadrados. O patrimônio pessoal do bilionário ditador do Congo-Brazaville, Denis Sassou Nguesco, proprietário de algumas dezenas de imóveis na França é superior à dívida do país perdoada pelo Brasil (US$ 352 milhões). E por aí vai. Em maio deste ano, numa única tacada, a presidente Dilma anunciou perdões, abatimentos e novos parcelamentos para dívidas de uma dúzia redonda de nações africanas.

Brasil e África Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Brasil e África
Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Alega o governo que esse procedimento está alinhado com as orientações do Clube de Paris, que o recomendam como forma de estimular a contratação de novos financiamentos e promover o desenvolvimento daqueles povos. Faria sentido se não estivéssemos tratando, em alguns casos, de povos cuja miséria aumenta na proporção direta em que a elite governante amplia sua riqueza pessoal. Faria sentido se não houvesse, na lista de beneficiados, governos ditatoriais que só perdem em longevidade e truculência para a dinastia cubana dos Castro Ruz.

É uma pena que a benevolência dos governos petistas em relação aos seus cotistas raciais no comércio exterior não encontre simetria de tratamento com as dívidas dos produtores rurais brasileiros quando suas lavouras são assoladas por estiagens e secas.

É uma pena que essa mesma prontidão não apareça na hora de atender os brasileiros vítimas de cheias, cujos bens são arrastados pelas águas.

É uma pena, também, que não se respeite o preceito bíblico de que a mão esquerda não saiba o que a esquerda faz em favor do próximo. De fato, enquanto a generosidade nacional é proporcionada pela dadivosa mão direita, a esquerda encaminha novos recursos para obras de empreiteiras brasileiras nesses países. Quem garante que a virtude da probidade e a adimplência tenham desabrochado em meio aos maus pagadores e prevaricadores de ontem? Continuaremos financiando empreiteiras e cancelando os débitos?

E é uma pena, por fim, que, junto com a bonomia das cotas raciais de nosso comércio exterior, não venha junto uma transparência maior sobre as comissões pagas pelos novos negócios que estão sendo contratados lá com as empreiteiras daqui. Tenho um palpite, mero palpite, de que iríamos encontrar, beneficiado por tais valores, um conhecido lobista que mantém relação de intimidade paternal com as decisões de governo.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Vivo ou morto

José Horta Manzano

Mais do que regrinhas de acentuação ou de hifenização ― que mudam da noite pro dia e cuja lógica nem sempre é evidente ― dou grande valor à adequação vocabular. Encontrar o termo mais adaptado a cada contexto demanda um pouco de esforço. Na oralidade, não tem jeito: como não há tempo para pensar, cada um usa a palavra que lhe vem à cabeça. Na escrita, é outra coisa.

Em artigo deste 7 de dez°, o Estadão nos brinda com este período um tanto claudicante(*):

«A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros vivos para acompanhá-la em viagem a Johannesburgo, onde será celebrada uma missa em homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, morto quinta-feira após uma infecção pulmonar.»

Tenho 4 reparos a fazer:

1) Vivos
Ex-presidentes vivos? A formulação não é das mais felizes. Não estamos na Venezuela, onde presidentes mortos continuam a se manifestar sob forma de pajaritos. O que é evidente dispensa ser explicitado. Dona Dilma só poderia convidar o vivos. Podia até ter-se limitado a levar seu padrinho a tiracolo, mas ia pegar mal. Para não fazer feio, estendeu a carona aos outros. Excluiu os mortos, naturalmente.

2) Homenagem
Dizer que uma missa será rezada «em homenagem» a um defunto soa estranho. Salva de palmas, bandeira a meio pau, minuto de silêncio são homenagens. Missa, não. Tradicionalmente, missas são ditas (ou rezadas) em intenção de um falecido ou pelo sufrágio de sua alma. Se se fizer questão de manter o termo “homenagem”, melhor será dizer que os presentes assistirão a uma missa incluída no programa de homenagens ao defunto.

3) Morto
O artigo diz : «(…) Nelson Mandela, morto quinta-feira (…)». Sem dúvida, o homem morreu. Tecnicamente, a frase está perfeita. Mas ― convenhamos ― para um ancião que morreu de velhice, a palavra é um tanto crua. Melhor substituir morto por uma expressão mais suave, como falecido, desaparecido, que se extinguiu, que nos deixou, que expirou, que se foi.

4) Após
«Morto após uma infecção pulmonar» ― diz o texto. Não tive acesso ao boletim médico, muito menos ao atestado de óbito. Mas é permitido supor que a causa mortis tenha sido exatamente a infecção pulmonar. Portanto, Mandela não morreu após a doença. Morreu de ou por causa dela.

