Falam de nós – 2

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Efeito colateral
A rádio estatal sueca – Sveriges Radio – ressalta que o escândalo de corrupção e roubalheira na Petrobrás tem respingado até na beira do Polo Norte. Um espanto!

O fato é que a Skanska, gigantesca empreiteira escandinava, está consorciada com outras empresas em pelo menos quatro grandes projetos em território brasileiro: Gasoduto Urucu-Manaus, Propylene Repar (Araucária), Gasoduto Cabiúnas-Vitória, Refinaria Presidente Bernardes (Cubatão).

Entre os sócios, estão as empresas Engevix, Camargo Correa e Toyo Setal, envolvidas no astronômico assalto. Daí o salpico em terras nórdicas.

Como é hábito em nossa terra, poderão sempre alegar que não sabiam de nada. Costuma funcionar.

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Racismo 2

Embates raciais
Jornais estrangeiros compararam as escaramuças ocorridas estes dias em Ferguson (Missouri, EUA) com a crônica violência policial a que se assiste no Brasil dia sim, outro também.

Coincidentemente, o artigo de Mac Margolis (Bloomberg View, em inglês) e o de Tjerk Brühwiller (Neue Zürcher Zeitung, em alemão) ostentam praticamente o mesmo título: «Há um Ferguson por dia no Brasil».

Ambos ressaltam o fato de a violência policial brasileira, estatisticamente mais contundente, passar praticamente em branco na mídia planetária.

Interligne 28aMinistro da Fazenda
Praticamente toda a mídia mundial noticiou a nomeação dos futuros comandantes da economia brasileira. Ressaltam que a situação está crítica e que a nova equipe é considerada capaz de desfazer o nó. Aqui, no alemão Handelsblatt e no francês 20minutes.

Interligne 28aPelé 1Pelé doente
Muito comentada também a internação de Pelé. O profissional aposentado mantém intacto seu prestígio além-fronteiras.

Outros jogadores famosos houve, como Di Stefano, Johan Cruyff, Franz Beckenbauer, Michel Platini, mas o mítico Edson Arantes do Nascimento – que o mundo conhece de boca fechada – ainda aparece por cima da carne-seca.

Aqui, no britânico Daily Mirror.

Interligne 28aTemporal
O portal italiano TGCom24, de estilo marcadamente sensacionalista, volta sua atenção para o temporal que se abateu sobre a cidade de São Paulo.

Interligne 28aDinheiro lavagemLavado e passado
Sob o título «El juez que hace temblar a los corruptos de Brasil», o espanhol El País destaca a atitude inusitada de Sergio Moro, e reverencia sua coragem de enfrentar poderosos ao investigar sobre «un lavado de dinero».

Até a mídia estrangeira mostra-se surpresa com o andamento desta versão tupiniquim da italiana Õperação Mãos Limpas, levada a cabo alguns anos atrás.

Interligne 28aCobra que fumaCoquetel mortal
Cocaína com veneno de cobra coral? Pois a novidade acaba de penetrar em território nacional, segundo reportagem do espanhol El Mundo.

Vem entrando pela extensa linha fronteiriça em que o Brasil linda com o Uruguai. O intuito dos produtores é aumentar o potencial de adicção, mas o resultado pode ser desastroso. Usuários temerários ou mal informados estão pondo em risco a própria vida.

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Rapidinha 8

José Horta Manzano

Nem bem aconteceu, o impressionante acidente ocorrido esta tarde nas obras do estádio Itaquerão já repercutiu em todos os sites de informação da Europa.

Alguns simplesmente deram a notícia. Já outros aproveitaram a deixa para reiterar, de maneira nem sempre discreta, suas críticas ao modo como vem sendo preparada a Copa-14.

O site britânico UK.Eurosport, de modo especial, botou no papel o receio ― que é de todos, no fundo ― de que a organização da Copa seja problemática.

Se você quiser dar uma olhada, estão aqui:

UK Eurosport, Reino Unido

Tages Anzeiger, Suíça

La Gazzetta dello Sport, Itália

20 minutes, França

Süddeutsche Zeitung, Alemanha

Miscelânea 08

José Horta Manzano

Passando o chapéu
O senador russo Russlan Gattarof anuncia que está organizando uma vaquinha para ajudar Snowden, acolhido pelo país em qualidade de asilado temporário. A coleta de fundos se fará pela internet.

Solicita-se a almas caridosas que consultem feicebúqui para maiores esclarecimentos sobre como contribuir para esta nobre causa. Informações fornecidas pelo jornal 20 minutes.

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Delação premiada
Que caso mais enrolado esse das fraudes em licitações em São Paulo! Só a Siemens teria entregue o equivalente a 8 milhões de euros em propinas. Ninguém quer segurar a batata quente. Jogada de colo em colo, a responsabilidade estacionou nas costas de um único indivíduo, um certo consultor chamado Teixeira. Como se fosse possível um personagem secundário ter embolsado todos esses milhões enquanto os outros participantes assistiam impassíveis.

Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro

Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro

A reportagem do Estadão fala em «fraude contra os cofres do governo de São Paulo». Ora, os «cofres do governo» são a caderneta de poupança da população. O governo ― esse ente genérico, impessoal e inalcançável ― não é dono de dinheiro nenhum. É apenas o gestor do dinheiro de todos nós.

Se roubo houve, a vítima terá sido o povo inteiro que, de uma forma ou de outra, acabou (ou acabará) pagando a conta. Mais cedo ou mais tarde. Direta ou indiretamente. Não tem como escapar.