Interligne 18b
Reescrito com mais apuro, o período fica assim:

A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros para acompanhá-la a Johannesburgo, onde será celebrada missa em intenção do líder sul-africano Nelson Mandela, falecido quinta-feira de infecção pulmonar.

Fica mais arejado, não acham?

(*) Claudicante é a forma politicamente correta para manquitola, coxo, manco.

Frase do dia — 54

«José Dirceu atravessa seus primeiros dias de cárcere como se fosse um personagem de desenho animado — desses que, quando acaba o chão, continuam caminhando no vazio e só caem quando se dão conta de que pisam em nada. Desde a decretação de sua prisão, em 15 de novembro, o ex-número 2 do PT ainda não olhou para baixo.»

Do Blog do Josias, em 5 dez° 2013

Nem malandragem, nem vadiagem

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 dez° 2013

A Síntese de Indicadores Sociais 2013, publicada estes dias pelo IBGE, desnuda uma realidade de assustar qualquer governo civilizado.

Mostra que, de cada cinco jovens entre 15 e 29 anos, apenas quatro trabalham ou estudam. Está ali atestada, preto no branco, a ociosidade de 20% de nossos jovens (um em cada cinco!). Não trabalham nem estudam. É a juventude jocosamente chamada de «nem-nem». Não ria, que é bem mais sério que parece.

É uma minoria? Sem dúvida. Assim mesmo, falamos de 10 milhões de brasileiros. Gente na flor da idade, no ápice da capacidade de aprender. Têm vigor físico e boa acuidade sensorial. Mas… como pérolas esquecidas num baú em vez de luzir num colar majestoso, vão perder o viço.

No Brasil, muito se fala em Educação, mas pouco se faz. Os holofotes estão voltados para os dois extremos: de um lado, a escola básica; de outro, a instrução de nível dito superior. No meio, nada. Pior: vale a quantidade, não a qualidade.

Prefeitos se gabam de haver aberto não sei quantas escolas, pouco importa o nível de ensino que oferecerão. Presidentes se vangloriam de haver fundado não sei quantas faculdades, pouco importa que lhes falte estrutura básica para funcionar decentemente.

Percebe-se, no discurso oficial, a obsessão marqueteira de se ater àquilo que dá voto. A alfabetização ― ainda que mal-ajambrada ― aparece nas estatísticas. O número de faculdades ― ainda que inoperantes ― também se põe na vitrine. Já o ensino técnico é invisível.

A ditadura Vargas deixou lembrança amarga para muitos. Mas há que se lhe reconhecer um grande mérito: dignificou o trabalho. Chegou a censurar sambas que exaltavam a malandragem. (À época, malandro era «aquele que não trabalha». Hoje diríamos vadio.) Até os anos 50, respeitava-se o trabalho. Ofícios humildes não eram desconsiderados. De uns 30 anos para cá, o quadro mudou.

Todo filho de boa família se vê compelido a seguir estudos superiores. É impensável que um jovem de classe média ouse caminhar à margem da estreita paleta de opções que as faculdades oferecem. Com isso, todo ofício artesanal ― vasta e sólida base que sustenta a prosperidade de sociedades mais adiantadas ― tem sido relegado a segundo plano, mal ensinado, mal pago, malvisto.

Em países avançados da Europa, um pedreiro ou um pintor de paredes diplomado terá facilidade para encontrar emprego e remuneração justa. O sistema de aprendizado por aquelas bandas cobre toda a gama de atividades não universitárias. Futuros cabeleireiros, balconistas, azulejistas, eletricistas, funileiros, cozinheiros, jardineiros, cuidadores, padeiros, floristas, relojoeiros, lenhadores, oculistas, vinhadeiros, horticultores, sommeliers, açougueiros, desenhistas, marceneiros passam por um período de dois ou três anos de formação.

Nos últimos anos da escolaridade obrigatória, cada aluno já tem ideia de sua capacidade e de seus anseios. Numa sociedade que não desdenha o trabalho manual, o adolescente europeu tem uma paleta de escolha profissional bem mais ampla que o jovem brasileiro. Quem sentir atração por carreira intelectual vai postular vaga na universidade de seu agrado. Quem não levar muito jeito para estudo vai escolher, entre centenas de profissões técnicas, a que mais o atrai. E começará como aprendiz, o que já lhe renderá pequeno salário. Durante os dois ou três anos de aprendizado, alternará o trabalho com aulas teóricas uma ou duas vezes por semana. Ao final, enfrentará uma banca examinadora. Se aprovado, receberá o diploma de capacidade, um abre-te sésamo infalível. Pelo resto da vida, dificilmente lhe faltará emprego. Quem é que rejeita um funcionário formado e diplomado como manda o figurino?

Pois as autoridades brasileiras, tão ágeis a institucionalizar artificiais diferenças raciais, parecem não se dar conta de que a natureza dotou cada humano de aptidões e anseios diferentes. O objetivo supremo do jovem brasileiro não é necessariamente conquistar um canudo.

Ofícios técnicos e artesanais têm de ser valorizados. Não há razão para que um pedreiro se sinta inferior a um doutor. Sem aquele, este não teria casa para morar. A relação entre cidadãos não deve ser encarada como se alguns fossem mais especiais que outros. Que se consagre uma parte da agigantada verba de publicidade institucional para valorizar ofícios não universitários.

No dia em que nossos mandachuvas se derem conta do desperdício que é todos esses talentos escorrerem pelo ralo, o Brasil terá dado um passo à frente. Não vai dar muito voto? Não, não vai. Mas vai dar futuro.

Inadequação vocabular ― 3

José Horta Manzano

Não se passa uma semana sem que voltem às manchetes as barbaridades perpetradas por quadrilhas criminosas cujos membros podem ou não estar detrás das grades. Ainda ontem, 5 de dez°, a Folha de São Paulo publica uma horripilante reportagem de Josmar Jozino sobre as últimas façanhas dos facínoras.

O PCC, assim como outras quadrilhas, vem sendo designado como facção. Facção, embora esteja na moda, não é a melhor palavra. Ao contrário: tem origem nobre e heroica, diametralmente oposta ao que queremos exprimir quando nos referimos à máfia carcerária tupiniquim. Em matéria de indivíduos que se associam a fim de cometer crimes, nossa língua ― sabe Deus por que ― é riquíssima.

Jornalistas, repórteres, escritores, autoridades, locutores deveriam banir o suave facção. Para designar essa gente, a escolha de expressões mais adequadas é vasta. Vejamos:

corja, bando, súcia, alcateia, choldra, turba, horda, caterva, cainçalha, malta, farândula, canzoada, canalha, récova, quadrilha, mamparra, gangue, cáfila, magote, leva, troça, ralé, cainçada, escória, gentalha, escumalha, matilha, chusma, rebotalho.

Então, quem se habilita?

O blogue agradece à fiel leitora e seguidora Wilma. Atenta, ela notou que faltava rebotalho. Já acrescentei.

As chaves

José Horta Manzano

Hoje terá lugar, na ultrassofisticada Costa do Sauípe ― um balneário padrão Fifa! ― o sorteio das chaves da próxima Copa do Mundo. Todos os países participantes estão pedindo, cada um a seu São Benedito nacional, que os ajude a cair num grupo fácil.

Agora, vamos fazer um esforço. Vamos supor que não haja trapaça no sorteio. Com a Fifa, nunca se sabe, mas não é impossível, pois não? Pois então. Há de haver surpresas, um ou outro ah! de alegria, muitos oh! de decepção.

No fundo, no fundo, pouco importa quais possam ser os times que o Brasil terá de enfrentar. Nossos adversários maiores já são conhecidos. São o atraso, a corrupção, a desigualdade entre os que mandam e os que são mandados, o paternalismo, a ignorância, a inação, a leniência, o descaso dos que poderiam fazer alguma coisa, a desonestidade.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Que o Brasil vença vários adversários e obtenha boa classificação na Copa é secundário. Quer chegue lá ou não, será um momento passageiro.

O mais desalentador é a certeza de que, após o último jogo, quando o último turista tiver embarcado e os garis tiverem varrido o lixo, nossos adversários de sempre continuarão aí, a nos envenenar a existência.

Coincidência

José Horta Manzano

No mesmo dia em que nosso inoxidável ex-presidente recebia, pela enésima vez, um «diploma» honoris causa, saiu a classificação das universidades dos chamados países emergentes.

O discurso pronunciado pelo antigo presidente na ocasião da outorga da honraria põe, como de costume, a ênfase na quantidade de estabelecimentos de ensino. São relatos estatísticos do tipo «meu governo fez mais que o seu» ou «nunca antes nessepaiz alguém tinha inaugurado tantas escolas como eu». Sobre a qualidade desses estabelecimentos ― tanto dos existentes, quanto dos recentemente criados ― nem um pio.