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Malabarismo contábil
Em manobra escancaradamente eleitoreira, o governo central quer reduzir o valor da conta da energia elétrica. Mas as bondades ofertadas aos amigos do rei, aliadas à gestão desastrada de nosso dinheiro, acabaram esvaziando nosso cofrinho, de cuja guarda o governo é responsável.

Para não fazer feio, estuda-se tomar empréstimo nalgum banco público a fim de custear a redução do preço da energia. É o que se chama trocar seis por meia dúzia. Tira-se do bolso esquerdo para enfiar no bolso direito. Despe-se um santo para vestir outro.

É grande o desespero de dirigentes que veem evaporar em alta velocidade seu capital eleitoral. Truques como esse são primários. Dão alívio temporário, mas voltam com força redobrada para cobrar a conta.

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Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro

Se a farinha é pouca,meu pirão primeiro

Anjo decaído
José Dirceu se debate. Usando o dinheiro lícita e honestamente amealhado durante os anos de glória, paga os melhores juristas do País e lhes implora que encontrem um meio de livrá-lo da prisão.

Depois do susto que as manifestações populares de junho deram em todas as autoridades da República ― em todas elas, sim! ―, vai ser difícil conseguir um desconto. Quem viver verá.

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Ninguém é perfeito
Joaquim Barbosa, atual presidente do STF, seguiu um percurso absolutamente fora dos parâmetros. Ao nascer, nenhum sinal apontava para um destino nas altas esferas. Negro, de origem humilde, tinha tudo para viver a vida simples do brasileiro comum que peleja diariamente para garantir o sustento da família.

No entanto, esforçou-se mais do que outros. Fez as opções certas, no momento oportuno, agarrou as oportunidades que se lhe apresentaram. Estudou muito, aplicou-se, deu de si. Chegou lá.

Foi original em tudo: conhece profundamente a área em que atua, é poliglota, tem sabido ser autoritário sem descambar para a tirania, é homem culto e viajado. Mas ninguém é perfeito. Na hora de escolher um lugar para aplicar suas economias, fez como outros milhares de seus compatriotas: decidiu-se por Miami, destino sonhado por 9 entre 10 brasileiros.

Foi original em quase tudo.

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Um povo cordial

José Horta Manzano

Tempos houve em que as notícias levavam semanas ou meses para chegar a regiões recuadas. Dizem que, em meados de 1890, em certos cafundós brasileiros situados pra lá de onde o vento faz a curva, ninguém estava ainda a par de que um golpe de estado havia rompido a ordem legal e imposto um novo regime. Achavam todos que o imperador ainda estivesse no trono.

Depois veio o telégrafo sem fio. Depois veio o telefone. Depois veio o rádio. Depois veio a televisão. E por fim chegou a internet ― por enquanto, a última palavra em matéria de modernidade. E tudo mudou. Notícias agora viajam à velocidade da luz. Não se consegue mais dar um espirro sem que, de Nova York a Pequim, todos fiquem sabendo. Será mesmo?

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Parece que nem sempre é assim, a julgar pelo que lhes vou relatar agora. A notícia é de arrepiar. Daquelas que não acontecem mais desde a Revolução Francesa. É o que imaginamos, pelo menos.

Para quem não ficou sabendo até agora, aconteceu dia 30 de junho passado, na localidade de Centro do Meio, município de Pio XII, Estado do Maranhão. Exatamente no domingo em que se jogaria, logo mais à noite, a partida final da copinha. As cenas são de uma barbárie inconcebível. Melhor que eu, o despacho da Folha de São Paulo dá os sórdidos detalhes. Conselho a almas sensíveis: abstenham-se de ler. Aqui.

Os crimes ocorreram em 30 de junho. Justiça seja feita ao site G1 (Globo), que deu a notícia no dia seguinte. Foi o único. Três dias depois, a horripilante informação começou a pingar aqui e ali, em sites de esporte, blogues, um jornal português, alguma gazeta interiorana. Da mídia prestigiosa, apenas a Folha de São Paulo deu a notícia, já no dia 4 de julho.

Decapitação

Decapitação

Foi preciso esperar até o dia seguinte, 5 de julho, para encontrar no Estadão uma nota de 5 linhas sobre o caso. Somente a partir daí a notícia espalhou-se pelo mundo. Está chegando por aqui estes dias.

Perguntas ficam no ar sobre o porquê dessa demora. É intrigante também esse véu de pudor com que os meios de comunicação brasileiros minimizaram ou simplesmente ocultaram a cena digna de tempos medievais.

De onde terá vindo a decisão de pôr panos quentes? Autocensura ou ordens superiores? Receio de que a realidade violenta do Brasil arranhe a imagem idílica do brasileiro cordial? Ignorância ninguém poderá alegar, visto que o G1, um site importante, já publicou a ocorrência nas horas que se seguiram.

Acho que não saberemos nunca. Talvez politólogos ou sociólogos possam explicar.

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Para os curiosos, aqui estão alguns sites que deram a notícia escabrosa do duplo assassinato:

1° de julho ― G1 (Globo)

2 de julho ― nada

3 de julho ― nada

4 de julho ― Esportes Terra

4 de julho ― Record (site esportivo português)

5 de julho ― Gazeta de Alagoas

5 de julho ― Estadão

6 de julho ― 20 minutes (tabloide suíço)

7 de julho ― Le Parisien (jornal francês)

8 de julho ― Gentside (site esportivo francês)

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No tempo do telefone a manivela, as notícias viajavam mais depressa.

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