O "doutor" Crédito: Jorge Araújo, Folhapress

O “doutor”
Crédito: Jorge Araújo, Folhapress

Pois o grupo THE (Times Higher Education) cuidou de ir mais longe. Comparou a excelência dos melhores estabelecimentos de ensino superior dos maiores países do Terceiro Mundo. São 21 países no total, entre os quais, naturalmente, o nosso. O resultado demonstra que a quantidade não substitui a qualidade.

A USP, de longe a melhor universidade brasileira, aparece em 11° lugar, atrás de estabelecimentos chineses, turcos, sul-africanos e russos. Diga-se, en passant, que a Universidade de São Paulo foi criada nos anos 30, quase cinquenta anos antes da fundação do partido ao qual pertence nosso ex-presidente taumaturgo. Falsa será, portanto, toda veleidade de algum vivente de declarar-se pai da criança.

Para resumir, entre as 100 melhores universidades dos 21 países mais adiantados do Terceiro Mundo, somente 4 (quatro!) são brasileiras. A China sozinha (continental + Taiwan) abriga 44 das 100 melhores. Até a Tailândia e a Turquia têm mais estabelecimentos que o Brasil na lista dos 100 melhores.

by Diego Novaes, desenhista carioca

by Diego Novaes, desenhista carioca

Assim como a enxurrada de «diplomas» honoris causa não engorda a erudição de nosso guia, as escolas ditas superiores criadas recentemente exibem qualidade inferior à média dos países comparáveis. Quanto às melhores do mundo, nenhuma comparação é possível. Melhor esquecer.

Escolas medíocres não contribuem para a erudição do estudante brasileiro. Ele quer e merece mais que isso.

Filho disto, filho daquilo

José Horta Manzano

Ao vivo e em cores, dois deputados encenaram neste 5 de dez° uma briga de cortiço na Câmara Federal. Filho disto, filho daquilo foi o que se ouviu. Só não partiram para o braço porque logo interveio a turma do deixa disso.

Nos tempos atuais, os brasileiros, atordoados, já não se espantam mais com essas coisas.

Briga 1Assim mesmo, não podemos esquecer que as 513 excelências abrigadas naquela Casa representam a totalidade do povo brasileiro. Não se pode tolerar que destemperados transformem o parlamento em casa de mãe joana.

O nobre deputado que cometeu essa vilania não tem estatura moral para representar os eleitores que lhe confiaram o mandato. Ao proferir impropérios, infringiu, à vista de todos, o regulamento da Casa. Ipso facto, tem de enfrentar um processo de cassação por ofensa ao decoro a que todo parlamentar está subordinado. É uma evidência. Pedido de desculpa não apaga as palavras que os gravadores registraram. Se isso não for quebra de decoro, o que será?

Se a Câmara botar panos quentes e deixar passar em branco esse episódio gravíssimo, estará jogando mais uma pá de terra no túmulo de sua própria insignificância.

Caso algum funcionário ousasse, em meio a uma reunião de empresa, insultar publicamente um colega, não haveria escapatória: seria imediatamente demitido por justa causa. Por que na Casa do Povo havia de ser diferente?

Frase do dia — 53

«O criador da internet, Tim Berners-Lee, criticou nesta quinta-feira, 5, a proposta do governo brasileiro de obrigar empresas da web a instalar seus servidores no País.”Trata-se apenas de uma reação emocional do Brasil. Na prática, não terá qualquer impacto”, disse Lee em entrevista coletiva em Genebra.»

Jamil Chade, correspondente em Genebra. In Estadão 5 dez° 2013

Mas que calô, ô ô ô!

José Horta Manzano

Como a maioria dos esportes, o futebol foi inventado pelos ingleses. Mesmo na Inglaterra, correr uma hora e meia atrás de uma bola não é para qualquer um. Precisa ser jovem e estar bem-disposto.

É esporte feito sob medida para o clima britânico, sempre fresquinho. Campo nevado impede que se jogue. Calor acima dos 25 graus começa a representar empecilho para quem tem de despender tanto esforço. As Ilhas Britânicas, assim como grande parte da Europa, passam 300 dias por ano sem neve e com temperaturas abaixo dos 25 graus. Ideal.

Desde fins do século XIX, o futebol foi transplantado para terras tropicais. Não é seu habitat natural. Aliás, se prestarmos bastante atenção, constataremos que o Brasil é o único país situado na faixa intertropical onde esse esporte é popular. Em nossa faixa climática, nenhum outro país ou território se destaca na prática do futebol. Nem na África, nem na Ásia, nem na Oceânia.

Esporte basicamente europeu, é surpreendente que ele se tenha popularizado tanto em terras tupiniquins. É quase um milagre que essa prática esportiva tenha plantado raízes em nosso solo. Para usar expressão em voga atualmente, deve ser um ponto fora da curva.

Futebol

Futebol

Pois bem, o próximo campeonato mundial de futebol vai-se realizar no Brasil. Deixemos de lado toda consideração política ou econômica. Vamos levar em conta unicamente o fator climático. A coisa está esquentando ― no sentido próprio e no figurado.

Equipes estrangeiras, principalmente as que já experimentaram o bafo equatorial de algumas sedes, mostram-se preocupadas. Argumentam que, se é impossível mudar o clima do País, que se busque pelo menos marcar as disputas para horas em que o termômetro seja mais camarada.

A Fifa, no entanto, baté pé firme. Insiste em manter certos encontros sob sol meridiano em lugares como Fortaleza, Recife, Salvador. Uma crueldade. E por que essa recusa de adaptar horários ao clima? Pelas mesmas razões pelas quais, faz anos, o governo brasileiro cometeu o desatino de eliminar um dos fusos horários do País: a pressão do lobby televisivo.

O grosso dos telespectadores está na Europa. No mês de junho, quando em Brasília são 20h ou 21h, na Europa já é madrugada. Muita gente já foi dormir, há menos espectadores, a receita publicitária míngua, o interesse se desmilíngue. Está aí a razão. A Fifa, como sabemos todos, é uma organização estranha, secreta, altamente suspeita de corrupção, riquíssima e poderosíssima. Portanto, abandonem qualquer esperança de mudança. Os jogos previstos para a uma da tarde não serão desmarcados.

Isso não é nada perto do que espera os astros da pelota em 2022, quando a Copa terá lugar no Catar. No mês de junho, aprazíveis 48° à sombra. Alguém se habilita?

Frase do dia — 52

«Que tal se no próximo Dia da Consciência Negra discutíssemos a obra de Nabuco nas escolas, nos jornais, nas empresas, nas redes sociais? Se o fizessem, as pessoas descobririam que o movimento abolicionista nasceu na Inglaterra, primeira pátria do capitalismo. Existe uma conexão direta entre a liberdade pessoal e a liberdade de empreender. Comparar o comércio de produtos com o comércio de pessoas, como fazem os militantes contemporâneos, é uma falácia típica de diretório acadêmico.»

Paulo Briguet, jornalista e escritor. In Gazeta do Povo, de Curitiba, 2 dez° 2013.

Pibão & pibinho

José Horta Manzano

Anda muito na moda falar em PIB. Estes últimos dias, a cúpula do governo anda meio atarantada entre declarações e desmentidos. Nossa presidente andou proclamando à imprensa internacional que os números do ano passado não eram bem aqueles, que o resultado era outro, que era quase o dobro, que a confusão estava para ser desfeita, que a economia brasileira ia muito bem, obrigado, que qualquer um pode se enganar, que eles iam ver o que eles iam ver.

Pibão

Pibão

Os números de 2012 não eram grande coisa, logo, o crescimento espetacular anunciado pela presidente criou expectativa no mundo das finanças. De repente, catapum! No frigir dos ovos, feitas e refeitas as contas, mudança não houve. Os indicadores ficaram praticamente no mesmo lugar.

Procura-se desesperadamente um bode expiatório que nos livre a todos do vexame. Que ninguém se espante se o porteiro ou a mulher do café forem demitidos ― ou afastados, como se diz hoje em dia. Isso feito, a honra estará lavada.

Esse melodrama põe em evidência um modismo que anda confundindo muita gente. Na maior sem-cerimônia, jornalistas ― alguns até especializados na área econômica ― andam dizendo coisas do tipo «o PIB foi de 0,9%», «para o ano que vem espera-se um pibão de 2,5%», «o Brasil tem conhecido um PIB médio de 2%».

Estão atirando no que viram e acertando o que não viram. De roldão, estão desorientando o distinto público leitor. PIB é sigla que abrevia a expressão Produto Interno Bruto. Em inglês, usa-se GDP, Gross Domestic Product.

É o índice mais representativo da produção econômica de um país. Mede a riqueza produzida durante um determinado período. Para chegar a esse resultado, faz-se a soma teórica de toda a produção e de todos os serviços prestados dentro do território nacional.

Pibinho

Pibinho

O PIB, portanto, é representado por um número. Anda pela casa dos bilhões ou dos trilhões, conforme a importância da economia do país. Para facilitar comparações, costuma vir expresso em dólares.

Não faz, portanto, sentido proclamar que «o PIB foi de 0,9%» ou que «será de 2,3%». Convém usar as expressões corretamente. Não é tão difícil assim. Melhor será dizer que «o PIB teve aumento de 0,9%», ou que «o crescimento do PIB foi de 0,9%», ou que «o PIB deve encolher 0,1%». Pibões têm os EUA, a China, o Japão. Na outra ponta, o Haiti, o Tchade, o Tadjiquistão têm pibinhos. A cada ano que passa, todos se modificam. Cada um deles pode crescer ou encolher. Tanto o aumento quanto a diminuição virão, aí sim, expressos em porcentagem. Já o PIB será sempre um número.

No fundo, bom mesmo é que o PIB seja repartido equanimemente e beneficie toda a população.

Corajoso até o fim

José Horta Manzano

Acabou de sair a notícia: preso há quase 20 dias, Genoino renunciou a seu mandato de deputado. Que não se iluda quem vir algum heroísmo na atitude do nobre (e agora ex) deputado. Se ele se decidiu por esse caminho, faltando cinco para a meia-noite, foi simplesmente para safar-se de uma certeira cassação de mandato.

Dizem que o velho guerrilheiro ― que, afinal não é nenhum ancião ― chorou sentidas lágrimas ao se ver confinado entre quatro paredes de uma cela da Papuda. Não é exatamente a reação que seria de esperar de um cidadão que diz já ter pegado em armas para defender os interesses de seu grupo. No entanto, sacumé, a velhice torna os sentimentos mais macios. Com um pequeno esforço, dá até para entender a emoção de alguém que já se tinha acostumado a ser temido e respeitado.

Genoino: braço dobrado

Genoino: renúncia ao mandato

Já a renúncia ao mandato é outra coisa bem diferente. Aí já não estamos mais no campo da ternura nem da comoção. Foi atravessada a linha que separa o sentimento espontâneo do cálculo frio. Aquele que diz ter um dia, peito aberto, enfrentado chuva, trovão e brucutu não é mais aquele. Aderiu ao bando dos malandros e dos espertos.

Essa renúncia desvela o cerne da personalidade do ex-deputado. Vai ficando mais fácil entender por que a guerrilha não deu certo. Dizem que cada um costuma procurar sua turma. É natural. Preferimos todos conviver com pessoas com as quais temos maior afinidade e junto às quais nos sentimos mais à vontade.

Portanto, é lícito inferir que o espírito coletivo da turma de guerilheiros era semelhante ao do senhor Genoino. Agora fica claro que a causa que defendiam não tinha como prosperar. Na hora do oba-oba, vamos todos juntos, pra frente Brasil, o futuro é nosso! Já na hora do vamos ver, espirra cada um para um lado, cada um cuida de si e seja o que Deus quiser. Não pode. Não é com esse espírito que se derruba um regime.

O Lula já confessou que, quando ainda vivia no andar de baixo e fazia greve de fome em sinal de protesto, guardava sempre no bolso uma provisão de balas bem açucaradas para comer escondido. Afinal, ninguém é de ferro.

O Dirceu já deixou público que, ao voltar de Cuba sob identidade falsa, casou-se e não revelou nem à própria esposa que não era aquele que ela pensava que fosse.

E agora, chegou a vez do Genoino de fazer papelão.

E pensar que esses três estão, gostemos ou não, no topo da zelite de nosso País. Costuma-se dizer que o exemplo vem de cima. Com gente dessa estatura moral lá em cima, não admira que o País continue empacado.

Bye, bye, Paraguai

Fernão Lara Mesquita (*)

Outro dia foi a China que anunciou que está saindo de onde o PT quer entrar. Na semana passada, quem diria, quem passou por nós na contramão e dando adeus às Venezuelas e às Cubas dos sonhos do PT foi o Paraguai que, na quinta-feira 28, acabou com a imunidade parlamentar dos seus senadores ― ou melhor, com aquela parcela dela que é abusiva e antidemocrática ― depois de duas semanas de rebelião aberta contra a decisão anterior, do dia 14, quando 23 dos colegas do senador punido votaram a favor da sua permanência impune no Senado.

Victor Bogado, do Partido Colorado, tinha a babá de seus filhos ganhando dois salários ― um pela Câmara dos Deputados e outro pela Itaipu Binacional ― e foi um dos primeiros a ter seus podres publicados no novo site da internet criado pelo presidente Horácio Cartes, do seu próprio partido, para prestar contas sobre gastos públicos e dar transparência ao que se passa dentro do governo.

Pouco depois da votação espúria, um dos parlamentares que votou pela impunidade do senador alegando a imunidade parlamentar entrou numa pizzaria para jantar. Foi o estopim. Ele foi expulso sob vaias e palavrões e, por pouco, não foi agredido pelo público.

Daí por diante foi como uma epidemia. Restaurantes, bares, comércios, shopping centers e até estádios de futebol e hospitais (estes abrindo exceções só para emergências) começaram a pôr cartazes na porta anunciando «não atendemos ratos neste estabelecimento». A única exceção foi uma funerária que pôs anúncios nos jornais dizendo que receberia qualquer um dos traidores «com todo o prazer».

O povo montou uma vigília na frente do Congresso e um site foi aberto na internet com fotos dos 23 traíras e acompanhamento diário dos seus passos. Em duas semanas nova votação foi convocada, a imunidade do senador caiu e ele foi cassado.

Nesse meio tempo, Genoino ia para casa e José Dirceu passava a ganhar 20 mil reais por mês para conspirar contra a democracia brasileira do jeito a que já está acostumado, enquanto todos os partidos de algum peso fechavam as portas para a admissão de Joaquim Barbosa como candidato em 2014.

O Paraguai esteve 35 anos sob a ditadura de Alfredo Stroessner, 14 anos a mais que os nossos ditos «anos de chumbo». O país nunca experimentou nada que lembrasse remotamente uma democracia digna desse nome. E, no entanto, taí respirando ar fresco graças às novas condições de circulação da informação e à articulação da resistência civil.

E o Brasil?
Algo de muito semelhante ocorreu aqui no mês de junho deste ano. Mesmo com todo o marasmo em que vive a nossa política, bastou que alguém agitasse uma bandeira ― no caso o STF com as condenações do Mensalão ― e o povo se levantou com força suficiente para pôr o «Sistema» em pânico.

Mas nenhuma força organizada deu sequência ao movimento, o que ensejou que os profissionais do golpe armassem a sequência de quebra-quebras que tirou a gente séria das ruas.

Se tivesse havido uma única voz disposta a puxar a fila, ela teria seguido andando. Mas você pode virar e revirar os nossos 32 partidos «de esquerda», inclusive os «de oposição» e seus milhares de candidatos; pode ver e rever o horário eleitoral e não encontrará rigorosamente nada que escape daquela tapeação vergonhosa que conhecemos, ofensiva à nossa inteligência, de tão rasa e explícita.

Pior: você pode revirar todos os jornais, ouvir todas as rádios, ver todos os programas jornalísticos da TV, e nada que não seja esses mesmos candidatos e o que uns estão dizendo sobre os outros lhe será apresentado. Haverá até quem afirme gostar e quem afirme não gostar deste ou daquele. Mas sugestão nova, propostas, reportagens sobre modos diferentes de gerir a coisa pública ou informações sobre como os outros que dão certo estão fazendo, zero! Mesmo os acontecimentos do Paraguai tiveram uma cobertura menor que um reles desastre de trem em Nova York.

Não há exemplo histórico de processos como o brasileiro que tenham sido revertidos senão por dois tipos de expediente: uma iniciativa forte do Poder Judiciário ou a articulação de propostas novas e de campanhas, protagonizadas pela imprensa, para levá-las a efeito. Ou então essas duas coisas junto.

O voto distrital com recall foi uma das propostas que nasceram assim e têm currículo mais brilhante no rol das revoluções pacíficas da humanidade. Tem mudado mundos e fundos nos dois últimos séculos e está aí esperando quem a leve adiante para mudar o Brasil.

Mas, até agora, a única figura institucionalmente forte que vi pregar esse remédio no Brasil foi ― adivinhe! ― o ministro Joaquim Barbosa. Aquele que, pela primeira vez em nossa história, pôs essa bandidagem da porta da prisão para dentro, ainda que tenha sido impedido de trancá-la.

Aécio Neves, esse alegre candidato «de oposição» em busca de um discurso, é um que, se adotasse esta proposta, correria o sério risco de ter, pela primeira vez na vida, alguma coisa a dizer que valesse a pena ser ouvida.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Frase do dia — 51

«Portanto, mais do que um plano eficiente e bem concebido, o real é um jogo de aparências, que pode durar enquanto não ficar evidente que as contas do governo não vão fechar por causa dos juros altos, que o mercado sozinho não é capaz de conter os preços dos oligopólios sem uma coordenação das expectativas por parte do governo, que os salários não manterão o poder aquisitivo por muito tempo, que o real não vale tanto quanto o dólar.»

Guido Mantega, ministro do Planejamento do governo do Lula e atual ministro da Fazenda. A frase aparece em artigo que o senhor Mantega assinou e que a Folha de São Paulo publicou em 12 julho 1994, quando do lançamento do Plano Real. Vale a pena perder cinco minutos para apreciar o texto menosprezante e quase debochado. Note-se que o ministro nunca se retratou. Aqui.

PS: Não é propriamente a frase do dia. Melhor seria dizer que é uma «frase que merece ser lembrada».
Todos temos o direito de nos enganar, mas as regras básicas da civilidade recomendam a cada um reconhecer seus próprios erros. Fica mais elegante. Infelizmente… ninguém consegue dar o que não tem. Não se tira leite de pedra.

Contrato é trato

José Horta Manzano

Mês passado, foi noticiada uma decisão do Superior Tribunal de Justiça concernente ao reembolso de pacotes turísticos em caso de desistência por parte do viajante.

Costumo dizer que decisões de justiça são feitas para serem cumpridas, não para serem avaliadas ou discutidas. É verdade. À parte vencida, cabe encolher-se e acatar a decisão. À parte vencedora, é até permitido estourar o champanhe. E tomar com moderação, cáspite!

Minha bronca de hoje não diz respeito ao julgamento do caso específico narrado pela imprensa um mês atrás, mas ao princípio que está por detrás dessa decisão. Em artigo publicado no Estadão, Felipe Recondo narra o caso de um casal que havia contratado um pacote turístico de quase vinte mil reais. Era a viagem de lua de mel. Como às vezes acontece na vida, as coisas não deram certo, o noivado se desfez, o casamento foi anulado.

Dado que a viagem não fazia mais sentido, o casal solicitou à agência de turismo reembolso da soma já paga. A agência negou-se a devolver a quantia. O caso virou causa e foi parar na Justiça. Em julgamento salomônico, o STJ determinou que a agência devolvesse 80% do valor já pago.

A mim, não me parece correto. O julgamento traz embutida a ideia de que o agente de viagens é capitalista rico e ganancioso, enquanto o futuro viajante é pobre e desprotegido. Em suma, de um lado, o mau poderoso, e, de outro, o bom indefeso. É um clichê duro de ser apagado. Pensando bem, pode até ser exatamente o contrário. Não é todos os dias que pobres coitados contratam pacotes turísticos de quase vinte mil reais.

Meios de transporte

Pacote completo

Mas o problema maior não está aí. Contrato é trato. Na medida que o viajante se comprometeu a viajar e o agente se comprometeu a fornecer-lhe passagens e alojamento, um contrato foi concluído. Em princípio, as cláusulas estão estipuladas no papel, preto no branco, com assinatura de ambas as partes lá no finzinho.

A partir do momento em que o acordo foi sacramentado, cada uma das partes assumiu um compromisso. Espera-se que seja cumprido. O viajante certamente não se resignará se o agente, às vésperas da viagem, lhe comunicar que, por razões familiares, não poderá lhe fornecer as prestações combinadas. Tampouco é compreensível que o agente se resigne se o viajante, às vésperas da viagem, desistir da viagem e quiser o dinheiro de volta. Afinal, o pacote não estava vinculado à celebração do casamento.

Que fazer, então? Que se institua ― se é que já não existe ― um seguro de viagem. Aqui na Europa, quando se contrata uma viagem qualquer, desde um simples bilhete de avião até um pacote completo de volta ao mundo, o formulário já traz um quadradinho onde o viajante traça um X se deseja subscrever um seguro de desistência. Não é obrigatório, mas custa barato e pode ser extremamente útil. Não acredito que valha para casos de lua de mel abortada, que esse é assunto de foro íntimo ― aquele tipo de pretexto que abre precedentes e dá margem a golpes contra companhias seguradoras.

O seguro de viagem cobre, entre outras coisas, perda de bagagem, repatriação em caso de doença, acidente, conflito, terremoto. E, justamente, reembolso em caso de desistência. Só que, para conseguir anular o contrato, o viajante terá de ter um motivo válido. Entre os mais comuns estão: doença, acidente, doença ou acidente de um próximo (cônjuge ou filho). Tudo isso vem especificado, com tinta indelével.

Decisões do STJ têm de ser respeitadas e cumpridas, não resta dúvida. Mas, a meu ver, essa de que lhes falei vai no mau sentido. Por ser escória paternalística de um tempo que já passou, contribui para a infantilização da população.

Ao apor sua assinatura ao pé de um contrato, ambos os contratantes assumem a obrigação de cumpri-lo. Liberá-los desse compromisso, ainda que seja por decisão de justiça, equivale a perenizar a leviandade e a irresponsabilidade.